Ouça a paleta de cores de “Rupestre do Futuro”, novo álbum de Rodrigo Nassif Quarteto

25/08/2017

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Marília Feix

Por: Marília Feix

Fotos: Amarello Rodrigues

25/08/2017

A chegada de um disco inédito sempre é motivo de celebração, ainda mais quando o álbum em questão proporciona uma experiência que vai além do som. A potência comunicativa da música instrumental bem realizada é como um universo que se cria na imaginação de cada ouvinte, e em Rupestre do Futuro, o quarto álbum de Rodrigo Nassif Quarteto, temos essa série de paisagens, cores e sentidos que ultrapassam a simples classificação de seus gêneros e ritmos sonoros.

Ouça abaixo as 12 faixas que acabaram de chegar em todas as plataformas digitais através do Selo 180, com a capa pintada por Adão Iturrusgarai, enquanto descobre mais sobre as inspirações de Rupestre do Futuro, em uma conversa com o compositor e multi-instrumentista Rodrigo Nassif:

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A música instrumental tem um poder de comunicação global, na medida em que não possui a barreira do idioma. Como você se sentiu nas apresentações que fez pela Europa?
Na minha experiência, me senti extremamente bem acolhido. Na França o público foi muito caloroso. Talvez a interação não verbal seja o fator principal na comunicação da música instrumental. Quando alguém consegue expor uma variada gama de emoções (as vezes contraditórias – medo e alegria, ansiedade e felicidade) através da música, essa comunicação se dá de uma maneira muito efetiva e é relativa a sentimentos que são universais, que estão presentes em todas as culturas.

Na sua perspectiva, quais são os pontos positivos de se fazer música instrumental?
O primeiro ponto positivo: é necessário clareza sobre qual é a ideia que tu quer transmitir. Não há linguagem verbal para que tu possa fazer rodeios. É necessário ser conciso – no meu ponto de vista isso é uma grande vantagem. Outro aspecto é o alcance ilimitado. Funciona como um livro – o que cada um imagina do personagem é pessoal. O que cada um ouve no instrumental é pessoal.

Você tem mestrado em violão na Argentina, mas sua música consegue ser acessível e ao mesmo tempo trazer uma grande riqueza rítmica. Como você chega nesse equilíbrio?
O mestrado foi uma etapa importante na minha vida musical, com certeza. Porém, não me vi imóvel dentro do estilo que fui estudar como acadêmico. Ainda ouço muita coisa diferente: carimbó, funk carioca, Sex Pistols, Clash, Noel Guarani, Piazzolla, Villa-Lobos… Tudo que é jogado dentro do ouvido é assimilado indiscriminadamente. Posso gostar do modo como foi gravado, ou do beat da bateria, ou da letra, ou porque não tem letra e etc. E aí vai de tudo mesmo: Steve Reich, Alvarenga e Ranchinho, Kendrick Lamar e Kamasi Washington. Creio que ouvir sem restringir absolutamente nada é uma chave para esse equilíbrio. Qualquer gênero tem contribuições. Não preciso estar ouvindo música o tempo todo, mas o importante é que, quando eu ouça, esteja permeável. Creio que no Rodrigo Nassif Quarteto, o mais importante e a interação entre os músicos. Samuel, Carlos e o Leandro tem participações importantíssimas nos arranjos.

Carlos Ezael (violões), Rodrigo Nassif (violões, guitarras, percussão e piano), Samuel Basso, (baixo acústico, elétrico e harmonica) e Leandro Schirmer (bateria, percussão e piano).

O álbum é cheio de momentos e nuances, quase como uma trilha sonora. Quais foram as suas maiores inspirações para a composição de Rupestre do Futuro?
Para a faixa título a inspiração são os grafites de Sampa. É quase um micro conto de ficção científica. Se daqui a milhões de anos algum alienígena ou algum sobrevivente da nossa civilização chegar a visitar alguma das cidades que hoje são metrópoles mundiais, como São Paulo, os grafites serão como as pinturas rupestres das cavernas. Creio que cada música tem uma história de desenvolvimento diferente. Pensando em como os arranjos tomam vida, creio que essa pergunta tem dois estágios: um quando a estrutura básica surge em casa, e outra com os arranjos que sobrevivem ou não. A segunda faixa tem com uma atmosfera diferente. Foi inspirada pelo livro de Marcelo Rubens Paiva, Ainda estou aqui. As microfonias da guitarra cuidadosamente controladas fornecem um clima de suspense e uma emulação de instrumentos de arco. “Tio Pepepo” tem claramente uma inspiração na música platina, nas antigas orquestras tangueiras.“Cia do Caribe” é inspirada pelo livro O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez. “Um abraço em Luis Alberto” é uma homenagem ao grande roqueiro argentino Luis Alberto Spinetta. “Guaxo” também é uma mescla da música platina com rock e jazz. “A hora dupla” é uma balada bem delicada. “Martial” é uma homenagem ao compositor da trilha de Acossado, de Godard: Martial Solal. “Neskia-ha” é uma brincadeira com o ritmo do funk carioca. “Acrobacias aéreas” é uma brincadeira entre um tema dissonante e um tema consoante, mais a levada swingada da batera-baixo. “Tema de Obdúlio” é levemente psicodélica. “Ponto fora da curva” tem uma levada dançante-quase um ska.

E como você percebe esse disco em relação aos anteriores, na sua trajetória como músico?
Posso dizer com certeza que é o disco com a maior paleta de ritmos e coloridos sonoros desde que comecei a compor. Após ter buscado de maneira incessante uma estética própria que me levasse ao desenvolvimento uma unidade. Em qualquer estilo que a gente se aventure, sempre há características reconhecíveis: dinâmicas, respirações, pausas, silêncios, dissonâncias. E no Rupestre aconteceu de todas as músicas terem essas características reconhecíveis: harmonias misteriosas, melodias ganchudas, arranjos econômicos… Espero que as pessoas desfrutem tanto quanto a gente.

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25/08/2017

Marília Feix

Marília Feix