Entrevista | Com segundo álbum, Julie Byrne transcende na música

03/11/2017

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Tássia Costa

Por: Tássia Costa

Fotos: Ariel Fagundes

03/11/2017

“Era a primeira tarde quente do ano. Eu andei ao lado do Oceano Atlântico enquanto a Terra ganhava vida ao sol. Havia uma sensação palpável de emergência em tudo. Eu senti em mim mesma também, e lembro de pensar que não trocaria esse sentimento por nenhum outro… Nem mesmo felicidade.”

Esse foi o momento de iluminação vivido por Julie Byrne que deu origem ao título do seu segundo álbum de estúdio, como ela mesma conta no release de divulgação. Not Even Happiness tem nove faixas poéticas, cantadas em uma voz doce que parece flutuar sobre as melodias levinhas criadas pela cantora com seu violão acústico. Super aclamado desde o primeiro momento, o disco foi responsável por trazê-la ao Brasil com uma turnê de apenas duas datas, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, onde nos encontramos no auditório do Instituto Ling.

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Ao vivo, ela deposita toda importância que a música lhe representa em todos os gestos, pausas e interações com o público. Esse é um momento leve e talvez um dos únicos em que ela parece criar raízes, mas ela definitivamente não pretende se fixar em um lugar só: depois de mais de dez anos morando em várias cidades dos Estados Unidos, Julie é intensamente apaixonada por cair na estrada, pela natureza e pelo minimalismo, características pelas quais também me identifico profundamente e que nos rendeu um acordo de nos encontrar em nossas andanças pelo mundo ao fim da entrevista, que você lê a seguir.

Sua conexão com a música é muito intensa e isso ficou bem nítido quando vi você em cima do palco, o sentimento era de que estava participando de um momento muito especial. Eu li que seu pai tocava violão, e talvez essa seja só uma impressão, mas tem alguma memória dele que desperta em você quando está ali tocando e cantando de olhos fechados?
Sim, essa é uma ótima pergunta porque, na verdade, o violão que eu toco e trago na turnê é o que eu herdei dele (risos); e essa é a primeira vez que notei isso, mas é o primeiro violão que ouvi na minha vida inteira, ele tocava quando eu era criança. Então sim, pensando sobre isso agora, tem muito significado para mim esse instrumento.

Dá para perceber que é algo que se aproxima até do religioso, o jeito que você manuseia ele.
Que ótimo. A energia faz toda diferença e isso tem tudo a ver com a reciprocidade entre todos que estão presente. Eu sinto que eu não consigo fazer um bom show se esse espírito não estiver aqui, sabe? Mas me colocando no lugar de uma pessoa na plateia, eu nunca tinha parado pra perceber o quanto eu contribuo para a energia do lugar. Então quando todo mundo está se sentindo presente e conectado é algo muito poderoso, muito especial.

De onde vem essa espiritualidade que você deposita na sua música? É algo que acontece naturalmente ou você consegue induzir o sentimento para que esse momento seja sempre marcante?
Fico muito feliz que você tenha tido essa experiência porque a música sempre foi um espaço muito terapêutico para mim e essa é a razão que me fez continuar na música mesmo quando não era financeiramente sustentável. Nunca pareceu uma opção abandonar isso porque é como se fosse uma extensão do meu próprio coração. E é verdade, fico satisfeita que você tenha sentido isso. Quando eu canto e quando tenho a honra de tocar ao vivo para outras pessoas – pessoas que escolheram vir ao show por vontade própria -, eu nunca quero pensar que é algo já garantido, eu quero apreciar cada momento e dizer cada as palavras dando significado real a tudo. Depois que eu faço turnês, isso se torna muito menos sobre minha relação com a música e muito mais sobre minha relação de troca com as pessoas para quem eu apresentei essas músicas naquele momento.

É curioso que a solidão e o contato com a natureza são temas recorrentes em suas músicas e você não tem nada disso aqui, nesse momento de troca que ocorre durante o show. Você está se conectando com estranhos, quando na verdade você é uma pessoa mais quieta, é meio louco isso e eu acho que torna tudo ainda mais mágico.
É engraçado que as músicas têm vida própria e elas já conhecem pessoas que eu nem conhecia ainda (risos). Essa é uma das melhores partes da turnê, eu adoro conhecer pessoas, gosto de conhecer o máximo de pessoas possíveis quando tenho a oportunidade de fazer isso. Hoje não temos nenhum merch, mas normalmente, quando temos, somos nós mesmos que vendemos, então ficamos até a última pessoa ir embora. Nunca simplesmente juntamos nossas coisas e vamos embora.

Por falar em merch, ouvi dizer que você tem um sonho de algum dia escrever livros feitos a mão para dar de graça nos seus shows para as pessoas, isso foi uma ideia totalmente nova e incrível para mim.
Ah, sim! (Risos) Eu quero muito fazer isso. Tenho vivido em várias cidades ao longo de quase uma década, eu acho. Quase dez anos que venho morando em cidades por aí… E depois do ciclo dessa turnê vou me mudar para a região upstate de Nova York com alguns amigos e espero que esse tipo de ambiente e acessibilidade ao mundo natural de um jeito que não tive por tanto tempo talvez crie mais inspiração para conseguir concretizar algo assim. Porque eu adoraria ter coisas assim, que posso apenas dar de graça, como um gesto de agradecimento.

Espero que você consiga mesmo fazer isso.
Eu vou mesmo tentar! Eu quero muito mesmo, obrigada pelo incentivo e por ter me lembrado disso.

Você é uma musicista autodidata e faz todas as suas músicas sem conhecer teoria musical, compõe tudo por percepção, audição e sentimento. Existe alguma intenção sua de, em algum momento, se aprofundar mais no estudo da música ou você acredita que manter do jeito que você já faz deixa o processo de composição mais instintivo e honesto?
Minha relação com a música tem sido bem exploratória por eu não saber nada de teoria musical – ao ponto de não saber nem dizer os nomes da maioria dos acordes ou notas que estou tocando. Isso foi muito benéfico, embora talvez eu tenha desenvolvido alguns hábitos ruins, mas podemos também dizer que isso seja uma característica do meu contato peculiar com a música (risos). A maioria dos músicos que são fingerstyle [técnica de tocar sem palheta] tocam violão com todos os cinco dedos e eu só toco com três porque eu estabilizo minha mão com os outros dois. Depois de dez anos trabalhando nisso sozinha, sinto que eu adoraria ter um professor e acho que, quando começar a trabalhar no próximo álbum, isso é algo que eu pretendo procurar. Não necessariamente acho que preciso aprender teoria, mas quero ter conhecimento de novas técnicas.

Você é uma aventureira, então nada mais justo do que se aventurar na música assim como você se aventura na vida no geral.
Sim, sim! (Risos) Muito bem colocado.

Por falar em se aventurar, e já que essa é sua primeira vez aqui no Brasil, fiquei curiosa em saber se você moraria em outro país. Porque, até agora, todas as cidades em que você viveu foram dentro nos Estados Unidos, né?
Sim, eu adoraria fazer isso. Acho que especialmente pela oportunidade de aprender outro idioma e me familiarizar mais profundamente com outra cultura, me sinto muito limitada agora. Conheço muitas pessoas quando viajo que podem falar pelo menos dois idiomas, não é incomum também conhecer pessoas que podem falar até quatro idiomas. É difícil porque não tive tempo de fazer muita coisa aqui ainda, viemos direto do aeroporto para o hotel e do hotel até aqui, mas posso falar da minha experiência no Rio de Janeiro. Achei a cidade encantadora e é difícil não pensar como a vida deve ser para quem mora lá.

Já descobriu o que move esse impulso meio nômade que você tem?
Penso bastante sobre isso de tempos em tempos e algumas vezes eu achei que tinha encontrado a resposta, mas logo depois senti que devia ser mais complexo do que aquilo. Inicialmente achei que talvez eu estava procurando alguma mudança exterior que pudesse trazer uma satisfação interna que eu não estava vivendo. E depois de morar em vários lugares diferentes, percebi que tudo que eu vivi vinha do mesmo filtro, não era um novo começo, não era uma nova relação, integração ou nada disso, era algo dentro de mim que precisava ser reconciliado, que eu precisava dar mais atenção. E talvez isso é algo que eu evitei muito fazer no passado. Isso foi uma das coisas que eu pensei, mas também genuinamente gosto mesmo de viajar e eu sinto muita satisfação que as relações mais significativas da minha vida foram promovidas pela música ou pelos lugares que ela me levou, sabe?

Uma das experiências que você teve nessas andanças foi trabalhar como guarda florestal no Central Park de NY. Como isso mudou sua perspectiva sobre as coisas? Você fez novas descobertas?
Sim, era um cargo sazonal, só trabalhei lá durante o verão, mas eu senti que os guardas sênior com quem eu estava trabalhando tinham posse de muitas informações fascinantes. Eles sabem propriedades medicinais de várias plantas que crescem lá, eles sabem os nomes dos insetos e dos pássaros e toda vida selvagem que faz de lá sua casa temporária, então eu estava extremamente maravilhada pelo conhecimento que eles têm. Agora estou muito focada na música, mas tenho certeza de que chegará o momento em que vou voltar para esse tipo de estudo.

Você estudou ciência ambiental…
Era apenas algo que eu tinha um grande interesse, uma curiosidade insaciável, mas é do mesmo jeito que acontece em tudo na vida: quanto mais você aprende, menos adequada parece sua base de conhecimento (risos), você só quer expandir mais e mais.

E eu nunca notei isso antes de trabalhar no departamento do parque que existe uma devoção sincera por parte deles pra fazer daquele espaço um lugar para as pessoas. E nossa sargenta sempre dizia – porque as pessoas que frequentam o lugar têm dúvidas, ou precisam de algum tipo de ajuda -, ela sempre respondia a eles na perspectiva de “isso é seu, me diga o que você precisa, porque esse ambiente é seu, não é nosso”. Eu amei ver como era autêntico esse princípio deles, não era uma coisa de marketing, eles realmente absorvem isso e foi algo muito bonito de ver.

Ouça abaixo o disco de estreia da Julie Byrne, Rooms With Walls and Windows:

E enquanto você trabalhava com eles, podemos dizer que você também abraçou essa causa, você estava fazendo tudo para os outros.
Minha função era ajudar os guardas permanentes e facilitar os programas de educação ambiental para as crianças envolvidas principalmente com o acampamento de verão, e foi maravilhoso. Mas meus eventos preferidos eram abertos ao público. Todos nós precisamos voltar ao nosso relacionamento com o verde, é até difícil explicar como isso afeta o nosso humor e nosso senso de bem estar. Foi ótimo estar envolvida em algo que promovia essa experiência acessível para pessoas que moram nas cidades.

É perceptível quão passional você é quanto a isso quando você fala sobre isso. E a gente percebe essa aproximação que você tem com a natureza em suas músicas também, e isso traz muita paz, como se sua música causasse esse mesmo efeito do contato com a natureza.
Fico feliz que seja assim, a gente precisa de um mundo assim.

Notei que você não é muito ativa nas redes sociais, você acha que elas nos afastam desse toque orgânico com o mundo ao nosso redor?
Existem músicos e outras personalidades criativas que têm um carisma natural para lidar com esse tipo de plataforma. Mas eu nunca fiz isso porque eu não sei como interagir e no fim parece mais como um jogo de números, e é difícil se desligar desse tipo de expectativa. Esse é um tipo de sentimento que não quero ter, embora eu goste de acompanhar o que meus amigos estão fazendo. Tenho só um Instagram, em que não sou muito ativa – eu nunca posto nada -, mas nós duas podemos nos falar por lá depois para manter o contato e se encontrar de novo em algum momento no futuro. Até mesmo para, quando eu fizer os meus livros escritos à mão, poder te avisar!

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03/11/2017

Lou Reed é minha bússola.

Tássia Costa

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