27 anos de Racionais MC’s | Fama, política, mídia e “Cores e Valores”, por KL Jay

20/08/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

20/08/2015

Quando o Racionais MC’s fez sua primeira gravação, em 1988, o mundo era outro. O grupo surgiu na periferia de São Paulo disparando versos e beats tão fortes quanto a violência que cercava o cotidiano de Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay. Após 27 anos e seis discos de estúdio que mudaram o prumo da música brasileira, o grupo se mantém gigante entre os grandes, uma fortaleza de rimas e samples que defende como for preciso o seu lugar nos rádios e palcos de todo país.

Agora, está acontecendo a turnê de lançamento do seu álbum mais recente, Cores e Valores (2014). No próximo dia 22, o grupo toca em Porto Alegre; no dia 29, em Goiânia; no dia 18 de setembro, em Maceió; e, no dia 26 de setembro, em Balneário Camboriú. Trocamos uma ideia sobre o momento atual do grupo com o KL Jay. Seu depoimento é um atestado de lucidez e revolta, veja abaixo.

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O Racionais MC’s de antigamente. Da esq. pra dir.: Edi Rock, Mano Brown, KL Jay e Ice Blue.

Vocês passaram 12 anos sem lançar um disco de inéditas. Por quê?
Estávamos nos atualizando com o mundo, que deu uma mudada, musicalmente falando, mas não só na música. O comportamento do mundo deu uma mudada. Então, estávamos esperando, analisando essa mudança geral que teve. E cada um de nós tem a sua vida, somos independentes, a nossa empresa é independente, não tem uma grande gravadora nos administrando, nós mesmos que administramos tudo. Então é mais trabalhoso. Você tem que ter mais cautela, tem que ter mais tempo pras coisas acontecerem. Mas resumindo, estávamos esperando essa mudança do mundo, que é o que a gente tá vendo hoje, né? Internet a milhão, instagram, facebook a milhão, o rap no seu mais alto estágio… O rap hoje é a música mais ouvida de todos os tempos, mais ouvido do que foi o Rolling Stones e os Beatles. O público se misturou também, tá mais democrático. A gente tava esperando tudo isso acontecer, analisando.

Cores e Valores é um disco mais democrático em função dessa preocupação de vocês?
É um disco atual que não deixou pra trás as raízes do rap feito nos anos 2000. Se você ouvir “Quanto vale o show?” ou “Você me deve”, vê que essas músicas têm a essência do rap feito nos anos 2000. Mas também é [um disco] atual, como em “Cores e Valores”, “Eu Compro”, “O Mal e o Bem”…

E como vocês lidam com esse desafio de se manterem atuais?
É uma preocupação nossa, né? Nós somos pais e a gente tá vendo os filhos curtindo vários tipos de música, a gente tá vendo o mundo. Reconhecemos que a essência dos anos 90 e começo dos anos 2000 é muito forte, mas a gente não pode ficar pra trás. A gente tá em 2015, é o mundo atual, né? Então, é uma mistura da atualidade com um pouco do passado, que eu acho muito relevante.

Chama atenção o fato de as faixas serem muito mais curtas do que nos outros discos. Isso foi uma tentativa de deixar o disco mais acessível para um público mais amplo?
Olha, esse disco aí é uma mixtape. É um disco pequeno, com pouco tempo, com muitas faixas. É uma mixtape.

E vocês já têm algo engatilhado pra um futuro próximo?
O Racionais não gosta de prometer nada. A gente vai fazendo as coisas conforme o momento, conforme o que for decidido. Racionais é imprevisível. Tá todo mundo escrevendo, Edi Rock, Brown, Blue… Já tem músicas no pente! Mas não dá pra prometer nada. É melhor assim! É melhor não prometer. É melhor o fator surpresa.

“O Mal e o Bem” é um som que estourou, toca direto na rádio. Vocês esperavam o sucesso dessa faixa ou foi uma surpresa?
A gente nunca espera, é muito pretensioso você esperar o sucesso, sabe? Mesmo que você ache que a música é boa, não dá pra falar que ela vai ser um sucesso porque é o público que vai dizer. O acaso natural das coisas é que vai dizer. O sucesso é uma coisa muito imprevisível. O sucesso natural, não o sucesso fabricado, é muito imprevisível. Você nunca sabe. Você pode achar que é um puta som e ele não acontecer, entendeu? É tudo muito relativo. A gente nunca espera que uma música seja um hit ou um sucesso. Não temos essa visão extremamente comercial da coisa, sabe? A gente faz as músicas e já era. Se ela acontecer ou não tem que ser pelas vias naturais.

Na capa do Cores e Valores vocês estão armados e mascarados. Mas, ao mesmo tempo, o som do disco parece um pouco menos agressivo do que o dos anteriores, até pelas letras.
Então, se você ouvir com mais atenção, [verá que] o disco está mais agressivo porque ele está mais sutil. Ele tem mais experiência, entendeu? Se você ouvir com atenção as músicas, [vê que] é um disco mais maduro, mais sólido. Eu não vou dizer que é um disco melhor do que os demais. Eu, particularmente, dentro do Racionais, não posso fazer essa avaliação. Mas é um disco tão perigoso quanto o Nada como um dia após o outro dia, se você analisar a fundo. A gente não tem mais 30 anos, a gente tá na faixa dos 40… E quando você tem a experiência, você é mais perigoso, é mais agressivo. E nem se mostra tanto assim.

Vai direto ao ponto.
Ou não. Pega um outro caminho pra ir no ponto. Dá pra fazer várias avaliações, fica muito no ar. Por exemplo, no verso da “Cores e Valores”, que o Brown fala: “São Paulo tem dinheiro pra caralho, pra trincar né?”, e aí, ao mesmo tempo, ele já muda: “Sem perder o foco, olha o fluxo, vê Cross Fox, Tucson, x5 é estouro, preto, amarelo ouro é luxo”. Isso é muito perigoso. Não é qualquer um que fala isso. “Na linha pontilhada eu vou indo, indo, indo, na terra cujo herói matou um milhão de índios”. Para o Sistema, para a Matrix, é muito mais perigosa essa frase. É muito ameaçador pro Sistema!

O objetivo de vocês é abalar o Sistema?
Ah, é falar pra eles: “Aqui não, né? Vou me degradar pra agradar vocês? Nunca!”. Isso é muito perigoso, é muito ameaçador.

Nesses 25 anos vocês conquistaram muita coisa: fama, respeito de todos os círculos da música no Brasil… Pelo quê vocês lutam hoje?
Ah, a luta continua. Eu acho que é uma pergunta um pouco dramática, né? A luta é a mesma, mas ela se aperfeiçoou também. A luta é pela sobrevivência individual, pela sobrevivência do coletivo, por estar cada vez mais inteligente. A luta é por ter dinheiro porque o dinheiro faz as coisas acontecerem, com o dinheiro você pode fazer muitas coisas boas acontecerem com muitas pessoas, você pode ajudar sua cultura, sua música, você pode ajudar a estruturar sua família. A luta é por estar no topo, sim. Ter um prédio alto no meio dos demais e que esse prédio não caia, tenha uma estrutura forte. É muita coisa, se eu for responder sobre luta, não é “uma” luta, é um contexto, entendeu? É lutar por você, pela sua família, por um mundo melhor, mais justo, mais honesto. É uma luta pela afronta ao Sistema que sempre quis controlar você e os demais, entendeu?

Por um lado, vocês acabaram se tornando até um símbolo disso.
É, veja bem. A gente não quer ser esse símbolo, a gente faz o que acha que tem fazer. O símbolo, a fama, é consequência. Nós não buscamos isso. Eu quero deixar bem claro porque isso já vem desde o início da carreira. Nós somos contestadores, somos perigosos, tentamos melhorar com o passar dos anos, mas nunca quisemos esse lance da fama, do poder, isso é uma coisa que vem de graça conforme as suas atitudes.

Em função de toda história da banda, acompanhando as redes sócias, os comentários na internet, fica claro que algumas pessoas se sentem no direito de cobrar uma determinada postura de vocês, seja uma postura mais política ou mais crítica a isso ou a aquilo. Como vocês lidam com a cobrança que as pessoas, às vezes até os fãs, colocam sobre vocês?
Então, isso é uma postura conservadora, dramática, uma postura típica do Brasil. O Brasil tem esse lance do drama, da culpa, de que ser pobre e favelado e fudido é legal, é bom, entendeu? É uma culpa imposta pela religião inclusive, que [diz que] o legal é ser pobre, estar fudido, que a prosperidade não é boa, que os ricos não prestam, que ter dinheiro não é legal, sabe? É um contexto que fica preso na sonoridade, no que era pra ser falado no final dos anos 90, começo dos anos 2000, uma época em que era necessário dizer o que foi dito. Tô falando de hip-hop mundial, nem só do Brasil. Embora os problemas ainda existam e ainda aconteçam, muita coisa foi melhorada, muita coisa mudou, e a gente não pode ignorar isso. Essa cobrança é uma cobrança conservadora de quem ficou preso no passado. Eu acho que o passado e o presente andam juntos, entendeu? Eu sou partidário do equilíbrio. Acho que você não pode ficar só no presente nem só no passado, você tem que equilibrar as coisas. Estamos em 2015 e as coisas do passado ainda existem, mas você não pode ignorar que 2015 está aí. O presente está aí, acontecendo, com coisas do passado. Pra muitas pessoas, é difícil analisar esse contexto. É por isso que, hoje, a maioria dos fãs do Racionais são jovens. Porque os jovens estão aqui, hoje, na atualidade, no presente. Eles têm a mente mais aberta. E eles entendem. Eles ouvem as nossas músicas do passado e se identificam. Eles piram, eles chapam também.

E vocês conversam entre si sobre essas questões todas? Vocês se incomodam com esse tipo de cobrança?
Se não conversássemos sobre isso, as músicas não estariam aí, né?

O Racionais tem uma posição bem delicada em relação à mídia. Vocês veem a mídia mais como aliada ou como um potencial inimigo?
Eu vejo como as duas coisas. Como eu te disse anteriormente, tento equilibrar tudo. Existe a mídia que quer realmente fazer um trabalho honesto e digno e existe a mídia que quer maquiar, que quer te prejudicar, que quer te difamar… Eu estou falando com você agora, você é mídia também, e eu estou conversando com você, estou acreditando no seu compromisso. É isso. Tem certos veículos que não dá pra você ir. Você faz uma análise e diz: “Eu não me identifico com o jeito deles de trabalhar, com a proposta, com a mentalidade desse determinado veículo”. São os dois lados. Eu acho que a mídia é importante, os fãs querem ouvir a sua opinião, o que você acha do mundo e da música. Muita gente quer ver isso, então é importante dar entrevista. Mas tem o outro lado que quer te difamar, te contradizer, quer te explorar, te expor. E você tem que saber lidar com isso tudo.

Entendi. E sobre política, ontem [16 de agosto] foi um dia politicamente importante. Você tem alguma posição sobre as manifestações que tão rolando pelo país?
(Gargalhadas) Resumindo bem resumida a ideia, é um partido querendo tomar o poder do outro. Não é por um país melhor, não é por uma nação melhor.

Fiquei curioso pela sua opinião, até porque teve o clipe do Marighella, que foi super impactante.
É, a gente tentou trazer uma realidade que nunca foi falada, nunca foi explorada. A gente quis falar de uma coisa real feita no passado que ninguém teve coragem de documentar.

Tem alguma outra questão que você queira comentar?
Coloca aí! Abre aspas: O mundo será muito melhor quando a grande maioria da população parar de se alimentar de animais assassinados. Fecha aspas.

Faz tempo que você não come carne?
Eu sou vegetariano há 28 anos. É o meu estilo de vida.

E por que você adotou essa prática?
Ah, isso é uma história antiga. O Milton Sales, que trabalhou com o Racionais durante anos, quando a gente começou a andar junto, ele também começou a produzir uma banda de reggae, o Walking Lions, e os caras não comiam carne. Aí ele chegou pra mim e disse assim: “Kleber, para de comer de carne”. Ele só falou, curto e grosso. Não explicou, não teve teoria nenhuma comigo. Eu guardei aquilo e continuei comendo carne. Um dia chegou um vendedor na porta da minha casa vendendo um livro que se chama “Viva Natural”. O vendedor foi na porta da minha casa vender esse livro, é mole? Aí eu segui os sinais, me interessei porque lembrei do Milton Salles. Comprei o livro do cara, li, e mudou minha vida. Decidi parar de comer carne nas primeiras páginas. Aí eu fui me informando com o passar do tempo e cheguei à conclusão, depois desses 28 anos, de que o mundo vai ser muito melhor quando as pessoas pararem de consumir alimento produto do assassinato. Porque é isso que gera tudo isso que a gente tá vendo aí. Você se alimentar do que foi assassinado, do que está morto, gera toda violência, toda ganância, toda corrupção. É uma questão de energia.

É uma cultura da morte.
É a energia, né cara? Que vem sendo cultuada a muito tempo.

Então, pra finalizar, vocês têm algum interesse por uma religiosidade? Pelas letras, aparenta que sim.
É uma resposta muito particular, né? Eu acredito na lei do universo. Eu acredito na energia. As religiões estão aí, algumas, pra mim, são importantes, a maioria delas quer simplesmente controlar a humanidade. Mas todos os caminhos levam a um só, ao universo, a Deus, a essa força que está no ar e a gente invoca várias vezes para o Bem e para o Mal. Então, não tenho religião nenhuma. Me identifico com o espiritismo, me identifico com o candomblé, me identifico com o budismo, me identifico também com o catolicismo, mas eu não faço parte de nenhuma delas porque, pra mim, em todas elas tem um segmento que quer controlar o outro, mandar no outro. O budismo eu acho bem legal. O que eu tenho menos críticas é em relação ao budismo. Mas eu não sou nenhum desses, eu sou um pouco desses. A minha religião sou eu mesmo. A minha religião é a espiritualidade individual, eu comigo mesmo.

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20/08/2015

Jornalismo, música, astrologia, fotografia, vinil, tarot, direitos humanos, mitologias, fogueiras e a arte do bem-viver me interessam.
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes