Exclusivo | O disco do NU foi despido faixa a faixa por vários músicos

03/03/2016

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

03/03/2016

É bonito lembrar que nenhuma obra de arte é órfã, pois cada criação já nasce condensando uma infinidade de referências prévias do artista. O disco de estreia do NU – Naked Universe, formado por Ligiana Costa e Edson Secco, saiu em novembro de 2015 e, desde então, vem reverberando forte na cabeça de muitos músicos, atiçando os neurônios inquietos deles.

Hoje, lançamos com exclusividade um faixa a faixa do álbum que foge do conceito usual do termo. Ao invés de a banda descrever cada uma das suas músicas, o NU pediu a vários artistas que dessem as suas impressões livres sobre as faixas. Assim, Filipe Catto, Rico Dalasam, Letícia Novaes (Letuce), Eduardo Brechó (Aláfia), Juliana Perdigão, David Dines (Siso), Pipo Pegoraro, Fernanda Cabral, Livia Nestrovski e Juliana Kehl traduziram seus sentimentos sobre as músicas do NU (2015) em fotografia, desenho, poesia e prosa (veja abaixo).

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Leia também: #BQVNC | A nudez barroca eletrônica do NU

Prestes a voltar aos palcos de São Paulo (no dia 5 de março, no SESC Santana) e fazer dois shows em Nova Iorque (nos dias 9 e 13 de abril), o NU reafirma o desejo de inspirar seus ouvintes com esse faixa a faixa que, na verdade, expõe dez novas obras nascidas a partir da audição do NU.

Dispa-se abaixo.

“QUEM”, por Livia Nestrovski

Labirintos. Palavras que ecoam e se transformam a cada verso. Um ser que encontra a si mesmo transfigurado na próxima esquina, no próximo movimento. Talvez seja nos grandes questionamentos da vida que nos vejamos espelhos de nós mesmos, correndo em círculos, igualmente reféns e agressores, numa dinâmica eterna de fuga e reencontro. Talvez precisemos então evocar Ouroboros, a mítica serpente que engole a própria cauda, e faz a partir da destruição a criação. E talvez aí percebamos que as saídas para nossos labirintos metafísicos não venham nem mesmo de nossa mitologia. Nem mesmo de nossos human hearts, nem mesmo de nossos sacred loves. Nem mesmo de nosso planeta. De algum lugar mais além. Dos lugares mais secretos do universo. Do universo nu: destruição: revolução.

“KANAZAWA”, por Juliana Kehl

A música eletrônica sempre me remeteu à uma certa frieza, à uma certa agudez. Com o NU é diferente, me sinto envolvida como num manto e a faixa Kanazawa é a que melhor me acolhe. Melodia pulsante, quente, lindo arranjo de cordas. Nesse “eletrônico telúrico”, a voz passeia sinuosa entre o pop e o erudito.
Além disso, a letra, misteriosa, faz referência a mítica cidade Kanazawa, uma das cidades mais importantes do Japão feudal. Minha canção preferida no disco de estreia do NU.

“PRAIA HOTEL”, por Filipe Catto

“GOVERNADOR VALADARES”, por Rico Dalasam

O disco tem um convite quase irrecusável. Um mineirês misturado com inglês que revela uma história de amor mas que esconde algo muito foda que aconteceu em Governador Valadares. Quase tirei a roupa de verdade!

“LANIAKEA”, por Juliana Perdigão

espaço sideral
turbilhão
ano luz

outros sóis
tantas luas

tudo em superdimensão
baila de encontro ao grande
attraktor
vortex infinito

tocar a pele da galáxia
contactos imediactos

fusão e expansão

o dia em que faremos contacto

(mais estas duas fotos de Juliana Perdigão):

“TOXIC”, por David Dines (Siso)

De música intoxicante Ligiana e Edson entendem — isso se percebe nas primeiras notas do álbum ou do show, imersas em um senso de fluidez e movimento. Partindo disso, é impressionante o que o NU faz com uma canção pop no sentido mais estrito da palavra. Apesar de sedutora, a original cantada por Britney Spears é só ângulos retos, arquitetura monolítica desenhada pela impressionante linha de produção sueca que atende o pop anglofônico. Nenhum compasso de respiro, beats e ataques na cabeça do tempo, tudo com precisão cirúrgica. O NU retira a canção de todas essas amarras, reconstruindo a melodia num ambiente mais sutil, espontâneo, mas igualmente sedutor. O que era mecânico, fabril e extrovertido se volta para dentro, reconstruindo o cerne da intenção primeira da letra. E o que dizer da leve menção ao funk carioca? Apenasmente foda.

“BERGERE”, por Pipo Pegoraro

La Bergere – A música me transportou imediatamente para um cabaré flutuante futurista onde Toulouse Lautrec seria o comandante das esferas do tempo, do clima dos pensamentos. O uso de timbres sintetizados são bem empregados na sensação e na construção da faixa que com suas vozes cortantes vai decolando e subindo ao universo rumo a um “grand finale” que não é final pois é impossível ouvir apenas uma vez.

“ROOFTOP”, por Letícia Novaes (Letuce)

do alto do prédio
eu mio
eu te chamo no ar
eu te chamo no travesseiro
eu lavo meu cabelo repetindo seu nome
eu mio
eu mio pra você
eu não tomo cuidado romântico
eu tomo cuidado teatral
que paixão
miau

“LILITH”, por Fernanda Cabral

Entre tantos sons, entre tantos “objetos sonoros” se aproxima uma mulher. Gotas caem na pele sonora do amor Lilith ou Ligiana? Sem medo de seguir, sim ela acredita no amor… Sua voz é mensageira dos segredos do vento Gotas caem na pele sonora do amor E sobre seu corpo “NU” texturas tecem o fio do amor homem e mulher são em seu grito um só ser Entre tantos sons, entre tantos…sua rebeldia é feitiço necessário! Gotas caem na pele sonora do amor…

“MUSICABOMBA”, por Eduardo Brechó (Aláfia)

Deixei cair.
O hoje pode cantar pra subir.
Nosso tempo bomba,
Muito embora, o tempo bombe em si.
O espiral é uma esperança
Que estoura a tampa do
campo tempo.
Apesar dos dados,
Nossos números não tem lados.
No jogo dos dados,
Apesar dos lados,
Somos ainda números
E nunca seremos.
Hoje não visto bandeira
Mesmo que odeie a polícia.
Não creio que haja pólos em nossa pólis.
Nada está a salvo.
Nem perdido por aí.
Não há pólos nem Dionísios.
A terra que desmorona ainda é terra.
Bem o no fundo do mar.
Como aquela grande explosão
– Fará nascer um Japão da paz.

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03/03/2016

Jornalismo, música, astrologia, fotografia, vinil, tarot, direitos humanos, mitologias, fogueiras e a arte do bem-viver me interessam.
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes