Exclusivo|Savages fala sobre a vida no palco, seu disco novo e a depressão de Morrissey

01/02/2016

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

01/02/2016

Poucas vezes o amor foi retratado com tanta violência quanto no novo disco do Savages, Adore Life. Lançado no fim de janeiro, o álbum sucessor de Silence Yourself (2013) não apresenta um punho fechado em sua capa por acaso: o disco é, de fato, um soco.

“É sobre amor, topo tipo de amor. Amor é a resposta”, dizia o texto explicativo que o grupo lançou junto com o anúncio desse disco. Conversando rapidamente com Fay Milton, a baterista da banda, descobrimos que o disco está relacionado também a um estado depressivo que poderia muito bem ter sido cantado por Morrissey. O ex-vocalista do The Smiths com certeza influenciou o Savages a chegar onde chegou, conforme Fay explica.

Leia abaixo.

Seu disco novo acabou de sair, como você está se sentindo?
Sim, muito bem! Desculpa, acabei de chegar a Los Angeles hoje de manhã, estava em Londres, e minha mente ainda está começando a funcionar! Mas sobre o disco, estou me sentido me muito bem! Como você está se sentindo?

Eu estou bem animado! Mas deixe eu lhe perguntar, na sua visão, o que vocês conseguiram trabalhar nesse disco que não puderam no Silence Yoursef? Em termos de sonoridade.
Da outra vez, nós apenas trabalhamos as músicas que tínhamos pensando bastante na apresentação ao vivo delas. Nós fomos pra Londres gravar ao mesmo tempo em que estávamos fazendo shows por lá e aproveitando o tempo que passávamos juntas. As músicas antigas nós escrevemos após um bom tempo juntas. Já nesse disco novo adotamos uma mentalidade diferente nas composições. Nós já tínhamos o disco em mente e então fomos pra Nova Iorque, mais ou menos um ano atrás, e começamos a tocar as músicas que já tínhamos ao vivo. E foi aí que nós pudemos ter o sentimento real sobre elas.

E como foi essa experiência de ter tocado as músicas novas ao vivo antes de gravá-las?
Quando tocamos no palco, deixamos tudo mais suave e também mais quente, tudo ganha uma adrenalina extra, botamos mais energia. Então, tudo atinge um novo nível, isso sempre acontece com nossas músicas. E apesar dessa energia toda ao vivo, é sempre muito constrangedor pra nós. Nós só podemos fazer o que nós sabemos no palco, e aí tínhamos que lidar com canhões de luz, ventiladores… Certamente não foram nossos melhores shows. Mas sim, tudo muda quando nós estamos ao vivo.

Mas vocês criam sons ao vivo, não? Só improvisando.
Sim, sim, aconteceu mesmo. Algumas músicas nós criamos assim. “I Need Something New”, por exemplo, foi assim. Foi uma levada que nasceu no palco e nós arranjamos e transformamos em uma música. As faixas do novo disco foram muito trabalhas no palco.

Como você se sente quando sai do palco?
Bem, é diferente dependendo do show. Eu me sinto muito emotiva durante os shows e, às vezes, nós saímos do palco nos sentindo assim. Às vezes acontece aquele momento com as pessoas vindo dizer como o show foi bom ou que houve de errado. Mas em geral eu saio do palco querendo voltar pra lá! Só que isso não acontece porque nós não fazemos bis. Podem ser muitos sentimentos deferentes, se acontecer algo errado eu posso estar com muita raiva e pode ser um momento difícil. Eu descobri que não é um bom momento para tomar muito álcool porque eu fico exausta da bateria e isso não ajuda em nada.

É verdade que, em Adore Life, vocês quiseram fazer a música mais barulhenta possível? Jehnny Beth disse isso ao Pitchfork.
(Risos) Que loucura, né? Sim. É um disco bem divertido de ficar ouvindo. (Risos) Quer dizer, o que aconteceu foi que nós quisemos ir além do que fomos no disco anterior. Aí nós vimos quais eram as músicas que nós mais gostávamos, tipo “She Will” e “I Am Here”, músicas que são bem barulhentas. E no segundo disco, nós nos focamos para empurrar esse limite do barulho. Aí acabamos indo para outras direções.

Acho que nós estávamos muito ansiosas pra nos juntarmos e escrever esse segundo disco, curtimos muito estar juntas. Para nós é muito agradável e divertido isso. Após dois anos em turnê, nós ainda estávamos querendo muito tocar juntas. Eu sou muito transparente, e não acho que eu seja uma pessoa tão criativa assim. As mais criativas são a Ayse [Hassan, baixista], a Jehnny [Beth, vocalista]… E elas ficavam me perguntando sobre as músicas novas: “Fay, esse é o melhor jeito?”, e eu preferia ficar ali mais como uma passageira, observando, do que ficar questionando as motivações delas.

Vocês lançaram um texto apresentando Adore Life, e o texto acabava dizendo: “O amor é a resposta”. Pode-se considerar que o amor é o assunto principal desse disco?
Sim, acho que sim. São lados diferentes do amor, tem o lado doloroso, o nojento, o feio, o lindo, o fulminante, o sexual. Com certeza é um disco sobre os diferentes lados do amor. Para mim, é bem claro esse significado do disco. É um álbum baseado no amor, que é um sentimento estranho, certamente. Mas não tivemos a intenção de fazer “love songs”, não são feitas dedicadas a alguém que se ama mais do que tudo, sabe? Aquele tipo de coisa. São mais uma discussão sobre a afetividade do amor.

E vocês estavam amando quando fizeram o disco?
(Risos) Boa pergunta. Sim, eu estou. Acho que nós estamos, mais ou menos, em um momento de amor por nós mesmas, nos amando.

O que se ouve nas faixas do disco está conectado às vidas de vocês?
Nossa, com certeza. Jehnny é quem escreve as letras, então às vezes é algo muito pessoal dela. Algo que geralmente surge depois que ela fica olhando para as paredes procurando pela sua própria imagem. Acho que as apresentações ao vivo são tão impressionantes porque são uma forma de lidar com esse estado meio depressivo. Pessoalmente, acho que, nesse disco novo, o que vem primeiro são as letras. Elas são muito tocantes, pra mim. Às vezes, eu estou ali, tocando algo ebem devagar, olhando para as paredes, e começo a pensar nas letras e aí penso… “Ok”… (suspirando). (Risos) O que acontece, pra mim, são conexões mágicas entre as músicas e as nossas vidas. É muito especial.

Muita gente tem feito comentários sobre uma relação entre a letra de “Angel, Angel”, do Morrissey (onde ele canta: “They don’t understand the urgency of life”) e a de “Adore” (“I understand the urgency of life”).
Sim, sim.

Foi uma resposta de vocês ao Morrissey?
Certamente foi algo que nos veio à mente quando estávamos trabalhando na produção dessa música. Aquele trecho “I will die maybe tomorrow” é muito algo que poderia ter sido escrito pelo Morrissey. Tem muito a ver com aquele estado de se sentir deprimido para poder se sentir esperançoso, algo que o Morrissey com certeza usa muito em suas letras. É com certeza uma depressão pela qual o Morrissey poderia ter passado. Mas eu não posso falar mais especificamente sobre essa letra, teria que perguntar pra Jenh.

Ok. E nós podemos sonhar com uma turnê pela América do Sul em 2016?
Ai meu Deus… Nós iríamos amar isso! É tão maravilhoso pra nós ir pra América do Sul. A multidão! Aquela multidão enorme! É uma energia incrível. Sim! Nós mal podemos esperar para voltar à América do Sul. Eu acho que isso vai acontecer ao longo desse ano ou no próximo, mas não sei dizer. Para nós irmos aí, dependemos das agendas dos festivais. É o jeito de tornar possível nossa viagem até aí. Então, vamos ver!

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01/02/2016

Entre o bemol e o sustenido.
Ariel Fagundes

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