Resenha | A Fantástica Fábrica

22/06/2014

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André Araujo

Por: André Araujo

Fotos: Diego Medina

22/06/2014

Fenômeno curioso: nas últimas semanas, a timeline do meu Facebook foi invadida por posts nostálgicos e memorialistas das mais diversas frentes. Professores, escritores aqui da província, amigos mais velhos, até mesmo desconhecidos apareciam ali comentando um ROL de experiências das mais variadas com doses cavalares de saudade honesta pelos velhos e loucos anos noventa em Porto Alegre.

Poderia ser mais uma propagação viral de auto-expressão motivada por atitude semelhante dos amigos, ou até mesmo um arroubo de pura Retromania pelos 90’s, tendência essa já facilmente identificável no panorama da cultura pop atual. Mas por mais que seja interessante criar mil e uma teorias estapafúrdias para explicar o que acontece na internet, não vamos nos perder do foco aqui. Pois, nesse caso, o fenômeno tem um ponto de origem claro e demarcado: o lançamento do livro “A Fantástica Fábrica” de Leo Felipe, que conta a história detalhada de um dos maiores marcos culturais da Porto Alegre dos anos noventa: o bar Garagem Hermética.

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Admito: invejei bonito o arroubo memorialista. Como qualquer morador de Porto Alegre, não sei bem quando descobri a existência do Garagem Hermética; sua presença era apenas um dado concreto, um lugar que esperávamos ávidos chegar a idade para poder frequentar. E como qualquer porto-alegrense nascido pelo fim dos anos 80, conheci e frequentei apenas a versão degenerada e simulacral de tal bar e invejei fortemente seus anos de ouro quando descobri que eles haviam acabado e tinha perdido toda a festa.

Inaugurado em 91 pelo Leo Felipe, num ataque de autorrealização juvenil inconsequente, o Garagem era, conceitualmente, o bar perfeito. Os donos tinham um puta gosto musical, disposição para criar uma cena e uma certa tendência adolescente a não dar a mínima pra nada. Junto a isso, o contexto de ressaca pós-institucionalização da cena musical dos anos 80 e a inevitável aniquilação da Oswaldo Aranha como centro das depravações pós-adolescentes. Tudo errado pra dar tudo certo. Crônica de uma morte etílica anunciada.

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Faço meu adendo: sei disso tudo, evidentemente, pela boca pequena e pelo livro do Leo Felipe. Enquanto a história do Garagem alcançava seus níveis de cada vez maior epicidade, eu me constituía como ser-humano num colégio particular da região metropolitana. Ensino fundamental, deixo claro. Talvez grande parte dos leitores do livro de Leo Felipe vejam o livro como um grande dispositivo de rememoração dos bons tempos adolescentes. Já eu, por ter perdido a festa, me contento com a posição de espectador e apreciador do deleito alheio. Vouyerismo literário.

O livro de Leo Felipe vem de certa forma preencher um vácuo na história da cultura pop porto-alegrense. Enquanto o pessoal da Oswaldo recebeu, com méritos, extensa REFLEXÃO e registro, a geração dos anos 90 parece que nunca recebeu a atenção necessária em relação aos seus MITOS DE ORIGEM. Geração perdida, dizem os desavisados completamente desnorteados por não entenderem o próprio ETHOS noventista que era se perder. Pois, se é que existiu um centro para o desenvolvimento de uma cultura “underground”, ou deslocada apenas, nos anos 90 em Porto Alegre, esse centro foi o Garagem.

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Como Leo Felipe conta no livro, o bar caiu nas graças da “crítica especializada” musical desde cedo, aparecendo na MTV e outras publicações musicais periodicamente – o ROCK ‘N’ ROLL tende a ser a mais imediatista das manifestações culturais, por isso seu reconhecimento vêm instantaneamente. Entretanto, muitos dos frequentadores escolheram meios de expressão que necessitam de um certo tempo de maturação para emplacar, como o cinema e a literatura. Hoje vemos como uma geração de cineastas e escritores que tem seu reconhecimento nacional garantido e festejado tem suas raízes fortemente marcadas pelo Garagem e suas noites, como o Cinemeando e os Bailões do Cardoso Online.

Interessante na verdade é que Leo Felipe não assume aqui ares de historiador ou jornalista-testemunha do berço de uma cena cultural tão rica como a do Garagem. O livro de Leo Felipe é um legítimo MEMOIR, que conta muito mais a sua história pessoal do que a distanciada de um bar. Sorte que ambas coexistem e se confundem fortemente.

É engraçado que o gênero MEMOIR nunca emplacou aqui na literatura brasileira da mesma forma como nos Estados Unidos, por exemplo, durante a década de 00. Diferente de lá, onde qualquer jovenzinho saindo de seu MFA decide contar a interessantíssima história de como foi árduo a sua tarefa de tornar-se escritor sendo branco de classe média morando numa cidade grande de um país de Primeiro Mundo (generalizando, obviamente – mas não tanto), aqui o gênero permanece de certa forma virgem (que eu saiba, me corrijam por favor).

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Por isso o livro de Leo é massa. Pois ele inventa, livre de fórmulas, um memoir legitimamente porto-alegrense e noventista. Não cai na armadilha de ficar coletando créditos para si, pensando cuidadosamente o namedropping, colocando-se como grande promoter do underground gaúcho. Leo Felipe apenas escreve, da maneira menos pretensiosa possível (ainda que histriônica e floreada, própria da linguagem internética gaúcha) o que aconteceu com ele quando ele foi dono de um bar em POA. Evidente, o memoir gaúcho é uma gigante EGOTRIP.

Mas não se enganem: poderia ser um saco ficar lendo sobre a ascensão e decadência de um jovem nos seus vinte e poucos anos, seja ela física, moral ou financeira. No caso de “A Fantástica Fábrica” é sensacional. Muito pela tradução perfeita que Leo Felipe consegue fazer do ETHOS noventista (e porto-alegrense, por que não?) no seu estilo: Yo soy un perdedor, poderia ter acontecido com qualquer um. E provavelmente aconteceu, seja de forma direta (arroubo memorialista do Facebook, com todos também querendo aumentar a memória do bar com suas próprias egotrips que Leo não conseguiu descrever simplesmente por que não viveu) ou mediada (meu caso, que li o livro quase como ficção e fiquei pessoalmente ofendido por não ter estado lá).

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E é preciso dizer também, que talvez mais que tudo, que o livro trata da Cultura Pop. Uma cultura pop localizada, específica, limitada, com pouco a ver com os grandes movimentos massivos. Mas nem por isso menos pop. Isso foi um dos grandes traços dos anos 90, que Leo Felipe captura bem em “A Fantástica Fábrica”. As abordagens artisto-cêntricas de grande parte dos livros de crítica cultural muitas vezes não dão o destaque merecido aquilo que escapa, ou pelo menos fica mascarado, das produções: a infra-estrutura que possibilita a emergência de uma cena. Donos de bar, seguranças, produtores, traficantes, hiperativos super-dotados que não conseguem parar de falar nem para anotar suas ideias. Há toda uma fauna escondida na constituição desse mundo particular e auto-gestionado sem muita noção que é uma legítima CENA.

Com esse livro, Leo Felipe enriquece um pouco mais a nossa pobre tradição de livros não-acadêmicos de crítica cultural. Ainda que o livro seja pessoal e intransferível funciona como registro canônico dessa cena, como mito de origem de grande parte da cultura porto-alegrense que até hoje perdura, na geração de cineastas, escritores, músicos ou wannabes que, mesmo sem ter participado de toda a função, conseguem se ver em uma tradição, finalmente sistematizada e refletida com todo o caos e desordem que lhe são merecidos.

Um dos grandes momentos do livro são seus capítulos finais, quando Leo Felipe, num honestíssimo tom confessional, conta da última noite do Garagem; noite essa que não estava presente. “Não termina quando acaba”, declara ao lado de séculos de sabedoria popular. Não estive em nenhuma noite do bar mas agora, graças a esse baita livro, pude ter um VISLUMBRE de como foi. Ainda bem que não terminou, pelo menos nos meandros da memória. Tomara que o livro tenha o mesmo destino. Pelo menos pra mim, não terminou quando acabou.

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22/06/2014

André Araujo

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