Resenha | Orishas: el beat sigue caliente

23/02/2018

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Vitória Proença

23/02/2018

A multidão que, às 21h de ontem, já havia lotado o Bar Opinião não estava preparada para o absurdo que começaria em breve. Era a primeira vez que o Orishas se apresentaria em Porto Alegre e a própria banda também não estava pronta para tudo que estava prestes a receber da plateia.

O hip hop latino e a cumbia eletrônica de artistas como Bomba Estéreo, Fantasma e Chancha Vía Circuito tomava conta dos alto-falantes até que, às 21h15, o som desceu rápido e entraram no palco os quatro músicos de apoio, assimindo os trombones, as percussões e as pick-ups. Em seguida, Yotuel Romero, Roldán Rivero e Hiram Medina entraram ao som de um beat pesadíssimo, apontando mais para referências do hip hop contemporâneo do que à sonoridade noventista que já foi a marca registrada do grupo. Em meio a uma espécie de trap latino, temperado por metais e uma batucada cubana frenética, o Orishas começou a festa com “Represent”, do disco de estreia do grupo, A Lo Cubano (1999).

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O clima, a partir daqui, foi de uma grande celebração ao rap, à musicalidade cubana e à integração latino-americana. Ostentando uma alegria contagiante, a banda soltou uma sequência de hits clássicos: “Hay Un Son”, do EP homônimo de 2007, que contou com um grande solo de trombone, e “Atrevido”, também do álbum de 1999. Entre danças coreografadas, Yotuel pegou uma bandeira de Cuba que a plateia jogou ao palco e colocou sobre os ombros. “Boa noite, galera! Essa é uma noite única”, gritou Yotuel levando a plateia ao delírio. “Um público como esse de Porto Alegre não se encontra todo dia. Gracias, gracias”, completou Roldán.

Após um breve momento em que o trio se retirou e houve outro solo de trombone, a banda voltou para cantar a primeira do novo CD da banda, Gourmet (que sairá em abril). “Bembé”, um trap cubano que, ainda que não tenha tido seus versos cantados pelo público como nas músicas anteriores, manteve todo mundo envolvido. No final, a canção foi muito aplaudida e Róldan ficou mandando beijos aos fãs como que espalhando seu amor latino aos brasileiros.

Eis que veio “A Lo Cubano”, que, acompanhada por imagens de Cuba nos telões, novamente, levou todos ao descontrole pleno. Yotuel, de longe o mais bonito do trio e o que mais se movimentava no palco, arrancava gritos desesperados de pretendentes da plateia sem se abalar; por outro lado, Roldán e Hiram dançavam em coreografia seus passinhos de rumba enquanto engatavam outro sucesso do disco de estreia. “Essa é a primeira vez que estamos aqui e parece que somos de casa. Parece não, somos de casa! Essa próxima música se chama ‘Mística'”, anunciou Yotuel. Mas, nesse momento, houve uma falha no microfone de Roldán e Yotuel não perdeu a chance de brincar: “É que vem muita energia daí pra cá!”, disse ao público: “Mas não tem problema, mandem mais!”.

Finalmente veio “Mística” e, em seguida, outra música nova, “Sastre de tu Amor”, também claramente desconhecida da plateia, mas, de qualquer forma, foi impossível não se envolver com seu ritmo inspirado no reggaeton. A clássica “537 Cuba”, que traz o sample de “Chan Chan”, do tradicional músico cubano Compay Segundo, chegou arrasadora na sequência seguida de outro dos maiores hits do grupo, “El Kilo”, do disco homônimo de 2005.

“Agora vamos fazer um experimento que nunca fazemos, só nos lugares que estão muito quentes”, disse Yotuel, “vamos misturar rumba com rock n’ roll”. Então, deixou um dos trombonistas assumir a frente do palco e o que se ouviu foi um solo com um efeito de distorção que fazia o instrumento soar como uma guitarra à la Jimi Hendrix, com bends e vibratos psicodélicos. Na sequência, o outro trombonista também veio para a frente e, então, ambos fizeram um dueto tocando, pasme, o riff de “Seven Nation Army”, do The White Stripes. Aqui, o show se tornou uma grande chalaça – o público amou.

A próxima foi “¿Qué Pasa?” e aí a banda saiu, simulando a despedida clássica que antecede o bis. Após o clamor do público, Yotuel voltou e disse:

– A dor que se sente fora de casa, como muitos brasileiros que estão fora do Brasil, muitos venezuelanos que estão fora da Venezuela, muitos cubanos estão fora de Cuba. O sonho é voltar pra casa, é voltar pro seu bairro. Essa canção, Porto Alegre, é pra vocês se lembrarem da sua América Latina e se chama “Cuba Isla Bella”.

A penúltima das novas músicas cantadas pela banda agradou, ainda que não tenha tido o impacto dos hits antigos. “Porto Alegre vai estar em minha mente everyday, everyday!”, gritou Yotuel, e logo a banda puxou o reggae “Voy a Extrañarte Siempre”, lançada em 2017. A música levou uns bons minutos, tempo que Roldán desce do palco e foi até a grade cumprimentar a plateia e Yotuel se deitou no palco.

A última do show foi “Nací Orishas”, do El Kilo (2005), e a escolha não poderia ser mais certeira. Quem presenciou o show, pôde ver como a banda renasceu firme e forte após ter acabado lá em 2009. “Nos sentimos mais fortes do que nunca. Melhores do que nunca. Com mais energia do que nunca”, disse recentemente Yotuel em entrevista à NOIZE. O show de ontem foi a maior prova disso.

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23/02/2018

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes