Exclusivo | A demolição do sagrado e a nova construção de feminino por Linn da Quebrada em “blasFêmea”

14/04/2017

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Carolina Cottens

Por: Carolina Cottens

Fotos: Nubia Abe e Vivi Bacco

14/04/2017

Lacre, fechação, close certo, pisa mais que tá pouco. Todas essas expressões provavelmente vão ser usadas pra comentar o mais recente lançamento de Linn da Quebrada. E não é pra menos. “blasFêmea” é tudo isso e mais um pouco. É arrepio, entrega, renovação e evolução.

“blasFêmea” faz parte da divulgação do single “Mulher” e é a primeira obra audiovisual roteirizada e dirigida pela própria artista. As duas novidades fazem parte do álbum Pajubá, primeiro disco da cantora, atualmente em fase de pré-produção e conta com o apoio de uma campanha de financiamento coletivo.

O transclipe é tudo aquilo que a gente ouve falar diariamente. É a violência sofrida pelas travestis, pelas trans. É também a união, a força e o empoderamento – o real, que vai além do discurso e do uso corriqueiro da palavra. Temos que não só bater palmas pra elas, mas reconhecer e engajar nas suas lutas. Reconhecer nossa “mulheridade”, como a própria Linn fala em nossa entrevista, de forma universalista. Afinal, eu sou uma mulher cis, Linn uma mulher trans, temos muito em comum e ao mesmo tempo muitas diferenças na nossa trajetória e na nossa vivência diária. Mas uma coisa é certa: ambas não queremos pau, queremos paz.

Em três momentos narrativos, vemos “blasFêmea” evoluir. O prólogo, que materializa, mas ao mesmo tempo se rebela sobre a construção cultural do “culto ao Falo”. A narrativa central, que mostra a formação de uma rede de proteção e ajuda entre mulheres, exaltando todos os seus corpos e potências. E um epílogo, que exibe cenas de uma vivência real de todas as mulheres do elenco no primeiro dia de gravação do vídeo, a primeira filmagem, num momento de pura conexão, alento e cuidado de umas com as outras.

Assista ao clipe e na sequência veja nossa entrevista exclusiva com Linn da Quebrada:

A música é  um dos veículos de manifestação mais antigos que a gente conhece. Quando você acha que despertou pra essa possibilidade? Existe um momento específico em que ficou claro que você podia participar ativamente da transformação da realidade de tantas pessoas?

Olha, eu já experimentava o corpo e vinha trabalhando essa linguagem com performances. E mais do que falar sobre gênero e sexualidade – que é geralmente pelo que mais sou rotulada e até concordo porque eu falo diretamente sobre isso –  mas eu falo sobre corpo, sobre vida. Sobre o meu corpo e sobre a minha vida, os meus afetos.

E eu descobri a música muito recentemente, na verdade faz exatamente um ano que eu descobri a música enquanto possibilidade porque eu já estava falando sobre essas coisas, eu já estava pensando sobre essas questões e tentando materializar elas de alguma forma fazendo performances e algumas experimentações com fotografia.  E eu morei com a Liniker em Santo André e com ela eu pude perceber a potência da música, eu descobri os poderes da música, principalmente o alcance e isso despertou muito o meu interesse, eu pude ver que podia usar a música enquanto diálogo, como ferramenta de troca, enquanto incômodo também. Eu entendi a música não necessariamente enquanto aquilo que agrada e conforta nossos ouvidos, mas a música enquanto ruptura, ruído mesmo. Então, eu começo a escrever e a falar as coisas que eu já estava falando de outras formas há um certo tempo e deu no que deu!

De certa forma é um casamento perfeito, né? A sua música e o funk, justamente porque o funk já tem historicamente essa intenção de ser um ruído na sociedade. É muito incrível!

Exatamente! Principalmente porque o funk já me interessava porque ele era uma ferramenta de produção de sexualidade. Não só o funk, mas como a maioria dos outros estilos de música que estão falando e produzindo sexualidade. E acho que esse ponto da produção de sexualidade é muito importante pra gente discutir porque, por exemplo, as novelas produzem sexualidade também. Há uma ideologia que é pregada nas histórias contadas, nos livros de biologia, nos quadros que nós vemos. Existem tipos de corpos que predominam nessas linguagens. Há uma produção de desejos nas histórias que nós vemos, nas músicas de amor, entende? Os sentimentos também são construídos, e assim, nós também somos influenciadas a sentir de uma determinada forma. Então, o funk expressava diretamente e nitidamente a sua produção de sexualidade e de desejo e isso me interessou porque eu comecei a usar o funk – que era muito comum pra mim porque eu também sou de periferia – pra falar e pra criar outras possibilidades de desejos.

As afeminadas e as travestis estiveram recorrentemente em uma posição inferior na sociedade, até mesmo dentro da própria comunidade LGBT. Na grande mídia, foram por muito tempo retratadas marginalmente, de forma humorística. Você acaba de participar no Amor & Sexo – um programa que passa no canal mais tradicional e popular do país –  ocupando um espaço de legitimidade e representatividade. Qual a sensação de estar a frente de uma mudança de posição tão importante para as trans?

Eu acho que é muito importante tomar esses espaços de poder e de fala pra que outras pessoas nos percebam de forma humana. Porque, na maioria das vezes, somos retratadas nas representações midiáticas não só em situações marginalizadas, como você já disse, mas de forma jocosa. Nós somos colocadas em posições de riso mesmo, onde não riem com a gente, mas riem da gente. E onde o riso tem a função de punição, o riso é chicote, ele pune e afasta. E agora estando nesses espaços eu tenho a possibilidade de ocupar outra  posição, de inventar novas posições e de mostrar que estamos produzindo pensamento e saberes. Porque existem os saberes que são normalizados e existem os saberes que também são excluídos, que são transviados, que são saber da nossa comunidade TLGB.  É uma possibilidade de estarmos falando por nós mesmas, de não ter outras pessoas falando por nós, sem aquele discurso de diagnóstico que nos coloca como exceção, como erro, nascidos em um corpo errado. Eu não acho que nascemos em um corpo errado, eu não acho que somos o desvio, eu acredito que cada pessoa é o seu próprio desvio. Eu não acho que existem dois sexos, eu acho que existem “n” sexos, existem tantos sexos quanto corpos. Cada pessoa com a possibilidade de expressão dos seus próprios gêneros, dos seus próprios afetos, com “n” possibilidades de transas e de relações. O padrão é muito redutor, ele nos condiciona e limita. Às vezes a arte também nos limita com essa proposta de imitar a vida naturalizando algumas coisas que não são necessariamente verdades.

O transclipe blasFêmea mostra três momentos distintos, primeiro a luta contra o culto ao falo, depois a formação de uma rede de apoio e por último a união já estabelecida. É uma evolução de luta e principalmente um movimento de libertação, não é? Como foi a construção dessa obra pra você?

Foi um processo muito rico, de muito aprendizado, de descoberta e de risco, principalmente. Acho que é muito importante a gente assumir o risco nas produções das coisas pra ter a possibilidade de descoberta. É no erro que a gente descobre coisas novas. Com “blasFêmea” eu assumi posições de risco, sendo roteirista, fazendo a direção e experimentando colocar meu pensamento no formato audiovisual. A “blasFêmea” é justamente essa possibilidade de errar e de experimentar coisas que eu não tenho certeza. É a iminência da incerteza, de não fazer o certo pelo que já é dado como certo. Além disso, eu também tive a sorte e o privilégio de ter comigo pessoas muito parceiras e dispostas a pensar e construir junto comigo.  Porque uma coisa era o que eu já pensava de antemão, outra coisa era o que as pessoas que estavam trabalhando comigo poderiam propor e ainda há uma terceira coisa, que é a fricção desses dois pontos. Então, “BlasFêmea” é muito maior do que eu e a minha ideia e é, também, muito maior do que a ideia das pessoas envolvidas. Ele é a soma e a fricção dessas ideias e dessas pessoas envolvidas no projeto.

A palavra blasfêmia significa um insulto a divindade, a religião  e tudo aquilo que é considerado sagrado. As trans diariamente colocam a cara a tapa frente a tudo isso.  Você acredita que esse trabalho foi um ato de ruptura, uma afronta à tudo aquilo que é considerado por alguns como o “certo”, o “divino”, o “normal”?

blasFêmea pra mim é o enfrentamento do sagrado ocupado hoje pelo masculino, é um ato profano de ocupação e invasão . E pelo jogo de linguagem que eu faço, “blasFêmea”, enquanto fêmea e a posição do feminino e do masculino entre o sagrado e o profano. Nos fazendo repensar esses conceitos de feminino e masculino e quem ocupa essas posições, quem são esses corpos? O que é lindo enquanto feminino e masculino? Quais são esses rituais que a gente pratica no dia a dia? O que eles sacralizam? Eles reiteram essas posições de feminino e masculino. O transclipe é a nossa ação diante dessas perguntas, ele é uma tentativa de ruptura, de questionamento em relação ao certo, o divino. A gente tá colocando esses corpos em evidência. O vídeo materializa e repensa esse imaginário social do que a gente entende enquanto mulher, feminino, profano. O próprio vídeo é esse ritual de conexão entre tantas pessoas, pensamentos e energias.

A letra de “Mulher” abrange todas as vertentes da feminilidade, que vai além dos corpos que habita. “Mulher” é como um convite de união. Como você vê a separação feita por alguns grupos feministas que não incluem pautas trans em seus discursos?

A gente tem que pensar em mulheridades, na feminilidade no corpo. Porque cada corpo vai expressar feminilidade e masculinidade do seu jeito.A questão é que: o que é o sagrado e o que fica em função disso?

A minha resposta a essa pergunta  da separação é o próprio vídeo, o vídeo é o que eu penso em relação a isso. Cada corpo é o seu sexo, o seu gênero, seu afeto. É a nossa possibilidade de repensá-los e perceber que estamos em movimento. Sexo pra mim não é fixo, estático e estatística. É ferramenta, é ação é verbo. Não é objeto.

Você acredita que nós ainda temos muito o que descobrir sobre esse “ser mulher”, sobre o feminino que por tanto tempo foi oprimido? O que você acha que podemos aprender umas com as outras? O que ainda precisa ser desconstruído?

Passamos muito tempo condicionadas, programadas e fixadas. Nos deram muitas verdades prontas e agora é a nossa possibilidade de fazer perguntas. O que tem que ser desconstruído é a nossa própria imagem no espelho, sabe? A gente tem que estar disposta a romper essa imagem tão bem regimentada de nós mesmas. Pra que nós possamos construir uma outra imagem, menos fixa, de forma que a gente consiga reinventar desconstruir os padrões, esteriótipos e arquétipos sociais.

 

Linn Da Quebrada faz show em Porto Alegre no Opinião, dia 27 de abril.

Ingressos:

Lote 1:
– Promocional (valor reduzido, com a doação de 1kg de alimento não perecível, disponível para qualquer pessoa): R$ 35
– Estudantes e idosos (desconto de 50%): R$ 25
– Inteira: R$ 50

Lote 2:
– Promocional (valor reduzido, com a doação de 1kg de alimento não perecível, disponível para qualquer pessoa): R$ 45
– Estudantes e idosos (desconto de 50%): R$ 35
– Inteira: R$ 70

Lote 3:
– Promocional (valor reduzido, com a doação de 1kg de alimento não perecível, disponível para qualquer pessoa): R$ 55
– Estudantes e idosos (desconto de 50%): R$ 45
– Inteira: R$ 90

Pontos de venda:

Bilheteria oficial (sem taxa de conveniência – somente em dinheiro): Youcom Bourbon Wallig

Demais pontos de venda (sujeito à cobrança de R$ 5 de taxa de conveniência – somente em dinheiro):
Youcom Shopping Praia de Belas, Iguatemi, Bourbon Ipiranga, Barra Shopping Sul, Bourbon Novo Hamburgo e Canoas Shopping
Mil Sons Alberto Bins 366, Coronel Vicente 434 e Alberto Bins 554

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14/04/2017

Carolina Cottens

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