Caetano Veloso fala sobre a arte de amar suas parcerias

14/12/2016

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Rafael Berezinski/Divulgação

14/12/2016

Colaborou Marília Feix

“O Caetano é um absurdo, não é uma pessoa normal”, já disse Alice Caymmi uns meses atrás. Se pararmos para pensar, de fato, são raríssimas as pessoas que influenciaram tanto a produção cultural brasileira quanto Caetano Veloso. Desde que lançou seu primeiro disco, cinco décadas de carreira se passaram e, hoje, aquele menino franzino nascido em Santo Amaro (BA) se tornou um gigante que faz tremer o cenário musical do Brasil a cada passo que dá.

E talvez nada disso tivesse acontecido se não fosse por um obscuro violonista de sua cidade natal que atendia pelo nome de Dilo. Na entrevista que você lê abaixo, Caetano revela que foi com essa pessoa que ele aprendeu a cantar, quando ainda estava cursando o ginásio. Antes mesmo de começar a se apresentar ao lado da irmã Maria Bethânia, Caetano fez de Dilo o seu primeiro parceiro musical, com quem tocava “Saudade da Bahia” no fim dos anos 50, quando Dorival Caymmi havia recém lançado essa música.

Desde então, a trajetória musical do baiano foi bem marcada por suas relações com outros artistas. O seu próprio disco de estreia, Domingo (1967), foi feito em parceria com Gal Costa. As dezenas de álbuns que vieram em seguida trouxeram uma quantidade enorme de composições feitas em parcerias com músicos como Milton Nascimento, Chico Buarque, João Donato, David Byrne, Arto Lindsay e, claro, Gilberto Gil. Além disso, Caetano participou de muitos outros discos emprestando sua voz para as composições de artistas dos mais variados estilos, indo de Jorge Ben Jor a Vitor Ramil, da Maria Gadú a Fresno – passando por Roberto Carlos e Emicida.

Em cada uma dessas parcerias, Caetano sempre buscou “o prazer de cantar junto”, como ele diz abaixo com um charme hedonista que é só seu. Atualmente, ele está dividindo o palco com a cantora Teresa Cristina, com quem ele nos disse que sente algo “muito intenso” ao cantar junto. A turnê batizada de Caetano Apresenta Teresa passará amanhã por Porto Alegre e, no próximo dia 20, seguirá para Salvador (mais informações aqui e aqui) antes de ir para a Argentina, Uruguai e Chile.

Conversamos por e-mail com Caetano Veloso sobre como ele lida com suas relações musicais e, abaixo, você encontra as respostas dele na íntegra.

Qual foi a primeira parceria musical da sua vida? Com quem você aprendeu a cantar e como foi esse momento para vocês?
Foi com um violonista de Santo Amaro chamado Dilo. Eu ainda estudava no Ginásio. Ele me acompanhou em “Saudade da Bahia”, canção então recém-lançada por Dorival Caymmi. Por essa mesma época, fiz um número, também no ginásio, dançando cha-cha-cha com Bethânia. Isso fez um grande sucesso.

E como foi crescer ao lado de uma cantora como Maria Bethânia? Seu olhar sobre ela se transformou muito nesses 50 anos de carreira ou não?
Muitas vezes, ao longo dos anos. Bethânia é 4 anos mais nova e eu escolhi o nome dela quando ela nasceu. Em Salvador, meu pai só permitia que ela saísse comigo (ela estava com 14 anos e eu com 18). Quando ela foi chamada para substituir Nara Leão no espetáculo Opinião, tive que vir com ela para o Rio. Ela lançou meu samba “De manhã” e minha vida profissional na música começou. Hoje vejo com orgulho como minha irmãzinha se tornou uma artista consciente e profunda, inspirada e responsável.

Em 1960, você se mudou para Salvador, onde, nos cinco anos seguintes, conheceria Glauber Rocha, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e João Gilberto. Naquela época você tinha alguma noção do quanto essas relações poderiam afetar sua vida, bem como os rumos da produção artística nacional?
João Gilberto já tinha mudado minha vida através de seus discos. Gil foi o mais importante encontro que tive. Com ele, aprendi a entender um pouco as harmonias, a tocar violão. Glauber era ainda um brilhante articulista de jornal. Tinha feito O Pátio (1959), mas eu não vi logo. Em breve faria Barravento (1962), que me encantou e encanta até hoje. Mais tarde, já no Rio, Terra em Transe (1967) me levaria a intuir o tropicalismo. Tom Zé era um músico ligado ao Centro Popular de Cultura e fazia umas canções-retrato de personagens das ruas. Gal tinha a voz mais bonita de mulher para a bossa nova (anos depois, tanto João quanto Jobim tiveram essa mesma apreciação dela). Todas essas pessoas me pareciam fadadas a mudar a cena cultural brasileira.

O que as relações costumam lhe trazer em termos criativos?
Relações amorosas? Sexuais? Bem, muitas canções são canções de amor. A gente faz canções desse tipo porque isso é da natureza das canções. Mas há algumas músicas minhas que foram feitas por causa de ou para determinadas pessoas, em determinadas situações. Quase tudo no disco (2006) é assim. Mas também “Qualquer coisa”, “Trem das cores”, “Branquinha”



Quais são as similaridades entre um grande amor e uma grande parceria musical?
Ambas são parcerias. Há amor entre parceiros de música – e há criatividade entre amantes. Mas, claro, são duas instâncias diferentes.

Você tem músicas lançadas em parceria com artistas tão diferentes quanto Jorge Ben Jor, Fresno, Vitor Ramil e Roberto Carlos. Sua obra é tão multifacetada que acaba tendo pontos de conexão com a de todos eles, mas há algo de que você abre mão quando compõe com alguém?
As colaborações com Ben Jor, Ramil, Roberto Carlos e Fresno foram como cantor. Assim como foi com Maria Gadú e muitos outros. Como compositor, fiz coisas com Gil, Milton, Chico, Waly [Salomão], Torquato [Neto], Capinam, João Donato, David Byrne, quem mais? Sempre foi bom fazer. É diferente compor sozinho de compor com outra pessoa. Nos dois casos a gente sempre abre mão de alguma coisa. Quando sozinhos, abrimos mão de ter alguém vendo as coisas de outra perspectiva. Quando acompanhados, de decidir tudo sozinho.




O que você busca em uma parceria? E como essa busca se renova ao trabalhar com músicos de gerações mais novas, como a Teresa Cristina?
O prazer de cantar junto. E com Teresa isso é muito intenso.

Com quem você sonharia compor uma música, mas nunca teve oportunidade e por quê?
Nunca tive esse sonho.

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14/12/2016

Entre o bemol e o sustenido.
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes