As crônicas urbanas de Murilo Sá & Grande Elenco

06/09/2016

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Por: Fabiano Post

Fotos: Divulgação

06/09/2016

Amor, desencanto, caos, urbanidade, cinema, poética nonsense, autodescoberta, crítica, homenagem, saudade e outras cositas más, é isso que tem a ofertar Durango!, segundo álbum do multi-instrumentista virtuose soteropolitano – que aprendeu tudo que sabe de música com a vida e ouvindo Raul, seu ídolo maior. Murilo Sá (Murilo Sá & Grande Elenco) “são crônicas urbanas com boas doses de ironia e sarcasmo”, como bem explanado em seu release.

Durango! é um regozijo crescente aos ouvidos, do começo ao fim, faixa após faixa – são doze no total. A coisa toda só melhora, mais e mais e mais, até seu epílogo. Como o próprio Sá me disse: “Minha ideia era fazer um disco melhor que o primeiro. Fui mais cuidadoso com os timbres e a escolha das faixas”.

Nesse trampo o cara se mostrou um mestre em coquetelar diferentes padrões estéticos musicais de diferentes períodos temporais, renovando referências sonoras e amalgamando tudo com letras de poética extremamente bem sacadas, tudo absolutamente bem empacotado pelas bases do rock tradicional, sempre ele, que impregna seu ácido desoxirribonucleico, se refrestelando, vez ou outra, pelas ondas do rock tupiniquin dos anos 80, que é outra marca de Murilo.

“Durango!” é um belo surubex sonoro, autocolante, gruda no córtex auditivo e lá fica.

Como a vida tá duranga, perdoem o trocadilho; em tempos políticos e econômicos cada vez mais soturnos, onde, sem pedir licença, Nosferatu atronou-se, contrariando vergonhosamente sua própria regra; o discão capitaneou dindin para prensagem física dos Cds e K7s através de uma plataforma de crowdfunding.

Se no bem sucedido álbum de estréia, Sentido Centro, de 2014, Sá fazia um convite ao recolhimento e à intropspecção, em Durango! a autorreflexão é uma paralaxe sonora para fora, onde Sá oferta diferentes pontos de observação sobre a urbanidade caótica nas grandes metropolis, questionando e descortinando suas camadas e suas variáveis existenciais.

Em Sentido Centro o lance era barulho, lidamente bem praticado, onde o peso eletrificado das guitarras ditavam o tom; já em Durango!, o requinte alcançado pelo dedilhar dos sintetizadores é o mote desejado.

Durango!, nos apresenta um Murilo maturado e certeiro. Nele, o artista se arrisca e se permite navegar por águas sonoras e poéticas nunca dantes navegadas. A interpretação irretocável de Sá, a solidez suave de sua vocalização, de finíssimo trato, diga-se de passagem, e linearidade melódica, mantém os elos sonoros entre músicas com órbitas próprias, que ditam as mutações climáticas ao longo da execução do registro.

Para se compreender a pluralidade de temas e sons que harmoniosamente coexistem em Durango!, como é de meu costume, dei uma breve dissecada em algumas, poucas faixas, com o devido auxílio do autor.

A melódica e melancólica, faixa dois, “De Volta à Rua Solidão”, que conta com a participação de Rod Bourganos (Bombay Groove) e sua cítara mágica, é uma homenagem póstuma ao amigo, músico e dandy do dendê, Danniel Costa, parceiro de Bourganos na Bombay, falecido em 2015. A letra é repleta de memórias, saudades, despedidas e um até breve… “E a velha casa onde eu cresci já não possa mais voltar, talvez em outra encarnação”.

Em “Sufoco (parte II)”, quinta faixa, Murilo mergulha na frustração de uma amizade com sentimentos conflitantes e desequilibrados, o instrumental com base no synthpop e timbres inspirados no rock dos oitenta, para quem imagina que Murilo se inspirou em alguma fossa amorosa ou o que o valha, ledo engano, a iluminação chegou até ele, enquanto lavava louça, ouvindo “Ainda Vou Transar com Você”, d’Os Mutantes; já a sétima faixa, “Pele Vermelha”, é um western, inspirado nos filmes de Sergio Leone, nas composições de Enio Morricone e na música country de Hank Willians; na levada ressonante e marcante do violão dobro o personagem, um forasteiro pele vermelha é hostilizado pelo preconceito e frieza da sociedade na grande metrópole.

Sá, como já havia feito em seu primeiro disco, se manteve a frente da produção em Durango!. Além de tocar uma porrada de instrumentos, teve seu registro e mixagem manufaturadas novamente pelo engenheiro Bruno Pontalti Santos, nos estúdios Baticum e a masterização ficou por conta de Arthur Joly. O belo trampo da capa ficou a cargo de Glauber Guimarães.

As especialíssimas participações de amigos e parças de profissão são outras das maravilhas que contribuem, cada um em sua devida especialidade, em muito para a musculatura de Durango!, são eles: Charly Coobes (ex-Supergrass), Pedro Pelotas (Cachorro Grande), Gabriel Guedes (Pata de Elefante), Tomas Oliveira e Pedro Pastoriz (Mustache e os Apaches), Rodrigo Bourganos (Bombay Groove), Vinicius Chagas (Chaiss), Rob Ashtoffen, Pedro Falcão, Pedro Petracco, Lucas Oliveira e João Rochetti (Vitreaux) e Reinaldo Soares “Destemido”.

De Durango! duas coisas a salientar: Primeiro, é um baita disco, repito, um baiiiiita disco que irá sedimentar o artista, e em segundo, Murilo Sá se excedeu, foi além, é bi-campeão!

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06/09/2016

Gaúcho, de Porto Alegre, vivendo a 15 anos no Rio de Janeiro. Colaborador da Vice Brasil e autor lusófono do portal de mídia cidadã Global Voices.

Fabiano Post