Exclusivo | Pela 1ª vez no Brasil, Oshun afirma: “Nossa herança não está morta”

24/07/2017

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Reprodução

24/07/2017

Com apenas quatro anos de carreira, o Oshun já foi descrito como “a nova cara do afro-futurismo” pela imprensa internacional. Formada em Nova York por Niambi Sala e Thandiwe, a dupla apresenta uma união única de rap e neo-soul que chama atenção por uma musicalidade que bebe tanto do jazz de John Coltrane quanto das rimas empoderadas de Lauryn Hill e Erykah Badu.

Inspiradas pela família de Niambi, que cresceu em uma comunidade ligada à cultura Yoruba, as rappers decidiram incorporar em seu trabalho a sua ancestralidade africana. O nome do grupo refere-se à orixá que abençoa as águas doces, Oxum, e essa temática é recorrente em seus lançamentos, como na faixa “Shango” (que se refere ao orixá escrito no Brasil como Xangô) e no clipe de “Gyenyame”, onde Thandiwe e Niambi interpretam os papeis de Oxum e Iemanjá.

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Nas suas letras, o foco é trazer à tona a consciência da força que vem enquanto herança da África. A mensagem geral que se ouve no EP de estreia, Afahye (2014), e no primeiro álbum, Asase Yaa (2015), é uma mensagem de paz, mas nunca de conformismo. A luta por direitos sociais e por serem reconhecidas como seres-humanos inteiros marca o trabalho dessas jovens mulheres negras que estão vindo tocar no Brasil pela primeira vez.

No dia 26/7, o Oshun toca em São Paulo em um show gratuito no Teatro Sérgio Cardoso; nos dias 27 e 28/7, os show são de novo em São Paulo, mas no Sesc Pompeia; dia 29/7, a dupla vai para o Rio de Janeiro, onde toca no Circo Voador ao lado de Tássia Reis; no dia 30/7, a banda encerra sua passagem pelo Brasil em Brasília, no Festival Latinidades.

Conversamos com Niambi Sala e Thandiwe sobre como elas enxergam as raízes africanas de sua terra-natal, sobre como elas veem o Brasil e sobre o disco novo da dupla (que elas revelaram que se chamará Bittersweet e começará a sair em outubro). Também lhes pedimos uma lista de artistas que elas têm escutado muito e que estão servindo de inspiração para o seu novo trabalho. Ouça a playlist que montamos com essas músicas e confira a conversa com elas abaixo.

Como vocês se sentem vindo ao Brasil, onde a cultuta yorubá é tão forte?
Nos sentimos divinas. Nós viemos de um país onde a maioria das pessoas afro-descendentes estão completamente alheias da cultura, da tradição e da força dos seus ancestrais. Então, receber a oportunidade de nos conectar com um mundo onde essas mesmas tradições e dons ancestrais estão protegidos é nada menos do que uma benção. É uma chance para nós recuperarmos algo que nos tirado, recebermos apoio da nossa família e poder levar essas lições de volta até os nossos irmãos e irmãs nos Estados Unidos.

Vocês têm planos de visitar algum terreiro de candomblé aqui ou conhecer alguma outra manifestação específica da cultura negra brasileira?
Na verdade nós não temos nada planejado nem estamos com tanta expectativa, mas estamos abertas para deixar que o Espírito guie nossos passos. Nós sabemos que vamos ver muitas coisas novas e que também seremos lembradas de coisas que nos são familiares.

Considerando essa proximidade cultural, vocês já pensaram em trabalhar com artistas brasileiros?
Nós amaaaaaaaaamos a música e os sons do Brasil e, se a oportunidade de eternizar alguma criação com artistas brasileiros se apresentar para nós, seria INCRÍVEL! Nós temos um amigo brasileiro que era nosso colega de escola em Nova York chamado Josbi e nós somos fãs dele!

Aqui no Brasil, a herança africana da nossa cultura é uma realidade que não tem como ser negada. Como a herança africana da cultura dos Estados Unidos é vista pelas pessoas lá? Como os estadunidenses veem a cultura yoruba em geral?
A herança africana está viva nos Estados Unidos, mas está muito menos em primeiro plano. Existem pessoas que estão conscientes e em sintonia com a cultura Yoruba e outros sistemas espirituais africanos tradicionais, mas isso ainda é altamente demonizado e estigmatizado. Isso torna difícil que até mesmo os afro-americanos abracem sua herança africana. Então, muitas pessoas não conhecem isso e pensam que a história delas começou com a escravidão. As pessoas pensam que a África é suja e atrasada. Eles internalizam toda essa retórica negativa que veio do mundo ocidental. Mas existem comunidades. Existem espaços seguros. Nossa herança não está morta.

Quando e por que vocês decidiram fazer músicas que falassem sobre símbolos ancestrais da cultura afro-americana, como os orixás?
A escolha do nosso nome foi muito direcionada pelo Espírito. Quando começamos a cantar como irmãs, Oxum estava muito presente nas vidas de nós duas e nós duas estávamos na posição de estar evoluindo enquanto mulheres e relembrando nossas missões nessa vida. Nós mantemos o Espírito dos nossos ancestrais vivos através da nossa arte porque isso é o que eles pedem. Quando introduzimos conceitos ancestrais em nossa música moderna, nos tornamos canais para nossos ancestrais, para o amor, para a cura e a doçura.

Na sua visão, a indústria da música costuma empoderar os artistas negros que fazem sucesso ou reforçar padrões de estigmatização?
A mídia do mainstream é criada para perpetuar ciclos destrutivos. Definitivamente existem músicos e outros artistas na indústria que desafiam isso, mas o sistema é o mesmo.

Depois do EP AFAHYE (2014) e do álbum ASASE YAA (2015), vocês estão planejando um novo disco? O que vocês podem adiantar sobre isso?
Nós temos um monte de coisas legais a caminho! Primeiro, vamos lançar um novo single chamado “Graduate” com um clipe assim que nós voltarmos do Brasil. Nós também estamos trabalhando em um álbum de três partes chamado Bittersweet e teremos alguns singles da sua primeira parte em outubro!

Seu single mais recente, “Not My President”, foi feita para Donald Trump?
“Not My President” é nossa maneira de exigir o nosso poder. Nós conhecemos e compreendemos nossa habilidade de governar a nós mesmos pacificamente, corretamente e espiritualmente. Escrevemos essa música em resposta ao medo e à confusão que os Estados Unidos enfrentaram durante a nossa mais recente eleição presidencial. Queríamos lembrar a todas as pessoas que o nosso governo nunca trabalhou para nos servir positivamente, então precisamos nos empoderar para liderar. Então sim, é sobre Donald Trump.

Ouça abaixo a playlist que montamos com os sons que Niambi Sala e Thandiwe, do Oshun, têm escutado sem parar:

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24/07/2017

Jornalismo, música, astrologia, fotografia, cultura do vinil, tarot, direitos humanos, mitologias comparadas e a arte do bem-viver muito me interessam.
Ariel Fagundes

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