Entrevista | As ideias do mestre de obras-primas Daniel Ganjaman

29/11/2018

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Diogo Vaz

29/11/2018

O mais velho dos irmãos Takara, Daniel Ganjaman é um dos principais produtores em atividade hoje no país. Com sua carreira atrelada ao trabalho de Criolo, o produtor hoje se divide entre São Paulo e Salvador, onde trabalha no novo disco do BaianaSystem. Na capital paulista, ele recebeu a NOIZE para uma conversa em seu home-studio.

Daniel explica que, com a mudança de endereço do estúdio da família, optou por montar uma estrutura básica para trabalhar em casa. Foi nesse estúdio que gravou o último single de Criolo, “Boca de Lobo”. “Hoje em dia, tudo se resume a uma parada muito sintética, muito sample, synths. Não que a gente deva ir nessa onda, mas faz sentido. É uma questão da contemporaneidade. A tecnologia ofertou isso de uma forma muito interessante e que consegue se manter relevante, musicalmente falando. Esse é um dos motivos pelo qual o [estúdio] El Rocha parou de fazer sentido naquele lugar onde a gente estava. Era uma estrutura muito grande, incrível. Só que se tornou um sonho sem pé na realidade. Hoje, pra você manter um estúdio nessa configuração, é loucura, a conta não fecha. A gente percebeu que estava trabalhando para os outros terem um estúdio bacana para gravar, então passou a não fazer mais sentido”, conta o produtor. O que é produzido em casa segue sendo assinado como El Rocha. “Quando preciso gravar uma bateria ou percussão vou até o El Rocha. Não vou criar um novo nome pois não é uma questão de separação, e sim de adequação”, explica.

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Na próxima semana, Criolo estreia turnê originada a partir de “Boca de Lobo”, música que ganhou um clipe forte e perturbador. No show, o artista apresentará um novo formato, acompanhado de DJ DanDan, Ganjaman e mais dois músicos multi-instrumentistas. “Com o Criolo, a gente fez de tudo. Passou por diversas formações. DJ e MC, banda reduzida, banda enorme, o formato de samba. E agora a gente traz essa outra possibilidade, pois acreditamos que fará sentido. São três coringas, que tocam mais de um instrumento, que podem espalhar uma base, disparar um eletrônico em algum momento para as vozes do Criolo e do Dandan”, adianta Ganjaman, que estará acompanhado de Bruno Buarque e Dudinha Lima nos shows. O formato permitirá uma roupagem nova para todo o show. “Faremos um retrospecto de toda carreira do Criolo com essa formação o que por si só nos obriga a ter uma estética sonora diferente” conta.

A turnê de Boca de Lobo estreia no Opinião quarta e quinta-feira da próxima semana. “A partir do show de Nó na Orelha, Porto Alegre acabou virando nossa plataforma de lançamento de todos os trabalhos. E não é só a gente que faz, tem alguns artistas que fazem isso. Eu acredito muito em uma coisa de um open mind do público gaúcho, de estar aberto a experimentações, a coisas novas. Não que no resto do Brasil isso seja via de regra, mas eu acho que em Porto Alegre existe essa mentalidade mais aberta de querer ouvir uma coisa nova”, explica Daniel. Além de Porto Alegre, a turnê tem estreia marcada em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Confira na página do artista.

Em uma conversa longa e tranquila, Daniel fala sobre a relação com Criolo, a importância dos Racionais no país e a experiência de dirigir o show de Mano Brown e Criolo, entre outros pontos. Acompanhe abaixo:

Lembro que em 2016, um ano em que você lançou os discos do BaianaSystem, Síntese, Sabotage, Criolo e Rael, uma entrevista falava sobre seu disco solo, que talvez pudesse surgir no ano seguinte. E não surgiu. Andou alguma coisa?

Uma coisa andou: nos últimos tempos, tenho me arriscado mais a me colocar nessa posição de intérprete, que seja. Basicamente, bate num lugar que, pra mim, é fundamental, que é a ambição de ter de fato uma carreira artística. Acho que é isso o que as pessoas talvez não entendam e que se confunde muito. Porque, se tem um olhar pro artista, como se fosse algo a mais, as pessoas tem mania de colocar nessa seara artística algo que, de alguma forma, te coloca numa posição de destaque. Então, para algumas é tipo: “pô cara, você canta, você toca, você produz, tá aí, por que você não se lança como artista? Ser artista é foda”. E eu me questiono. Gosto de uma rima do Black Alien em que ele coloca duas expressões, “peão de obra de arte” e “mestre de obra-prima” [“Sangue de Free”], eu amo essas expressões do Black Alien porque, pra mim, tem tudo a ver com como eu me vejo.

E eu me vejo reconhecido pelo meu trabalho, isso é motivo de orgulho muito grande. Pra mim, é incrível quando alguém vem falar comigo e se mostra fã ou admirador do meu trabalho. Eu sei que essa pessoa não é fã porque me viu num outdoor ou numa capa de revista. Admira porque curte o trabalho que eu faço. Ela teve a sensibilidade de pegar o que eu produzi, ouviu e se identificou com o trabalho. Às vezes, conhece o artista de outro momento e percebe uma mudança a partir da minha produção. Então fala do reconhecimento de algo que eu faço. Que é um privilégio muito grande.

O fato de eu estar diretamente ligado ao Criolo ajuda muito as pessoas conhecerem meu trabalho. Pra mim, é algo que entra dentro dessa conta, mas é algo que eu considero muito positivo, pois me identifico muito com o Criolo não só na estética musical ou na linguagem sonora, do que a gente desenvolve, mas também pela questão ideológica e político-social, que a gente é super alinhado. E esse é um dos motivos pelos quais a gente tá assim tão irmanado. Então, observo como é ser um cara que tem uma exposição enorme. Muita gente conhece a figura do Criolo e não necessariamente conhece a música dele. Às vezes, a gente está no hotel e vem uma pessoa e tira uma foto com ele. Vem outra e tira uma foto. Então vem uma terceira e tira uma foto com ele e eu já vi isso acontecer, de a pessoa depois perguntar quem era, e isso, tudo bem, a gente entende, mas não é o tipo de coisa que acontece comigo, então pô, é legal. Que bom que isso não acontece comigo. É constrangedor.

A partir de 2010, você vem junto com Criolo numa relação que sugere estar um pouco além do profissional. Certo? Como foi esse encontro que permanece já há quase dez anos, para um produtor que poderia estar nesse tempo ligado a outros trabalhos?

Por mais que eu tenha trabalhado uma coisa ou outra em grandes gravadoras, minha vida toda eu trabalhei mais com artistas do rolê independente e é uma guerrilha, uma luta. Pra você manter isso, é preciso se estar firme dentro daquilo quase como uma coisa ideológica. Então, o Criolo foi uma resposta por eu ter apostado muito em ser independente nas coisas autorais, desde o trabalho com o Instituto, o trabalho com o Sabotage, a morte do Sabotage, que era uma aposta muito grande minha, assim como é o Criolo hoje em dia. O Criolo por exemplo, tem uma coisa muito curiosa e que já gerou muita polêmica. De negativas para músicas em novela. Mais de uma vez. Mais de quatro. E ele já foi taxado de arrogante, de elitista por isso, internamente. Não pro grande público porque isso acaba nem chegando. Mas ele me deu uma explicação pra isso que é algo que eu entendo completamente. E apesar de não pensar exatamente como ele, eu entendo o ponto dele. De ver as pessoas assistirem novela e perceber o quanto a música traz uma ligação direta com aquilo que tá sendo passado e que de alguma forma obriga a pessoa que quer assistir novela a ouvir a música dele, que muitas vezes começa a tocar a música daquele personagem e a pessoa se vê obrigada a ouvir a música. Ele me falou: ‘Eu não quero as pessoas com essa sensação pela minha música’, ‘Eu não quero que as pessoas ouçam a minha música obrigadas’. Eu achei foda, é um olhar que eu não tinha tido e que faz sentido. Esse, inclusive, foi um dos motivos de a gente não ter feito clipe de “Não existe amor em SP” – porque você tira completamente o lúdico da história. Por ser uma música que todo mundo que ouve pinta um filme na cabeça, pinta um quadro, um cheiro, uma sensação. Se você bota isso num vídeoclipe, você engessa praquele lugar. Acaba que você diminui a grandiosidade da obra de alguma forma. Quando você faz um videoclipe, é preciso ter isso em mente, é uma responsabilidade. “Boca de Lobo”, esse último clipe que a gente lançou, é um clipe gigantesco, em que é impossível você ouvir a música e não ver aquele caos todo na sua cabeça. A gente sabia disso, foi feito com propósito de alguma forma. Aquela música é um rap da hora, mas é também uma trilha sonora. Ela foi feita também pensando naquele projeto audiovisual. A responsabilidade do artista de saber exatamente aonde que ele quer que aquela música atinja envolve tudo isso. Onde a música vai ser executada, as associações. Porque quando o Criolo não quer que a música dele toque na novela, não é que ele não quer que as pessoas ouçam a música dele, pelo contrário, é um puta atalho. Mas atalho é legal? Eu digo isso porque eu conheço pouquíssimos artistas que deram negativa porque, basicamente, você colocar uma música na novela é quase uma garantia de que aquela música vai virar um sucesso. Porque ela vai ser executada e massacrada tantas vezes na cabeça e na orelha das pessoas que é inevitável que aquilo vire um sucesso ou que fique popular. Então, volta ao raciocínio: até que ponto vou me utilizar desses atalhos para estabelecer a minha carreira? Tudo isso foi sempre colocado pra gente de forma muito respeitosa. Nunca ninguém quis mudar alguma coisa. A ideia sempre foi usar a música do jeito que é. Mas ele [Criolo] tem os pontos dele que devem ser respeitados, a música é dele, a história dele, a forma dele. E posso te garantir que alguns milhões já foram negados em nome disso aí. E falando de um cara que, ao fazer o Nó na Orelha (2011), a expectativa era de garantir três refeições na mesa para família porque na época não estava garantido. Então assim, essa negativa de milhões veio desse cara. Que, naquele momento, em que nós passávamos o dia inteiro no estúdio, muitas vezes não tinha grana pra pagar o próprio almoço. Às vezes, tinha e pagava com um puta orgulho. Às vezes, fazia um show e pagava o nosso.

É legal você ver porque, às vezes, a gente usa isso muito pra justificar posturas contrárias a essa. Tipo, alguém que sempre foi muito humilde, teve uma origem muito humilde e daí bomba e faz cagada pra cacete. E aí o que se fala é isso. Usa-se isso muito como desculpa. Cagada pra cacete eu digo: se vende pra cacete e foda-se e isso o que há. É óbvio que isso entra dentro dessa conta e na hora de você avaliar, sem julgamento furado, mas é legal você ter um contraponto de alguém como o Criolo. E, assim como o Criolo eu sei histórias dessas com o Emicida, com o Racionais. Pô, o Brown era pra ser rico só que, ideologicamente, o cara olha e diz “não”. E eu digo o Brown como linha de frente do Racionais porque todos ali eram pra ser ricos, se quisessem, se tivessem isso como ambição. Assim como eu poderia ser um puta dum playboy confortavelmente com meu custo de vida de 50 mil reais por mês. Tranquilamente eu poderia estar vivendo isso se eu, lá atrás, quando eu estava sendo seduzido, como muitos amigos meus hoje em dia vivem. Pessoas que eu conheço que, naquela mesma época, trilharam esse caminho e, hoje em dia, alguns vem pra mim e se sentem escravos disso. Sacou? Porque o cara não tem vida, basicamente, e acaba ficando escravo de um padrão de vida que ele estabeleceu. Porque subir de padrão de vida é fácil, descer é uma merda. Eu não tenho nem carro porque eu não me sinto a vontade de gastar. Eu teria condições financeiras de ter um carro? Teria. Mas pra quê que eu preciso de um carro se eu moro em São Paulo. Moro há dez minutos de um metrô, há três minutos de um ponto de ônibus, que me leva pro centro, estou perto do centro, sacou? Então pra mim não ter carro, é uma postura inteligente e ideológica.

Quem te acompanha percebe que o lugar de importância do Criolo é muito próximo que o do Sabotage para você. Você consegue traçar algum outro paralelo entre os dois artistas?

Pra mim, “Subirusdoistiozin” é um ponto alto do Criolo em termos de criatividade porque, ali, eu vejo que ele fez um lance que não é nem rap, nem samba, mas é tudo isso também. O Sabotage tinha muito isso. “Cabeça de Nego”, pra mim, é isso. Essa música é um dos pontos altíssimos do Sabotage. Quando ele cantou aquilo, quando ele chegou com aquilo, “O nego não para no tempo não, suas origens vem de Angola há um bom tempo”, cê fica assim, “O que é isso? Isso é rap? Isso é samba?”, e não é que é um rap-samba, com o cara rimando em cima de alguém tocando um pandeiro, é ele cantando a capela e você falando: “o que é isso?”. É muito impressionante, foi, pra mim, uma coisa nova. Muitas pessoas tinham misturado rap com samba, mas, sob a minha ótica, a forma homogênea com que ele deu aquilo é como se ele estivesse criando um novo estilo, na minha opinião. São artistas que conseguem ter uma originalidade, autenticidade, propriedade tão forte, que trazem o game para um outro lugar.

Como percebe as aberturas no rap, com discursos e pautas conflitantes?

Hoje em dia a gente vê muita coisa que, de alguma forma, faz parte do rap como som, música, linguagem de estilo musical e que não tem nada a ver com o que fundamentalmente é o rap como movimento hip hop, como contracultura, contestação, e de voz de uma parcela. E eu tenho pavor da palavra minoria. Falar que mulheres e negros são minorias é ridículo. Acho que isso tá mais ligado a palavra privilégio do que minoria. Privilégio e desfavorecimento. E o rap em algum momento se perdeu. Não que isso seja regra, que o rap todo se perdeu, tem muita gente ali fazendo um discurso político extremamente relevante. Mas tem uma vertente ali que a gente vê que abriu-se um espaço pra muita gente falar bobagem, tanto que você vê discurso racista no rap. Ao mesmo tempo tem toda essa loucura. O rap sempre teve uma parada muito machista e que, hoje em dia, em função até de toda essa transformação social que a gente vive, de desconstrução necessária, o rap também tá aprendendo a se reposicionar perante tudo isso. É uma parada muito interessante. É importante você ter premissas muito bem definidas pra balizar esse discurso de forma coerente, tanto com a situação quanto com os fundamentos.

Por falar em posicionamento político-social, você liderou a pouco o movimento que trouxe um posicionamento unificado do rap pela democracia. Como foi esse processo?

A iminência de um regime autoritário, de perda de direitos conquistados nos levou a esse posicionamento. Ver que muito fã de rap votava a favor dessas ideias foi o que nos motivou a demarcar esse espaço. Tem muito fã de rap que não tá entendendo a mensagem. Tem muita coisa que tá entrando por aqui e saindo por aqui. E tem muita gente que tá mais ligada na estética do que no discurso. Isso é um perigo. Não se tratou de uma ação para convencimento, e sim de conscientização. Não foi sobre angariar votos pro candidato X ou Y. A ideia é só as pessoas entenderem que a gente não fecha com isso. Não estamos passando pano pra corrupção, até porque a discussão vai muito além. A parada, nesse momento, a gente tá falando só que, se o Brasil que a gente quer é que tenha um cara eleito que quer dar carta branca pra polícia matar, em um país onde o Estado mata, violentamente, um dos lugares onde o Estado mais mata no mundo, a gente vai abrir esse precedente? Então assim, só pra deixar muito claro que a gente que trabalha com rap e que tem uma linguagem, um discurso e uma narrativa fundamentada nessa estrutura, a gente não pode estar de acordo com isso. Então quem gosta disso, saiba que esse é o nosso posicionamento.

Outro ponto urgente que notei que pautaram ataques ao posicionamento rap pela democracia diz respeito a questão das leis de incentivo, que, sabemos, pouco auxiliam na manutenção do rap na prática. O que você acha dessa discussão?

O trabalho do Criolo é 100% independente e falo como parte integrante do corpo do escritório que administra a carreira dele. Todas as vezes que a gente fez um projeto subsidiado por lei de incentivo e, se não me engano, só o Convoque Seu Buda (2014) que teve esse incentivo, que foi um disco que a gente foi mixar em Los Angeles, com o Mário Caldato, em que teve uma aplicação da grana que realmente se justificou. Foi o único disco que a gente pôde fazer isso, por exemplo. Porque teve subsídio e não foi nada astronômico. A gente conseguiu captar bem pouco. Mas todas as vezes que a gente apresentou projeto que tinha subsídio do governo ou de alguma empresa bancando, sempre pensamos em uma contra-partida que deixasse algum legado, ou que tivesse uma entrega direta para o público. Sempre envolvia show de graça, show na quebrada, projeto social. E mesmo quando a gente não teve esse tipo de subsídio, sempre tivemos essa entrega como uma premissa básica. Nos shows da turnê do Ainda Há Tempo, todos a gente abriu para arrecadação de alimentos. A gente arrecadou algumas toneladas de alimentos. Me arrisco a dizer que, ao longo da turnê arrecadamos centenas de toneladas de alimentos e que foram entregues a instituições sérias. E não tô falando isso pra dizer: “oh, como a gente é bacana”. Na minha opinião, isso é o mínimo. Eu acho que, quando tem um mecanismo de lei que te permite uma estrutura e um conforto maior pra você realizar o seu trabalho, essa entrega para a população para a sociedade, deve ser obrigatória. Se você realmente pega dinheiro de lei pra botar no bolso, tá errado. Isso pra dizer que existem questionamentos que fazem sentido, agora o problema é que isso virou uma forma burra de atacar um mecanismo fundamental de fomento à arte e cultura e que tem um papel decisivo para determinadas atividades como dança, como teatro, como muita música, como cinema, que, se você botar na ponta da caneta, não fecha.

É de uma ignorância tão grande as pessoas não entenderem que o Estado tem por obrigação esse papel do subsídio à arte, que faz parte de um discurso manipulado onde lei de incentivo é sinônimo de corrupção. Na verdade, eu entendo que as pessoas critiquem e acho que talvez o mecanismo de algumas leis deve ser revisto sem dúvida. Porque também não acho justo que a lei Rouanet banque um Cirque Du Soleil que cobra R$500, R$600, R$700, para o público. Também não acho justo que banque um DVD de um artista que vende milhões.

E a crítica a Lei Rouanet virou um mantra para atacar os artistas…

Eu posso dizer inclusive que eu nunca ganhei um centavo da Lei Rouanet. Dessa lei, especificamente, eu nunca ganhei um centavo. E se tivesse me beneficiado por algum projeto em que estivesse envolvido, eu não teria feito nada de errado porque os projetos em que eu trabalho são projetos independentes, que precisam sim de subsídio pra parada acontecer. Diferente de um artista de gravadora que bota o negócio da Lei Rouanet num orçamento de R$ 1 milhão, pra fazer um DVD e o custo do negócio é de fato R$ 1 milhão e ele vai vender o trabalho dele e ele vai ganhar mais milhões porque ele vai arrecadar a renda daquilo, e vai fazer turnê, e vai pra estrada e aquilo vai ser bancado por uma lei. Aí eu acho que tá errado mesmo. As pessoas tem que entender que, quando a gente briga por alguma coisa, pra que as coisas sejam revistas ou, inclusive, pelo nosso direito de cobrar, a gente precisa ter consciência do que tá falando. E infelizmente as pessoas falam da boca pra fora. Virou um “vai pra Cuba, não quero que vire Venezuela, mama na teta do governo, Lei Rouanet”. Me desculpem, né bicho, se eu entrar em todos esses assuntos e for dissertar sobre tudo isso, eu não faço outra coisa da vida. Vai estudar. Eu não vou ser seu professor, nem tenho autoridade pra isso, nem sou nenhum estudioso do assunto, mas eu me informo pra não falar bobagem e não sair falando besteira por aí, eu me informo. Eu tento ter o mínimo de noção de todos esses assuntos, de Cuba, de Venezuela, de Lei Rouanet, de mamar em teta do governo. É fácil sair proferindo esse tipo de bobagem e infelizmente é a tônica do momento.

E sobre o cenário geral da música, o que seria possível destacar?

Tem muita coisa boa acontecendo no Brasil, musicalmente falando. Talvez, das coisas que ouvi nos últimos tempos, o Baco Exu do Blues foi um cara que deu uma despontada boa no rap. E um lance que, pra mim, é fundamental, que é sair um pouco daquele eixo do sul-sudeste e ter uma linguagem autêntica da Bahia fazendo rap com o sotaque baiano mesmo. E que não necessariamente seja caracterizado por ter música baiana misturada. Ou, no caso o BaianaSystem, que tem música baiana misturada, mas tem uma abordagem completamente diferente, que até bate de frente com todo o coronelismo formado no mercado da música na Bahia, que eles quebraram, trazendo a música pra um outro lugar e tão aí tocando pra caramba por todo o Brasil. O disco do Tim Bernardes é uma coisa de uma sensibilidade inacreditável. Pra mim, ele é um dos grandes artistas dessa geração. Sou suspeito a falar, mas também gosto muito da forma com que As Bahias e a Cozinha Mineira chegaram. Acho muito legal como elas trouxeram uma linguagem que tem tudo a ver com um fenômeno nacional de ter artistas trans tendo uma visibilidade incrível, mas dentro de uma estética sonora e de linguagem muito focado na MPB. Sem apelo folclórico e que foge do estigma. O Negro Leo acho um cara incrível também. O primeiro disco dele é uma parada brutal. Das coisas que ouvi, me deu aquela injeção de ânimo de ver uma coisa nova e que foge muito do que tá acontecendo. Porque teve uma coisa da nova música brasileira que, infelizmente, acabou virando quase um estilo, muitos artistas soando de forma muito semelhante. E isso pra mim é frustrante. E é engraçado porque, na verdade, ficou todo mundo querendo soar um diferente demais e acabou soando meio parecido nesse diferente. Eu acho que teve um fenómeno disso que agora também tá dando uma dissipada. O fato do Criolo ter flertado com tantos estilos musicais abriu a possibilidade de uma molecada experimentar outras coisas. E o Criolo continua experimentando. Tem coisas que a gente tá fazendo que eu tenho certeza que vão surpreender. Na minha opinião, o Criolo é o fio condutor dessa parada. A pluralidade e a forma como ele circula por todos esses estilos com facilidade e mantendo se íntegro é o que justifica ele poder passear tanto. Sinto que isso tá acontecendo geral na música. Que as pessoas estão aproveitando essa não obrigatoriedade de você estar atrelado a um estilo específico e colocando isso no seu próprio trabalho. A coisa não tão fragmentada e segmentada. A Luedji Luna também é uma artista que eu acho singular.

Então é preciso considerar que o Brasil é gigante, São Paulo é gigante e é muito difícil você criar uma unidade ideológica e filosófica em um lugar tão plural como o Brasil ou São Paulo. Mas é muito importante entender porque o discurso da Érica (Malunguinho) é incisivo, combativo, é incômodo. A Érica, quando fala, se ela acha que você tem que ouvir aquilo de forma incômoda, ela vai te falar pra você se sentir incomodado. Simbolicamente, isso tem um lado muito importante porque é necessário perceber o lugar que o negro ocupa, o sentimento que o negro carrega desde que o mundo é mundo. É um momento de desconstrução do branco que vale por um ano de aula de história. Que é o que a gente falha muito aqui no Brasil, principalmente no sudeste a gente tem um problema muito grande com isso. Porque se você for pra Bahia, pra Salvador, pro Recife, e perguntar sobre a história da cidade, não precisa nem ser guia. Em Olinda os guias são uns moleques que nem estudaram tanto, mas sabem da história da cidade e do Brasil. Isso é uma constatação, não é uma opinião minha. Não é algo relacionado ao orgulho e sim ao pertencimento. A gente, e eu digo por mim que, vou ao centro de São Paulo entre toda aquela arquitetura histórica, mas se você me perguntar da história, não sei, eu não me aprofundei.

Ao lado de Criolo, você colaborou com artistas como Mulatu Astatke, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Caetano Veloso e recentemente Mano Brown. Como foi dirigir esse espetáculo grandioso?

Eu tive o prazer de trabalhar com gênios que acho que são os grandes ícones da música brasileira. Mas botar o Brown aí, é um emblema. O Brown é uma figura muito forte, central dentro do rap como um todo. O Racionais sempre se posicionou, sempre teve lado. Às vezes, fico com a sensação de que nem eles têm noção do quanto são importantes. A gente, quando tá dentro, tem um pouco de dificuldade de mensurar isso. Eu vejo isso pelo próprio Criolo que, às vezes, não tem noção de como as pessoas se emocionam com aquilo, se sensibilizam. O poder de transformação disso é muito grande. Eu gosto muito de trabalhar como produtor exatamente porque eu sei que alguns trabalhos têm esse poder de transformação e esses trabalhos precisam ser feitos com esmero. O Brown é muito detalhista. Ele sabe muito bem o que ele quer. Mas não sabe como chegar. Então se cercando das pessoas que ele confia, ele vai muito afundo pra chegar onde ele quer. E esse show teve muito isso. A gente não mediu esforços pra tentar arredondar muito sob uma ótica dele. Pra nós era um show da junção dos dois, mas não era pra soar uma coisa muito homogênea entre o Criolo e o Brown. Era pra ser uma coisa a junção dos dois valer muito como o projeto. O fato dos dois estarem ali juntos dividindo o espaço é o que a gente entendia como sendo a parada. O Brown não quis associar muito o Boogie Naipe (2016) a este show. Para ele, o rap deveria ser a tônica da parada toda. Foi um show muito impactante pra gente que estava trabalhando na produção porque mexeu com uma coisa que é o nossa formação. O Racionais fez parte da minha formação como ser humano, como indivíduo. E acho que, pra todo mundo da minha geração, que viveu os anos 90 e que teve essa identificação com o rap e o coloca como sendo um dos formadores de caráter, os Racionais teve esse papel, fora todo o papel que o Racionais teve na juventude negra brasileira, no que diz respeito à auto-estima, à sensação de pertencimento, ao olhar crítico. Racionais foi fundamental e fez pela cultura periférica e negra o que nenhum governo fez no Brasil, em termos de auto-estima, de posicionamento, da pessoa se sentir segura. Ali no show, a gente entendeu que a entrega era um pouco de trazer o Racionais em um formato que as pessoas não estão acostumadas a ver. Trazendo inclusive um pouco das referências de samples, tentar buscar isso. Pra gente fã, foi foda. A gente adorou. Às vezes a gente não acreditava, “pô, nós estamos tocando essas músicas aí com os caras. Estamos dividindo esse momento”. Pra mim, é um reconhecimento muito grande, que entra nos grandes momentos da carreira com que diz respeito as parcerias que já se estabeleceram.

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29/11/2018

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural.
Bruno Barros

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