Exclusivo | Ian Ramil e Thiago Ramil juntos em uma session íntima

09/01/2017

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Rafael Rocha

09/01/2017

Era um fim de tarde nublado quando reunimos Ian Ramil e Thiago Ramil para fazer um som, passar um café e conversar sobre o ano que passou e o ano que está começando.

Para eles que são primos fruto de uma família musicalmente abundante, não havia nada de novo nessa experiência. “O Ian se criou em Pelotas e eu, em Porto Alegre, mas sempre tivemos muita proximidade. Desde que começamos a compor, sempre teve muito essa troca”, lembra Thiago. Mas, para nós que não nascemos entre os Ramil, foi uma experiência e tanto ver a relação de música e afeto que emerge na session exclusiva que você assiste logo abaixo, antes de conferir o bapo que tivemos com eles.


As gravações acabaram junto com o dia e, conforme a lua se impôs no céu, surgiu no grupo uma ideia que parecia ter nascido na cabeça de todos ao mesmo tempo. “Quem sabe a gente conversa tomando uma cerveja?”, perguntou algum de nós com falsa inocência.

Muito antes de o garçom trazer a primeira garrafa, ninguém imaginava que fosse possível tomar apenas uma cerveja. O brinde que fez nossos copos tilintarem chegou com gosto de parabéns, afinal, não é todo dia que dois artistas independentes de Porto Alegre são indicados à gigantesca premiação do Grammy Latino. Leve Embora (2015), o primeiro lançamento da carreira de Thiago Ramil, concorreu na categoria de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa no fim do ano passado junto com Larissa Luz, Thiago Iorc, Mariza e Céu, que acabou ganhando o troféu com o seu Tropix (2016).

– Foi uma grande surpresa a indicação ao Grammy… Como se trata do meu primeiro trabalho, foi muito significativo mesmo. E é curioso estar na categoria de pop, né? O que define uma categoria? Eu não sei exatamente, é tudo muito amplo. O que é “pop”? Eu podia estar concorrendo com a Anitta. No meu caso, talvez o “pop” seja pelo disco ser bem eclético, pela diversidade que tem entre uma música e outra, porque ele não vai tanto pra esse “pop” que a gente tá acostumado, né? – comenta Thiago acendendo um tabaco que acabou de enrolar manualmente.

“Onde se espera uma coisa com forma, né? Verso A + B + refrão… As tuas músicas nem tem refrão”, completa Ian Ramil. Com poucos anos a mais que Thiago, Ian já lançou o seu segundo disco, o Derivacivilização (2015), que chegou a ser dissecado em um faixa a faixa exclusivo publicado pela NOIZE na época. Trazendo faixas como “Coquetel Molotov”, “A Voz da Indústria” e “Artigo 5º”, é evidente que esse não foi um álbum criado para atender à demanda do mercado mainstream. Provavelmente, foi por essa postura que o disco atingiu uma sonoridade capaz de lhe garantir a indicação em duas categorias do Grammy Latino: Melhor Artista Revelação e Melhor Álbum de Rock em Língua Portugesa. Quem ficou com o troféu de Revelação foi o colombiano Manuel Medrano, mas, na categoria de rock, Ian ganhou o prêmio empatado com a Scalene.

– Eu identifico meu disco mais dentro do rock do que o Thiago identifica o dele dentro do pop. Tem “Devagarinho”, que não dá pra chamar de rock, mas ele tem uma essência do rock, uma crueza, aquela fisgada do rock que não se vê muito hoje em dia. Tem muita coisa que se diz rock e é mais pop do que rock, é um rock todo arrumadinho, bonitinho, onde tudo soa direitinho. A gente fez um disco sem reverb artificial, por exemplo. Parece um disco contra a corrente do que rola normalmente – diz Ian.

-E tu não chega num lugar desses fazendo umas três músicas legais, tem todo um conceito de álbum que pesa muito. O fato de eu e o Ian estarmos lá no Grammy não tem outra explicação além da musicalidade, da questão artística. Se fosse por lobby ou por tamanho de público, nenhum de nós estaria ali. Então, pra mim, o maior retorno vem nesse sentido. Não que isso faça meu trabalho ser pior ou melhor, mas traz confiança – emenda Thiago.

– A gente faz arte, também, pra se comunicar. E o recado que o Grammy me passou foi: segue, segue fazendo o que tu bem entender. A criação artística tá além do querer se inserir, do querer agradar, do querer se colocar em algum lugar. A criação artística vai muito do querer se expressar, querer dizer as coisas da maneira que bem entender, como se acredita que as coisas devem ser ditas – define Ian enquanto acende outro cigarro (industrializado, ao contrário do primo).

Confira o discurso de agradecimento de Ian Ramil no Grammy Latino 2016:

Ainda que o troféu tenha sido entregue apenas ao Ian, ambos músicos se sentiram completamente premiados pelo Grammy, uma honraria cuja mera menção inevitavelmente traz uma visibilidade maior aos seus trabalhos. Os dois contam que o plano para 2017 é seguir trabalhando com os já lançados Leve Embora e Derivacivilização, tocando ao vivo as suas músicas no maior número de locais possíveis. Rio de Janeiro, Curitiba, Goiânia, São Paulo e Florianópolis já tiveram chance de ver Thiago Ramil apresentar seu disco, já Ian passou também por Buenos Aires, Cidade do México, Guadalajara, Medellín e Bogotá.

Essa viagem ao México e Colômbia foi bancada pelo edital Ibermúsicas e, considerando que o disco de estreia do Ian foi apoiado por um edital público de Pelotas e o álbum do Thiago, pelo projeto Natura Musical, a dúvida sobre como financiar a arte hoje em dia caiu sobre a mesa coincidindo com mais uma garrafa pedida. Afinal, como fica essa situação pro artista?

– É, eu não sei. Meu segundo disco foi por crowdfunding e o primeiro foi gravado com dinheiro meu e prensado com um edital do Procultura. Não me envolvi com a iniciativa privada de empresas, só com a iniciativa privada de indivíduos, no segundo disco. Eu vejo esse como o caminho mais atrativo de viabilizar as coisas, o crowdfunding. Eu acho tão foda, acho muito incrível que as pessoas banquem o disco porque querem ouvir aquele artista, querem estar próximas, querem saber que são agentes daquele artista. O crowdfunding pra mim é o grande lance, a grande revolução da indústria fonográfica – decreta Ian do alto da convicção de uma mesa de bar.

– Concordo com o Ian, ao mesmo tempo eu sei da importância que teve pra mim ter sido contemplado. Foi o que viabilizou toda a realização do meu primeiro disco, se eu não tivesse sido contemplado não teria feito desse jeito. Nesse sentido, eu sou particularmente grato. Acho que é muito complexo… Tem a questão da propaganda, tem a questão do retorno pra empresa. Na real, a verba nem é privada, ela é pública, porque é através da Lei de Incentivo à Cultura. E, ao mesmo tempo, eu não confio muito no Estado hoje, não confio mesmo. Uma iniciativa como a da Natura, claro, é uma jogada comercial da empresa de um mundo capitalista onde ela se beneficia pela propaganda, mas ela investe em algo e ela possibilita coisas que hoje, se a gente dependesse do Estado, não aconteceriam. Talvez se a gente conseguisse que todas as pessoas viabilizassem via crowdfunding, conseguíssemos. Mas também, dependendo da situação das pessoas, talvez não. Então não sei se dá pra crucificar muito essas iniciativas.

– Eu não estava crucificando nada, estava falando da minha experiência pessoal simplesmente. Não sou contra, acho que é uma mão na roda que pode salvar muita gente. Porque o crowdfunding tu depende de já ter um público – atravessa Ian.

– Mas eu não disse que tu estava crucificando, não foi isso. Eu acho que é um tema delicado mesmo, pra mim foi. Desde que decidi me inscrever na Natura, pensei na associação da marca com meu nome. Não sei se foi porque eu era um artista sem muita proporção de público (foi realmente uma aposta da Natura em mim, eu não tinha nem um EP lançado antes), mas eles não exigiram muito da minha parte. Foi bem suave a relação. Não falaram nada da questão artística do meu trabalho, não incomodaram em nada, deixaram a gente produzir e possibilitaram que a gente fizesse do nosso jeito – explica Thiago.

E falando em gravar discos… Tanto o Ian quanto o Thiago revelam que novos álbuns estão a caminho, mas sem a menor urgência. É importante lembrar que Ian acabou de ser pai e essa experiência tem mexido muito com ele: “Eu quero cuidar da minha filhinha. Já me imagino gravando o próximo disco daqui a um ano ou dois, com ela no colo, em casa”, conta felicíssimo. Thiago, por outro lado, voltou da sua visita aos Estados Unidos arrebatado por uma enxurrada de reflexões criativas: “A viagem ao Grammy foi super intensa pra mim, me fez pensar várias coisas da minha relação com a música, e voltei efervescente, compondo bastante. Tô pensando muito no meu próximo trabalho, mas sem pressa”.

Os cinzeiros já não eram páreos para as bitucas quando surgiu uma pergunta aparentemente boba: vocês sentem a influência um do outro nas suas composições? “Tem uma harmonia que ele roubou!”, brinca Thiago antes de uma gargalhada: “Cara, é muita coisa… Não sei nem te pontuar”. “É difícil, né. Tudo que a gente ouve vai influenciando, todas as conversas, tudo vai virando nossa biblioteca de composição e parte do que, de alguma maneira, a gente vai botar pra fora nas músicas”, diz Ian. “Como tem vários compositores na família, temos muito um lance de ouvir com atenção e pontuar alguma coisa, conversar, pensar junto a composição. Ah, eu nunca fiquei pontuando as coisas dos meus tios, né, mas quantas vezes tu não me pontuou um verso que eu acabei mudando depois? Ou vice-versa”, diz Thiago olhando nos olhos do Ian.

E, após uns goles, Thiago solta: “Esses dias eu estava tocando ‘Gira-Sol’, que é um tema super importante no Leve Embora, e vi que tem um trecho de harmonia que foi o tio Kleiton quem fez lá na Guarda [do Embaú, em SC] e eu nunca dei parceria pra ele”. “Ba, que trouxa, meu! Como assim? Vou avisar pro tio Kleiton!”, responde Ian rindo. “Mas ele sabe! Tá de boa. Ele só passou pelo violão e tocou. Não foi uma coisa que ele sentou e fez comigo a harmonia, foi tipo isso, passou e deixou”. “E tu roubou”, provoca Ian. “Fui me dar conta depois! E o mais doido, entregando os pontos, é que é um trecho muito parecido com o de uma música do Vitor”. “Roubou meu pai também, pô!”, alfineta Ian enquanto a mesa explode em risos.

– Não, é outra coisa. É um outro tema, de uma outra canção, de uma outra expressão, e que massa que tem um monte de músico na família e que cada um tem sua cara. E aí tem um tema em “Gira-Sol” que tem uma participação super importante do tio Kleiton, com uma referência de melodia do meu tio Vitor, e aquilo ali é meu. Aí que tá a singularidade, tu fazer um compilado e se expressar com sinceridade, no seu momento, do seu jeito – explica Thiago com toda ternura do mundo.

“Tudo que tu cria vem de algum lugar, de alguma coisa que tu jogou no liquidificador e ressignificou. A gente não tá inventando a roda, a gente só tá fazendo a nossa roda”, resume Ian terminando o último gole daquela que foi a nossa terceira ou quarta (ou quinta) rodada saideira. A madrugada já era uma realidade trôpega quando pagamos a conta pensando: “Como é bom beber em família”!

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09/01/2017

Entre o bemol e o sustenido.
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes