Jorge Mautner afirma: “Eu sou um profeta”. Descubra por quê.

26/08/2014

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Revista NOIZE

Por: Revista NOIZE

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26/08/2014

Militante do Kaos, filósofo radical, patriota de um ufanismo inveterado. Jorge Mautner é um intelectual profano, um artista que enxerga sua obra como estandarte de um novo mundo. Uma realidade em que o Outro seja reconhecido como o Mesmo, onde todas as diferenças sejam absorvidas por uma união humanitária e a cultura seja o resultado de infinitas deglutições e misturas de todos as estéticas, ritmos e timbres. Segundo ele, esse mundo já começou a acontecer e é o resultado da expansão da comunhão cultural própria do Brasil por todo o planeta.

A defesa dessa visão radicalmente otimista vem lhe rendendo farto reconhecimento ao longo das mais de cinco décadas em que Mautner vem atuando enquanto músico, escritor, ator, cineasta. Hoje mesmo, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, acontece a 13ª edição do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e o documentário Jorge Mautner – O Filho do Holocausto (2012) está concorrendo aos prêmios de Melhor Longa-metragem de documentário, Melhor montagem de documentário e Melhor trilha sonora. Não deixa de ser irônico tamanho prestígio para um artista que já foi tantas vezes chamado de “maldito”.

A conversa que tive com ele serviu de pista para a decolagem de suas ideias que atingem as estrelas. Política, religião, filosofia, história, aposentadoria… Até sobre música nós falamos:

Você que foi tantas vezes chamado de “maldito” virou tema de um documentário dirigido e roteirizado por Pedro Bial, com investimentos do Canal Brasil, que é da Globo. Isso é um sinal de que a tal “maldição” foi quebrada?

Eu comecei em 1956 quando iniciei o livro Deus da Chuva e da Morte (1962) e a partir daí logo fiz o Partido do Kaos. Então, esse negócio de maldito é uma honraria. Maldito é o que era fora da moral que fez desencadear a Segunda Guerra Mundial. Todos artistas que se prezassem eram contra isso e a favor do novo mundo que surgiu. Mas mesmo outros artistas de antes já eram malditos, Augusto dos Anjos, Dostoievski, Van Gogh… Era maldito quem inovasse e trouxesse novas ideias que são sempre cada vez mais próximas às ideias de Jesus de Nazaré. Ele antecipou o Romantismo, os Direitos Humanos, a desobediência civil, a resistência pacífica. A partir da ideia do livre arbítrio veio todo o Liberalismo e as ideias de liberdade individual, e com o sermão da montanha, claro, o Socialismo. Toda minha literatura, minha militância, minha música, minhas letras são obsessivamente para que nunca mais aconteça o Holocausto e para irradiar a cultura mais original do planeta que é a cultura brasileira. Ela é a amálgama. José Bonifácio de Andrade Silva nos descreveu em 1823 dizendo: “Diferente dos outros povos e culturas, nós somos essa amálgama”. Tudo, toda cultura brasileira foi amálgama. O próprio Modernismo é uma amálgama. Isso vai além das ideias de multidiversidade e multiculturalismo, que são passos tímidos ainda. O mundo não bebe água, não come e não respira sem o Brasil, mas o mais importante é o povo brasileiro que fez essa amálgama. Se não os outros vão acabar se matando por ódios religiosos, por terrorismo.

O meu pai veio do Holocausto, mas também era da resistência judaica já em 1941. Eu tenho selos antinazistas que ele fez, isso tudo vai ser lançado em dez volumes. Tô escrevendo um material relatando todas minhas atividades correlatas políticas ligadas à redemocratização. Vai sair o primeiro volume no início do ano que vem. Ali eu conto toda a história paralela de militância política nacional e internacional que é ligada umbilicalmente a tudo o que eu faço. Mas então, a minha mãe ficou traumatizada porque não pôde estar muito comigo, eu fiquei com minha babá dos 1 aos 7 anos. E ela era filha de santo. Toda semana eu ia pro candomblé, onde ela mudava de roupa, surgia como uma rainha, me botava no colo, e passava a mãos nos meus cabelos enquanto os tambores tocavam. Ela dizia: “Seus pais vieram de um lugar com gente muito má e cruel, mas aqui você vai encontrar seus irmãos e suas irmãs”. Passando a mão no meu cabelo, eu adormecia com os tambores tocando. Com oito anos eu fui pra São Paulo porque minha mãe se separou do meu pai, mas ele era o maior entusiasta pelo Brasil, dizia: “Aqui tem a salvação da humanidade”. Ele me instruiu em todos os livros e nessa militância. Aí que eu comecei a escrever. E sempre a música, a literatura, a filosofia e a modificação do mundo andaram juntas. Nunca foram separadas. Essa é a marca de toda essa minha história. Eu sou a menor partícula do mundo subatômico, mas tenho o mérito de até hoje estar vivo e essa é uma longa caminhada. Esse é o cerne de tudo o que eu faço e, se Deus quiser, que ainda farei.

Sobre o Partido do Kaos, que você criou em 56, é verdade que vocês tinham três mil membros em 62?

Três mil membros! Começou em 56, quando eu comecei a escrever. Era pra irradiar a amálgama e Direito Humanos e nunca mais o Holocausto. Tinha quatro definições pro Kaos:

Kristo Ama Ondas Sonoras =
Kamaradas Anarquistas Organizando-se Socialmente =
Kolofé Axé Oxóssi Saravá =

E a quarta definição cada um colocava, era o indivíduo e a emoção em primeiro lugar. Em 62, já tínhamos 3 mil membros, mas aí o professor Mario Schenberg [considerado o maior físico teórico do Brasil] pediu pra que eu entrasse no Partido Comunista. Aí eu e o [pintor José Roberto] Aguilar entramos pro Comitê Central. Na época, o Manuel Carlos, diretor da Globo, me disse: “Não é responsabilidade demais? Você é a pessoa mais jovem do Comitê Central”. Aí eu respondi que não, que eu era firme, e que isso seria pra sempre. Essa determinação continuou, e não foi só no Partido do Kaos. Reconhecido oficialmente em 62, ele continua até 2014 porque durante todas essas décadas trabalhado com Nelson Jacobina eu revelei a cada ano mais ou menos uns 200 autores novos, músicos, poetas, células o tempo todo. A arte é pra transformar a realidade. Fui auto-exilado em 1965, encontrei o Gil e o Caetano em Londres em 69 e essa foi uma super-célula que acabou sendo requerida pra voltar pro Brasil se não não haveria a redemocratização.

Nelson Jacobina e Jorge Mautner em 1977

Nelson Jacobina e Jorge Mautner em 1977

Mas vocês tinham um plano organizado no Partido do Kaos, havia hierarquia, você tinha algum cargo?

Não, hierarquia não tinha. Tinha eu falando e todos falando por igual. Era anarquismo mesmo, descentralizado.

Você se considera anarquista?

Não, eu sou um profeta. Profeta é o seguinte, você estuda história e mais ou menos intui o que vai acontecer. Uma profecia é uma leitura histórica. Eu sou um escritor, pensador, músico, cantor, intérprete, mas tudo pra irradiar essa mensagem do Kaos, com K, que é igual a essa ideia da amálgama inédita. Aqui, o abraço é instantâneo. Pra quase todas as culturas e povos do planeta, o estrangeiro, o diferente, o desconhecido, o forasteiro é pra ser estraçalhado. Aqui, com os índios tupis-guaranis, se inverteu a ordem. Como o Mistério é o grande mito deles, a incumbência deles era ir desvelando o mistério. Ao invés de combater as tribos que estavam no litoral do nosso imenso país continente, eles diziam: “Que maravilha, vamos lá!”. Isso continuou com a chegada das caravelas, e é o tempo todo. É uma posição inacreditavelmente original. Essa é a essência da visão do Kaos, da minha obra e de grandes escritores. O próprio Oswald de Andrade com a Antropofagia, é amálgama em fúria. O tropicalismo é a plenitude da amálgama de José Bonifácio e de Joaquim Nabuco que dizia: “Cada geração tem que reconquistar sua liberdade”. Brasília foi fundada e agora o mundo pede de joelhos essa amálgama.

Os mitos têm o papel, entre outras coisas, de dar um sentido cosmogônico à vida das pessoas. A cultura pop vem substituindo o imaginário simbólico das lendas do mundo antigo?

Claro, mas antigamente já acontecia isso, só que o processo era mais lento. Hoje em dia é instantâneo, nunca se teve uma época tão impressionante e feliz na humanidade. Emoção, música, poesia, ideias, confraternização, isso tudo. A internet tem essa capacidade incrível de levar a emoção das pessoas. O Brasil tá na frente disso porque ele é Jesus de Nazaré e os tambores do candomblé. Por isso que o Papa veio pra cá, as Olimpíadas serão aqui, etc.

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Em 2007, você disse que o Brasil é “a chave para compreender o futuro” e que “ou o mundo brasilifica-se ou vira nazista”. Você sente que o mundo hoje está mais brasilificado?

Claro! Um ano atrás, o Timelife Corporation falou: “Em breve seremos todos brasileiros”. Quando eu cheguei exilado em Nova Iorque, fui secretário do Robert Lowell [renomado poeta norte-americano] e ele só ficava lendo comigo Euclides da Cunha e Guimarães Rosa pra saber dos mistérios do Brasil. O Paul Goodman me recebeu no Village [bairro nova-iorquino berço da contracultura] e disse: “O que você tá fazendo aqui? Você não sabe que o Brasil inteiro há muito tempo é o verdadeiro Village?”. Isso agora toma conta de todas as consciências, é uma necessidade vital da sobrevivência da espécie. Esse nosso ineditismo, originalidade e urgência eu tenho encontrado na cabeça da garotada. Todos os intelectuais com quem trabalhei me perguntam abismados sobre isso.

Será que ainda é aquele sentimento do “seja realista exija o impossível”?

Mas claro. O futebol brasileiro, por exemplo. Foi a capoeira que mudou tudo. A origem do futebol é na Inglaterra, eles tavam preocupados com a erupção de revoluções socialistas nas fábricas e tentaram vários esportes até que chegaram no futebol, que tem onze contra onze e sublima o combate. Sublima uma luta de classes, uma revolução. E deu certo. O Conan Doyle, que trabalhava pra Rainha Vitória, deu um recado especial pro time do Liverpool: “Ó, o futebol vai se espalhar pelo mundo com a grandeza do império britânico, mas vocês não podem jogar balançando a cintura, isso leva à sodomia, ao mau exemplo, vocês são representantes do império britânico”. Aí chegou Garrincha e desmontou tudo com a capoeira. Só pra dar um exemplo, mas todo Brasil foi construído pelo trabalho escravo. E o maior escritor do Brasil, Machado de Assis, é da etnia negra. O maior escultor, Aleijadinho, etnia negra. Em Santa Catarina, onde tem açorianos e alemães, o maior escritor é Cruz e Souza. E por aí vai. E o Vinicius de Moraes era o branco mais negro do Brasil. Por causa do Vinicius e do Jobim foi que Barack Obama nasceu. Você sabe, né?

Não sei, como assim?

É o seguinte, a mãe do Obama é filósofa. E estudando o esplendor da Grécia Antiga, sem querer, ela foi ver o filme Orfeu Negro (1959) [adaptação de uma peça de Vinicius de Moraes com trilha de Tom Jobim]. Aí ela enlouqueceu quando viu que essa Grécia tava viva, morava no morro, era negra, e era escola de samba. Dois dias depois, com seu entusiasmo, foi numa palestra de um filósofo do Quênia, com quem ela se casou e teve o Barack Obama. Em sua biografia, ele ressalta isso ad nauseam. Isso é nossa amálgama como eflúvio emocional. Essa emoção é que move a história. Imagina, Barack Obama se tornou possível por causa da poética musical da amálgama.

Como você vê a música popular brasileira atual? Que não é a MPB, e sim o funk ostentação, o arrocha.

Aqui, eu, Caetano e Gil somos unanimes: não tem essa diferença. Só não pode ser música nazista, o resto, tudo é válido. São expressões da liberdade, das diferentes personalidades que uma pessoa tem ao mesmo tempo, o “Lepo Lepo”, o arrocha, não tem diferença, nem entre estilos de música, nem entre a música e a literatura, e nem de um ser com o outro. A música é válida em todos lugares, são expressões de sentimentos. Claro que tem cada vez mais uma música comercial instantânea, mas tem outra de assimilação média, e outra que fica, sei lá, em outra história. Mas isso depende da música, do talento, da emoção e do significado que ela desperta. Eu não posso ver divisões nisso, aí o critério seria restringir a liberdade. Só nazismo que não pode, sou contra a música que prega ódio racial, preconceitos, coisas pré-nazista. O resto são músicas que querem irmanar as pessoas e mostrar as dores, os desejos.

Qual sonho você procura alcançar hoje? O que você deseja atingir e ainda não atingiu?

Sonho? Não. Eu sou tão bem recebido em todos lugares… Ao ver isso acontecer eu tenho certeza de que vão acabar as doenças daqui a 25 anos, a idade vai avançar, os Direitos Humanos vão triunfar, o Brasil vai resplandecer e ser o imenso farol do século XXI e adiante. O que eu queria é viver o máximo pra ver minha filha e principalmente minha netinha por muito tempo.

Você pensa em se aposentar?

Não… Aqui não existe aposentadoria. Como o Nelson Jacobina, ele trabalhou 40 anos comigo, há dois anos ele faleceu, e nos últimos quatro anos ele pegou a mais violenta metástase do câncer. Nem a pílula mais forte acabava com as dores dele. Só quando ele começava a tocar ou encontrar a militância é que as dores paravam. O Dráuzio Varella, ao ver a radiografia dele no primeiro mês desses quatro anos disse: “Não é possível, ele está morto”. Pois é, aconteceu um milagre. Tanto que o último show foi em Jacareí e ele quis dar um bis de uma hora e doze minutos. Horas depois ele faleceu. Você vê que coisa impressionante esses neurônios, a devoção e a alegria que vêm da arte de estar semeando a concórdia, o amor. Só aí paravam as dores. Não é impressionante?

E sobre seus próximos lançamentos?

No ano que vem, vão sair aqueles dez volumes que eu falei e também discos novos. Vão sair dois vinis, e dois CDs que replicam os vinis. Vai ter participação do Caetano, Gil, Gal, e também músicas inéditas. Aliás, eu queria destacar duas frases de uma letra minha que eu vou gravar com o Caetano:

Os erros e os defeitos cotidianos fazem parte dos direitos humanos.
A liberdade é bonita, mas não é infinita e acredite, a liberdade é a consciência do limite.

É isso!

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26/08/2014

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