Entrevista | Baco Exu do Blues: o certo, o errado e a história mal contada sobre tudo isso em “Esú”

26/09/2017

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Daniela Barbosa

Por: Daniela Barbosa

Fotos: Ariel Fagundes

26/09/2017

Diogo Moncorvo virou Baco Exu do Blues pra destilar sua filosofia controversa com o maior disco brasileiro do ano, definido por ele mesmo. Esú mistura samples de clássicos da MPB – com espaço pro funk carioca e pro rock americano – com letras que viajam entre a origem dos tambores do Candomblé, a disputa do bem e do mal contada nas mitologias e reverenciam sua origem nordestina e africana. O primeiro disco do rapper celebra o momento pós-depressão e pós-“Sulicídio”, quando Baco se sentiu afundado nas suas paranóias e medos e precisou pedir ajuda. As 10 faixas da tracklist contam a história desse personagem que conseguiu sair da escuridão, que agora caminha em busca da luz, mas que não se importa em viver no meio dos dois.

Menos de um mês após o lançamento do álbum, Baco desembarcou em Porto Alegre pra apresentar sua desgraça e, alguns minutos antes de ele subir no palco do Cucko, trocamos uma ideia sobre deuses, vilões, depressão e o amor idiota cantado em “Te Ame Disgraça”. “Vocês já ouviram algo parecido com esse disco na música brasileira?”, perguntou o produtor do Baco enquanto o rapper contava que foi pro estúdio pra criar algo inédito. “Não, não ouvimos” – e essa é a verdade. A sonoridade diversa que o Esú traz é tão surpreendente quanto o próprio Baco, que não pretende assumir uma postura de artista sério só porque o disco trata de assuntos sérios. Ele quer ser ele mesmo, o tal “karma da cena”, e usar seu verbo pra representar os outros artistas que estão fora da panelinha do rap BR.

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Se ainda não deu tempo de você absorver toda a sabedoria do disco, está tudo bem: propositalmente, Baco numerou as faixas fora da verdadeira ordem. “Eu coloquei as músicas na ordem que fica melhor pra ouvir, mas não é a ordem melhor pra entender”. Explicando isso, ele revelou que a ordem certa da história vai vir com os clipes: a primeira faixa do disco é a que recebeu o primeiro vídeo, “En Tu Mira”, e a segunda parte da história vai vir com o clipe de “A Pele Que Habito”, ainda sem data pra sair. Agora, confere aqui embaixo a aula de música, história e religião que a gente levou do Baco Exu do Blues.

Foto: Ariel Fagundes

O rap brasileiro vive um momento de divisão entre quem fala sobre drogas e mulheres e quem faz o tal do rap de mensagem, algumas vezes criticado. Aí você chega com composições que falam de tudo isso e também sobre espiritualidade e o passado do povo negro. O que você busca passar para os seus fãs com suas músicas?

O rap nacional se perdeu na caixinha, tá ligado? A gente não tem muita saída e nego tá mais preocupado em falar o que o público quer ouvir do que passar uma parada. É importante pra caralho você ter o público, pra continuar fazendo o que você tem que fazer. Só que a gente chega num ponto crítico onde você pensa: “O que é mais importante? Garantir o público que já tenho se eu falar de certos assuntos ou fazer uma coisa nova?” Quando você decide fazer uma coisa nova, você meteu o foda-se. É não se importar em dar um tiro no escuro, cair de vez ou se estabilizar. E sobre a mensagem, eu não espero que a galera entenda uma coisa única. Espero que cada um tire a sua verdade das coisas que eu falo. O importante é isso. É aquela fita do poeta só ter autoridade sobre a sua obra até o momento que solta ela. Quando solta, não é mais dele. A partir do momento que solto um som, acredito que vai do bom senso das pessoas discernir o que fazer com a informação que passei. Eu gosto muito de trabalhar com isso, de uma frase ter diversas interpretações, então depende muito da sua própria visão, de se você é uma pessoa que quer levar as coisas pra um bom ou mal aspecto. Meu trabalho é como se fosse uma demonstração de caráter pra cada pessoa. O que a pessoa tira daquela frase, que tem diversas interpretações, mostra o que ela quer tirar de qualquer coisa que for ouvir.

O disco traz samples desde Novos Baianos e Martinho da Vila até um riff de Rage Against the Machine. Como se formou sua bagagem musical? E qual sua intenção ao misturar tudo isso com a agressividade do seu rap?

O bagulho do RATM é muito doido porque nem era pra estar no disco. Só que casou tão bem com a música… A ideia era fazer uma parada 100% brasileira pra acabar com esse estereótipo do rap brasileiro ser englobado como rap latino. Porque tudo que sai da América Latina, pros gringos, é música latina – e eu queria sair um pouco dessa fita de “somos rap latino” ou “somos rap brasileiro”, se ligou? Eu queria tentar mostrar para as pessoas de fora o que é a nossa cultura por completo, só que tem coisas que a gente não tem controle. Não tem como deixar a obra pela metade se você pode deixar 100%, incrementando com mais alguma coisa. Então o sample de Rage – e o sample de “En Tu Mira”, que é de Kill Bill 2 – é um bagulho que fez sentido na obra e eu não podia tirar. Mas não que fosse mais importante do que o contexto de tudo, mesmo que role esses samples, em todas as faixas tem alguma coisa de sample brasileiro. Até porque nenhuma das faixas tem um sample só e as pessoas ainda nem perceberam isso direito.

Como tem sido viver a fama do Esú nessa fase pós-“Sulicídio”? Agora, com esse novo momento na sua carreira, algo mudou com os caras do rap do sudeste ou a desgraça continua plantada?

Eu acho muito doido porque, na real, eu não sei como me portar. Depois que soltei o disco, por mais que eu tenha falado tanto sobre não me rotular e me deixar ser o que quero ser e foda-se, nego espera uma postura ainda mais firme minha. Então, às vezes, eu não sei se posso ser “eu” pelo fato de ter soltado esse disco. Ele trata de coisas sérias, mas eu não sou uma pessoa 100% séria, tá ligado? Eu sou idiota na maioria das vezes (Risos) Então é muito complicado, pra mim, entender que as pessoas esperam que eu mantenha uma postura sobre algo que eu não vivo 100% do tempo. Eu entendo isso, eu trouxe isso pra mim como um aspecto da minha vida, mas não é a minha vida ao todo. Então é muito complicado ter que ser a figura pra representar todo um disco, com a sua postura, e eu realmente não sou esse tipo de artista. Eu não vim pra representar obra nenhuma, eu vim pra ser a pessoa que eu sou e a partir daí as pessoas que tirem suas conclusões.
E o meu rolê com o sul e o sudeste… na real nem tem um rolê com o sul e o sudeste. Com “Sulicídio” eu já disse o que tinha que dizer, que é “olhe para os outros lugares”, mas entendo que tem muita gente boa pelo sudeste. O sul também tá fora do eixo e existem pessoas no próprio eixo que são muito boas e não são valorizadas. É um processo que não serviu só para o nordeste, serviu pro Brasil todo e, inclusive, para as pessoas que tão no eixo, mas fora da panelinha. Gosto muito das cidades e das pessoas, admiro a cena musical, acho foda pra caralho, só não deixem de olhar pros outros lados.

Falando em pós-“Sulicídio”, “En Tu Mira” é o desabafo oficial sobre esse momento de pressão. Agora você pode dizer que está tudo bem? Acredito que os fãs devem ficar preocupados ouvindo a letra da música.

Acho que superei, mas não tem como dizer que você supera uma coisa completamente. Quem já teve depressão sabe que tem momentos de alto e baixo. Tem momentos em que você consegue conviver com aquilo e tem momentos em que você se afunda. E eu tava afundado naquilo quando eu compus. Hoje eu não tô mais afundado, mas ainda tenho as minhas noias, ainda tenho meus erros, ainda tenho minhas inseguranças. Não é uma coisa que você vai se livrar e não quero que a galera se preocupe comigo. Cada um tem que se preocupar com cada um. O fato de eu ter depressão não impede que a pessoa que tá se preocupando comigo tenha depressão e nem saber. É mais um alerta, a gente tem que saber o que tá acontecendo com a gente, entendeu? Eu não sabia e fiquei muito tempo sem saber o que tava acontecendo comigo, até as coisas estourarem na minha cabeça e eu pensar em diversas merdas pesadíssimas. E, no momento em que eu compartilhei com uma pessoa ali, eu entendi o que tava acontecendo comigo. É muito importante ter esse senso de quando a gente tá desesperado, quando tá sozinho, quando acha que não precisa de ninguém por mais que esteja fodido. A gente tem que ter a noção de que precisa conversar com alguém pra saber o que tá acontecendo com a gente.

E já aconteceu de algum fã ouvir essa letra e conversar com você sobre a música ter ajudado?

Ah, rolou algumas. Na real, foram bastante. E algumas meio que me assustaram, como se aquela letra fizesse sentido para de fato acontecer um suicídio. Tanto é que, no dia que eu soltei “En Tu Mira”, me mandaram um bagulho dizendo: “Porra, isso aqui tá contra as normas de não sei o quê [Baco refere-se às recomendações da Organização Mundial da Saúde sobre como divulgar o tema] pra pessoas que têm depressão e pode induzir ao suicídio”. Aí eu botei na descrição do vídeo um número de telefone que você pode ligar pra conversar quando estiver num momento crítico desses e um site pra ajudar a galera. Acho importante, já que é uma parada que, pra algumas pessoas, pode parecer libertador. Então acho importante dar uma segunda opção pra elas e explicar que não é bem isso.

Em vários momentos do “Esú” você fala em ser um deus. Em outros, fala que é vilão. Qual a ideia por trás disso? Podemos dizer que é um personagem que transita entre os dois mundos?

O rolê é muito fácil: todo homem e toda mulher é um deus e todo deus é um vilão. Se você for parar pra pensar, os deuses do Olimpo sempre foram vistos como vilões pelos anti-heróis, por mais que fossem do bem. Tipo Zeus, que era um filho-da-puta. Ele descia, estuprava mulheres pra elas terem um filho dele, esses filhos nasciam, ele tava pouco se fudendo e só tentava ordenar as coisas. Sempre que você tem um poder muito grande, acaba virando vilão. Mas a questão de vilão que eu falo no disco é a questão desse contraponto: no momento em que tudo que pra mim é certo, pra grande parte da sociedade é errado, eu me ponho como vilão. E essas pessoas precisam de um vilão.

A capa do Esú causa tanto impacto quanto as letras. De onde saiu esse conceito de colocar Exú e Jesus em sobreposição? É uma comparação ou é uma ideia de igualdade?

Acho que “igualdade” é uma palavra muito forte. É no sentido de que são duas entidades, com histórias parecidas, porque é real e muita gente não entende o meu rolê. Pra mim, Baco, Exu e Jesus são três entidades com o mesmo propósito, só que isso é muito disfarçado e as pessoas tentam não ver. Eles são mensageiros de um Deus supremo pra estar na Terra. Pesquisando teologia, eu tenho um comparativo maior com Baco e Jesus do que com Exu. Mas, se você parar pra perceber, os três representam esse caminho do meio. E, quando você tá no meio, você não é nenhum dos lados, você é ambos. Esses três seres são isso: eles seguem uma coisa que não é definida, eles são plural, não são definidos como bem ou mal. Então, por mais que Jesus seja visto como o bem, ele não é o bem nem o mal, ele só tava passando uma mensagem e tentando ajudar as pessoas, só que ele era humano também e todo humano, querendo ou não, é bem mal. As pessoas tem que entender que existem vários seres iluminados, mas não é porque esses seres são iluminados que são só o bem. Eles não são só o bem, mas também não são só o mal e não existe isso. Isso é uma ficção que o mundo criou pra ter uma definição de correto e errado, sendo que o correto e o errado nem existem, é tudo uma questão de ponto de vista. No momento em que você pede algo pra três entidades que têm o mesmo propósito de ser o caminho do meio, e você tenta demonizar uma e enaltecer a outra, é um bagulho muito escroto. Qual a diferença? É porque um é retratado como um cara branco de cabelo longo e barba, sendo que o cara nem era assim. Aí eu fico me perguntando: e se Jesus fosse retratado como ele era mesmo, preto, em todas as esculturas, etc? E se todo mundo demonizasse Jesus, a gente ia fazer o quê?

Existem várias teorias de que as mitologias contam a mesma história e só mudam os nomes.

É isso. É um bagulho muito doido. Jesus e Baco: os dois desceram pra Terra pra passar a sua religião, o culto deles é através do vinho e são filhos de um grande Deus que tá ali só pra conversar com a gente. Baco faz exatamente isso, só que as pessoas pensam: “Baco é o Deus da loucura, a religião dele é a loucura”. Mas, você já parou pra pensar que a loucura pode ser a escolha mais libertadora pra uma pessoa? É muito foda você olhar a luxúria como um pecado, né? Atos carnais foram banalizados pra caralho durante um tempo e são os momentos mais puros das pessoas. Baco também é visto como um errado, tem a treta toda de Baco e Apolo como a loucura e a certeza. Meu nome é só uma brincadeira para as pessoas entenderem que não é pra funcionar assim, para elas entenderem que demonizam uma coisa… E quem deu o poder pra vocês demonizarem ou santificarem entidades? Quem foi que falou que vocês podem fazer isso? E quem foi que falou que não são vocês as próprias entidades? É tudo muito idiota, cara.

Acho que “Te Amo Disgraça” é o lovesong que o rap BR precisava e não sabia. Você imaginava que a faixa teria essa repercussão tão positiva?

Vou te dizer que “Te Amo Disgraça” teve fases e fases. No momento em que a gente gravou e voltou pra casa, toda a galera que tava no estúdio sabia que seria um hit, pelo fato de ficar na cabeça. A gente saiu de lá pensando no refrão, chegou em casa pensando no refrão, voltamos no outro dia pro estúdio pra gravar outra música pensando o refrão. Só que tem aquela fita de que, como o processo é demorado, chega um momento que você cansa de ouvir aquilo toda hora e eu escutei muito essa música durante o processo. Escutei tanto que acabei banalizando ela, aí peguei as outras letras e falei: “Mano, é uma das músicas que eu menos gosto no disco”. E era um bagulho que eu tava amando. Acho que é a pureza de “Te Amo Disgraça” que fez dar certo. Foi essa pureza que talvez tenha me incomodado um pouco no momento em que eu pensei: “Cara, ela pode não ser essa música toda”, porque foi um bagulho tão puro, tão normal… Relacionamentos são assim, são altos e baixos, é uma balança que tem que ficar equilibrada. E é uma luta muito grande pra gente equilibrar essa balança. É todo um percurso e todo mundo só fala do final da história ou do começo. Me faltava ouvir o meio. Eu sempre escutava o início e o fim, quando tá legal ou tá legal. Eu nunca escutava um bagulho que me chamasse atenção, o bagulho carnal de você saber que você ama tanto uma pessoa a ponto… Eu ouvi alguns comentários da internet, mina falando que era sobre um relacionamento abusivo ou que eu tava objetificando as mulheres, e na letra eu falo que é a mina que tá objetificando o cara, dizendo que ele que é só um objeto. Só que o cara não precisa controlar a mina, porque “caralho, eu amo demais essa mina e não me importo de ser só um objeto pra ela. Eu amo tanto ela que foda-se, eu vou chegar na posição de não ser só mais um objeto”. É esse o rolê: o amor idiota. “Te Amo Disgraça” é o amor idiota, que não precisa de razão pra ser às vezes cuzona, ou às vezes a pessoa tenta ser cuzona com você mas ela sabe que ela não é aquilo. Aí você tem que encontrar a harmonia disso, encontrar e aceitar o amor da forma pura que ele é. Ninguém ama o perfeito e o perfeito é chato pra caralho. Se você passar 24 horas com uma pessoa perfeita, você vai mandar ela tomar no cu 30 vezes. Você ama a dificuldade de amar. Às vezes, você nem ama a pessoa, você ama mais a dificuldade de amar do que ela mesmo. Quando você escancara isso pra pessoas, que você tá amando porque é difícil e se fosse fácil não tava, nego toma um susto assim de primeira. Acho que a música cativa muita gente por conta dessa pureza toda.

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26/09/2017

Daniela Barbosa

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