Pirotecnia, lágrimas e beijos na volta de Paul McCartney ao Brasil

14/10/2017

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Rafael Rocha

14/10/2017

Ontem, foi fácil amar Paul McCartney. Após sete anos, o beatle retornou à Porto Alegre para abrir a etapa brasileira da turnê One On One e, desde muito antes de ele subir ao palco, os quase 50 mil presentes já estavam entregues de corpo e alma à experiência que viria. Há dias que chove muito na cidade e a chance de uma tempestade inundar todos nós era uma possibilidade real, na verdade parecia algo iminente desde a hora de ir ao estádio. Ainda assim, todos pareciam ter certeza absoluta de que não existiria chuva no mundo capaz de superar a força da música de Paul.

Até às 21h, esse sentimento era uma fé inabalável. Às 20h59, os pingos engrossaram só para aumentar a tensão da expectativa. No minuto seguinte, quando Paul entrou no palco tocando os acordes de “A Hard Day’s Night”, todo frio e umidade se dissolveram ao som das suas cordas de aço.

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Foto: Rafael Rocha

Daí pra frente, a noite descambou em mistura de festa e catarse coletiva. Jovens gritavam histéricos encarnando uma beatlemania que nasceu 40 anos antes deles. Senhores respeitáveis de camisa social e barba bem aparada choravam como nenês desmamados. “Essa tocava quando a gente se conheceu”, disse um casal no alto dos seus cabelos brancos antes de engatar um beijo renovado pelo eco de uma paixão antiga.

Paul estava ali com um sorriso no rosto, empunhando seu simbólico contrabaixo Hofner canhoto, cantando serelepe como em todos vídeos que nós nos acostumamos a ver desde que os Beatles surgiram. A segunda música, “Junior’s Farm”, um single do Wings de 1974, talvez nunca tivesse passado pelos ouvidos de muitos dos presentes, mas quem se importaria com isso? “É o Paul, porra!”, gritava enlouquecido um grupo de jovens divertindo-se com o fato de que não conheciam aquela música.

É que, quando você está num show do Paul, você não se preocupa. A mera presença do velho Macca ali na frente é mais do que suficiente para todo mundo se emocionar, assim, as músicas menos conhecidas são meros respiros para preparar a plateia para receber a cacetada que virá logo em seguida. No caso, “Can’t Buy Me Love” entrou como a terceira do set causando no público um efeito semelhante ao que ocorre quando se joga álcool em uma fogueira.

Então, veio uma dobradinha matadora de Wings e Beatles: “Jet” (do Band On The Run) foi a seguinte, depois veio “Got To Get You Into My Life” (do Revolver), e aí “Let Me Roll It” (também do Band On The Run) e “I’ve Got a Feeling” (do Let It Be). Até “Let Me Roll It”, Paul seguia agarrado no seu Hofner, mas, antes puxar “I’ve Got a Feeling”, ele o trocou por uma Gibson Les Paul colorida na qual mostrou seu lado guitarreiro em uma mini-jam que soava parecida ao riff de “Foxy Lady”.

– Obrigado gaúchos e gaúchas! Vocês querem se divertir hoje, né? – disse Paul, agitando.

Depois da guitarra, Paul foi ao piano pela primeira vez para tocar “My Valentine”, do disco Kisses On The Bottom (2012), composição que ele fez para sua esposa Nancy Shevell, que estava presente no show e com quem ele está casado desde 2011. As próximas foram “Nineteen Hundred and Eighty-Five”, para delírio dos fãs dos Wings, “Maybe I’m Amazed”, para delírio dos casais que se abraçavam como se não houvesse amanhã, e “We Can Work It Out”, para delírios de todos, sem exceção.

“A próxima música foi a primeira música que os Beatles gravaram”, avisou Paul em português antes de puxar “In Spite Of All The Danger”. Na verdade, essa música foi gravada pelo The Quarrymen, banda que John Lennon formou em 1956 e que contava com Paul e George Harrison na sua formação desde antes de mudarem seu nome para Beatles. Após vários hits massivos, esse foi o primeiro momento em que a beatlemania do público foi testada, vendo quem sabia cantar essa se distinguia com clareza quem de fato era maníaco pelos Beatles ou não.

Foto: Rafael Rocha

Mas Paul é um querido, ele quer que todo mundo cante junto. “Tri bom!”, gritou antes de explicar: “As pessoas sempre me perguntam como se escreve uma música. Às vezes, vem da melodia, às vezes vem da letra, às vezes vem do riff. Essa aqui veio desse riff”, para logo engatar a guitarrinha de “You Won´t See Me”. “A próxima é dedicada ao incrível produtor dos Beatles, George Martin, esta foi a primeira que fizemos com ele no estúdio de Abbey Road”, disse Paul puxando “Love Me Do” e, depois, a balada “And I Love Her”.

Empunhando seu violão folk, Macca protagonizou então um dos grandes momentos da noite. “A próxima é sobre direitos humanos”, avisou antes de iniciar o dedilhado de “Blackbird”. Aqui, uma parte do palco se elevou e Paul ficou sozinho tocando no topo do estádio, como um para-raio de carinho do público e antena emissora de fortes emoções. Quando acabou, ele reforçou: “Direitos humanos”, o que incentivou parte do estádio a gritar em coro “Fora Temer” por alguns instantes, iniciativa que recebeu a simpatia de Paul que acompanhou o coro com batucadas no seu violão.

Macca é macaco velho e tem habilidade para manejar uma multidão como poucos, então rapidamente ele transformou toda a atmosfera gritando, “oh yeah”, e explicando que a música seguinte foi escrita para o seu grande amigo John depois que ele morreu. Era a linda “Here Today”, lançada no Tug Of War (1982).

Foto: Rafael Rocha

Então vieram “Queen Eye” e “New”, ambas do disco mais recente de Paul, que ninguém sabia cantar nenhum verso, mas que todos gostaram; “Lady Madonna”, que foi um absurdo completo e deixou a plateia ensandecida; “Four Five Seconds”, que Paul lançou com Rihanna e Kanye West, e que não empolgou tanto; e “Eleanor Rigby”, uma das músicas mais bonitas já escritas no mundo. Aqui, quem ainda não tinha chorado, chorou.

“Esta eu e John escrevemos para os Rolling Stones”, lembrou Paul antes de soltar “I Wanna Be Your Man”, que foi seguida pelo momento mais psicodélico do show, “Being For The Benefit Of Mr. Kite”, do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, quando os telões ficaram repletos de imagens coloridas loucas e fotos dos Beatles nos anos 1960. A seguinte foi “Something”, música composta por George Harrison e dedicada a ele no show. Então veio “A Day In The Life”, lindíssima, que Paul emendou com “Give Peace A Chance”, o hino pacifista que John Lennon lançou em 1969, bem na época em que os Beatles acabaram.

E seguiu o baile: veio então “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, do Álbum Branco, a épica “Band On The Run”, do Wings, “Back In The USSR”, também do Álbum Branco, e aí a monumental “Let It Be”. Por mais que todo mundo ali conhecesse cada compasso dessa música que vem tocando à exaustão desde que foi lançada, em 1970, poder assistir a Paul cantando ao vivo “let it be, let it be…” é algo capaz de fazer qualquer um ouvir a canção com outros ouvidos. Sim, é aquela mesma música que já se tornou até um clichê, mas ao mesmo tempo não é. Aquela “Let It Be” de ontem, cantada em meio a uma garoa fria, foi só para nós, nunca existiu uma igual e nunca mais existirá. Aposto que muita gente agradeceu à chuva por ajudar a deixar suas lágrimas mais discretas nesse momento.

“Live And Let Die”, que Paul e Linda McCartney compuseram em 1973 para ser a trilha de um filme do James Bond, entrou em seguida deixando todo mundo transtornado com o show de fogos que saiu do palco. Labaredas, explosões, fogos de artifício… Essa parte do show foi um escândalo. Quando acabou e todo mundo ainda tentava entender o que havia sido aquilo, Paul já puxou “Hey Jude” e aí o estádio veio abaixo em uma grande maré de: “Na… Na, na… na, na, na, na… Na, na, na, na… Hey Jude”.

Essa foi a deixa para a banda sair do palco naquela encenação clássica do bis. Poucos minutos depois, Paul voltou com a bandeira do Brasil nas mãos enquanto seus colegas de banda traziam a bandeira do Reino Unido e a do movimento LGBT, num gesto de luta pelo fim das diferenças. Aí, ele empunhou seu violão e tocou sem piedade “Yesterday”, levando muitos às lágrimas e/ou aos beijos. Logo, a banda voltou com tudo e tocou “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)”, a versão mais rapidinha da faixa-título do disco histórico.

Aproveitando o gás, eles engataram “Helter Skelter”, a música mais pesada da discografia dos Beatles, e então “Birthday”, na qual Paul chamou um grupo de fãs para dançar com ele no palco. Aqui, quase no fim do show, o caricato bairrismo gaúcho provocou um constrangimento ao beatle. Quando perguntou à primeira fã de onde ela era, e ela respondeu que era de São Paulo, Paul ouviu uma sonora vaia da plateia à garota. Constrangido, ele brincou com a fã: “Você quis dizer Porto Alegre?”. Depois disso, todas fãs do grupo responderam que eram gaúchas, mas não ficou claro se era verdade ou se estavam com medo de provocarem outras vaias. Quando acabou “Birthday”, Paul não perdeu a chance de tirar sarro do bairrismo ao agradecer às fãs: “Todas elas são de Porto Alegre”, ironizou.

Após quase três horas de set, como já era esperado, a sequência final do show foi a reprodução do final de Abbey Road, o último disco gravado pelos Beatles: “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”. “In the end, the love you take is equal to the love you make”, cantou Paul se despedindo e nos lembrando de que a música pode e deve ser uma forma de propagar o amor. Porque, afinal, tudo o que nós precisamos é de amor.

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14/10/2017

Jornalismo, música, astrologia, fotografia, vinil, tarot, direitos humanos, mitologias, fogueiras e a arte do bem-viver me interessam.
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes