Resenha | Senti na pele os efeitos do Dekmantel Festival SP 2018

13/03/2018

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Divulgação

13/03/2018

A edição de 2018 do festival Dekmantel em São Paulo esteve impecável. Pelo segundo ano consecutivo, o selo holandês chegou ao Brasil mantendo um padrão acima da média.

O antigo Playcenter abrigou cinco estações de música nos dias 3 e 4 de março com uma escalação de grandes nomes no lineup. Maria Rita Stumpf, Marcos Valle, Azymuth – que apresentou um show especial com DJ Nuts – e Os Mulheres Negras se juntaram a artistas como Carrot Green, Bufiman, Young Marco, Jayda G, entre muitos outros, indo do eletrônico ao orgânico.

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Dois palcos enormes (UFO e Main) ganharam a maior parte do público. Pelo mainstage passaram nomes como Four Tet, Nina Kraviz, Mano Le Tough e Modeselektor enquanto o UFO apresentou Kobosil, Randomer e Dj Stingray em sequência no sábado e Zopelar, Danny Daze e Anthony Parasole no domingo. Um tímido puxadinho abrigava a não menos importante estação Na Manteiga Radio. Outros dois palcos (Gop Tun e Selectors) de tamanho “normal/médio” fechavam a cota, todos estruturados com sistemas de som à altura.

Dekmantel SP (Foto: Eduardo Magalhães)

Era muito som, grave. E, em um festival grande, considero a música em primeiro lugar. O ambiente, seguido pelas facilidades que se tem para permanecer lá, vem depois. O Dekmantel traz um espaço legal, seguro, com muitas coisas a se descobrir. Um festival como esse são, na verdade, várias festas juntas.

No sábado à tarde, cheguei cedo. Nascii recebia a todos no mainstage, ainda que todos quisessem mesmo se perder pelos caminhos, ver os outros espaços e tudo o mais. O som estava classe, mas logo fui à pista Selectors ver o Bufiman, que tocaria em seguida e não perdoou. Naquele início de festival, delimitei meu lugar de escoamento e segurança: a Selectors.

Bufiman (Foto: Gabriel Quintão)

Esse palco, que reuniu poucas apresentações (quatro no sábado e cinco no domingo) acabou por dar espaço aos artistas experimentarem. Em seguida, Lena Willikens e Vladimir Ivkovic rasgaram protocolos com músicas boas e mixagem in-ter-perceptíveis em um longset de quatro horas. Foi lento e foi classe. Só saí dali para ver Carrot Green preparar terreno para Marcos Valle no palco Gop Tun.

Lena Willikens & Vladimir Ivkovic (Foto: Ariel Martini)

Ele vale, não é a toa que Green é ficha carimbada de festivais e rolês no Brasil e no mundo. Aluno do Red Bull Music Academy, em 2013, é saudável e notável o seu amadurecimento permanecendo dentro do estilo que lhe é característico. Já o vi em apresentação mais pesada, cabeçuda, mas a leveza e a influência da música brasileira sustenta sua forma sempre que o traje é de gala, como foi o caso. Vindo de uma apresentação memorável no ano passado, gravada para o Boiler Room ao sol das 15h, Green ganhou um merecido melhor horário, fim de tarde, início de noite, entre dois grandes shows. Ao chegar para vê-lo, assisti ao finalzinho do show da Maria Rita Stumpf e fiquei com vontade de ter visto todo – mas sem arrependimento, pois o Selectors estava realmente fera. Já Green misturou tracks inéditas com edites obscuros num clima sério sem pesar. Ele encerrou o set com a clássica (para quem viveu, não era o meu caso) “Dream On”, do Aerosmith. Observei a felicidade do público que o ovacionou ao final da apresentação, ele não decepciona.

Marcos Valle (Foto: Gabriel Quintão)

A equipe técnica, ainda durante a meia hora final do set do Green, corria com microfones e instalação de bateria para o que viria depois: o Todo Poderoso Marcos Valle com o show que, pra mim, foi a melhor apresentação do evento. Em resumo, a formação e repertório eram como no registro para o Boiler Room In Stereo. Com a banda formada por Paulinho Trompete e Jose Carlos Bigorna nos sopros, Renato Massa na bateria e Alex Malheiros, que, no domingo, se apresentou com sua Azymuth, no baixo, Valle desfilou, com participação de sua mulher, a cantora Patrícia Alví, pérolas, uma atrás da outra. Coisas como “Esperando Messias”, “A Paraiba não é Chicago”, “Azimuth”, “Garra”, “Estelar”, em um show emocionante, com a estação Gop Tun lotada.

Aos 74 anos, Valle era uma das grandes atrações do festival. O show era esperado por uma legião mais jovem que possivelmente tenha o percebido a partir do sample de “É Mentira” usado por Marcelo D2, quem Marcos Valle saudou como o primeiro a lhe samplear (em “Contexto”, do Planet Hemp) antes de tocar a música. Energia define Marcos Valle, que, logo ao final do show no Dekmantel, seguiu para o Sesc 24 de Maio, onde apresentava uma temporada de show naquele final de semana. Essa pedra apresentada no Dekmantel foi o momento em que eu mais agradeci estar ali, em que senti meu dinheiro retornar de fato.

Depois da catarse (sim, aqui se aplica) proporcionada pelo nosso grande menino do Rio, Palms Trax colou jogando o bang lá em cima com seu disco, funk, groove. Nesse momento, voltei ao Selector para curtir o deleite final de Willikens e Ivkovic. Passei pelo Ufo, estava começando o Stingray, ainda passei pelo main, onde uma multidão pulava ao som do Modeselektor, mas definitivamente, meu lugar neste festival foi o Selector, pra onde voltei e dropei um setzão do Young Marco.

DJ Stingray (Foto: Gabriel Quintão)

Quem me contou como foi o Stingray, com certeza um dos destaques do evento, foram alguns amigos que encontrei pelo caminho. OMOLOKO, DJ do coletivo 101Ø, de Belo Horizonte, que havia viajado oito horas de carro para ir pela primeira vez ao Dekmantel, me disse: “Sem comentários: set maravilhoso, nostálgico, quebrado, electro detroit do melhor jeito. Suei do início ao fim, alma lavada de ver aquele cara tocar”. “O mascarado de Detroit mostrou que a resistência underground defendida por ele é tudo isso e mais um pouco. Um set todo preenchido com timbres de electro, alta velocidade, e pontuado com mixes de hip hop. Aula de mixagem, conhecimento musical e originalidade. Arte do djing”, resumiu Gabriel Bernardo, DJ dos coletivos Base PoA, Goma Rec e Arruaça. “Stingray entrou pra encerrar o assunto. Aula! Entrou meio atrapalhado, mas logo já virou o jogo e foi só as mixagens malditas. Achei incrível e insuperável!”, disse a Kika Lopes, DJ também dos coletivos Goma Rec e Arruaça.

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No dia seguinte, cheguei no meio/final de tarde, a tempo de ver meia hora do show do Azimuth e DJ Nuts. Que foda. Bonito e perceptivelmente ensaiado. Fiquei com a impressão de que o show possa circular em uma possível tour por aí.

Azymuth & DJ Nuts (Foto: Gabriel Quintão)

De lá, colei na estação Na Manteiga Rádio pela primeira vez. Floating Points estava lá pontual, animado e ensolarado. O primeiro tempo dele no Dekmantel foi um aquece para o segundo, quando encerrou a estação Gop Tun. Muito groove, funk, boogie. Fiquei pensando: será que mostraram a ele o disco Boogie Naipe do Mano Brown? Será que ele curte Tim Maia? Ainda quero falar com esse cara. Torço para que, ano que vem, ele retorne com uns amigos músicos para executar os seus temas ao vivo.

Floating Points (Foto: Gabriel Quintão)

Saindo, passei pelo main onde, com um pequeno atraso, Four Tet começou sua aula, mas fui ver o Zopelar. O UFO desse ano era um grande palco com um sistema de som literalmente violento. Em 30 minutos de live do Zopelar, senti tremer todos os órgãos dentro do peito. Sério, que pancada. Pensei em voltar ao Four Tet, mas parei no Selectors. Jayda G. Jayda G, amigos, Jayda G… Mais uma pista pegando fogo onde fiquei até a hora de retornar para Floating Points e seu funk, groove disco. A DJ Vika Schmitz, do projeto 024, me contou que também pirou com o set dela: “O line estava com muitos nomes fodas como Peggy Gou, Os Mulheres Negras, Four Tet, só pra dizer alguns, mas a estrela de ouro com certeza vai pra Jayda, que quebrou tudo com uma surra de hinos e carregou a melhor pista do festival”.

Jayda G (Foto: Gabriel Quintão)

Saí trinta minutos antes do fim para dar uma zanzada e fui captado pelas camadas de Kureb, de Juiz de Fora (MG). “Um set nostálgico, à la anos 80, fazendo a Na Manteiga virar pista de encerramento em grande estilo”, foi como o OMOLOKO me descreveu esse show. Nesse ambiente, com um sanduíche, uma cerveja e um pito, encerrei a programação diurna do festival, agradecendo e mentalizando pelo próximo ano.

Assim como no sábado, terminei caminhando atrás da multidão atrás do after, que seria absurdo. Pista 1: Kobosil b2b Marcel Dettman b2b Nina Kraviz (essas duas primeiras horas foram talvez a minha melhor pista) // Anthony Parasole b2b Danny Daze // Pista 2: Dekmantel Soundsystem // Floating Points b2b Four Tet.

Interstellar Funk & Elena Colombi (Foto: Ariel Martini)

Tudo isso foi demais pra minha cabeça e precisei conversar com alguns amigos para digerir o que eu tinha presenciado lá. Quando perguntei pro Gabriel Bernardo o que ele achou do domingo, ele me deu uma resenha: “O b2b de Elena Colombi com Interstellar Funk foi legal, apesar de sentir que ela, empolgadíssima e cheia de tracks enérgicas, tinha sua vibe baixada pelo holandês. A dinamarquesa Courtesy supriu as expectativas, desenvolvendo um set de techno cabeçudo, mas com algumas tiradas melódicas ou descontraídas. O norte-americano Danny Daze superou expectativas. Famoso por um histórico mais comercial, mostrou o motivo de estar naquele line up casca grossa. Set de techno interessante com algumas pitadas de electro. E o mestre, Antony Parasole, encerrou o UFO no domingo mostrando porque é o residente do Berghain responsável por abrir ou fechar o club: musicalidade máxima em um set de techno envolvendo no nível necessário para um set de encerramento”.

Gabriel Cevallos, DJ e organizador do festival Kino Beat, me disse que ficou bem abalado com o Dekmantel: “Todo mundo voltou instigado, todo mundo fez alguma descoberta, todos viram que é possível e genial ter lado a lado Marcos Valle e DJ Stingray, universos completamente distintos, mas que permitem duas experiências maravilhosas no mesmo espaço”.

Modeselektor (Foto: Gabriel Quintão)

Opinião parecida com a da produtora Carol Campos, da Levels: “Para um festival gringo, o Dekmantel conseguiu absorver muito do que temos de melhor no Brasil, artistas brasileiros que fizeram sets memoráveis. O festival compôs um line-up inovador, com artistas diferentes do que costumamos ver por aqui, como Floating Points, Peggy Gou, Modeselektor, Jayda G, ao mesmo tempo em que trouxe nomes que eu desejava ver há muito tempo, como o Four Tet e Midland”, disse.

Fico pensando também que há que se saudar a audiência. Foi notável o crescimento de público, de todos, inclusive dos minorizados. Eu acho que havia muita harmonia em ambos os dias. A partir da minha experiência, vi que ora as pessoas interagiam, ora ficavam introspectivas junto ao som. Não passei por nem vi nenhum desentendimento com a segurança, que eram muitos espalhados pelo festival. Assim como não reparei pessoas em coma ou em alteração monstríaca. Foi realmente suave, mas foi também uma pancada.

Com tudo isso ainda agindo sobre meu sistema nervoso, só consigo desejar vida longa ao Dekmantel Festival São Paulo e que o evento consiga perceber as formas de crescimento orgânico para o que está constituído. Talvez olhar mais para as regiões fora do eixo Rio-SP ajude, pois o Brasil é grande. E até para o eixo, pois temos artistas em São Paulo com trabalho e mérito para estar ali. Sigo acompanhando.

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13/03/2018

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural.
Bruno Barros

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