The bitch is back: Elton John fecha noite histórica em Porto Alegre

05/04/2017

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Rodrigo Laux

Por: Rodrigo Laux

Fotos: Ariel Fagundes

05/04/2017

Quando gravou o álbum A Letter Home (2014) pela Third Man Records, Neil Young disse que sua ideia era regravar artistas capazes de prender a atenção do público mesmo quando estão sozinhos no palco. Com 70 anos completados há poucos dias, Sir Elton John mostrou em vários momentos que poderia estar nessa lista de artistas não só com tranquilidade, mas com a propriedade de um gigante do som e do entretenimento. Mas a noite de terça foi cheia, vamos do início.

As atrações começaram cedo – antes das 19h – em Porto Alegre, quando o músico gaúcho Rafael Malenotti, do Acústicos e Valvulados, apresentou o seu show solo para o público que já chegava em número considerável ao Anfiteatro Beira-Rio. Às 20h, foi a vez da lenda folk James Taylor assumir o palco com o seu folk classudo e composições introspectivas, acompanhado de uma banda barra pesada que trazia na bateria o lendário Steve Gadd (Stuff, Joe Cocker, Simon & Garfunkel, Eric Clapton, Kate Bush, James Brown, e por aí vai).

Foto: Ariel Fagundes

Logo no início, e a exemplo do que havia acontecido nos 2 primeiros shows da turnê brasileira em Curitiba e no Rio, Taylor explicou em bom português que não poderia tocar violão porque havia quebrado o dedo. “Merda” ele disse, arrancando risos da plateia. “Mas tenho aqui comigo Dean Parks. Ele é um mestre do violão. Ele será eu hoje”, disse apontando para Dean que, assim como Steve Gadd e o próprio James Taylor, também traz no currículo os nomes lendários com quem já trabalhou: David Crosby, Graham Nash, George Benson, Madonna, Steely Dan, Michael Jackson, Billy Joel e até Roberto Carlos. Na sequência, Taylor apresentou um setlist com faixas clássicas de diversas fases de sua carreira, além de “Today Today Today”, lançada no seu último trabalho Before This World (2015).

Foto: Ariel Fagundes

Antes de tocar “Only a Dream in Rio”, Taylor contou a história do som, feito por ele logo após sua visita ao Rio de Janeiro no Rock In Rio de 1985. Ele disse que foi levado por Caetano Veloso e sua esposa ao Circo Voador, onde conheceu Chico Buarque, Ivan Lins e Milton Nascimento. O cantor ainda surpreendeu ao lembrar também que o fato rolou no dia das eleições presidenciais que elegeram Tancredo Neves naquele ano. Além de se mostrar extremamente contextualizado política e musicalmente em nosso país, Taylor ainda presenteou os seus fãs com grandes sucessos da sua carreira, como “Carolina In My Mind” e “Fire and Rain”, além do hit “You’ve Got a Friend”, escrito por Carole King em 1971 e regravada por ele no mesmo ano. Após conquistar o público com simpatia e belas canções, agora era a vez de Elton.

Foto: Ariel Fagundes

Às 21h55, 24 mil pessoas receberam a lenda inglesa que entrou no palco vestindo um casaco azul absolutamente incrível com a estampa do clássico álbum Captain Fantastic (1975) nas costas. Sem perda de tempo, Elton sentou em seu piano e colocou o público para dançar ao som de “The Bitch is Back”, que também abre o álbum Caribou (1974). Na sequência, o clássico cult “Bennie and the Jets”, lançado originalmente em uma versão ao vivo no Goodbye Yellow Brick Road (1973), trouxe à tona todo o seu apelo com o público mais jovem, levado pela base de piano marcada que Frank Ocean sampleou para usar em “Super Rich Kids”. Aliás, em vários momentos do show, as composições e suas estruturas absurdas (no bom sentido) de Elton John deixavam cada vez mais claro porque músicos geniais da atualidade como Ocean veneram tanto o Rocket Man.

Foto: Ariel Fagundes

O show seguiu com uma enxurrada de clássicos, como “I Guess That’s Why They Call It The Blues”, “Rocket Man”, “Tiny Dancer”, “Levon”, “Goodbye Yellow Brick Road” e “Your Song”, alternando entre suas baladas românticas e pedradas roqueiras que deixavam qualquer adolescente com inveja do fôlego e da visceralidade de Elton, que cantou e tocou com perfeição e a todo gás. O setlist ainda traria algumas surpresas aos fãs mais “lado B” de Elton, como “Burn Down the Mission”, que está em um dos seus álbuns mais incríveis – apesar de não tão celebrado e sem grandes hits – Tumbleweed Connection (1970).

Foto: Ariel Fagundes

Vale ressaltar – até pra não transformar esse review em um inevitável festival de rasgação de seda – a bizarrice que era a curadoria do telão do show. Salvo a homenagem mais do que justificada ao músico George Michael, que morreu no último dia 25 de dezembro, na faixa “Don’t Let The Sun Go Down On Me” (gravada por ele e Elton em 1992), as projeções chegavam a ser cômicas em alguns momentos. Animações 3D, como a de uma gota tocando na água, mais lembravam algumas proteções de tela antigas do Windows. Nada condizente com o que se via dos músicos no palco, mas enfim, de volta ao que importa.

Foto: Ariel Fagundes

O que também impressionou (positivamente) no anfiteatro foi a qualidade do som, com a voz e o piano de Elton John sempre à frente de toda a banda. Banda que, por sinal, era monstruosa e trazia na bateria Nigel Olsson, que acompanhou Elton por diversas fases desde 1969. Mais do que um parceiro de longa data, o baterista surpreendia por sua pegada e groove impecáveis, tocando com sangue nos olhos e deixando claro estar curtindo ao máximo cada momento. Ele e Elton se olhavam com frequência e explicitavam o fato de que a sua comunicação e entrosamento no palco guiavam toda a banda durante as músicas.

Foto: Ariel Fagundes

Em vários momentos do show, era normal flagrar-se olhando para o telão para observar o movimento dos dedos de Elton, mesmo para o público mais próximo do palco. Isso acontecia principalmente nas horas em que o Captain Fantastic ficava sozinho e debulhava o instrumento em solos quilométricos e envolventes.

Foto: Ariel Fagundes

A apresentação de Elton John, num panorama geral, é capaz de surpreender mesmo os fãs mais céticos, que acreditam que o músico não é mais capaz de reproduzir a musicalidade efervescente e ousada que marcava suas performances nos anos 70, por exemplo. Com pegada, técnica e muita inspiração para se manter interessante durante todo o tempo, ele não estava ali simplesmente para exaltar a sua existência como artista e celebrar uma carreira de sucesso astronômico. Ele estava ali para suar a camisa e justificar tudo isso, tocando e cantando de forma diferenciada e incansável, deixando claro até ao espectador mais desinformado que ali estava mais do que um grande talento, mas uma daquelas entidades musicais. Elton John ainda está acontecendo e é uma aula de música pop sem precedentes.

Foto: Ariel Fagundes

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05/04/2017

Rodrigo Laux

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