“Toda mulher deve gritar muito. Mas gritar mesmo!”, diz Elza Soares em entrevista exclusiva

08/03/2016

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

08/03/2016

Sobre-humana, mítica, Elza Soares é um fenômeno da Natureza em forma de mulher. No segredo da sua idade reside a força mágica dessa que é uma das maiores cantoras que o Brasil já viu.

Ao longo dos 39 discos que já lançou nos seus 56 anos de carreira, Elza Soares enfrentou os ataques do racismo e do machismo institucionalizados no mundo da música. Do alto de seu salto-alto, coberta por mínimos vestidos e fazendo tremer o mundo com a potência de sua voz, Elza se tornou uma heroína. Sua arte lhe tornou um símbolo de resistência que inspirou, inspira e inspirará os oprimidos a não aceitar calados os grilhões do preconceito que lhes prendem.

Hoje, no Dia Internacional da Mulher, Elza Soares participa da primeira edição do evento Mulher com a Palavra, que discute o empoderamento feminino por meio da arte em Salvador. Depois, ela segue com mais dez datas da turnê de lançamento (veja resenha) de A Mulher do Fim do Mundo (2015), passando por São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

O disco mais recente da cantora deixou o Brasil de boca aberta, sendo eleito um dos melhores discos nacionais do ano passado em todas as listas especializadas no assunto. A tempestade emocional que se ouve ali não vem do nada: além de estar se recuperando de uma cirurgia que lhe rendeu 16 pinos na coluna, Elza perdeu seu filho Gilson durante a gravação do disco, morto aos 59 anos por complicações ligadas a uma infecção urinária. Misturando tudo isso, seu primeiro disco só de músicas inéditas chegou forte, revirando as emoções da cantora e de seu público, que encontrou no seu canto a certeza de que vale a pena lutar pelo que se acredita.

Leia abaixo a conversa que tivemos com Elza Soares e aprenda o que puder com essa mulher incrível, mestre da “sabedoria do agora”, como ela diz abaixo.

Como está sendo sua recuperação ? Como você está?
Cara, eu tô em êxtase. Graças a Deus! As coisas tão andando muito bem pra mim, com A Mulher Do Fim do Mundo, né? E também com esse show com o pai da Amy Winehouse. Graças a Deus tá maravilhoso.

Você era fã da Amy?
Muito! Assim como ela era fã da Elza, eu gostava muito dela também.

A Amy teve um fim trágico, e, ao longo da sua carreira, você viu exemplos semelhantes com a Janis Joplin, por exemplo, e a própria Elis Regina. Como você se sente vendo isso ainda acontecer?
Eu fico triste. Porque meu exemplo de vida, a minha meta, é o de viver com saúde, é o da busca da alegria, é amar a vida, né? Respeitar a vida. Eu tenho esse exemplo de respeitar a vida muito grande. Vendo coisas assim eu fico um pouco… ah, não sei cara, me deixa triste. Porque não é isso que a gente quer pra vida, a gente quer uma vida com bastante êxito, sucesso, saúde. É o que a gente procura na vida, né?

Seu novo disco foi eleito um dos melhores da música brasileira nos últimos anos, você imaginava tanta repercussão?
Não. Não imaginava, não. Sabia que seria um trabalho bonito.

Como você se sentiu cantando as letras desse disco?
“Comigo” é muito forte, “Solto” também tem uma letra muito forte. São músicas fortíssimas, tem muita coisa forte nesse disco. E eu estou vivendo isso. “Maria da Vila Matilde” também acho que é uma música muito boa. Ela é uma delícia, né? E é sobre a história das mulheres. Tem um lado político muito grande esse disco, é isso que mais me fascina. Esse lado político, esse lado da luta contra a homofobia, tem aquela que fala da traveca [“Benedita”], eu falo de tudo isso! E da mulher né? Toda mulher deve gritar muito. Mas gritar! Gritar! Gritar mesmo! Quando estiver sofrendo algum vexame, alguma agressão, que grite!

Como você avalia a situação social das mulheres no Brasil? Você sente que houve algum avanço?
Avançou, mas de uma maneira muito pequena. Tá tudo por baixo dos panos ainda, ainda precisamos avançar muito mais. Ainda falta muito.

E sobre o preconceito racial?
Horroroso! Horroroso! Você vê o que aconteceu com a Tais Araújo. O país só não muda porque não quer.


Por que você acha que os avanços são tão poucos e tão lentos?
Porque não há interesse nenhum. Não se tem interesse. “Por que falar tanto de um assunto que não me vai render [votos]?”.

A relação de alguma letra do disco novo com algum episódio da sua vida ajudou ou dificultou sua interpretação?
Não, não dificultou nada, ajudou muito! Nada ali dificultava, tudo ali ajudava bastante. Ajudou muito.

Elza, em julho houve a fatalidade de você ter perdido o Gilson. Como isso influenciou o disco?
Cara… Eu pedi permissão pra ele. Com a garganta quase embargada, fui pra lá [gravar]. E, na hora, entra o profissionalismo, entra o perdão… Entra tudo. O importante é que Deus é forte.

Qual seu segredo para se manter atual após tantos anos de carreira, tantos discos?
É acreditar. Acreditar no novo. Acreditar no que você fez e no que você faz. Eu vivo agora. É acreditar, lançar sem medo, acreditar mesmo. E vai em frente. A vida é uma só e curta! Então, enquanto você tá [vivo], tem que acreditar sempre na vida.

Amigos mais novos lhe ajudam nisso?
Ah, sempre ajuda! Tenho um monte de amigo! Aliás, tenho um fã-clube cheio de jovens, meu caminho sempre foi muito cercado pelos jovens. Digo pra eles curtirem a vida a beça! Isso é muito bom.

Você atinge os jovens de um jeito que é raro para artistas da sua geração.
É a mesma linguagem, né? Tem que ser sábio. Tem que ter inteligência pra poder ter uma linguagem de igual para igual com eles.

Você se preocupa com isso há tempo?
Desde sempre. Desde sempre [aprendi] a não olhar pra trás, desde sempre não ficar contando os anos que tem, desde sempre respeitar. Assim você chega onde você quer.

É impressão minha ou você nunca teve medo de falar de assuntos polêmicos?
Não. Você não tem que ter medo. Se você sabe onde anda não tem que ter medo. Medo é uma coisa que não existe. Isso é verdade sempre. E a verdade, quando é mal falada, vira mentira e medo.

Em algum momento você já se auto-censurou por algum motivo?
Ah não, não, não… Muito pelo contrário. Ao invés de subtrair, você tem que multiplicar. Você não subtrai, você multiplica.

Seu disco novo trabalha com isso, né? Muitos cantores não teriam coragem de cantar sobre travestis, viciados em crack.
É lógico! Mas tem que falar! Tem que falar: “Pra fuder”! Tem que falar do crack. Tem que falar dos travestis. Tem que falar de homofobia. Tem que falar de tudo! Falar sem medo.

Como sua música pode mudar a vida das pessoas?
Acho que traz uma coragem pra vida das pessoas. Muitos que não tinham coragem estão tendo através desse disco. Eu acho que tá abrindo a cabeça das pessoas, de gente que tinha a cabeça fechada. Tá abrindo! Vamos abrir! Vamos abrir a cabeça, minha gente! Se o povo brasileiro tivesse a cabeça bem aberta não estaríamos na situação em que estamos no país. É o que falta pra gente: a coragem. A verdade.

Vivemos um momento um tanto conservador do Brasil.
É verdade. Vamos abrir um bocadinho isso aí? Vamos? Vamos tentar melhorar? Do jeito que tá, tá ruim.

Que valores norteiam sua vida, sua arte?
Simplesmente a sabedoria do agora. Ontem foi um ótimo dia, jantei, dormi. Hoje estou aqui conversando com você. Amanhã não sei. Então vamos viver agora.

Você já pensou em se aponsentar?
Não, não, meu amor. Eu quero cantar! Me deixem cantar até o fim.

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08/03/2016

Entre o bemol e o sustenido.
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes