Morrostock 2017 | A arte ainda pulsa

04/12/2017

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Brenda Luiza Ferreira Vidal

Por: Brenda Luiza Ferreira Vidal

Fotos: Vitória Proença

04/12/2017

Após uma edição de 2016 emblemática pelo aniversário de 10 anos, elogiada e tida como muitos como “impecável”, o Morrostock deste ano já era cercado por expectativas altíssimas. Tanto para veteranos quanto para novatos no festival, quem chegava no Balneário Ouro Verde, em Santa Maria, já sentia a atmosfera diferente e era contaminado por um misto de curiosidade, ansiedade e animação.

Por mais privilegiada que seja a oportunidade (e a possibilidade) de dedicar 3 noites/dias – a compreensão sobre o tempo se torna relativa demais para classificar – a experiência exige muita disposição. É necessário ter o desprendimento, a iniciativa e a resistência semelhantes ao qual a arte também precisa para sobreviver no Brasil: a façanha de seguir sorrindo e dançando mesmo sob mal tempo.

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Na 11° edição, a organização do Morro conseguiu, mais uma vez, reunir um line up de qualidade e diversidades. Com enfoque em artistas da cena independente nacional, mesclou nomes de peso com apostas certeiras, além de importarem bandas do Canadá, Uruguai, México, Argentina e Estados Unidos. Do lo-fi à fanfarra, não faltou mistura, psicodelia e alternativas para todos os gostos. Outro destaque positivo foi a presença feminina: vocalistas, percussionistas, bateristas, guitarristas, baixistas, em solo, em bandas mistas ou só de mulheres. Nos discursos e nos sons, elas mostraram que as mulheres estão cada vez mais empoderadas na música e na vida- e que ninguém pode pará-las.

Um dos diferenciais do Morrostock é acreditar nas ideias em movimento. De fato, o lifestyle promovido pelo evento é vivido intensamente no dia a dia: respeito, responsabilidade ecológica e construção coletiva. Esse último, inclusive, foi reforçado com o lançamento de uma novidade: a Comuna Morrostock. A proposta era um espaço de criação plural, uma espécie de curadoria interativa. Os interessados, que deveriam adquiriram seus passaportes ainda na pré-venda no mês de julho, participaram de um “conselho” coletivo do evento, tendo acesso à informações em primeira mão, fazendo parte de espaços de troca e sorteios.

O Balneário Ouro Verde é uma dos grandes charmes do evento. Cercado por morros e árvores, dispõe de uma larga área de camping, banheiros equipados com chuveiros e localizados em diversos pontos, e um restaurante. Durante o festival, barracas de comércio e de alimentação garantiram a alimentação do público dia e noite. O terreno é cortado por um rio de água clarinha, que nos dias de Morrostock, é responsável por relaxar e recarregar as baterias de cada visitante.

Para quem está se aventurando no festival, é importante entender que tempo para relaxar é diferente de tempo ocioso. Para quem não se contenta em tirar cochilos no camping, a programação contava com uma série de oficinas, incluindo rodas de conversa sobre ginecologia natural, produção de artesanato, aulas de yoga e outros.

Na chegada da sexta, depois de encontrar os amigos, largar as malas e montar as barracas, a atmosfera já era toda musical. Mantendo a divisão do ano anterior, a estrutura contemplava dos palcos: o Pacal e o Pachamama. O primeiro, menor e com área coberta, era o espaço mais alternativo, dedicado às bandas menores – que foram gratas surpresas. Localizando entre o restaurante e um dos bares, as atrações fisgaram muita gente que se deslocava atrás de lanches e cevas e acabava conferindo um novo som.

Já o Pachamama foi destinado às atrações principais, com grande palco, enfeitado com cogumelos e tendo o céu como cobertura. Próximo ao acesso aos campings, era como a rua principal da cidade Morrostock. Seu posicionamento central tornou a experiência mais prática, pois o deslocamento para as bancas e banheiros não eram tão demoradas e foram sempre acompanhadas pelo som das grandes atrações.

Na primeira noite, o festival já mostrou ao que veio e rolou muita música bacana. The Césaros, no Pacal, e Geringonça, no Pachamama, foram responsáveis por abrir os trabalhos da 11º edição. O palco alternativo veio uma pegada o local, com toques de rock alternativo e lo-fi. Enquanto isso, no Pachamama, a atmosfera era familiar, com bandas contemporâneas já consagradas, como os gaúchos da Cuscobayo e os cearenses da Selvagens À Procura de Lei.

Geringonça

Um dos highlights da noite foi o show da Dingo Bells. Finalizando a tour do excelente Maravilhas da Vida Moderna, de 2015, os músicos encontraram uma público completamente entregue, como prova da consolidação do seu sucesso. Na maior vibe amorzinha e aconchegante, as estrelas pareciam ter se reunido no céu só para acompanhar a apresentação de pertinho. “Mistério dos 30”, “Bahia” e “Hoje o Céu” fizeram o público e banda entrarem em uma disputa para saber quem se derretia mais pelo outro. Foi com a já clássica “Eu Vim Passear” que os meninos encerram a apresentação, deixando todo mundo flutuando nos versos, que foram cantados em uníssono.

Depois da primeira noite (não necessariamente) dormida, o sábado foi uma grande maratona. Em cada canto, o espaço foi dominado pela folia, potência e apresentações impactantes. Às 14h30, a capixaba My Magical Glown Lens iniciou a tarde com o melhor da psicodelia, combinando sussurros e grooves envolventes, com um setlist baseado em Cosmos, lançado neste ano.

Às 16h, o glitter no rosto e as roupas em tons de azul, amarelo e vermelho anunciavam que o público já estava preparado para brincar de carnaval com o Bloco da Laje. Em um apresentação que parece não ter sido feita para ser descrita em palavras, mas sim experienciada, o grupo mostrou que é mestre em transformar o público em corpos brincantes. Mesmo com um algumas dificuldades técnicas no som, todo mundo já sabe o que esperar do Bloco da Laje – e, por incrível que pareça, isso não indica falta de inovação. Com suas músicas teatralizadas (ou seria teatro cantado?), banda e plateia eram um só. As performances contundentes fizeram do show um dos momentos mais políticos do festival, dando a maior prova de arte é espaço de resistência e ação. Sempre bem produzidos, tocaram em uma tarde nublada, com garoa, mas fizeram questão de contratar o som justamente nos versos de “O sol é o rei”.

Bloco da Laje

Às 19h, o Pachamama se inflamou com as empoderadas e autodeclaradas “embucetadas” do Mulamba. Um show pesadíssimo, tanto na pegada instrumental, quanto nos vocais, e principalmente pelas letras que rasgam os tabus da sociedade: versos que falavam abertamente sobre as violências do sistema e as opressões patriarcais. As mulheres eram maioria nas fileiras frontais do palco, cantando cada canção com intensidade e orgulho de serem quem são: por serem empoderadas, por serem livres, alguma por serem lésbicas, mas todas por serem mulheres. Guitarras, baixos, bateria, tchelo e as performances potentes e provocativas das vocalistas Amanda Pacífico e Cacau de Sá fizeram o chão tremer mesmo com chuva.

Mulamba

Ainda no palco central, às 21h30, foi a vez do grande headliner do festival: Os Mutantes. Em um público diverso, jovens que nem sonhavam em nascer na época da tropicália dividiam espaço com o público dos “jovens há mais tempo”, que tinham disposição de sobra pra ver um dos grandes nomes da música brasileira. Vestindo uma capa com ares de realeza e misticismo, Sérgio Dias e banda apareceram já triunfantes para um dos maiores públicos do evento. Só na aparição, as nossas pernas já tremem pelo peso de ver um pedaço vivo da história do Brasil diante dos nossos olhos. Um pouco abatido da febre e da gripe, Sérgio conduziu a banda com a segurança de quem tem uma carreira mais que consolidada. Cada música do setlist era um clássico diferente, mas foram os grandes hinos como “Bat Macumba”, “Ando Meio Desligado”, “Balada do Louco” e “A Minha Menina” e “Panis Et Circenses” que fizeram o público estremecer.

Sérgio Dias

Depois de um clássico, à 00h30 foi a vez de assistir um dos nomes mais interessantes do cenário contemporâneo: a carioca Ventre. Com um som revigorante e uma potência absurda, o power trio fez uma apresentação incrível. A força das caixas de som faziam com que o pulsar das melodias fossem sentidos dentro de nossos corpos. A postura de cada integrante era o mais envolvente: mesmo imersos em seus instrumentos, eles atingiam uma sintonia que tornava impossível a tarefa de segregar a melodia de cada um. Força que fez com que o guitarrista Gabriel Ventura arrebentasse as cordas da guitarra duas vezes. A mesma força era percebida nas batidas velozes da baterista Larissa Conforto, que demonstrou a mesma força para se posicionar em seus discursos contra casos de racismo e empoderando as mulheres da indústria musical. “Carnaval”, “Pernas” e “Bailarina” foram destaques de um show que impressionou pela unidade.

Ventre

No início da madrugada, foi a vez do palco Pacal lotar com outro trio não menos poderoso: a Musa Híbrida. Em um show envolvente, trouxeram os sucessos dos EP’s “Verde Fosco Roxo Cinza”, de 2014, e “Respirei o Poema que Cuspi”, de 2016, em uma nova roupagem: batidas eletrônicas, ora minimalistas, ora lo-fi, fizeram o público dançar e cantar durante toda a apresentação. Destaque para “Manga Rosa” e para a interpretação da envolvente “Alegria”, que ganhou o público com o indiscutível charme do vocal de Cuqui.

Ainda no palco alternativo, as apresentações de Joe Silhueta, The Shorts, Snow Twins e Mar de Marte se destacaram durante toda a madrugada. No Pachamama, Hierofante Púrpura e Tagore foram responsáveis por garantir a psicodelia até o sol raiar.

O terceiro e último dia teve muita chuva, mais música boa e uma público que sempre queria mais. Por isso, o som já começou a rolar logo às 11h30 no Pacal com Nino e, depois, Louis & Anas. Às 14h30, Thiago Ramil comandou a ala alternativa com o seu show mais intimista, sempre em ótima qualidade. Às 14h, foi a vez da argentina Tamboorbeat comandar a galera na abertura do Pachamama. A mistura de percussão e batidas eletrônicas fez com que o público transformasse a lona molhada da forte chuva que caía durante o show em uma pista de dança no melhor estilo “dance like nobody’s watching” e provar que ninguém é feito de açúcar.

Antes mesmo das 15h15, horário previsto para o início do show, a passagem de som da Boogarins já fez muita gente se concentrar em frente ao Pachamama. Uma das maiores bandas da cena atual brasileira, eles eram um dos principais nomes também do festival. Casuais e simpáticos, encontraram um público fascinado já nas primeiros riffs distorcidos. Dinho, vocalista e guitarrista, conduzia seus vocais suaves e hipnóticos com um sorrisão que convidada todo mundo a se deixar levar pelo ritmo dos goianos. O setlist se concentrou nas faixas de Lá Vem a Morte, álbum lançado neste ano e já mega consolidado entre o público do Morro.

Dinho Almeida

“Foi mal” e “Elogio à Instituição do Cinismo” foram pontos altos de uma apresentação que foi gigante do início ao fim. A versão mais experimental de “Onda Negra” foi outro destaque positivo. Enquanto Boogarins estava no palco, a chuva apertava em Santa Maria. Mas, se você pensa que isso foi problema, está enganado. As melodias provocantes fizeram todo mundo dançar na chuva, como se essa fosse o único ato possível – e talvez fosse mesmo. Com a apresentação chegando ao fim, um grande surpresa: o encerramento foi a com alucinante “Doce”, de “As Plantas que Curam”, registro de 2013. Para curtir até o último minuto, a plateia se entregou, balançando os cabelos molhados e fazendo os pés descalços deslizarem pela lona molhada.

Às 16h30, Francisco El Hombre tomou conta do palco central, com um público que também havia conferido o show de Boogarins – mostrando que essa dobradinha deu mais que certo. Envolvente, ritmado e puramente latina, a apresentação de Francisco El Hombre é de tirar o fôlego, tanto por impressionar, quanto por todos os pedidos de pulos incentivados pelos integrantes. Ao vivo, Francisco El Hombre deixa de ser uma banda e parece tomar forma de uma entidade, um corpo coletivo que vibra e transforma tudo em uma grande festa. “Calor da Rua” e “Bolso Nada” foram responsáveis por deixar o público ainda mais dançante. A emocionante “Triste, Louca ou Má”, com uma fala tocante da vocalista Juliana Strassacapa sobre aceitação e amor próprio dedicado às mulheres, fez da execução da faixa uma grande e linda terapia. Com uma apresentação intensa do início ao fim, com chuva e sol em disputa no céu, fez a plateia sair com sensação de alma lavada.

Juliana Strassacapa

O fechamento do festival foi garantido pelos vizinhos uruguaios do Milongas Extremas, no Pacal, e dos argentinos do El Sonidero Y Fanfarria Insurgente, no Pachamama. Fechamento do festival é um termo que concordo em utilizar. Agora, fim ou fechamento do Morrostock não me parece ser adequado. Nos três dias, com mais de 40 bandas tocando, o Morro provou mais uma vez que arte é para ser celebrada, defendida e vivenciada. O Morro é feito pelo todo, por aqueles que unem pelo direito de preencher a vida com cor, som e alegria. Mesmo com as chuvas e a lama que deixaram a experiência nos acampamentos mais complicada, curtir o Morrostock era um compromisso maior do que tudo.

Talvez, seja esse um dos principais ensinamentos: aprender que viver a arte é sentí-la no corpo, de dentro para fora e de forma para dentro. Que viver a arte é viver com intensidade. Que viver de arte é aprender dançar mesmo em tempos adversos – seja de chuva ou sejam às épocas de retrocessos políticos no campo da arte – e também não deixar de sorrir quando o sol finalmente abre.

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04/12/2017

Brenda Luiza Ferreira Vidal

Brenda Luiza Ferreira Vidal