Entrevista | Jards Macalé narra um conto de Vida e Morte em “Besta Fera”

08/02/2019

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Leo Aversa/Divulgação

08/02/2019

Chegou a hora de saciar uma sede antiga: acabou de sair em todas plataformas de streaming Besta Fera, o primeiro disco inteiro de composições inéditas de Jards Macalé em mais de 20 anos (ouça abaixo).

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Como viemos comentando nas últimas semanas, o álbum chega com um peso histórico, amplificado pela parceria de Jards com um time impressionante de músicos. Tim Bernardes, Ava Rocha, Kiko Dinucci, Capinam, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Juçara Marçal e Thiago França são alguns dos artistas presentes no álbum, cuja banda de base é formada pelo trio Thomas Harres (bateria), Pedro Dantas (baixo) e Guilherme Held (guitarra).

Tanto pelo conteúdo de suas faixas quanto pela trajetória da sua produção, Besta Fera é um disco tão radiante e luminoso quanto tenso e intenso. Sua gravação foi feita com apoio do edital Natura Musical de 2017, porém, devido a um grave problema de saúde que Jards enfrentou no ano passado, o lançamento do álbum acabou sendo só agora. A broncopneumonia que visitou Macalé já se foi e, segundo ele nos conta na conversa que você lê abaixo, a doença acabou sendo um grande incentivo para que ele seguisse em frente: “É preferível viver, né? A criação foi saudável pra isso”, revela.

Jards comenta aqui como foi produzir o álbum com esse grande elenco ao redor, fala das homenagens que o disco traz a amigos antigos, como o fotógrafo Cafi e o poeta Capinam, a relação que o novo álbum tem com o resto de sua discografia e conta ainda seus planos pra 2019, que incluem uma turnê de shows do Besta Fera no Brasil e na Europa e o lançamento de mais dois clipes de faixas do disco “Vampiro de Copacabana” e o “Buraco da Consolação”. Leia abaixo.

Quando surgiu o Besta Fera, você já tinha um material de base pra começar?

Já tinha um material. Mas a ideia do Besta Fera no edital da Natura Musical era a de compor coisas novas, aliás, com outras pessoas. Pedi pro pessoal me mandar letras pra que eu pudesse compor em cima, então compus com Rômulo Fróes, Ava Rocha, Clima, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Tim Bernardes, e aproveitei algumas outras coisas inéditas que já haviam sido compostas em diferentes épocas, como “Obstáculos” e “Valor”.

O Besta Fera entrou no edital da Natura Musical de 2017, quando você começou a trabalhar de fato no disco?

Eu comecei em 2018, mas aí eu caí com uma broncopneumonia. Um dia, eu estava saindo da casa do Kiko Dinucci, em São Paulo, nós tínhamos tido uma reunião, eu, o Kiko, o [baterista] Thomas Harres, o Rômulo, o Gui [Helds, guitarrista], e eu tinha saído da casa do Kiko e fui pegar o avião. Aí a funcionária da empresa aérea não me deixou embarcar, sacou que eu não estava legal, e me internaram num hospital em São Paulo. Não lembro de absolutamente nada, só de quando acordei, dez dias depois, dopado e respirando pela máquina.

E como essa experiência influenciou o disco? Tem um saldo positivo nisso?

Tem! A vontade de viver, de continuar o trabalho e continuar realizando o disco. É preferível viver, né? A criação foi saudável pra isso. Começou na casa do Kiko e, depois dessa história toda, e da recuperação física, concretizamos o disco.

Como foi a escolha do time que está no disco?

O Thomas Harres já estava tocando na minha banda com o Pedro Dantas, baixista. Era uma banda bacana, a gente estava tocando durante os últimos cinco anos. E o Thomas bolou um show na Audio Rebel, aqui no Rio de Janeiro, pra gente fazer uma jam, digamos assim, convidando o Kiko Dinucci. Aí nós fizemos um improviso com o meu repertório, “Mal Secreto”, “Gothan City”, uma série de outras coisas, e, a partir daí, formei uma amizade e uma admiração pelo Kiko e começamos a fazer coisas juntos. Já o Tim Bernardes ia tocar no Circo Voador e me convidou pra dividir o palco com ele e O Terno. Com a Ava Rocha eu já tinha relação, já tínhamos feito algumas coisas juntos, ela é filha de um grande amigo meu, o Glauber Rocha, e também me aproximou de um outro pessoal jovem, compositores novos. Então, juntando essas coisas todas, quis fazer um disco “paulioca”. Paulista com carioca. Saiu o edital da Natura Musical, aí a gente pensou: “vamos fazer o disco em São Paulo com esse pessoal, o Rômulo Fróes, Clima, Rodrigo Campos…”. Eles são uma turma, né? E eles foram me apresentando a turma. Eu havia pedido que me mandassem letras, foi isso que aconteceu, eles mandaram várias coisas e eu comecei a trabalhar em cima delas. Mas não sozinho, com o Thomas, com o Kiko, com o Rômulo. Foi o resultado daquilo. É um trabalho nosso, coletivo. Como coletivo mesmo! Nós criamos na hora, no estúdio, várias coisas. As orquestrações, os arranjos…

O conceito do disco, os temas, essas coisas já existiam antes de irem para o estúdio ou vocês criaram na hora?

Construímos tudo juntos. Agora, antes, eu convidei o Kiko e o Thomas Harrres pra ir na minha casa em Penedo, aqui no Rio de Janeiro, no meio da mata atlântica, pra gente bolar algumas coisas e dar um start na história. Passamos alguns dias no meio do mato tendo ideias, conversando, tocando, e fomos gravando. Depois de ter um certo material, fomos pra São Paulo já com a ideia básica, entramos no estúdio e continuamos a criar.

E como é estar no ambiente do estúdio pra você?

Olha, eu gosto de estar enquanto a gente está trabalhando. Enquanto você tá criando no estúdio, é muito engraçado, é muito divertido. Agora, acabou, eu quero ir pra casa. Nos meus outros discos, sempre entrei no estúdio já com as coisas prontas. Esse [Besta Fera] foi uma aventura um pouco mais engraçada porque a gente criou dentro do estúdio, ficou lá bolando coisas.

Como você avalia esse novo trabalho em relação ao resto da sua discografia?

Esse tem mais proximidade com o disco de 72, o Jards Macalé, que eu gravei com o Tuti Moreno e com o Lanny Gordin. Naquele disco, a gente ensaiou no porão do Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, e, quando entramos no estúdio, gravamos praticamente ao vivo. E saiu meio sujo. Esse outro [Besta Fera] tá mais limpo tecnicamente, mas ele tá sujo também, mas a sujeita foi proposital. A base foi Pedro Dantas, o Thomas Harres, e o Guilherme Held, esse trio foi a base como se fosse no de 72. Depois, fomos botando várias coisas em cima, tem essa relação mais com o de 72 do que com os outros discos.

E esses se ligam também por uma questão de temática e estética de experimentação?

Também, eu acho. Porque você vê que cada faixa é uma faixa. O “Vampiro de Copacabana” é uma coisa, “Obstáculos” é outra, “Pacto de Sangue” é outra coisa, “Tempo e Contratempo” é outra, “Longo Caminho do Sol” é outra coisa, e o “Buraco da Consolação”, que eu fiz com Tim Bernardes, é outra coisa também, então ele tem uma amplitude bastante grande. É um leque de formas.

Mas ao mesmo tempo é uma obra inteira bem coerente.

É, ele tem um princípio, um meio e um fim, né.

Como foi fazer essa narrativa?

É como se fosse um filme. Porque todo mundo ali é ligado ao cinema, ao teatro, são músicos que tocam em teatro, que gostam de poesia, amam toda forma existente de arte. Então, foi mais fácil fazer esse sentido. Na hora de montar o disco, ficou como se fosse uma coisa una, né? Com princípio, meio e fim, como se fosse um filme mesmo.

E esse filme se relaciona aos seus sentimentos? Qual é a história que está sendo contada?

Vida e morte. (risos) E como se você, de repente, visse que a gente tá à beira do caos, à beira do fundo, à beira da esquerda, da direita, enfim, na borda, sempre na borda. Tem obstáculos na borda do precipício, tem vezes que ele é o início da vida, do nascimento do humano, peixe vira pterodáctilo, morre, e depois, com a morte, ele volta de novo. Mas volta de outro jeito. Bem aquela história do “Longo Caminho do Sol”, que é, no fundo, um elogio à bomba H. Tem um corinho fantástico que alegremente canta “lalalala / e a bomba H?”. É um absurdo. Mas nós vivemos à beira do caos, assombrados sempre pelo poder da bomba H.

O mundo inteiro parece estar em um momento tenso e o disco reflete isso.

Reflete completamente isso. Por isso a gente diz que é um disco de 2019 pra frente. Ele fala do agora pra frente.

Outra questão bonita do disco são as homenagens presentes nele. A capa do Cafi, o Capinam. Como surgiu a ideia de trazer pra história esses personagens que tinham já uma relação contigo?

É, Capinam é um grande parceiro, querido, desde “Gotham City” até hoje. E essa música [“Pacto de Sangue”] já estava feita há um tempo, mas era inédita, e eu quis trazer Capinam pro disco porque sempre foi um parceiro fiel maravilhoso. E o Cafi é meu irmão, parceirão da minha vida, não só fomos muito amigos como ele fez capas maravilhosas, O que faço é música, Amor Ordem e Progresso e Macalé Canta Moreira. E ele fez questão de clicar esse disco de qualquer maneira. Então, no dia 28 de dezembro, fizemos várias fotos e ele me apareceu com essa foto maravilhosa, escura, mas iluminada. E morreu, de repente, no dia 1 de janeiro. Foi o último clique que ele deu. É um grande profissional, um grande fotógrafo, e é um clique afetivo, né. Ele ia naturalmente pro disco.

Queria que você contasse a história de “Valor”, que é uma gravação inédita de 81.

Eu fiz essa música antes de 81. Eu registrei ela numa fitinha cassete, e ela fala claramente da minha relação com o meu trabalho, com a minha profissão, a minha criação. “Que saibam do valor de minhas canções, se boas ou más, pouco me importa”. Então, fala do meu trabalho, quis fechar com ela. Inclusive, tivemos que fazer um trabalho técnico na fita cassete pra que ela ficasse com o nível sonoro do disco.

E pra 2019, como estão seus planos? O que você tem em mente? Vem uma turnê por aí com o disco?

É. O lançamento vai ser em março em São Paulo no Auditório Ibirapuera, depois no Rio de Janeiro no Circo Voador, e depois vamos sair em turnê com o disco. Talvez eu vá pra Portugal depois fazer o festival MIMO, que eu fiz dois anos atrás também. E, de Portugal, vou pra Londres fazer algumas coisas na Europa. Agora é trabalhar o trabalho.

A ideia dos shows é a de que essa banda toda participe?

Em São Paulo e no Rio, sim. É muita gente, pra levar todas essas pessoas precisa de muita produção e vamos ver se isso se realiza. Se não, vou sair com esse trio somado com trombone e mais uma percussão.

Já saiu o clipe de “Trevas”, tem outros a caminho?

Tem. Possivelmente vem aí um clipe do “Vampiro de Copacabana” e depois do “Buraco da Consolação”.

Tem alguma outra questão importante que você queira apontar?

Só valorizar o pessoal dos músicos. Que é o Pedro Dantas no baixo, Thomas Harres na bateria, o Gui Helds nessa guitarra maravilhosa, ele é praticamente filho do Lanny Gordin. E é um trabalho coletivo, não é só meu, é nosso, de todos nós. E eu gostaria que fosse ouvido assim, como um trabalho em conjunto, é uma soma de vários talentos.

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08/02/2019

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes