Entrevista | Don L, de bom malandro a cineasta dos beats

17/10/2018

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Brenda Vidal

Por: Brenda Vidal

Fotos: Reprodução

17/10/2018

Don L foi o favorito do seu favorito, ostenta o título de último bom malandro e agora quer ser presidente, como mandou na nova faixa “Verso Livre | O Mundo é Nosso part.2”.Entre caminhos e desvios, ele deu uma das mãos pra sorte e a outra pra malandragem para trilhar sua história. Fiel às suas vontades, saiu de uma casa de classe média aos 16 anos para se virar por Fortaleza, onde vendeu CD pirata e morou em um barraco na Favela do Marrocos. Ainda no Ceará, começou sua carreira no rap com o grupo Costa a Costa, que fez barulho com o lançamento da mix tape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência (2007).

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Sabendo que o mundo é grande, Don L não tem medo de caminhar. Sentiu a necessidade de expressar suas rimas em carreira solo e fez o caminho da diáspora nordestina até a cidade de São Paulo. A partir daí, fortaleceu seu nome com o ótimo Caro Vapor/Vida e Veneno de Don L (2013) e refrescou o jeito de fazer rap com o cinematográfico Roteiro para Aïnouz, Vol. 3 (2017) considerado um dos melhores álbuns do ano.

Na próxima semana, quem estiver em Porto Alegre vai poder conferir o último bom malandro em cima do palco do Agulha nos dias 25 e 26 de outubro. A apresentação de sexta, primeira a ser anunciada, já está com os ingressos esgotados. Se você ainda não marcou presença, se joga na data extra e garanta sua presença aqui.

Aqui, a NOIZE bate um papo profundo e exclusivo com o rapper sobre o disco Roteiro para
Aïnouz, Vol.3
, sobre a cena do rap e o que ele pode fazer pelo país e sobre vida marginal.
Se ler o título não é ler livro e ler o livro não é entender o livro, como ele diz, você só pode tirar conclusões quando terminar de ler a conversa. Afinal, se uma frase muda o fim do filme, o que uma frase pode fazer com uma entrevista? Aperte o player e confira.

Começando pelo seu som: é quase unanimidade considerar sua identidade musical original, uma “estética Don L” que não é parecida com muitas coisas que a gente ouve por aí. Como se deu a construção do seu conceito sonoro? Qual foi o processo?
Em questão de flow, eu faço de uma forma muito natural, muito de coração. Acho que as influências são as coisas que ouço ao longo da vida. Eu faço música pra mim mesmo, faço a música que eu gostaria de ouvir na minha vida. Então, sempre me coloco como se estivesse ao lado dos meus ídolos. Não tento soar como nenhum deles, mas tento estar entre eles. Não sei se dá pra entender isso, mas tipo, quando eu faço os sons tenho isso comigo, saca? De ser original, de ser algo que quero ouvir, e que seja algo que pudesse estar entre os meus ídolos, esse é o principal. Mas não calculo muito, saca? Acabo fazendo o que a inspiração me fornece, de acordo com o que quero dizer e o que a música pede. Então, muitas vezes o meu processo de criação é assim: um produtor, um beatmaker, me manda um beat; aí esse beat me inspira uma energia, uma atmosfera, alguma coisa que me traz imagens e aí eu coloco isso para fora. É mais ou menos assim. Depois que a música ficou pronta, aquele rascunho, vejo o que vou fazer em termo de produção – porque eu também trampo com a produção dos meus próprios sons – pra completar aquele sentimento ali, aquele feeling. Aí vai nascendo a ideia do disco, você vai juntando as músicas e aí, entre uma música e outra, às vezes uma faixa pede que você mexa na outra e as coisas vão se construindo.

“Aïnouz” vem do nome do cineasta Karim Aïnouz. Ele tem trabalhos ligados ao universo marginal, como por exemplo o filme Madame Satã (200). Ao mesmo tempo, você também vem de um lugar marginalizado e, alguns anos atrás, até o próprio rap era marginalizado. Rolou essa identificação? Como o cinema e o rap se relacionam?
Aham, tem a ver com isso também. O Aïnouz é um cara que fala de histórias de êxodo, histórias densas. Histórias de pessoas que vêm de lugares às vezes inóspitos ou que tem uma busca interior maior do que aqueles lugares podem comportar para o que elas pretendem ser ou o que elas pretendem encontrar. Às vezes, tá dentro delas mesmo, mas precisa ser buscado fora. Acho que é bem a temática do Aïnouz é essa. Tem a ver com a minha história, com o que eu estava dizendo no disco. Então foi bem por isso. Porque são histórias mais densas e que são bem introspectivas também.

Rap é sobre a fala, a palavra falada e sobre ter o que dizer. Mas, em várias faixas de Roteiro para Aïnouz você utiliza o silêncios e os espaços vazios para dar o recado. Por que você buscou esse elemento? Como foi fazer algumas ideias serem escutadas no silêncio?
Eu acho que a música em si sempre tem isso, ela trabalha também com o silêncio. Acho que o próprio Aïnouz trabalha muito com o silêncio nos filmes dele, tem coisas que são imagens. E, às vezes, na música, você colocou uma imagem na cabeça da pessoa ali que tá ouvindo, você construiu um cenário, pintou um quadro, e aquele momento de silêncio é um momento mais contemplativo. É um momento de sentir mais do que as palavras. Acho que é mais ou menos isso.

É um álbum biográfico que começa de trás para frente. Por que “inverter” a forma de conta a sua história?
Isso é um recurso bastante usado no cinema e eu já escrevo letras muitas vezes de trás pra frente, gosto de começar com o final. Nesse caso, foi muito porque, depois que vim para São Paulo, passei a ficar conhecido no Brasil e muita gente me conheceu já a partir de certo ponto, não sabe muito bem a caminhada até aqui. Aí, eu decidi que, em vez de começar a contar do começo, já que que as pessoas já estão me conhecendo, eu deveria contar de trás pra frente e preparar um terreno também. Acho que a história é mais interessante dessa forma.

O disco tem muito cuidado na forma, traz uma delicadeza na construção. Os beats muitas vezes são lentos, não são tão pesados, ao mesmo tempo, tem uma construção muito contundente. Como foi equilibrar força e delicadeza?
Eu sempre gostei de fazer isso, sempre gostei de dar ideias mais pesadas em beats que não tem necessariamente um peso “óbvio”. Senão fica muito demais, e essa não é a intenção. A intenção é o equilíbrio, é mais parecido com a vida real, em que as coisas, geralmente, não são tão óbvias. Eu acredito que seja mais interessante assim, eu tenho essa preferência de que sejam nuances mesmo, sabe? Sei lá, eu não gosto de beats que tenham bad vibe, por exemplo, que tenham uma energia ruim, saca? Porque, mesmo quando a ideia é pesada, a energia não deve ser ruim. É diferente, é uma energia de força, não de maldade, saca? Muita gente confunde isso. Inclusive, alguns produtores que tentaram trabalhar comigo muitas vezes confundiram isso. Eu mandava uma ideia para os caras produzirem, e os caras vinham: “caralho, essa ideia é muito pesada”, “esse beat tá muito de bobeira, tem que vir um beat mais pesadão, mais malvado”. Aí os caras faziam um bagulho mais tenso que eu não gostava.

Na faixa “Aquela Fé” você diz que “o maior labirinto é o labirinto interno”. A gente está em um cenário que tenta dar mais visibilidade para a questão da saúde mental, uma discussão que está rolando até na cena do rap. Como é para você lidar com isso?
Somos bombardeados todos os dias em todos os nossos sentidos por questões que oprimem o nosso desenvolvimento como ser, as nossas possibilidades de desenvolvimento como pessoa. Essas coisas acabam deixando a gente maluco mesmo. Essa questão [saúde mental] hoje em dia, tá aí mais do que nunca. As pessoas estão com diversos problemas de saber lidar com tanta coisa, um mundo de excesso de informações. As informações estão meio vazias e não se tem tanta perspectiva de futuro, é tudo muito incerto. Com tanta pressão psicológica, com tanta meta pra bater, com tanto objetivo pra ser alcançado, principalmente quando se tá numa situação desfavorável e que você tem uma tendência a olhar muito mais para o lado material de todas as coisas, às vezes é a única opção que você tem, ver o lado material porque sem o básico do material você não consegue nem chegar a ter uma oportunidade de pensar sobre o espiritual, sobre o interior, sobre o subjetivo. Então, as duas coisas estão altamente interligadas. Eu acho que o grande erro é a separação das coisas. Uma coisa não existe sem a outra. A gente tá ligado ao corpo, a gente tá ligado à matéria, a gente precisa às vezes até mudar hábitos para conseguir pensar diferente. Às vezes você procura pensar diferente e o que você tá comendo não permite muito, o seu estilo de vida, a quantidade de sono, tudo isso influencia, né? As reflexões disso são de quem é buscador. Sou um buscador, um buscador de vida. Isso tudo tem a ver com o Aïnouz, quando você vê os filmes dele, é tudo sobre isso, sobre pessoas que estão buscando, saindo de situações desfavoráveis pra procurar coisas externas que tenham a ver com espelhos, com coisas que estão dentro delas, na verdade.

A sua história muda de vários cenários. Você nasce em um lugar, foi morar em outro; sai cedo de casa e vai pra outra zona da cidade e, depois, vai pra São Paulo. Você vem de um não-lugar e, muitas vezes, suas músicas expressam um inconformismo. Nesses encontros, desencontros e procuras, o rap é um lugar de pertencimento pra você?
Acho que acabou sendo. Não foi planejado, mas acabou sendo e talvez seja o único, apesar de ser um pouco limitado. Porque é um estilo de música alimentado à minha língua, então às vezes eu penso no mundo e vejo como isso é pequeno em relação a ele. Às vezes as pessoas não podem me entender, a não ser as pessoas que moram nesse espaço limitado aqui que é o Brasil. Mas, com certeza, enquanto eu estiver dentro dessas fronteiras, talvez seja uma das poucas coisas a que eu estou realmente atrelado e que existe um pertencimento aí.

Você trata de várias questões sociais nas suas rimas e o próprio rap é marcado por uma fala periférica, uma fala de resistência. Em tempos tão caóticos, o que você acha que o rap pode fazer pelo país?
Então, hoje a gente tem rap de direita, coisa que há um tempo era impensável. Tem fãs de rap que vão votar no Bolsonaro. Tem grupos de rap que fazem quiz na internet e a maior parte dos fãs dele são eleitores do Bolsonaro. Isso era uma coisa impensável há um tempo atrás. O que torna óbvio um esvaziamento do discurso do rap, que foi uma coisa que começou, né, indo aos poucos até chegar no ponto em que a gente chegou hoje, que é meio que um vazio da informação, um deserto do real mesmo, as coisas não tem mais necessariamente uma conexão com a realidade. A gente tá vivendo no inferno da informação. E o que é o rap, a não ser informação? Às vezes, até excesso de informação. O rap trabalha muito com a palavra e as palavras estão ficando cada vez mais vazias. Existe um excesso, vai tudo pelos algoritmos do Google e do Facebook. Então, acredito que o sentimento seja o mais importante agora. Muito mais do que as palavras. Se você não conseguir que a sua música passe realmente uma experiência, um sentimento que entre no coração, não vai adiantar falar nada. As palavras não tem mais muito valor, na verdade. Acho que o rap continua sendo um estilo de música que é reflexivo, que é introspectivo muitas vezes, isso não vai ser perdido. Sempre vai existir uma contestação e uma guerra dentro do próprio meio. Sempre existiu, até mesmo no rap gringo. Sempre tem ameaças de apropriação cultural, sempre tem ameaças de esvaziamento da cultura, mas sempre vem alguém ou uma onda que vai e segura o bagulho, por isso que o hip hop é tão foda.

Quando a faixa “Sulicídio” [de Baco Exu do Blues e Diomedes Chinaski] foi lançada, em 2016, causou um alvoroço na cena do rap. Como você foi impactado na época e como é pensar nessa faixa e na discussão que ela trouxe dois anos depois?
Achei foda, achei necessário, é uma coisa do rap mesmo, mesmo tendo umas coisas ali que eu não diria daquela forma, respeito a forma como os caras colocaram, é como eles estão se sentindo, excluídos, fora. Acho que a cena mudou sim, não só pro Nordeste. Na real, o que mudou menos foi o Nordeste. “Sulicídio” deu mais visibilidade pro Djonga, por exemplo, que é de BH. Mas o Brasil é o país da apropriação cultural, o país onde, de todas as formas, tem que estar sempre alerta porque, quando você for ver, tá aparecendo um monte de grupo de rap do Nordeste que é da burguesia nordestina e que vai conseguir espaço por causa de “Sulicídio”, que é uma música de uns caras que vem de outro nordeste. O Brasil é muito doido, não é pra iniciante mesmo. A gente tá muito longe ainda de mudanças significativas mesmo, tem que ser uma luta constante mesmo, não adianta.

Você também fala sobre essa regionalização que exclui. Mas, com Roteiro para Aïnouz, você figurou entre as principais listas de Melhores do Ano numa escala nacional. Como é estar nesse lugar?
O nordestino é muito caricaturado pelo Brasil e muitas vezes por ele mesmo. Pra quem faz música urbana, quem faz rap ou rock no nordeste, não é isso que se espera. Espera-se que você faça forró ou outro tipo de música. Agora tá diminuindo um pouco por causa da internet, as nossas grandes metrópoles são meio homogêneas, não tem muita diferença de São Paulo para Fortaleza e para Recife, são todas grandes metrópoles capitalistas de terceiro mundo. Isso também conecta de certa forma pelo bem ou pelo o mal. Mas é isso, agora eu tô aí considerado entre os principais nomes do rap brasileiro. Isso é um pouco diferente de você ser esquecido, mas traz também outros desafios no tipo de música que eu faço, que não é um tipo de música tão simplório, de colocar questões mais complexas, quando na verdade a tendência é a simplificação total e a caricatura da caricatura. Eu sou um cara um pouco difícil de caricaturar. Isso às vezes me prejudica enquanto artista, são várias questões, o mundo da música não é brincadeira, sabe? E cada vez mais hoje em dia, na linguagem de memes, e internet, uma guerra de likes, a busca pela frase de efeito, cultura do lacre… são novos desafios, mas continua sendo uma luta mesmo.

Além da referência ao Karim no título e toda essa estrutura de roteiro da sua vida, toda essa fama de rap cinematográfico e rap virtual que o seu som ganha, quero saber: qual a força que o audiovisual tem pro rap? Você tem algum plano de lançar um álbum visual? O que a gente pode esperar de projetos futuros?
Eu faço músicas através de imagens. Como eu falei, eu escuto, construo imagens na minha cabeça, é toda uma atmosfera mesmo quando eu tô compondo. Muitas vezes me preocupo se as pessoas vão conseguir construir a mesma imagem que eu tô construindo na minha cabeça. Pra isso, seria legal conseguir fazer um trabalho mais audiovisual e inclusive eu não fiz nenhum clipe desse disco exatamente porque é uma brincadeira mais cara. O audiovisual é um bagulho muito caro. E eu não quero estragar as minhas músicas com um bagulho que diminua a música. O visual e os clipes tem que aumentar o campo imaginário da música, não diminuir. Então, pra mim, tem sido uma dificuldade. Agora vou tentar fazer outros trabalhos que vão incluir o audiovisual, mas que talvez nem sejam dentro do projeto de Roteiro para Aïnouz. Mas pretendo sim fazer trabalhos audiovisuais, sempre, né, depende mais das condições. As músicas desse disco são muito épicas, são muito grandes, é realmente muito difícil fazer com pouco dinheiro. Acho que tem poucos profissionais que conseguem fazer isso, tirar leite de pedra, pegar um bagulho e, com pouca grana, fazer uma ideia que seja muito criativa pra conseguir refletir àquelas imagens. Mas, sim, pretendo fazer muitas coisas ainda. E esse ano tô trabalhando muito, tô com alguns sons pra sair ainda, algumas colaborações com outros artistas, vai ser um fim de ano bem movimentado.

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17/10/2018

Brenda Vidal

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