Exclusivo | Marcelo Callado libera novo single lançado apenas em vinil

30/10/2017

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Rafael Donadio

Por: Rafael Donadio

Fotos: Fátima Pombo

30/10/2017

Uma das ambições do músico Dado Villa-Lobos, ao fazer do seu estúdio/selo Rockit! um projeto de lançamento de artistas locais, era “mostrar que o Rio de Janeiro tem uma cena roqueira que se renova”. Nada mais emblemático para esse objetivo do que os trabalhos do carioca Marcelo Callado, 38 anos.

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No mês passado, mais uma etapa dessa renovação carioca foi alcançada por Callado com o lançamento do segundo disco solo da carreira, Musical Porém. De forma inusitada, o álbum foi lançado, por enquanto, apenas em formato físico. Um vinil duplo com 20 canções, em uma parceria do selo Embolacha com a Rockit!, com tiragem limitada e que pode ser comprado em poucas lojas do Rio, diretamente com o músico, pelo Facebook ou pelo e-mail: callado.marcelo@gmail.com.

Online, já saiu a faixa “Fica”, e também sairá o single “Olhando Para Baixo”, previsto para 24/11, e o restante do disco em 8/12. Para a NOIZE, porém, o músico liberou com exclusividade a música “Boa Noite Cinderella”, terceira faixa do lado 1 (ouça abaixo).

Mas, para conhecer melhor Callado, há que se dizer o seguinte: toda transformação tem o seu princípio.

Depois de aprender e se tornar íntimo dos instrumentos de percussão, quando era levado desde criança pelo pai a todos os Blocos de Carnaval de Rua do Rio, Callado assumiu as baquetas de algumas bandas, quando adolescente: Manda Chuva, Detentos e Zabumbayê Muhammeds. Influenciado pelo rock dos anos 1980, Beatles, Bob Marley e algumas bandas do underground carioca, como Mulheres Que Dizem Sim, Acabou La Tequila e Zumbi do Mato, o músico montou a Carne de Segunda, em 1996. A formação inicial contava com ele na bateria, Bruno Levi na guitarra e o Gabriel Bubu no baixo. Nesse momento, eles eram “famosos” no underground carioca. Em 2000, ele passou a integrar o Canastra. Um pouco mais tarde viria o Lafayette e os Tremendões.

Tudo, porém, era apenas uma brincadeira que o baterista conciliava com o emprego de auxiliar administrativo na produtora Conspiração Filmes.

Quando fez da diversão o único e principal trabalho, a lista de parceiros e bandas com quem tocou ficou realmente séria: Do Amor, Caetano Veloso, Nou Leblon, Jonas Sá, Ava Rocha, Nina Becker, Negro Leo, Rubinho Jacobina, Branco Mello, Jorge Mautner, Silvia Machete e por aí vai.

A renovação de Marcelo Callado vinha acontecendo a cada parceria que fazia, cada músico que acompanhava e a cada disco que ia gravando com todos esses artistas, sempre compondo, experimentando, gravando, experimentando mais um pouco e gravando. Mas a mudança ficou mais evidente quando assinou o primeiro trabalho ao lado da então esposa Nina Becker, Gambito Budapeste (2012).

O primeiro trabalho solo viria três anos depois, já lançado pela Rockit!, Meu Trabalho Han Solo Vol. II (2015), seguido do compacto Callado Compacto (2016), já com o músico também a frente do palco, defendendo suas composições, na guitarra e no vocal.

Com Musical Porém, há renovação e há também um recomeço. O trabalho busca novos ares, costura diversos retalhos e cicatriza doloridos ferimentos que Callado adquiriu durante 14 anos.

Com músicas compostas desde 2003 até algumas que não encaixaram em Fodido Demais (2017) – último disco da banda Do Amor -, Musical Porém vai recompondo a vida do carioca e também afirmando o amor pela filha e a vida sóbria e saudável, física e psicologicamente. Para isso, Marcelo vai do noise ao samba e do cancioneiro folk ao roqueiro psicodélico, sugando influência da poesia concreta e dos diversos parceiros.

Com a banda Valter Ramas Friends, formada por Guilherme Lírio na bateria, Ana Frangoelétrico no contra-baixo elétrico, Raquel Dimantas no teclado e percussão e o Caio Paiva na guitarra – “uma banda punk-mambembe muito linda”, segundo ele –, Marcelo está com shows marcados para 1/12 no Aparelho, no Rio; 7/12 no Zé Presidente, São Paulo; e 21/12 na Audio Rebel, no Rio.

Abaixo, ele esmiuça o processo de produção do novo disco, passando pela fase atual de sua vida e analisando como se dão os seus processos criativos.

Foto: Fátima Pombo/Divulgação

Como foi sair lá do fundo, da bateria, para assumir o vocal e a guitarra?
Uma nova vida. É tão bom mudar de perspectiva, né? Serve muito pra crescer e amadurecer. Eu sinceramente adoro tocar bateria, e quero sempre continuar tocando, mas defender suas próprias composições e ideias, cantando e tocando guitarra ou violão, que é o instrumento de onde elas saíram, é tão mais prazeroso e honesto. É a maravilha de novidade. É a maravilha da novidade.

Você sempre participou de outras bandas como baterista. Quando começou a compor?
Comecei a compor ainda na época do Carne de Segunda. Primeiramente com coisas que seriam classificadas pelos meios de comunicação como “experimentais”. O Meu trabalho Han Solo Vol. I existe de verdade e é um raro tratado de música doida, gravado em K7, experimentando com ping-pong entre decks, loops de vitrola, sequências de programações em Casiotone e etc. Logo depois comecei a escrever algumas poucas canções com letras e melodias, sempre de uma maneira autodidata e simples. E assim fui seguindo. Crescendo, ficando mais velho, fui sentindo a necessidade de me expressar cada vez mais nesse formato canção, pois além de pintarem melodias em minha cabeça, sinto uma grande vontade de escrever letras que ajudem a pôr pra fora sentimentos encalacrados e relatar certas visões de determinados lances que sejam relevantes, para mim primeiramente, mas que talvez possam servir para os outros também de alguma maneira.

É muito perceptível as diferentes sonoridades de cada lado do disco Musical Porém. A transição do lado 1 para o lado 2, então, dá até uma “chacoalhada”, passagem direta do ruído ao samba. O terceiro mais rock anos 60/70 e o quarto mais variado. Como foi pensado isso?
Justamente. O disco foi pensado para uma audição numa vitrola, ou seja, a cada cinco músicas o ouvinte é obrigado a parar a audição, se levantar, respirar, trocar de lado e retomar o processo. Acho que, com isso, já há uma quebra natural de timing. O que fiz foi salientar essas quebras estilísticas baseadas nessas ações de trocas. Assim, cada lado mais ou menos possui um clima diferente propositadamente.

Parte do encarte de “Musical Porém” (Reprodução)

Quando ouvimos o disco já é perceptível, mas, vendo o encarte, é comprovada a inspiração da poesia concreta, principalmente. Quais são as influências da poesia nesse trabalho?
Rola sim uma influência de poesia, seja concreta ou não. Além de musicar três poemas, um do Carlos Drummond de Andrade, “Nascer”, um do Chacal, “Ser e Não Ser”, e um da Jô Hallack, “Passe de Mágica”, eu estava lendo algumas coisas do Leminski, do Cacaso, da Alice Ruiz, do Rainer Maria Rilke e do Arnaldo Antunes; e também fazendo um curso muito bacana do Carlito Azevedo, que me foi indicado pela Alice Sant’Anna, poeta carioca que também teve influência e participação na feitura do disco.

Como foi a produção do Musical Porém?
Foi produzido entre junho de 2016 e junho de 2017. Eu, Igor Ferreira (engenheiro de som) e os outros três amigos e parceiros Do Amor começamos a alugar e montar um estúdio aqui no Rio, em 2015. Nesse estúdio, possuíamos tempo para, além de gravar outros trabalhos, fazermos nossos próprios projetos autorais. Ricardo (Gomes) fez um disco lá, Gustavo (Benjão) começou a fazer um e todos fizemos o Fodido Demais, do Do Amor. Eu já tinha a necessidade de fazer um álbum novo, tinha muitas músicas sendo feitas, além de outras antigas de que gostava e que queria pôr no mundo. O momento e o local não podiam ser melhores. Chamei o Igor, que é um grande engenheiro de som, além de um camarada de primeira, para me ajudar a gravar e produzir o álbum. Gravamos vinte e uma músicas (uma ficou de fora), sempre partindo de mim, ou seja, todas as canções foram trabalhadas em cima de eu tocando comigo mesmo (risos). Depois, na medida em que víamos como estava ficando o resultado, íamos pensando em acrescentar os overdubs dos amigos músicos.

Em conversas anteriores, você me disse algo como: “Meu processo de composição começa por algo que sinto necessidade de falar com palavras, e aí depois tento encaixar a música”. Teve necessidade de falar sobre o que nesse novo disco?
Tem um mote que não foi seguido a finco, pois existem no disco canções de diferentes épocas, mas muitas músicas se relacionam a um período meu de volta por cima. O poema da contracapa já escancara logo isso. Chama-se “Recuperação”. Grande parte das músicas trata de um período meu de recuperação, onde parei de beber e usar drogas, começando a encontrar um novo modo de vida, mais saudável fisicamente, socialmente e, principalmente, mentalmente.

Tirando os trabalhos com bandas, você havia lançado Gambito Budapeste e Meu Trabalho Han Solo Vol. II. Do Gambito para cá, teve uma filha, um casamento, as coisas mudaram. Como isso norteou o Musical Porém?
Resumindo, podemos ler assim: o Gambito era um disco de casal. O Han Sollo II, um disco de quem ainda buscava salvar um casal. Agora, é um disco de quem já passou por todos os outros anteriores, obviamente, aprendeu com eles, e está buscando novos ares.

Quais as principais diferenças que você enxerga entre Musical Porém e Meu Trabalho Han Solo Vol. II? Amadureceu?
O Meu Trabalho Han Solo Vol.II tinha uma urgência muito grande em ser feito, e assim foi. Foi feito mais rápido, eu necessitava me livrar daquelas canções, pois aquilo era como se estivesse expelindo um último pingo de esperança sobre algo que não perdurou. Não poderia demorar muito. Por isso, gravamos as bases ao vivo e não demoramos quase nada para arranjar os overdubs. Portanto, é um disco com um frescor muito grande, porém sem muita maturação. Gosto muito desse aspecto nele. O Musical Porém demorou bem mais, e o processo de gravação se fez de outro jeito, mais moroso e mais individual. Isso trouxe mais reflexão sobre o trabalho como um todo e fez com que, de alguma maneira, ele tenha ficado mais maduro, sim. O fato de eu estar saindo de uma turbulência existencial também contribuiu para que as letras e a poesia dele fossem mais aprofundadas.

Em Do Amor, na participação com Negro Leo e tantos outros projetos que você participa, as músicas acabam sendo mais experimentais. Sozinho, parece que esse “leque do experimental” se fecha um pouco. O que acontece? Qual a diferença de compor sozinho e em parcerias?
Não gosto muito da categorização de música experimental, me parece muito rasa, restrita a certos tipos de sonoridades e intuitos. Dentro dessa maneira de análise, me coloco fora do ambiente experimental, sim. Ao analisar minha própria música, porém, a acho bem experimental porque decorre diretamente de muitos experimentos escritos e sonoros meus, sem querer mascarar nada para chegar a algum lugar. A experiência é uma verdade, e eu experimento minhas verdades. Ao compor sozinho, você está 100% ali, trocando ideias consigo mesmo, não tendo ninguém pra dialogar do ponto de vista da composição. Já, em parceria, isso se abre para que uma outra criatura adentre o ambiente e gere novas ideias e possibilidades a serem assimiladas ou não, muitas vezes até fazendo você enxergar algo em você mesmo, que sozinho não seria possível. Os dois processos são muitos construtivos e bem complementares.

O encarte traz as letras todas costuradas, como vários pedaços de pano formando um todo. Qual o significado disso?
Foi uma ideia da Celina Kuschnir, a artista que fez o projeto gráfico. Eu gostei, pois lembra muito várias cicatrizes, que são marcas de feridas fechadas pelo próprio corpo. Além disso, também são retalhos, as costuras de vários retalhos, como numa colcha velha da vovó, feita para lhe proteger do frio.

Em relação aos seus “sentimentos encalacrados”, que disse, em conversas anteriores, colocar para fora durante as composições. Quais são?
São muitos. Eu costumo falar muito de minhas experiências pessoais em minhas letras, mas não necessariamente elas são auto-referenciais. Podem ser situações que observo por aí e resolvo escrever. Os assuntos variam desde a maior importância do amor que tenho pela minha filha até uma dança maluca fictícia que se dança incorporando Burzum. Como diria o poeta Tim Maia, vale tudo.

Ouça abaixo “Fica”, a outra faixa que já saiu de Musical Porém:

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30/10/2017

Rafael Donadio

Rafael Donadio