Salve Jorge! 120 mil pessoas se reúnem na estreia da turnê de Jorge Ben Jor, Céu e Skank

03/04/2017

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Ariel Fagundes

03/04/2017

Admirar o pôr do sol às margens do Guaíba é uma das atividades mais típicas de Porto Alegre, mas é raríssimo que haja 120 mil pessoas reunidas fazendo isso. A estreia da sexta edição do projeto Nivea Viva, que homenageia a obra de Jorge Ben Jor, realizou a proeza de atrair essa multidão batendo todos os recordes das últimas edições do evento na capital gaúcha. O evento segue ainda para o Rio (9/4), Fortaleza (7/5), Recife (21/5), Brasília (11/6) e São Paulo (25/6).

A participação de Céu e, principalmente, do Skank nesse show gratuito certamente ajudaram a engordar a plateia que se espalhava em frente ao Anfiteatro Pôr Do Sol, porém não havia dúvidas de que era pela figura mítica de Jorge que todos estavam ali. Aos 72 anos, com 54 anos de carreira e 27 discos de estúdio, o mestre do suíngue talvez seja o artista brasileiro que atinge uma gama mais ampla de público, sendo capaz de atrair tanto os pesquisadores nerds da música quanto o pessoal que só curte os hits que tocam em todos carnavais. Era lindo ver como senhoras idosas com roupas humildes, jovens playboys, manos do rap, rastafaris, punks, doidões de todos os tipos e famílias conservadoras dividiram harmoniosamente o mesmo espaço atraídos pelo poder de uma música que torce pela paz.

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Foto: Ariel Fagundes

Era 16h40 quando Skank subiu ao palco tocando “O dia em que o Sol declarou seu amor pela Terra”, faixa que abre o disco Bem-Vinda Amizade (1981). Em seguida, Céu chegou e, juntos, eles tocaram o hino “País Tropical”. Nos primeiros minutos de show já ficou claro que o objetivo do evento era ser uma festa, um grande baile feito pra agradar o máximo de gente possível. E, nesse sentido, o projeto acertou em cheio.

Foto: Ariel Fagundes

A plateia já estava ganha quando Céu cantou “Cabelo” e “Que Pena”, clássicos que foram interpretados com arranjos próximos aos das gravações originais. Esse foi um dos momentos em que a cantora ganhou maior destaque no palco, dali para a frente ela assumiria um papel um tanto quanto coadjuvante considerando a presença expansiva de Samuel Rosa e, depois, do próprio Jorge.

Aqui, Céu saiu do palco e o Skank toca sozinho “Oé, Oé (Faz o Carro de Boi na Estrada)”, também do Bem-Vinda Amizade (1981), e “Oba, Lá Vem Ela”, do incrível Força Bruta (1970). Psicodélica e – ainda que cheia de groove – introspectiva, essa música foi uma das que entrou no set como um presente aos fãs que se aprofundam na discografia do Jorge Ben (antes de ser Jor). Ainda que não seja um dos maiores hits, o Skank teve cancha para empolgar a multidão e arrancar coros da plateia nesse momento. Pense-se o que quiser do Skank, é inegável o poder de comunicação de Samuel Rosa com as massas, mesmo imitando os vocais de Jorge Ben de uma forma um pouco caricata, mesmo encarnando uma postura de guitar hero que não condiz tanto com o som que faz, o vocalista da banda não perdia o controle sobre o público em momento algum.

Foto: Ariel Fagundes

Na sequência veio “Balança Pema” (do primeiro disco do Jorge, Samba Esquema Novo, de 1963) e então iniciou-se um bloco dedicado ao A Tábua de Esmeralda (1974) com “Menina Mulher da Pele Preta”, “Minha Teimosia, Uma Arma pra te Conquistar” e “Os Alquimistas Estão Chegando”; nessa terceira, Céu retornou pro palco. “Perdão pelo que vou dizer, mas A Tábua de Esmeralda é melhor do que Sgt. Peppers“, soltou Samuel Rosa ao que Céu respondeu: “Eu assino embaixo!”.

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Juntos, Skank e ela tocaram mais três, “O telefone tocou novamente”, “Chove Chuva”, que ficou bem diferente, bem funkeada com a cara do Skank, mas incrivelmente interessante, e a pedrada “Xica da Silva”, do África Brasil (1976). Era evidente a alegria de todos no palco por estarem tocando o repertório do seu ídolo e isso ficou ainda mais claro quando a entidade Jorge Ben Jor adentrou o palco e puxando uma oração em forma de música: “Jorge da Capadócia”. A música entrou como uma benção, um pedido de Jorge (Ben) pra (São) Jorge para que nem mesmo em pensamento alguém possa lhe fazer mal. Pode ter certeza de que não é uma escolha aleatória, entrar com essa faixa é um ato ritualístico onde o músico se coloca como uma ponte entre a plateia, o palco e o mundo espiritual que é tema de boa parte de suas composições.

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Preces feitas, a festa pode começar. Skank e Céu saem de cena e Jorge emenda uma rajada de hits: “A Banda do Zé Pretinho”, um medley de “Santa Clara Clareou”/”Caramba!… Galileu da Galileia”/”Zazueira”/”A Minha Menina” e outro medley com “Que Maravilha”/”Magnólia”/”Ive Brussel”. Nesse ponto, o baile já havia pegado fogo e todo mundo estava disposto a dançar como se não houvesse uma segunda-feira no dia seguinte.

Foto: Ariel Fagundes

Então Céu volta e toca com Jorge “Por Causa de Você Menina” e “Mas Que Nada”, ambas do Samba Esquema Novo. Essas duas joias do passado entram quase como uma justificativa para as duas que seguem depois, “Quero Toda Noite” e “Emo”. A primeira delas é uma música do Fiuk (ele mesmo, o ator e cantor filho do Fábio Jr.) que Jorge gravou no disco do rapaz, Sou Eu (2011). A segunda é a composição mais recente de Ben Jor, a única música inédita lançada no álbum Recuerdos de Asunción 443 (2007). Por mais que se ame o músico, não é fácil levar a sério um senhor de 72 anos dando conselhos questionáveis aos adolescentes emos. Aqui, a plateia esfriou pela primeira vez ouvindo versos como: “Não deixe de brincar, não deixe de amar / Não deixe a felicidade acabar / Aproveite a adolescência / Essa coisa aborrecente maravilhosa / Sem você perceber vai passar”. Verdade seja dita, a versão ao vivo dessa faixa se tornou muito mais interessante do que a gravação original, pois, no palco, Jorge e a Banda do Zé Pretinho transformaram essa música em um dub beeeem pesado, onde o baixo do grande Dadi Carvalho se destacou.

Foto: Ariel Fagundes

Após o surrealismo de um reggae sobre os emos, Jorge engatou outro medley pra acordar a multidão: “Zumbi”/”Bebeth Vambora”/”Take it Easy my Brother Charles” – todas reformatadas em uma pegada mais reggaeira do que as versões originais. Teve em seguida o clássico “W/Brasil (Chama O Síndico)”, onde Jorge homenageia seu amigo Tim Maia (que já foi tema do projeto Nivea Viva), e então Samuel Rosa voltou ao palco para o bloco futebolístico do show. “Cadê o Penâlti”, Umbabarauma” e “Filho Maravilha” (essa última também com a Céu) levantaram a massa enquanto o telão do show passava cenas de partidas de futebol que Jorge e Samuel ficaram olhando e comentando entre si.

Foto: Ariel Fagundes

Aí o vocal do Skank saiu do palco e chegou uma das horas mais bonitas do show, quando Céu e Jorge tocaram “Carolina Carol Bela”, que Ben Jor e Toquinho escreveram em 1969 para Maria Carolina Whitaker, a mãe da Céu (saiba mais aqui). Essa música não estava prevista no set original do show, mas felizmente foi incluída.

Foto: Ariel Fagundes

Por volta das 19h30, o show chegou ao fim com “País Tropical”, “Taj Mahal” e “A Banda do Zé Pretinho”. O sol já tinha baixado, mas não a energia de quem estava lá até o final. Quase três horas de repertório não esgotaram a multidão que chegou a pedir bis, demonstrando que nunca é demais ouvir o que Jorge tem a cantar. No fim, a impressão que passa é de que esse projeto se propõe a um grande resumo de tudo que o músico fez em sua vida. Foram representados o futebol, a negritude, a religiosidade, o ocultismo, o clima de gandaia carnavalesca, o samba, a psicodelia e o groove desse alquimista que atingiu o objetivo de ter a vida eterna.

Foto: Ariel Fagundes

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03/04/2017

Jornalismo, música, astrologia, fotografia, cultura do vinil, tarot, direitos humanos, mitologias comparadas e a arte do bem-viver muito me interessam.
Ariel Fagundes

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