Black Sabbath em Porto Alegre | O adeus mais honrado

29/11/2016

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Leonardo Baldessarelli

Por: Leonardo Baldessarelli

Fotos: Ross Halfin/Reprodução

29/11/2016

Minhas memórias sobre o show da The End World Tour do Black Sabbath em Porto Alegre, que rolou lá no centro de eventos da FIERGS na noite do dia 28, na verdade começam quase um mês antes. Numa quinta-feira, dia 03 de novembro, Elza Soares se apresentou no Salão de Atos da UFRGS para mais de mil pessoas, beirando a lotação máxima do lugar. Cantando o álbum A Mulher do Fim do Mundo na íntegra, a artista entregou um espetáculo de presença de espírito, de interação com a plateia e de sabedoria – não havia quem não se arrepiasse a cada palavra da cantora ou não se impressionasse pela entonação da sua voz, suas sacadas e sua atitude, sem falar do grupo impecável de músicos que a acompanhava. Porém, perceber sua fragilidade física era inevitável, explícita desde por meio da ausência de grandes movimentos (Elza passa o show inteiro sentada num grande trono) até pelas falhas técnicas na execução de alguns versos – estava assistindo a uma musicista no seu limite, em todos os sentidos desse conceito. Apesar disso, a mistura do esforço desmedido da cantora com a perfeição da banda e o contexto da apresentação formavam um espetáculo admirável, que praticamente não permitia críticas – o sentimento era de sorte por sequer estar vendo aquilo. E, enquanto Ozzy Osbourne praticamente recitava o primeiro verso de “Fairies Wear Boots” no palco da FIERGS sem nem chegar perto do controle de modulação que possuía em outras épocas, percebi que estava sentindo quase a mesma coisa que no show da Elza: “tenho sorte”. Foi nesse momento que as experiências e as memórias se aproximaram profundamente.

Com os portões abertos desde o fim da tarde, o centro de eventos já recebia um público considerável (mais ou menos ⅓ da lotação) quando o primeiro show da noite começou, por volta das 19h25. Há mais de 20 anos na ativa, os gaúchos da Krisiun apresentaram seu som death metal brutal e que os levou a assinar com a gravadora Century Media, gigante do ramo pesado. Em mais ou menos 40 minutos, os tons graves, o pedal duplo e o gutural do vocalista Alex Camargo conquistaram muita gente que não os conhecia (frases como “pô, que som foda!” eram constantes na plateia) – e ainda tinha um bom público que visivelmente já sacava o som do trio. Como primeiro aperitivo, funcionou mais do que bem.

Logo na sequência, pegando em cheio o pôr do sol, foi a vez do Rival Sons levar sua mistura de hard rock e blues para o palco. Há quem não goste do revivalismo excessivo do quarteto (que vira quinteto ao vivo), mas não dá para negar que se há um lugar que o som dos caras fica incrível, é em cima do palco. Apostando em suas faixas mais conhecidas e explosivas, como “Keep On Swinging” e “Pressure and Time”, a banda também conquistou o público, levada pelos riffs grudentos e o estilo clássico de rock ‘n’ roll (palmas para o Sabbath, aliás, por saber como agradar sua plateia até no show de abertura). O vocalista Jay Buchanan, especialmente, mostrou estar no topo com a performance tecnicamente perfeita – o começo no hit “Electric Man” foi quase um show de exibicionismo vocal, mas no melhor sentido possível. Muito longe do virtuosismo excessivo e do pedantismo, o timbre e as melodias de Buchanan eram de dar inveja a qualquer um que já se meteu a cantar hard rock.

Um pedacinho do começo arrasador de N.I.B. pra avisar que teve Black Sabbath em Porto Alegre e que foi um dos shows do ano. Logo logo tem resenha no site!

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Depois de petardos vindos do metal extremo e do hard rock, dava pra dizer que todo mundo estava mais do que bem aquecido para o grande momento da noite. E o Black Sabbath realmente não demorou, demonstrando o profissionalismo já esperado de Geezer, Tony e Ozzy (e do baterista Tommy Clufetos, que mais tarde veio a ser um dos destaques da apresentação). Começando com uma introdução em vídeo que mostrava o próprio demônio/satã/capeta/coisa ruim nascendo de um ovo e destruindo tudo ao seu redor (a turnê se chama The End, afinal), o show derradeiro do Black Sabbath em Porto Alegre fez a FIERGS explodir com a presença do trio original no palco. O início do set veio com a faixa que dá nome à banda, uma das canções-mãe do heavy metal, levada por uma performance perfeita de todos. As suspeitas de que a saúde de Tony Iommi poderia atrapalhar a apresentação já deixou de existir no primeiro momento, e muita gente visivelmente não acreditava no que estava vivendo.

Foi na sequência, em “Fairies Wear Boots”, porém, que deu para sentir as limitações cada vez mais presentes de Ozzy Osbourne. Seja pelo ressoar de sua voz ou mesmo por seus movimentos enquanto canta, a impressão é que o vocalista precisava de um esforço descomunal para liberar tudo o que as canções necessitam. Nos versos da segunda faixa do set, a dificuldade do cantor para acertar a modulação da voz chamava atenção, mas seu estilo descontraído e performático no palco se mantinha intacto – cada pequeno movimento e as leves dançadas no ritmo da música já provocavam uma grande reação da plateia. Houve outros momentos em que o desnível técnico entre Ozzy e a banda foi chamativo, como nos versos de “Snowblind” e de “Dirty Women” – mas isso também revela outro detalhe: a perfeição do som que saia dos instrumentos de Geezer e Tony. A execução dos membros clássicos beirava o absurdo de tão incrível, talvez representando o ápice técnico deles no palco mesmo depois de quase 50 anos de banda. “N.I.B.”, “War Pigs” e “Children of the Grave” (apesar de Ozzy ter começado a cantar uns compassos adiantado nessa última) foram destaques nesse quesito.

Acima de tudo isso, foi um show de muitos hinos, como já era de se esperar. Umas oito faixas foram cantadas em uníssono por toda a plateia, mostrando a força imensa que canções “antigas” conseguem manter. E o mais incrível é que o público era bem variado – realmente havia mais adultos ou pessoas de meia-idade, mas muitos adolescentes e crianças estavam presentes, na maioria acompanhados por pais apaixonados pelo Black Sabbath. Entre os momentos mais bonitos, as primeiras frases de Ozzy em “War Pigs”, os riffs de “Iron Man” sendo cantados pelo público como se fossem linhas vocais e o encerramento mágico com “Paranoid”, que ganhou uns bons minutos a mais. E ainda teve o baterista Tommy Clufetos engatando um solo de bateria enorme depois de “Rat Salad”, quando o trio clássico tirou um tempo para recuperar o fôlego.

Mesmo com a saudade já batendo no peito, a sensação de sorte descrita lá no primeiro parágrafo predominou. Em alguns momentos a banda deu uma leve impressão de estar cumprindo tabela – principalmente logo que saíram do palco em “Children of the Grave”, a última antes do bis, quando o próprio Ozzy incentivou o coro de “one more song” com o microfone. No estado e na idade em que os integrantes estão, porém, não dá para pedir mais do que isso. E o profissionalismo de todos até esse último momento impressiona. A maior banda da história do metal, e uma das maiores de toda a música, se despede com grandeza e honra incalculáveis.

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29/11/2016

Redator de social media, jornalista, músico, emo, jogador de bocha, astrólogo e benzedeiro nas horas vagas. Um colono que se encontrou na cidade grande e agora pensa que sabe escrever sobre qualquer coisa.
Leonardo Baldessarelli

Leonardo Baldessarelli