O Sonho da Vírgula | Drummond: Poemas que saltam da página para entrar na música

13/07/2016

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Lucas Krüger

Por: Lucas Krüger

Fotos: Reprodução

13/07/2016

Essas Coisas

“Você não está na idade
de sofrer por essas coisas.”

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

Carlos Drummond de Andrade. Poema “Essas coisas” do livro As impurezas do branco (1973).

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), mineiro de Itabira, escritor e poeta de vasta obra, é o objeto desse escrito mensal. Drummond possui mais de 60 livros publicados, contemplando seus textos em prosa, crônicas, infantis e, principalmente, sua poesia. Sua prática na palavra começou no tempo em que morava em Minas Gerais e o acompanhou na sua mudança definitiva para o Rio de Janeiro em 1934. Além das edições em livro, Drummond sempre deixou sua palavra presente em revistas e jornais. E, soma-se a tudo isso, seu trabalho como tradutor de grandes autores para a língua brasileira, além de diversos outros afazeres não literários ao longo de sua vida. Drummond foi e é constantemente homenageado e considerado uns dos principais poetas do Brasil. Homenagem, esta, que se estendeu ao âmbito musical:

A fatal “Duas de Cinco” do rapper Criolo dá uma nova significação para a dita ”pedra que está no meio do caminho” (mais abaixo o poema completo) sem que ela perca seu significado original e, ainda, acrescentando outro sentido muito pertinente para a sociedade brasileira atual.

Música “Duas de Cinco” (2013), Criolo

No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade. Poema “No meio do caminho”, publicado na Revista de Antropofagia (1928) e incluído no livro “Alguma poesia” (1930).

Além dessa citação ”incompleta” ao poema de Drummond feita por Criolo, temos outras onde os poemas são integralmente musicados. Ao contrário do que escrevi anteriormente sobre a musicalidade da poesia de Paulo Leminski, que poderíamos identificar como um poeta rimador, a grande maioria dos poemas de Drummond não assenta-se na rima como um recurso, nem é muito comum ele valer-se de medidas ditas mais rítmicas aos versos, colocando sua musicalidade de uma forma mais prosaica do que marcada nos versos. Assim, sua poesia de forma geral está muito mais ligada aos versos livres e a harmonia que permeia o corpo do poema do que uma acentuação a um ritmo mais marcado.

Mas, o apontamento acima não é de todo verdade ainda que sirva para parte considerável de sua poesia. É verdade que os versos livres não costumam geralmente acentuar o ritmo, mas, por outro lado, isso não significa que ele não esteja presente e nem que Drummond não tenha feito um número considerável de poemas que buscam essa acentuação de forma mais forte.

Todo esse suposto ecletismo do poeta é devido a sua vasta obra, mas também, devido ao seu extremo cuidado na construção dos poemas, assim como seu conhecimento da palavra que lhe permite ora acentuar uns elementos, ora outros, tudo em prol do melhor poema possível, como pede a poesia. Por coisas como essas que Drummond é tido como um poeta completo. E ressalto a musicalidade arrojada no corpo dos poemas que citei mais acima, ainda que não tenham sido musicados, como é o caso de “Canção amiga”.

Poema “Canção amiga” de Carlos Drummond de Andrade, presente no livro Novos poemas (1948). Versão musicada presente no disco Clube da Esquina II (1972), por Milton Nascimento.

Além dessa versão de Milton Nascimento, temos a versão do “Poema de Sete Faces” (1930), que é o poema de abertura do livro de estreia, musicado por Samuel Rosa e, talvez o mais inusitado e desconhecido, um disco completo apenas de poemas drummonianos musicados. Quem põe esse projeto em prática é Belchior, que gravou um disco duplo chamado as As várias caras de Drummond com 31 poemas musicados pelo próprio numa parceria com a revista Caras, que o colocou nas bancas em janeiro de 2004.

Poema “Perguntas em forma de cavalo marinho” de Carlos Drummond de Andrade, presente no livro Claro Enigma (1951). Versão musicada presente no disco As várias caras de Drummond, de Belchior.

Apresentado um pouco sobre o poeta e algumas incursões musicais de sua poesia, encerramos com poema “Sentimental”:

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
– Estás sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências, um cartaz amarelo:
“Nesse país é proibido sonhar.”

Carlos Drummond de Andrade. Poema “Sentimental” do livro As impurezas do branco (1973)

Lucas Krüger é psicólogo, psicanalista e poeta, autor do livro O sonho da vírgula (2015): http://www.lucaskruger.com | arteseecos@lucaskruger.com

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13/07/2016

Na psicanálise e na poesia, respirar a metáfora máxima.
Lucas Krüger

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