Exclusivo | Gui Amabis comenta o disco novo recém lançado: “Miopia”

25/05/2018

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Divulgação

25/05/2018

Muito particular em sua obra, de difícil classificação e que parece mais influenciar do que o contrário, Gui Amabis acerta o foco e o balanço de Miopia. O quarto disco do músico compositor e produtor paulistano é lançado hoje nas plataformas digitais e chega em formato físico no próximo mês.

No disco ele faz um passeio referenciado em sua obra e encerra um ciclo de estética sonora, com a formação que o acompanha desde 2012.

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“Eu pensei em fechar esse ciclo da formação com esses músicos, que são incríveis e me acompanham há um tempão, de um jeito legal. É um resumo dos meus outros três discos. Trago os samples, que é uma coisa que tem no Memórias Luso-Africanas (2011) muito presente, e ao mesmo tempo a banda e essas referências todas que tem no Trabalhos Carnívoros (2012) e no Ruivo em Sangue (2015)”, explica Amabis.

Ouça Miopia:

A abertura de Miopia remete logo a Trabalhos Carnívoros em sonoridade e letra. “O ‘Ar Condicionado’ é falando de um ser vivo já no fim da vida, que já trocou a pele muitas vezes, e se desgastou e que no fim de tudo ele consegue perceber e relaxar e se sentir bem no próprio corpo. Assim que comecei a fazer, associei ela logo ao Trabalhos Carnívoros”, conta Amabis.

Ao fechar um ciclo de estética sonora, Amabis encerra o disco com a canção que aponta para uma nova forma de compor e produzir. Durante os shows de Ruivo em Sangue, Gui passou a fazer apresentações em duo, acompanhado de Régis Damasceno, e aposta em um formato acústico para seguir. “Para o próximo disco, eu quero mudar um pouco a sonoridade que eu criei com esses quatro discos” adianta. Para o show de Miopia já apresenta novo formato. “As músicas vão estar lá, mas de outro jeito, diferente do disco, já apontando para o próximo”.

É possível haver uma miopia que não permita o amplo acesso a obra de Gui, assim, em toda sua magnitude. É provável também que muita gente tenha sido impactada por obras com colaborações suas. Em Miopia estão canções que ajudam o ouvinte entender a visão e atuação de Gui. Produtor, multi instrumentista e compositor, além de sete canções de sua autoria (uma em parceria com Julia Valiengo da Trupe Chá de Boldo), Gui traz em Miopia a canção “O Inimigo Dorme” gravada no disco De Baile Solto (2015) do pernambucano Siba, e uma parceria sua com Lucas Santtana, “Contravento”, registrada por Céu em Caravana Sereia Bloom, disco produzido por Gui. Conversamos com Gui por telefone e, abaixo, você confere nosso papo e um faixa a faixa onde o músico comenta todas as músicas do novo disco.

Como se deu a definição de gravar faixas que já haviam sido registradas anteriormente?
São músicas que eu sempre quis cantar e não tinham espaço nos discos anteriores e nesse disco considerei fazer um resumo de tudo que eu já fiz. Miopia, que dá nome ao álbum, está registrada pelo projeto Sonantes (Céu, Gui Amabis, Rica Amabis, Pupillo e Dengue; de 2008). Esta foi a primeira música que eu compus e mostrei às pessoas. Considero esta minha primeira música oficial. Quando fui fazer os meus discos, eu tinha uma ideia de gravar só as minhas músicas, mas como gostei tanto da música “O Inimigo Dorme”, do Siba, resolvi gravar porque acredito que consegui fazer um arranjo não redundante. Assim como “Contravento”, que, no disco da Céu, é uma cumbia, e eu ficava pensando nela de outro jeito, como uma canção. Eu gosto muito do Lucas (Santtana), acho ele um compositor incrível, e a gente já fez algumas músicas juntos além desta. A música “Mais um Whiskey” foi entregue para Laura Lavieri e deve sair no primeiro disco dela, mas já tem uma versão muito bonita registrada ao vivo Laura.

E sobre o restante das composições?
Morando no Rio, eu ficava muito tempo sozinho e escrevi as músicas assim. Inspirado muito no momento, que, pra mim, é um dos mais difíceis que a sociedade brasileira está vivendo. É um disco de fechamento de ciclo, apontando pra outra coisa, inspirado pelo que tá acontecendo agora. Meio difícil de explicar.

Ao revisitar sua obra, você traz de volta as participações vocais, como em Memórias Luso-Africanas. Como foi a escolha?
No primeiro disco (Memórias Luso-Africanas), eu não queria me colocar como cantor porque ser cantor tem toda uma responsabilidade, um outro posicionamento na música. Você não está mais protegido pelos estúdios, e sim exposto, falando as letras, que são aquilo que o público mais consegue se relacionar, o que chama mais atenção a princípio. Eu não queria me colocar muito nesse lugar no primeiro disco. Mas fui fazendo mais músicas, e sentindo que tinha que cantar aquelas músicas e, no Trabalhos Carnívoros, resolvi cantar sozinho, e no Ruivo em Sangue também acabei não chamando ninguém pra cantar. Mas nesse eu já estava fazendo o Sambas do Absurdo com a Juçara [Marçal], de quem eu sou fã. Acho ela incrível, e aí eu sugeri de ela cantar uma música no disco. Chegamos no estúdio e eu disse: “Oh, são três (músicas)”. Ela topou. A Juçara pra mim é uma das vozes mais bonitas que temos por aqui e fazia todo o sentido chamá-la pela parceria que nós temos no Sambas do Absurdo, e resgatei também a Tulipa Ruiz que cantou no meu primeiro disco, além de trazer minha filha Rosa [filha de Gui com a cantora Céu, com quem foi casado].

Como foi o processo de trabalhar com a sua filha?
Foi uma surpresa, na real. Porque eu queria um coro para essa música. Assim que eu terminei essa letra, eu pensei em chamar a Tulipa pra cantar esse coro, mas quando eu consegui a disponibilidade dela, a Julia (Valiengo autora da letra com Gui) estava viajando e não poderia gravar. Como faltava uma voz, eu convidei a Rosa e ela aceitou. Aí a Rosa virou a lead, ela canta tão afinada e ficou tão bonito a voz dela que a gente resolveu assumir isso.

E sobre a sonoridade, além das programações, temos a banda base que vem te acompanhando desde Trabalhos Carnívoros, certo?
A banda (Samuel Fraga, Regis Damasceno, Dustan Gallas e Richard Ribeiro), que me acompanhou desde quando eu resolvi tocar ao vivo o Memórias Luso-Africanas, então quando eu fui gravar o Trabalhos, eles entraram pra gravar comigo. A partir daí, o Ruivo em Sangue e o Miopia são com essa banda. Durante os shows do Ruivo, passei a fazer esse show em duo, com o Regis, e gostei muito do formato, para onde devo seguir, mais acústico, sem bateria. Na verdade, eu já vou fazer isso no show novo. Vão ser só dois violões, um violoncelo e um clarinete. O show vai ser uma coisa diferente do disco. As músicas vão estar lá, mas de outro jeito, já apontando pra esse próximo disco que quero fazer experimentando outro formato. No disco, ainda participam Yaniel Matos (cello em “Ar Condicionado”, “Espírito Acrobático”, “Mais um Whiskey”, “Todos os Dias”), o Rodrigo Campos (cavaquinho em “Para Mujica”) e o Thiago França (sax barítono em “Quase um Vinho Bom”).

O lançamento do show de Miopia acontece no Sesc Bom Retiro no dia 8 de Junho. Na ocasião, Gui estará acompanhado por Regis Damasceno (violão) Maria Beraldo (clarone e clarinete) e Bruno Serroni (violoncelo).

E sobre o show de lançamento?
Essa formação eu pensei pelo som. O Bruno é um violoncelista muito bom e a gente já conversa há tempo. Ele conhece um pouco do meu repertório e a Maria [Beraldo, da banda QuartaBê] é incrível, e toca muito bem. Achei interessante pra ter esse som mais acústico. Vai ser diferente. Eu queria as presenças do Richard, do Samuel e do Dustan, mas o momento é para experimentar outro som. O Sambas do Absurdo tem uma influência nessa escolha, por ter sido algo feito em um trio e soar legal, mas também para eu poder experimentar algumas coisas com o meu som. Retiro inclusive os samples e programação. Quem ouvir o disco vai ouvir o disco. O show vai ser outra coisa. Claro que mais pra frente é possível que retomemos a formação banda e façamos shows. São amigos e músicos que para minha banda eu não pensaria em outras pessoas para compor com estes instrumentos.

Leia abaixo um faixa a faixa de Miopia feito pelo músico:

“Ar Condicionado”
Foi uma música que fiz quando eu estava morando no Rio, em uns dias bem quentes, que não dava pra sair de casa. Quando eu comecei a fazer, associei ela logo ao Trabalhos Carnívoros, até pelo ritmo. E a letra é como se fosse a sequência do TC. No TC, eu falo de como a coisa se organizou, um pouco do desenvolvimento da vida na terra, e da gente, do amor. O “Ar Condicionado” já é falando de um ser vivo que já tá no fim da vida, e que já trocou a pele muitas vezes, e que se desgastou e no fim de tudo ele consegue perceber e relaxar e se sentir bem no próprio corpo. “Que sorrir é questão de vontade. Que chorar faz o mar crescer.” Que nosso choro nos alimenta. Que o mar no final volta com a chuva. Então é uma música de continuação do TC.

“Espírito Acrobático”
É uma música que fiz pensando em dois amigos meus. O Dustan Gallas e o Tony Gordin. A música é uma homenagem aos dois que pra mim dividem essas características. Ao fazê-la fui pensando em um e no outro no meio do caminho e acabou saindo essa música. Resolvi chamar a Juçara pra cantar porque, no camarim de um show dos Sambas do Absurdo, eu mostrei pra ela, e ela gostou muito da música. Foi a música que eu chamei: “Vamos gravar aquela música”. Aí eu mostrei as outras duas e ela aceitou gravar tudo.

“Mais um Whiskey”
Quando fiz, pensei na Laura Lavieri cantando. Quando eu terminei, entreguei a ela: “Oh, tenho uma musica pra você gravar”. Ela gravou para o disco que ainda não saiu, mas registrou uma versão ao vivo. Acabou que eu gravei também. E entendi que esse é o momento de lançar o meu disco. Depois vem copa, eleição… Meio como se fosse um curta metragem. É uma cena. Fala de dois amigos bebendo. E um que tá tão cansado que a bebida bate de um jeito errado e ele vai subir e cai na escada, depois fica na cama pensando no que fez de errado, querendo melhorar. Não é em primeira pessoa. É geral de todo mundo. Geralmente, eu não faço música em primeira pessoa. São músicas que faço pensando em várias coisas. Mais num contexto geral do que de uma experiência própria. Ou uma música especificamente para alguém. Tirando “Espirito Acrobático”, que foi uma mais direcionada aos amigos, e “Para Mujica”, que eu fiz para o [José] Mujica.

“Contravento”
Essa que eu fiz com o Lucas(Santtana) pra Céu. Que fala do país tropical. Um cenário seco, num país tropical e, novamente, pra mim surge como mini contos. De imagens cortadas, de cortes secos, que não tem um tema, como a próxima.

“Todos os Dias”
É uma música que eu falo um pouco do que sinto hoje em dia. Com a quantidade de informação que a gente tem. E as informações que a gente vem recebendo não são animadoras. E que a gente acaba até por vezes não entendendo muito quem a gente é e o que a gente precisa pra se identificar nesse contexto. A gente sempre tem que ter alguns atos na vida para que a gente se reconheça como pessoa.

“Para Mujica”
Eu fiz para o Mujica a partir de um documentário que eu vi em que, em um trecho, ele fala sobre como a gente usa o nosso tempo e como que a sociedade moderna não respeita o tempo das pessoas, e as pessoas estão convencidas que o tempo delas não vale tanto, e trocam o tempo por dinheiro e que é o tempo a única coisa que não se compra de volta. Ela fala disso, da utilização do tempo. Uma homenagem pro Mujica.

“Quase um Vinho Bom”
Fala do mundo, retoma esse tema. Em a gente estar ou não preparado pra esse mundo. E esses escapes mentais que a gente usa pra conseguir ficar tranquilo e não se desesperar. Que é tudo pra conseguir viver nesse mundo sem estar preparado pra ele e o mundo não estando preparado pra você.

“O Inimigo Dorme”
Também conversa com esses temas das outras músicas, que fala da relação do homem com o poder e com a desigualdade.

“Miopia”
Primeira musica que fiz e apresentei pras pessoas. Me incentivou a compor canção. Sempre quis gravar essa música e nunca consegui. O arranjo, por ser a última música do disco, vai pro violão e voz cru, e é pra onde eu quero seguir, a partir desse show. Eu queria que anunciasse esse lugar que a gente tá indo, que é um outro. Tem um tema, ela critica de certa forma como as coisas se organizaram e como o ser humano inventou esse jeito de viver e essa sociedade que é desigual pra caramba. No mundo todo. Muda um pouco de país para país, mas, em geral, é uma forma de ter seres humanos subjugados. É um disco que fala um pouco disso. “No momento, a gente precisa ser míope o suficiente pra não perder as forças. E tem que ter a visão suficiente pra enxergar pra onde a gente quer ir”, encerra o compositor.

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25/05/2018

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural.
Bruno Barros

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