Disco lendário de Jocy de Oliveira é reeditado em vinil por selo italiano

11/07/2017

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Reprodução

11/07/2017

Ainda que relativamente pouco conhecido pelo grande público, o trabalho de Jocy de Oliveira é um marco decisivo na música do Brasil.

Musicista curitibana de formação clássica hoje com 81 anos, Jocy teve um papel importantíssimo ao trazer para cá referenciais teóricos e estéticos das vanguardas da Europa do século passado e, com isso, ampliar os horizontes da música de concerto brasileira.

Seja como cantora, compositora ou pianista, ela sempre foi uma investigadora de sons. Seu disco de estreia, A Música Século XX de Jocy (1959), apresenta uma bossa bastante experimental, onde são intercalados sambas tristes e faixas teatrais contando histórias repletas de sonoplastias e texturas.

O desejo de experimentar conectou a artista ao universo da música eletrônica e, dois anos após seu primeiro álbum, Jocy de Oliveira e seu marido, o maestro Eleazar de Carvalho, organizaram a Semana de Música Eletrônica no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e em São Paulo, conforme informa reportagem publicada no início do ano pelo Jornal do Commercio recifense. Esse evento realizado em 1961 trouxe pela primeira vez ao Brasil a obra experimental de músicos como Karlheinz Stockhausen, Henri Pousseur, Luciano Berio, György Ligeti e John Cage. Depois, Jocy de Oliveira trabalhou com Cage, Stockhausen, Berio, além de Igor Stravinsky e Iannis Xenakis.

Em 1963, prestes a Ditadura Militar assumir o poder, Jocy resolveu sair do Brasil e morar nos Estados Unidos. Sua carreira seguiu se expandindo e ela se tornou uma pianista muito respeitada não só por sua técnica, mas por suas ideias. Na virada dos anos 1960 para os 1970, ela se tornou uma das poucas mulheres a colaborarem com a importante publicação Source: Music of the Avant Garde, que publicou uma série de textos de Cage e de outros músicos de vanguarda entre 1967 e 1973.

Após consolidar-se como pianista, Jocy de Oliveira resolveu se voltar às suas composições, que haviam ficado em segundo planos durante os anos anteriores. Então, em 1981, ela lançou seu segundo disco no Brasil: Estórias for Voice, Acoustic and Electronic Instruments. Lançado originalmente pela gravadora Fermata, o álbum se tornou um clássico cultuado entre pesquisadores de música brasileira e agora está sendo relançado em vinil pela primeira vez. O lançamento é do selo italiano Blume, que prensou apenas 300 cópias desse disco em vinil vermelho translúcido (à venda aqui).

A sua sonoridade não é fácil de ser descrita. Aqui, a voz é arranjada como um instrumento musical amplo, que contém os timbres do riso, do canto e das onomatopeias. É notável como, às vezes, o canto usa palavras, e às vezes não, mas sempre consegue apresentar uma narrativa que conduz o ouvinte. O disco traz apenas quatro faixas longas, mas suas flutuações vão longe, chegando a unir a batida do samba a atmosferas mântricas criadas com sintetizadores e ruídos eletrônicos.

Esse capítulo da música eletrônica e experimental do Brasil merece ser conhecido, ouça abaixo:

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11/07/2017

Entre o bemol e o sustenido.
Ariel Fagundes

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