Psicodália 2019 | Pt. 3 | Letrux, Mulamba, Hamilton e o fechamento de uma utopia

15/03/2019

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

15/03/2019

O Carnaval da NOIZE foi acampado na Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho (SC), junto às 5.500 pessoas que estiveram presentes na 22ª edição do festival Psicodália.

Ontem e anteontem publicamos a primeira e a segunda parte da nossa cobertura, agora, você confere abaixo o que rolou no último dia da maratona de música que tomou conta do evento.

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Dia 5 – Terça, 5/3

Após quatro dias de acampamento, todos presentes já estavam completamente inseridos na realidade paralela que se abre no Psicodália. Longe dos celulares, que se tornavam inúteis sem sinal de internet e sem bateria, as pessoas estavam 100% conectadas entre si e com a natureza.

O quinto dia de shows começou às 10h no Palco do Lago com as apresentações dos paulistanos da , da banda francesa Cao Laru e dos mineiros do projeto Ramona & The Red Vipers. Houve quem não dormiu na noite anterior e viu esses shows virado, quem pulou cedinho da barraca e estava lá para prestigiá-los de café da manhã tomado e também quem não conseguiu acordar a tempo, mas o clima dos shows matutinos se manteve caloroso como sempre.

Culto ao Rim (Foto: Nick Sourient)

O Palco do Sol abriu às 14h com o show da Culto ao Rim, de São Paulo. A banda está em atividade desde 2000 e já passou por várias formações, hoje é um quarteto de guitarra, baixo, bateria e sopros. O seu som é bem difícil de ser descrito, talvez “jazz” seja o termo que mais se aproxima do que eles tocam, mas na verdade é uma música bem livre, que intercala momentos de puro peso e ruídos com melodias bem dançantes. Em sua apresentação extremamente competente, os músicos estavam com máscaras e pinturas corporais e protagonizaram um espetáculo bem envolvente, porém, houve um déficit de pessoas na sua plateia porque muita gente foi para o outro palco assistir à passagem de som da Letrux, que iria tocar à noite.

Aiace (Foto: Nick Sourient)

Depois, quem subiu ao palco foi a cantora Aiace, que tem uma carreira solo além de participar da banda Sertanília. Direto de Salvador, ela veio trazer o calor da Bahia para o Psicodália, com músicas próprias repletas de sensibilidade e potência emocional. Sua voz é impressionante, ora sutil ora penetrante, e, ao longo do show, ela tocou alfaia e ficou gravando vocais na hora e soltando o som em loop, construindo uma base melódica riquíssima.

Por volta das 16h30, o céu nublou pela primeira vez desde que o evento havia começado. Até então, os dias haviam sido marcados por um calor intenso e as noites, por um friozinho gostoso. Essas mudanças de temperatura prejudicaram as gargantas de muitos, mas ninguém reclamou porque, contrariando todas as previsões do tempo, não havia caído um pingo d’água até então. Porém, por pelas 17h30, a hora da chuva chegou: pouco antes do show do Hamilton de Holanda, no Palco do Sol, começou a chover forte, o que não foi um grande problema, apenas fez com que todos se aglomerassem na área coberta em frente ao palco.

Hamilton de Holanda (Foto: Nick Sourient)

O maior nome vivo do bandolim no Brasil veio se apresentar no formato de trio, acompanhado por Thiago da Serrinha (percussão) e Guto Wirtti (contrabaixo). Antes de subir ao palco, ele foi apresentado como o “Jimi Hendrix do bandolim” e, apesar da comparação ser um pouco engraçada, fazia sentido. Hamiton é um mestre, uma pessoa que demostra uma intimidade inacreditável com seu instrumento e os músicos que lhe acompanham não deixam por menos. Seu show foi uma explosão de virtuosismo, experimentalismo e bom gosto. O bandolim, que historicamente foi muito associado ao samba e ao choro no Brasil, se transforma em suas mãos em uma ferramenta universal, onde cabe tanto o jazz quanto sonoridades balcânicas e circenses. O show contou ainda com versões instrumentais lindas de “Consolação” e “Canto de Ossanha”, de Baden Powell, que foram aclamadas pela plateia. Curiosamente, conforme o show ficou mais forte, a chuva também ficou, mas, após o fim da apresentação dele, logo parou de chover definitivamente.

Hamilton de Holanda (Foto: Nick Sourient)

Bacamarte (Foto: Nicolas Salazar)

A programação do Palco Lunar abriu com a Bacamarte, que trouxe a participação especial da cantora Jane Duboc. Formada no Rio de Janeiro, em 1974, a banda representa um dos capítulos mais importantes do rock progressivo brasileiro, tanto que seu disco de estreia, Depois do Fim (1983), já foi incluído em listas estrangeiras como um dos melhores discos de prog já feitos no mundo. É bonito ver como o Psicodália se preocupa em trazer tanto artistas contemporâneos quanto nomes lendários da história do nosso país. Para quem é fã de progressivo (e havia muitos presentes), o show da Bacamarte foi um prato cheio, repleto de solos mirabolantes e timbres espaciais. Infelizmente, em alguns momentos o seu som ficou um pouco esquisito se comparado à perfeição técnica das demais apresentações, mas também não foi nada que tenha chegado a comprometer o resultado final do espetáculo.

Mulamba (Foto: Nicolas Salazar)

Depois, veio um dos shows mais impactantes do festival: Mulamba. A banda paranaense vem chamando bastante atenção em todo Brasil após ter lançado seu álbum homônimo de estreia no ano passado. Na edição de 2018, o grupo já havia feito um show arrasador no Psicodália e, dessa vez, havia muita expectativa pelo que iria apresentar, tanto que, bem antes das artistas entrarem no Palco Lunar, a plateia já estava agitada gritando por elas.

Tudo começou com uma versão do Hino Nacional em solo de guitarra ruidoso e agressivo, só para dar o tom do que viria pela frente. Em seguida, elas tocaram “Vila Vintém” e era impressionante como a plateia acompanhava cada gesto da banda sem conseguir piscar os olhos. Para quem pôde acompanhar o grupo nos últimos anos, é nítido o seu crescimento no palco. Sempre houve um caráter cênico em suas apresentações, mas, agora, a banda elevou isso à potência máxima e está realmente afiada, tocando, cantando, dançando e interpretando as canções como nunca.

O pedido de casamento no show da Mulamba (Foto: Nicolas Salazar)

Foto: Nicolas Salazar

Em determinado momento, as vocalistas disseram que fariam um sorteio para premiar alguém da plateia e chamaram uma menina do público para cima do palco. Na verdade, era só um pretexto, depois de mais algumas músicas, elas revelaram que o prêmio era um pedido de casamento da sua namorada. Foi um momento lindo e muito forte, vê-las declarando seu amor à multidão levou muita gente às lágrimas. Na segunda metade do show, a Mulamba chamou ao palco Larissa Conforto para tocar com elas uma música nova chamada “Dandara”, um funk-afrobeat pesadíssimo. Chamaram também as integrantes da banda Horrorosas Desprezíveis e ainda a equipe de profissionais responsáveis pela cozinha do Psicodália, em uma homenagem emocionante a quem é fundamental para que um evento como esse aconteça. Pra completar, a banda ainda reclamou da ausência de crianças no evento: “Ano que vem vai ter criança de novo no festival!”, disseram. No fim, tocaram sua composição que já se tornou um hino, “Mulamba”. O refrão, “Você vai lembrar quando eu te olhar lá de cima / Vai reconhecer e vai respeitar minhas cinzas”, foi cantando em uníssono por todas as mulheres presentes.

Letrux (Foto: Nicolas Salazar)

O próximo show foi o headliner do dia: Letrux. A opção de deixar essa atração para fechar o palco principal do evento significa muito, aponta uma louvável expansão da curadoria do Psicodália ao longo do tempo. Como vimos, ainda há espaços de honra dedicados ao rock progressivo, à música psicodélica e às lendas da música, que sempre foram pilares da programação do festival, mas, dessa vez, ficou nítido o desejo de ir além e incluir nomes de peso da cena brasileira contemporânea, como Anelis Assumpção, Xenia França e Letrux. Bina Zanette, uma das diretoras do evento, comentou isso conosco:

“O festival foi criado por músicos com a ideia de que as bandas de rock não tinham espaço pra tocar. E a base, quando se criou o Psicodália, era muito mais focada no rock progressivo e psicodélico. Mas é um festival que tem 22 edições, então foi se transformando. O público foi se transformando, a necessidade do público de ver outras tendências foi se expandindo. A gente ainda trabalha com esse olhar do rock psicodélico e progressivo, mantemos isso, mas a questão é que a cena alternativa do Brasil cresceu demais, e isso expandiu muito as possibilidades. Mantemos a ideia de trazer revivals, por exemplo, mas a gente mescla isso com coisas mais atuais dentro de uma linguagem em que as coisas se conversem. Eu acho que gênero é uma besteira, a gente tenta desconstruir isso há muitos anos e agora a gente chegou num lugar em que o nosso lineup é praticamente uma enciclopédia. Você enxerga nele o cerne do conceito do festival, que não se perdeu, quem vem pra cá há anos enxerga a tradição do festival, mas os tempos mudaram. Nossa ideia é diversificar até por uma questão de sobrevivência conceitual. E a gente é muito cuidadoso com a curadoria, temos um cuidado estético pra não perder a nossa identidade. Nossa ideia é diversificar, mas dentro de uma proposta estética que o público aceite, a gente é muito cuidadoso com o público”.

Letrux (Foto: Nicolas Salazar)

Considerando a expectativa que havia na plateia pelo show da Letrux, tudo indica que o público do evento realmente está muito conectado à música brasileira de hoje. Outro ponto que chama atenção é o vínculo estreito da plateia com a ampliação dos debates feministas e sobre o protagonismo das minorias, pautas que se conectam de alguma forma ao sucesso de artistas como Mulamba e Letrux. Entre esses shows, parte expressiva da plateia estava cantando em coro: “As gay, as bi, as trans, as sapatão, tão tudo organizada pra fazer revolução”. Mais um sinal de que o evento é um espaço amigável às diferenças e que se preocupa em ser um local acolhedor às pessoas LGBTQ+.

Quando a Letrux entrou no palco, foi um estardalhaço geral, uma explosão de euforia tomou conta e logo ficou claro que o jogo estava ganho. Letrux não estava ali pra conquistar o público: o público já era dela. Foi impressionante ver como as pessoas sabiam de cor todas as músicas do show. Composições como “Vai Render”, “Ninguém Perguntou Por Você” e “Puro Disfarce”, todas do álbum Letrux em Noite de Climão (lançado em vinil no NOIZE Record Club), já se tornaram clássicos. O show foi uma grande catarse coletiva pautada por um protagonismo feminino, tanto que Letrux fez questão de convidar ao palco as integrantes da Mulamba e a percussionista Larissa Conforto para dividirem o palco com ela em “Que Estrago” e “Flerte Revival”.

A participação da Mulamba no show da Letrux (Foto: Nicolas Salazar)

“Eu já tinha participado de uma roda de blues com a Larissa, ela é maravilhosa, uma das melhores bateristas, é fodona”, comentou Letícia Novaes, a Letrux, conosco nos camarins após o show: “E eu já conhecia, mas nunca tinha visto a Mulamba ao vivo. Fiquei abismada, essa é a palavra. No show delas, a gente estava atrás das cortinas e estava até com medo de entrar depois porque a galera estava cantando mais alto que elas (risos) É um encontro muito potente de mulheres, quando elas entraram no nosso palco, me faltou ar. Foi uma hecatombe. E é isso, as mulheres estão cada vez mais se unindo e rejeitando aquela velha ideia de competição entre mulheres, essa besteira que um dia tentaram botar na nossa cabeça. Foi lindo, eu amei muito, elas são sensacionais”.

Letícia comentou ainda a importância que vê no Psicodália:

“Eu até falei isto no palco, a gente tá dentro de uma audácia, né? Santa Catarina é o estado mais bolsominion do Brasil e existir um festival dessa magnitude dentro do estado mais bolsominion do Brasil é uma audácia maravilhosa. E que bom fazer parte dessa audácia, que bom estar dentro da coragem nesse momento. Tiveram questões né, me falaram que foi o ano mais tenso, a proibição de ter crianças aqui é a coisa mais ridícula do mundo porque seria tão lindo uma criança estar observando essas existências. Música tem que estar atrelada a esse tipo de vibração. Eu sei que é um papo hippie, mas meu coração é hippie, sempre falo isso. Passei minha vida acampando, então chego aqui e vejo as barracas e penso que isso faz tanto sentido, sabe? É um pouco o mundo ideal, em uma escala pequena, mas é você tentar criar o mundo ideal. Fiquei bem impressionada, vida longa ao Psicodália. E tomara que, sei lá, role Psicodália Bahia, Psicodália Rio, sei que é muito difícil, mas imagina! Um Psicodália por mês em cada estado do Brasil! Seria um sonho”.

Letrux (Foto: Nicolas Salazar)

Por fim, ainda conversamos um pouquinho sobre os projetos da Letrux pra 2019 e Letícia confirmou que está produzindo seu próximo disco, que sairá no ano que vem:

“Vamos gravar o segundo disco no final do ano. Vai rolar, eu tô em processo de gestação, inclusive fiz uma música nesse camarim. A galera foi passar o som e demora, a última coisa é voz. Aí fiquei aqui no camarim, me desconectei do celular e comecei a escrever umas coisas que eu já vinha pensando, fiz uma música aqui no Psicodália. Acho que vai rolar, gostei dela. Em novembro, a gente grava o segundo disco no estúdio da Red Bull [em São Paulo]. Ano que vem, até mixar e masterizar, depois do carnaval a gente lança”.

Tuatha de Danann (Foto: José Tramontin)

Depois da Letrux, o Palco dos Guerreiros ficou lotado com os shows da Tuatha de Danann, uma banda mineira de folk metal celta, e da paranaense Machete Bomb, que traz um som único. A mistura original que eles fazem de rap com rock pesado fez o público suar tudo o que não tinha suado até então em grandes rodas punk. Quando o show acabou, ficou aquela sensação de profundo vazio existencial, tipo: “e agora?”. Foi inevitável sentir que o portal interdimensional daquela utopia estava se fechando e, logo, todos nós teríamos que voltar à realidade cotidiana.

Machete Bomb (Foto: José Tramontin)

Mas é isso, foi bom demais enquanto durou. Que venham mais e mais edições do Psicodália!

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15/03/2019

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes