BQVNC | Conheça o universo lo-fi da Rumbo Reverso

12/05/2016

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Por: Fabiano Post

Fotos: Divulgação

12/05/2016

O instrumental lo-fi, repleto de experimentações, da paulistana Rumbo Reverso não é desse mundo. Não nega a sua verve floydiana; para moi Pink Floyd nunca foi dessa esfera, mesmo. As suas entranhas ecoam de forma excêntrica e ancestral. Desconstruído, desordenado e desconcertante, produz uma sonoridade sofisticada e primal. Camadas e texturas se sobrepõem, interpõem-se em constante revezamento, em um crescente desenfreado. Subverte a ordem em busca do resultado sonoro, uma única faixa pode se expandir em várias direções por força do acaso. Jogue fora suas convenções musicais. Você precisará estar disposto a abrir os ouvidos da alma, para absorver seu Atman.

Foi manufaturando loops, edições e tals, sem maiores encanações com a qualidade técnica de áudio, “num banheiro-depósito na área de serviço do seu apê”, que nos anos de 2009-2010 o músico Cacá Amaral pariu de forma despretensiosa o Rumbo Reverso. Após a gravação de um EP e um show na Casa do Mancha, em 2012, Cacá trocou uma idéia com o dono da casa – Mancha Leonel – sobre as dificuldades que tinha para gravar como um pouco mais de pressão, principalmente na batera, afinal gravando em casa não dava para aterrorizar a vizinhança com exacerbos vindos da “cozinha”. Foi então que no ano de 2013 que Cacá uniu forças com Mancha. O fruto dessa parceria culminou em uma singela demo, o embrião do seu primeiro disco.

Desse modelo lo- fi home made, repleto de rascunhos, que o álbum de estreia de Rumbo I partiu. As gravações no Mancha tiveram a interferência sonora de vários fellas, com quem Cacá já havia trabalhado. O músico disse que “não teve uma formação acadêmica e formal em música e está continuamente trocando experiências com outros músicos e buscando inspiração nesse processo”. Um a um, separadamente, os músicos “foram gravando em cima das bases, meio que pegando o clima do momento”, conta o músico.

“Eu queria captar a vibe do ”agora”, tal como uma fotografia, então eles chegaram, ouviram a base e gravaram sem antes ter contato nenhum com a música”, diz Cacá.

Depois do processo de captação rolou a edição orquestrada por Cacá, Diogo Valentino e Mancha, até chegar ao produto final.“Esse processo foi tão bacana e prazeroso para mim que quando chegou no fim da mixagem resolvi masterizar para vinil e para CD no El Rocha com o Fernando Sanches, e acabei prensando nos dois formatos”, finaliza C.Amaral.

A solitude criativa performática de Cacá (guita, batera e efeitos em loop) só é “maculada” quando suas gigs são compartilhadas. Nessas horas entram em cena parças, camaradas, amigos, companheiros, colegas, comprometidos com sua cruzada sonora diferentona e desestruturada; que agregam, a essa, improvisos e experiências próprias. Buscam dar vazão às possibilidades infinitas, sina do Rumbo Reverso, tornando cada apresentação ao vivo única. Entre os “sócios” mais assíduos, estão, o tecladista Leandro Archela; o baixista Rodrigo A. Hara e Ricardo Pereira nas baquetas do metalofone e criando efeitos.

Eis que, passados três anos do lançamento de seu antecessor, chega ao mundo o novo rebento do RR, e atende pela numeroclatura de Rumbo II, deixando claro sua origem-procedência.

Em time que está ganhando não se mexe, dito isso, os criativos e logística por trás do novo registro são praticamente os mesmos do primeiro disco. A casa do Mancha foi novamente o QG, os vários amigos da vida e da música presentes, a produção indefectível dos parças Diogo Valentino e Mancha, a propósito, Diogo também é responsável pela mixagem de II. A masterização ficou por conta de Fernando Sanches. Leandro Archela (Holofonica, Bodes e Elefantes) gravou praticamente todas as músicas, com Cacá, em ambos os álbuns. A arte psicodélica-sci-fi fumetaça do I e II ficou a cargo do fazedor de imagens JC Ruzza. O disco é audivelmente uma continuidade amadurecida do seu antecessor I.

“Muitas das músicas que foram gravadas no novo álbum coexistiram com as músicas gravadas no Rumbo I, faziam parte de um mesmo processo criativo”, diz Cacá. Sobre o processo da nova manufatura, Cacá Amaral dá o seguinte parecer: “A concepção do disco foi meio baseada na forma como se faz um filme de cinema, ou seja, se tem um roteiro e não necessariamente se começa pelo início, ou seja, não existe uma ordem de gravação dos instrumentos”. Conforme foi evoluindo com a composição, Cacá diz ter percebido que o que mais o atraia eram “os padrões mântricos hipnóticos”.

Na primeira audição de II o som toma forma e cria a ilusão da imagem. A transa com a sétima arte quem me deu a letra foi Flora – assessora de comunicação do RR: “O Rumbo tem essa pira do cinema, mês passado, fez uma apresentação no MIS – Museu da Imagem e do Som, musicando um filme do Buñuel, ao vivo”. No que tange aspectos individuais do segundo álbum o músico diz “ter participado mais efetivamente das gravações e edição das faixas, por se sentir mais à vontade”. Trabalhar com extremos, também foi um diferencial favorável, segundo Cacá: “A música num dado momento soa bastante melodiosa e melancólica e num outro momento soa bastante agressiva e desconstruída”. Boas sacadas de lo-fi, psycho, folk e eletrônico, são emanadas em meio a um êxtase de efeitos de um loop contínuo, incessante e insurreto, que faz início, meio e fim desejarem ser um só, sem anseios de protagonismos hierárquicos.

“Uma mesma estrutura melódica foi explorada repetidamente, todo o espectro de texturas e timbres que essa mesma estrutura pode dar, foram fruto de pesquisa”, afirma Cacá. O resultado e desdobramento são infinitas possibilidades que fazem a ponte viajante entre a sonoridade desestruturada em sua forma e sem padronagem definida, arremessada ao vazio, e reconfigurada novamente em sua não linearidade disforme e cheia de potência.

Gratidão é coisa linda! Em um manuscrito como esse deve haver espaço para isso, agradecimentos. E sabedor disso, como é, Cacá direciona parte de seu reconhecimento a Katia e Carlos da Big Papa Records e Ricardo Pereira da Estimulantes Jones Records. Fora de enquadramentos e padronagens, localizar essa esbórnia subversiva sonora em algum ponto plausível de entendimento, lógico e técnico é tarefa árdua, a criatividade caótica é explanada em pouquíssimas palavras pelo próprio Rumbo: “música caseira imagética”!

O CEO do Rumbo dá um help na decupagem, de parte das oito faixas, do imprevisível roteiro de II. A quinta faixa, “Formigas Garden”, navega em meio a uma atmosfera soturna, os teclados que reverberam sem rumo e solitários, até encontrarem a companhia do dedilhar da guitarra, segundos criam um desdobramento temporal do mistério, os sentidos então são aprofundados pela sonoridade do baixo e a batera na sequência grita: Ação! Já a candidata a ascensão, sexta faixa, “Novembro”, o protagonismo fica por conta da parceria entre a bravura dos riffs do baixo e do destemido som da cozinha. A ‘melodia camuflada no ruído’, é exatamente disso que se trata, a faixa dois, “Quais Cenas Ele Pode Conte?”

A octanagem musical do Rumbo Reverso surge do improviso; do incidente; da prévia falta de direção; da falta de expectativa; do fluxo contínuo do som; e do que mais couber no âmago de suas experimentações. Busca a ordem em meio ao caos, ou vice-versa. Faz uso de elementos sonoros diversos que retroalimentam o seu germe primal; a sonoridade mais parece uma tentativa de comunicação com outras formas de vida, em outros mundos; outras dimensões; outras galáxias.

O RR flerta com a surreal arte de tocar imagens, que de tanta imprecisão fracionada e poética desestruturada, por vezes, soam como miragens em um deserto sonoro frequentado por Buñuel, Cocteau, Dulac e tantos outros da turba surrealista. Difícil é explicar o intangível. Não se fazer entender é parte de sua compreensão.

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12/05/2016

Gaúcho, de Porto Alegre, vivendo a 15 anos no Rio de Janeiro. Colaborador da Vice Brasil e autor lusófono do portal de mídia cidadã Global Voices.

Fabiano Post