O louco som do Leif’s | Pepeu Gomes pré-Novos Baianos

26/01/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

26/01/2015

Antes dos Novos Baianos surgirem e conquistarem o Brasil com sua psicodelia, os irmãos Pepeu Gomes e Jorginho Gomes já eram músicos fenomenais. Ao lado do seu irmão Carlinhos e de um vocalista chamado Lico, essa dupla que depois tocaria com Moraes Moreira e cia. formou no fim dos anos 1960 um grupo chamado Leif’s. Hoje, a banda é pouco conhecida, mas na época ela se destacou por sua fúria e virtuosismo, especialmente entre os outros músicos, que lhe respeitavam muito. Tanto que o grupo foi chamado por Caetano Veloso e Gilberto Gil para ser a banda de apoio do lendário show Barra 69 que a dupla fez em Salvador pouco antes de ser mandada para seu exílio em Londres pela Ditadura Militar.

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Infelizmente, esse disco do Caetano e do Gil é um dos raros registros da sonoridade do Leif’s. Em 1970, a banda gravou um compacto com a gravadora Beverly que nunca chegou às lojas, pois foi feito apenas para circular entre as principais rádios do país. Porém, em uma atitude de extremo desrespeito, a gravadora ignorou o nome do grupo e lançou o disco como se eles se chamassem Os Da Bahia, fato que revoltou Pepeu e seus colegas. Só há alguns meses esse compacto histórico foi relançado através de uma iniciativa do selo Psico BR, capitaneado pelo designer Fabricio Bizu. A trajetória meteórica do Leif’s, que acabou com o nascimento do Novos Baianos, foi o fio condutor da conversa que você lê abaixo. E para adquirir esse compacto único, basta você vir aqui.

Em primeiro lugar, eu queria saber mais sobre o trabalho que você faz com o Psico BR.

Como designer, a coisa que mais me cativa são as capas dos discos e os cartazes de bandas, principalmente de rock psicodélico. Através desse selo eu trabalho pra fazer a reedição dos cartazes da época e também de músicas, como esse compacto do Leif’s que é nosso primeiro lançamento. Estamos lançando o compacto junto com o cartaz do Primavera, um festival gratuito que aconteceria nos dias 15 e 16 de novembro, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, em 1969, e que tinha no line-up o próprio Leif’s, além do Tim Maia, Mutantes, Gal Costa e vários outros grupos da época.

Esse festival seria incrível, mas nunca aconteceu, né?

Exato, ele sofreu a consequência da repressão na ditadura. Não aconteceu nada mais do que a ameaça dos militares, mas aquele evento acabou sendo cancelado mesmo.

Reedição do cartaz do festival Primavera feita por Fabricio Bizú

Reedição do cartaz do festival Primavera feita por Fabricio Bizú. A arte original foi criada pelo artista plástico Antonio Peticov

E como foi o seu trabalho para reeditar o compacto do Leif’s?

A capa do compacto foi um trabalho meu em parceria com o Cleiton Ferreira, do Vale Verde Records, um outro selo que já tem três lançamentos de compactos. Ele tem um acervo importante de raridades e foi através dele que eu pude trabalhar esse lançamento do Leif’s. Eu também entrei em contato com o Pepeu e o Jorginho Gomes, que acompanharam esse trabalho desde o começo. Ao todo, durou praticamente uns 3 anos… Quando eu terminei, entreguei o compacto e passei um tempo conversando bastante com eles. Foi ótimo, deu pra ver que eles tiveram um prazer enorme em ver esse trabalho realizado.

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Pepeu Gomes e Fabricio Bizú com o compacto do Leif's

Pepeu Gomes e Fabricio Bizú com o compacto do Leif’s

Até porque, quando saiu na época, teve um problema com o nome usado no disco, né?

Isso. Na época, esse compacto saiu com o nome de Os Da Bahia porque a produção da gravadora estava buscando maior exposição da banda querendo aproveitar o sucesso dos tropicalistas, chamados de “os baianos”. Essa mudança de nome não foi bem aceita pelo grupo porque eles já tinham uma formação sólida como Leif’s, já tinham participado de outras gravações usando esse nome, e isso acabou sendo um ponto importante para que a carreira deles não seguisse em frente. Com a dissolução do grupo, o Pepeu Gomes e o Jorginho continuaram sem o Leif’s no Novos Baianos.


Quase não tem informação sobre o Leif’s na internet, conversando com o Pepeu você descobriu se essas gravações do compacto eram o início de um disco inteiro que a banda estaria preparando? Você sabe quais eram os planos deles? Existem outras gravações além do compacto?

Tem outras gravações, sim. Mas eu não tenho informação de que eles, enquanto Leif’s, gravariam um LP. Porque com a gravação do compacto, o próximo passo seria trabalhar nas rádios e eu vejo que, nesse período, alguma coisa desandou. O que aconteceu com o Pepeu foi que antes mesmo de entrar pros Novos Baianos ele chegou a se envolver em outra banda chamada Os Enigmas, onde ele tocou com o baixista Pedro Baldanza, que depois fez o Som Nosso de Cada Dia, um grupo importante do rock progressivo brasileiro. Mas sobre o Leif’s, eu vejo que a dissolução do grupo aconteceu porque o Pepeu e o Jorginho desenvolveram outros objetivos de carreira, o que acabou culminando no Novos Baianos. O primeiro disco deles, É Ferro na Boneca (1970), na verdade foi construído a partir de gravações de compactos, muitos gravados com o Leif’s [na contracapa do disco, consta que eles participaram das seguinte faixas: “É ferro na boneca”, “Eu de Adjetivos”, “Curto de véu e grinalda”, “Juventude Sexta e Sábado” e “De Vera”]. Nós sabemos também que o Leif’s tinha outras músicas próprias que não foram gravadas. Nesses shows que eles gravaram com o Caetano e o Gil e que viraram o LP Barra 69, eles tocaram uma música chamada “I Don’t Wanna Save The World” e também um cover de “Fire” do Jimi Hendrix, além de “Focus in Totum”, que está no compacto. Mas essas gravações, que ouvi falar que só existiriam em um disco de acetato, eu nao consegui localizar.

E além desse compacto do Leif’s, quais são os próximos planos do Psico BR?

Tenho dois LPs sendo trabalhados. Um deles é de uma banda psicodélica de Campinas chamada Face Ácida. O outro eu ainda nem posso anunciar… Além disso, estou relançando um cartaz psicodélico brasileiro de um dos festivais mais antologicos que já existiu e aconteceu.. o Banana Progressiva!

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26/01/2015

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes