A voz sem medo de ANOHNI em “Hopelessness”

05/05/2016

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Leonardo Baldessarelli

Por: Leonardo Baldessarelli

Fotos: Divulgação

05/05/2016

Você lembra quais foram as cinco músicas indicadas para o Oscar de Melhor Canção Original em 2016? Pois é, nem eu lembro exatamente, até porque não importa tanto nos dias de hoje quanto já importou – mas, como fã, há um fato sobre a premiação que ficou preso à minha memória e dificilmente se soltará. No dia 14 de janeiro, quando os indicados foram anunciados, passei os olhos pelas possíveis ganhadoras de Melhor Canção Original e, de primeira, não me surpreendi com nada – Sam Smith, The Weeknd, Lady Gaga… Passei os olhos de novo e li “Antony” entre os indicados, e depois de checar em alguns sites percebi que era aquela mesma Antony que eu pensava, concorrendo pela participação na linda Manta Ray, de J. Ralph, trilha do documentário Racing Extinction (2015). A Antony de Antony and the Johnsons, que foi a primeira cantora trans a vencer o Mercury Prize, em 2005, de parcerias incríveis com Björk e Hercules and Love Affair, e da voz estonteante que conquistou toda essa gente. Foi uma surpresa, por sequer saber do envolvimento de Antony em Racing Extinction; e também foi uma alegria como fã, pela simples indicação e por perceber que um dos meus artistas favoritos poderia ganhar uma exposição maior do que jamais ganhou, algo como um Elliott Smith de 1998 acontecendo de novo. Mas minha mente sonhadora (e meio doente, confesso) de fã logo percebeu que: a) o Oscar não tem mais o “mundo inteiro assistindo” como outrora; b) quais eram as reais chances de Antony cantar durante a cerimônia? Principalmente uma canção que denuncia os problemas das mudanças climáticas? Uma sucessão de eventos confirmaram minha segunda suspeita. Dos cinco indicados, só os três mais famosos – citados acima – tocariam durante a premiação, e Antony estava fora da lista. Mesmo tendo sido convidada para assistir a celebração, ela se recusou a viajar para os EUA e participar, publicando uma carta em que explica suas razões. O centro do manifesto, claro, era sua não-participação, mas a carta também serviu para denunciar a homofobia, sexismo e falta de preocupação do governo americano com o meio ambiente e as minorias. Ir ao Oscar, para Antony, era sentar ao lado do seu maior inimigo e passar algumas horas achando que tudo estava ok, seria aliar sua arte aos interesses das grandes corporações. “Eu quero maximizar minha utilidade e advogar pela preservação da biodiversidade e pela busca da decência humana a partir da minha esfera de influência”, comentou.

No meio desse contexto, Antony já havia abandonado publicamente o seu nome original e assumido uma nova alcunha. Agora, ela é ANOHNI (ainda citada por muitos como “a artista conhecida anteriormente como Antony Hegarty”) e se prepara para o lançamento de seu primeiro disco como tal, Hopelessness, agendado para esta sexta, 6 de maio, em lançamento da Rough Trade Records. E Hopelessness, em resumo, é uma grande expressão desses descontentamentos da artista com os ideais norte-americanos, que o afastaram do Oscar – e sem nenhuma vergonha de estar recheado com músicas de protesto. É a comprovação de que sua promessa de “advocacia”, que comentamos no parágrafo anterior, já é real – e exemplos não faltam, como comentarei nos próximos parágrafos.

Para quem conhece o estilo de ANOHNI, é preciso destacar que tudo mudou muito. As composições talvez continuem semelhantes às suas clássicas baladas ao piano – como a já imortalizada “Hope There’s Someone” – quando o assunto é estrutura e escrita musical, mas para isso é preciso reimaginar o que Hopelessness é. O novo disco é uma explosão de sonoridades eletrônicas, explorando synths e percussão digital – o que se explica facilmente, já que o álbum foi produzido por dois dos nomes mais hypados da música eletrônica e do pop experimental na atualidade: Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke. O que muito vem se falando por aí é que o disco tenta ser um pop eletrônico “com conteúdo”. “ANOHNI criou algo novo”, diz a Pitchfork. “O hino eletrônico dançante como música visceral de protesto”. Ok, sons como “Watch Me” e “Execution” realmente têm seu potencial como música pop, mas o que Hopelessness parece, mais do que um simples disco eletrônico e dançante, é um mergulho experimental em sonoridades sintéticas, muitas vezes se tornando dissonantes e não muito agradáveis – principalmente para quem não está acostumado a ouvir impactos de objetos amplificados substituindo a percussão clássica. Como “produto”, o novo álbum talvez seja o que de mais próximo do “pop convencional” que ANOHNI já chegou, contextualizando seus lançamentos em suas respectivas épocas. Mas sua aproximação a essa sonoridades não pode ser vista de forma pejorativa – tanto a ideia em si quanto a forma com que a apropriação de sonoridades eletrônicas acontece são instigantes e até certo ponto confusas; não há grandes fórmulas harmônicas e de timbre identificáveis, mas sim uma grande mistura de explosões sonoras, às vezes difíceis de se identificar. E o resultado é uma atitude sonora que se iguala às exposições líricas da musicista: tudo é muito alto, parece que está “na sua cara”. ANOHNI não tem medo de gritar.

Até é por isso que repito tanto a palavra explosão. Ainda lembro do susto que levei quando 4 Degrees, o primeiro single, foi lançado no fim de 2015. A voz de ANOHNI era acompanhada por orquestrações extremamente amplificadas, que chegavam a distorcer em muitas partes do arranjo. Apesar de desconfiar que uma parcela imensa da gravação dessa música tenha sido feita de forma acústica, o trabalho dos produtores e da mixagem traz um clima diferente e inédito dentro da música da cantora, sombrio e quase industrial, apesar da composição, do trabalho de timbres e da voz de ANOHNI aproximarem a faixa muito mais ao pop e ao erudito do que a qualquer outro gênero.

Também desconfio que o “clima erudito” seja um fruto da relação das minhas visões de mundo enquanto fruidor de ANOHNI, mas é impossível não destacar isso. Como, apesar da pegada pesada de música eletrônica e até industrial de quase todas as faixas, a voz da cantora e os acompanhamentos um tanto virtuosos dão um ar de pompa às faixas. Como se só pelo seu meio o conteúdo já se tornasse algo mais importante e impressionante. Tirando “4 Degrees”, que parece claramente ter surgido de registros acústicos, todas as músicas são um mergulho profundo no mundo dos synths. “Violent Men” se destaca pelas colagens sonoras, típicas de Oneohtrix Point Never. A voz de ANOHNI vai e volta sem necessariamente seguir uma continuidade de fala oral, é distorcida, amplificada e recortada constantemente. E tudo isso funciona maravilhosamente bem com o tema da faixa – a violência masculina. O clima de terror é construído sonoramente enquanto ouvimos o canto: “we will never, never again. Give birth to violent men” (nós nunca, nunca mais. Daremos vida aos homens violentos). É um canto que evoca um ponto de limite no sexismo e no patriarcado, algo como um “já chega!”. De novo, mesmo com uma voz doce, ANOHNI grita.

Mas essa voz se desenrola da doçura e do agradável na faixa mais dissonante (e impressionante) de Hopelessness, “Obama”. E “dissonante” é praticamente a única definição possível da sonoridade da faixa. ANOHNI engata graves como poucas vezes foi visto e dialoga com uma multiplicidade de sons sintéticos que constrói o clima sombrio. E se o nome da música chamou mais sua atenção do que a descrição do som, saiba que “Obama” é realmente sobre quem você está pensando – e foi justamente para o presidente dos Estados Unidos que a artista reservou a canção mais pesada e liricamente agressiva de Hopelessness e talvez da sua carreira. A faixa é uma acusação ríspida de traição. “Quando você foi eleito, o mundo chorou de felicidade”, começa ANOHNI, para depois acusar o presidente pelas notícias de espionagem por parte do governo americano e execuções de inocentes pelo exército. Por fim, conclui: “como crianças, acreditamos. Toda a esperança secou da sua face, Obama”, engatando na última parte do mantra que leva a música, em que repete o sobrenome do presidente em tom grave e de forma sombria, com uma voz que realmente parece entregue, exausta, quase desprovida de esperanças. Caso Barack Obama um dia venha a ouvir a canção, é impossível que não tenha calafrios e não respeite a posição de ANOHNI, mesmo não podendo expressar isso publicamente.

As críticas ao governo americano estão em praticamente todas as músicas. Faixa de abertura, “Drone Bomb Me” (que ganhou o vídeo de tirar o fôlego que você assiste acima, com participação de Naomi Campbell) é mais uma faixa musicalmente bela, mas que chega carregada com uma letra pesada, abrindo fogo contra as políticas de guerra dos Estados Unidos da América. A letra fala na perspectiva de uma garota afegã que perdeu toda sua família em bombardeios de drones norte-americanos – e ANOHNI expressa o deseja da garota por também ser bombardeada, já que está mergulhada na dor de se descobrir sozinha no mundo – e tudo isso numa letra quase intraduzível, em algo como “bombardeie-me. Bombardeie-me a partir das montanhas e para dentro das águas. Exploda minha cabeça.” Em “Execution”, a artista mira para a indústria do crime norte-americana, um tanto semelhante à brasileira principalmente nas acusações da cantora. “Execução, é um sonho americano. Não deixem eles provarem que estou errado”, fala, a partir do ponto de vista do governo, apontando para o julgamento precipitado de inocentes e a justiça com as próprias mãos. Em “Watch Me”, ANOHNI usa da ironia para desejar que seu “pai” o vigie a todos momentos, mesmo nos mais privados, numa metáfora para criticar o sistema de espionagem norte-americano. “Eu sei que você me ama, porque você está sempre me vigiando”, canta, adicionando ainda mais ironia, mas já relacionando-se com um tema destacado pelo próprio ANOHNI e que está nas entrelinhas das composições: a nossa parcela de culpa em todos os problemas que ela mesmo denuncia. E quando falo em “nossa” parcela de culpa, falo na do eu-lírico, portanto, também na parcela de culpa da própria cantora.

A beleza de Hopelessness cai do assustador para o sublime (que não deixa de ser amedrontador) no ponto que fechou o último parágrafo e que é o centro da faixa-título. Em “Hopelessness”, ANOHNI canta: “como eu me tornei a mãe desse filho? como eu me tornei um vírus?” Além de mirar para o governo norte-americano e para as grandes corporações, a cantora não deixa a autocrítica de lado. Claro, as grandes partes de um ecossistema têm maior participação na sua construção, seja em suas características positivas ou negativas – mas todos os que fazem parte desse sistema também têm uma parcela de responsabilidade por tudo o que acontece. É por isso que ela se pergunta como veio a se tornar “mãe” desse “filho”, que é, basicamente, tudo o que está acontecendo no mundo atualmente. Como nos tornamos vírus? O que fizemos para sermos parte de um sistema tão assustadoramente maléfico? O que fizemos para estarmos destruindo a Terra aos poucos, como estamos fazendo? É no meio dessas reflexões que ANOHNI mistura a denúncia ao outro e a si mesmo, que anuncia a “total desesperança”, numa forma de traduzir o sentimento expressado pelo título do disco. Em quase todas as faixas, ANOHNI fala da primeira pessoa, e essa primeira pessoa nem sempre é quem critica o status quo – a crítica em si acontece na metáfora e na ironia (com “Obama”, claro, sendo uma exceção a se destacar). Como no eu-lírico de de “4 Degrees”, em que ANOHNI diz querer ver o mundo queimar com o aumento da temperatura média. É uma demonstração de consciência e responsabilidade, um grito de denúncia e desespero ao mesmo tempo. Um pedido por reflexão sobre os nossos próprios papéis na sociedade e, consequentemente, por mais tolerância e respeito a o que está ao nosso redor.

E o álbum se fecha em “Marrow”, faixa que, em seu contexto dentro do trabalho, soa perfeita. Depois de passar dez canções atirando na direção dos Estados Unidos, ANOHNI fala: “todos somos americanos agora”. Ao invés de pontuar suas ideias críticas aos norte-americanos e deixar para cada pessoa contextualizar os comentários em suas vidas, a cantora define: essa cultura americana ainda é o que leva as corporações e os governos do mundo inteiro. É praticamente um deus ex machina para quem não entendeu que o disco não é uma crítica apenas aos Estados Unidos, mas sim a toda a cultura ocidental e seus ideais de opressão e discriminação.

Hopelessness é um disco sonoramente e liricamente explosivo do início ao fim, com o volume no talo, e que talvez soe insuportável para quem está só começando a ouvir esse tipo de música. Mas sua beleza é deslumbrante, e a importância do seu discurso ainda há de ser celebrada. É um dos trabalhos musicais que exibem de forma mais sublime toda a confusão, o caos e a melancolia da vida no século XXI, e faz isso com sons e contextos reflexivos e agressivos. ANOHNI solta um grito musical de desespero que tem potencial para ressoar como poucos outros conseguiram no seu tempo, mas que talvez tenha seu alcance limitado pelo perfil musical aventureiro e dissonante – e por isso que ainda é cedo demais para qualificá-lo como detentor de grandes “hinos de protesto”. Mas algo é inegável: Hopelessnes é mais que suficiente para a artista confirmar sua afirmação de que todos os seus esforços estariam na direção da militância pela justiça entre os homens. E ANOHNI não só faz isso, como o faz criando um clássico da música moderna.

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05/05/2016

Redator de social media, jornalista, músico, emo, jogador de bocha, astrólogo e benzedeiro nas horas vagas. Um colono que se encontrou na cidade grande e agora pensa que sabe escrever sobre qualquer coisa.
Leonardo Baldessarelli

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