RZO solta “Quem Tá No Jogo”, seu 1º disco em 14 anos, e avisa: “Não estamos acomodados”

02/06/2017

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

02/06/2017

Escrevendo mais uma página da história do rap nacional, o RZO lançou hoje Quem Tá No Jogo, o seu terceiro disco de estúdio. Após 14 anos de intervalo desde que saiu Evolução É Uma Coisa, o grupo formado em 1987 comemora 30 anos de trajetória com um álbum pesadíssimo, ouça abaixo:

“O projeto de um disco novo vem acontecendo há algum tempo”, explica Sandrão em entrevista. “Muitas pessoas pediam para que o RZO voltasse com um novo trabalho. Foi um consenso total, todos queriam, e a gente fica muito feliz com isso”, diz o rapper. Seu parceiro Helião concorda e lembra que a pausa da banda fez com que sua imagem ficasse cristalizada no tempo: “O grupo passou por um recesso de dez anos e paramos no auge, o nome ficou intacto”.

Além de Negra Li, presença de honra na família RZO há muito tempo, Quem Tá No Jogo traz um time extenso de convidados. Estão presentes os norte-americanos Bone Thugs-N-Harmony, Criolo, Rael, Sombra, Lino Krizz, Nino Cobra, Junior Dread, Srta Paola, Bassinsane, Billy SP, Gaudy e até mesmo a Bateria da Gaviões na faixa “Maria Luiza”. Diferentes gerações de músicos foram chamados mantendo uma essência que a banda sempre teve, como comenta DJ Cia, responsável pelos beats do grupo e pela produção de quase todas as faixas do disco:

– O RZO ficou conhecido em outros gêneros exatamente por isso, fizemos músicas com o Charlie Brown Jr., por exemplo, e muita gente que não conhecia o RZO ficou conhecendo. Convidamos as pessoas de acordo com as músicas. Quando estávamos em estúdio fazendo os sons, pensávamos: “Ah, essa ficaria loka com o Criolo“, etc, e assim foi. Faltaram várias participações que ainda queremos fazer, inclusive com a galera do Haikaiss, que acabou não dando tempo, mas era para ter ido pro disco. Outra que seria pesada é com o meu irmão Seu Jorge, então esse álbum é só o começo do que está por vir! – diz o DJ.

Antes do disco sair, já haviam sido divulgados os singles “Jovens à frente do Tempo”, “Destinos” (com Negra Li e Criolo) e “Paz em meio ao caos”, a faixa que traz a participação do Bone Thugs-N-Harmony. Essa música já se destaca pelo fato de contar com um nome tão importante do rap dos Estados Unidos, em atividade desde 1991, mas DJ Cia comenta ainda que fazê-la foi um grande desafio. Sua produção começou a partir de um beat criado por Babey Drew, DJ do Chris Brown, porém ele não conseguiu chegar no resultado que o RZO precisava para aquele som:

– O Bone Thugs é um grupo lendário pra gente, fizeram hit até com o Tupac. Como era uma participação muito pesada, achamos que a batida tinha que ser pesada também. O beat a princípio veio com uma levada meio pop e sabíamos que não era o ideal pra esse som. Alteramos pra deixar num jeito bacana e que tivesse a ver com os dois grupos – conta DJ Cia.

As referências da música brasileira e internacional se misturam com harmonia ao longo de Quem Tá No Jogo e isso é o resultado da pesquisa constante dos membros do RZO, que nunca se afastaram da música apesar do recesso do grupo. Ao ouvir o disco, sente-se na pele a dureza da periferia do Brasil, mas também uma vontade forte de mexer o corpo com o groove pesado das batidas graves típicas do rap norte-americano: “O amor pela música derruba barreiras, não temos dificuldade de admitir que o rap brasileiro pode aprender muito com o rap dos Estados Unidos. Ainda mais hoje, que temos contato direto”, diz Helião.

– A maioria na juventude tem preconceito com música brasileira e, quando atinge mais idade, depois de conhecer muita música gringa, reconhece o nível técnico e criativo do som brasileiro, mesmo que não goste. Para quem curte, passa batido, mas, pra nós que estudamos, a música norte-americana é muito complexa, com certeza é uma referência muito forte pra quem sabe absorver. Quando você ouve uma boa música, conclui que por trás há uma história de sacrifício, seja no investimento, no estudo, ousadia… Existe dedicação, sangue e suor investido, seja uma música do Brasil ou não – comenta o rapper.

O ato de fazer pontes entre contextos e pessoas diferentes sempre foi e continua sendo uma das maiores virtudes do RZO. Além de unir referências gringas e nacionais, suas novas faixas seguem unindo uma mensagem social contundente ao mesmo tempo em que fazem o ouvinte se sentir bem. “Mesmo tratando-se de um grupo artístico, de música, entretenimento, ainda conseguimos conciliar isso com a mensagem de resgate e conceitos de família. [Estivemos] partindo de um princípio que parece clichê, mas determina o futuro: ‘a união faz a força'”, afirma Helião.

– As mensagens das letras sempre são muito importantes, cada um tem a sua ideia pra passar. Eu acredito que a música está aí para transformar. Tem músicas que envolvem a questão social e outras não, isso é normal. Nós trabalhamos com as coisas que a gente acredita e que achamos úteis para as pessoas, buscamos levar às pessoas um pouco mais de cultura e consciência para que elas tenham a oportunidade de ter o conhecimento para poder lidar melhor com a realidade em que a gente vive. Acho também que as pessoas devem conhecer o passado do rap, pois quando você conhece o passado, tem mais capacidade de entender o futuro – completa Sandrão.

Quem Tá No Jogo também traz um registro do RZO de 15 anos atrás, pois seis faixas do disco são composições escritas para entrar no Evolução É Uma Coisa (2003): “Rap É Isso Aí” (com Rael), “Tráfico” (com Nino Cobra), “Orelhada”, “Quem Tá No Jogo” (com Srta Paola), “Corrida” e “Lado Negro Da Força”. “São faixas antigas que escolhemos atualizar pro CD. Problemas do final da década de 90 voltaram com força total e alguns nunca deixaram de existir, como chacinas e a corrupção, o câncer do país. Na verdade, essas músicas esperavam justamente isso, uma bagagem de 15 anos para tratá-las com carinho, superando expectativas”, aponta Helião.

Também é importante destacar as vinhetas espalhadas pelo álbum, duas delas foram criadas a partir de gravações que os próprios fãs da banda enviaram a partir de uma promoção organizada pelo grupo. “Deixamos um número de Whatsapp e as pessoas podiam enviar ali seus áudios. Recebemos mais de mil áudios e tivemos que selecionar alguns para que se encaixassem nas faixas. Era para parecer a opinião da galera sobre o RZO, tinha gente cantando, gente falando frase do grupo, queríamos prestar essa homenagem a eles que fizeram o grupo estar de pé hoje”, explica DJ Cia.

Desnecessário dizer que a banda sabe bem que o rap é compromisso e que, sem proceder, não se para em pé. Há muita expectativa sobre o nome “RZO”, e os membros da banda estão cientes. “Responsabilidade é sacrifício e perseverança”, resume Helião. “Temos nossa caminhada, carreiras individuais e, como grupo, em algum momento tivemos desencontros, então é certo afirmar que não estamos satisfeitos nem acomodados. Vemos que o RZO vai fazer muito mais do que já fez, uma caminhada de responsa, escreve aí, satisfação garantida”, diz.

E pra quem veio lá de trás, o futuro não assusta. “O RZO sempre esteve atualizado, sempre foi a favor das novas tendências”, comenta Sandrão:

– As transformações do mercado foram coisas que a gente já previa. Estamos desde 1987 no movimento para que ele fosse forte, para que tivesse muitas outras pessoas envolvidas e assim criasse ramificações. O intuito foi melhorar a estrutura do rap para que hoje a gente possa trabalhar com mais profissionalismo. É super importante que isso aconteça e a gente se programou pra isso, estivemos focados nas novidades e nas novas tendências, mas continuamos fazendo o mesmo que fazíamos antes. O nosso foco é construir e unir.

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02/06/2017

Entre o bemol e o sustenido.
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes