Valciãn Calixto e TrisTherezina: a cena do Piauí existe

18/04/2017

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Leonardo Baldessarelli

Por: Leonardo Baldessarelli

Fotos: Eryka Alcântara

18/04/2017

Desde o primeiro momento em que entrei em contato com a arte de Valciãn Calixto, um conceito dominou as minhas impressões: o choque. Choque provocado pelos timbres, tanto os escolhidos para os instrumentos quanto o da sua voz, pelo seu cantar e por toda a sonoridade “axé-punk” da sua música; choque induzido também pelos temas pesados e por todas as palavras da sua poesia, que abordam de maneira aberta e direta narrativas sobre relacionamentos abusivos, suicídio, pedofilia e menstruação. A estética de FODA!, seu álbum solo de estreia que acabou de completar um ano de lançamento e em que mistura seus poemas (Valciãn é poeta premiado) ao punk e space rock e a sons populares (principalmente do nordeste), é provocante e causa estranhamento – e o músico sabe disso. “Se você não faz música para atingir, para atravessar as pessoas com dor ou com amor, você simplesmente não faz música, você faz entretenimento, propaganda, qualquer coisa menos Arte”, respondeu, quando indagado sobre o assunto. E foi justamente pelo álbum, sua recepção e sua sonoridade que começou minha entrevista com o artista piauiense, para depois avançarmos na conversa sobre a cena independente do país, todos os perrengues de se fazer arte no Piauí e o futuro de sua carreira e de tudo que acontece ao seu redor em Teresina.

Valciãn é um dos principais nomes da Geração TrisTherezina (o catálogo musical completo do movimento está disponível aqui), coletivo de arte com origem e vivência na capital do Piauí e que busca trazer visibilidade para as produções do estado e da cidade, focando, obviamente, nos seus membros – e, por suas conquistas como artista solo e toda sua atitude militante quanto a arte marginal e a produção da região, é fácil ver Valciãn como um líder do movimento. Além disso, o músico fala com uma autoridade perceptível sobre tudo o que condiz à cena independente da música brasileira e nordestina, tecendo críticas e análises – e demonstra uma consciência imensa sobre a sua posição no cenário, chegando a refletir sobre o que FODA! trouxe à sua vida: “Passei da condição de fã dos caras [toda a cena independente] para artista tal e qual todos eles, sem contar do respeito e credibilidade que hoje possuo junto às bandas, jornalistas e sites que falaram no meu trabalho”. Como Valciân nunca teve medo ou vergonha de falar, tanto todo o trabalho da Geração quanto seu disco solo são uma tentativa de colocar o Piauí no mapa da música independente brasileira que é legitimada pela imprensa, e o artista tem muito orgulho do caminho já percorrido.

FODA!, que você ouve acima, é uma obra um tanto única dentro da cena, trazendo um mix de sonoridades extremamente populares com algumas vanguardas do punk, hardcore e do rock ‘n’ roll. Em entrevista ao Scream & Yell, Vãlcian cita desde artistas como “Daniela Mercury, Davi Moraes, Fantasmão (fase Edcity) e Parangolé (fase Léo Santana e André Merenda)” até “Sasha Keable e C W Stoneking. Elba Ramalho e Moraes Moreira” como influência, dialogando entre extremos e criando o seu “axé-punk”, descrito pelo cantor na mesma entrevista como um “afropunk” brasileiro e que é, no mínimo, peculiar. Recomendamos que você bote o álbum para tocar enquanto lê a entrevista abaixo e também conheça a “catarse pelo estranhamento” provocada pela música de Valciãn, como ele mesmo define.

O Foda! completou um ano de lançamento agora há pouco e muita coisa rolou desde então. Como você sentiu a recepção ao disco nesse tempo? Superou suas expectativas?
Antes de mais gostaria de começar agradecendo ao espaço e seguir dizendo que desde 2013 venho acompanhando os lançamentos das bandas que eu curto, boa parte de São Paulo e Minas Gerais como Giallos, Jair Naves, Lupe de Lupe, MC Linn da Quebrada também, lendo desde entrevistas a resenhas, listas de melhores do ano, então sempre que eu pensava em lançar meu primeiro disco, queria alcançar os mesmos sites que eles, o mesmo público e hoje, vendo que mais de 50 sites falaram do FODA!, posso dizer que eu consegui, que nisso eu fui feliz sim.

E depois disso tudo, o que você sentiu que mudou de efetivo na sua vida?
Passei da condição de fã dos caras para artista tal e qual todos eles, sem contar do respeito e credibilidade que hoje possuo junto às bandas, jornalistas e sites que falaram no meu trabalho com o FODA!. Dá para notar na maneira como me abordam ou como os debates se desenvolvem nas redes sociais, por exemplo.

Botando todas as limitações de gravação na balança, você se sente satisfeito com o resultado do Foda! enquanto obra?
Levando em consideração as limitações eu estou tranquilo. Contudo, tenho plena consciência de que se fosse em melhores condições de gravação, com melhores instrumentos e mixagem a parada teria sido outra, os arranjos das músicas, que são muitos e bastante trabalhados, teriam ficado mais evidentes com certeza. Eu sei exatamente o que preciso melhorar e muito disso eu aprendi com as resenhas que o disco recebeu. De toda forma, no geral, fico satisfeito sim.

Algo que eu não vi muitas entrevistas abordarem são as influências que povoam sua poesia, além das influências musicais. Que autores o formaram como poeta e, principalmente, “inspiraram” a construção das letras do Foda!?
Nossa, essa era a pergunta que eu pensei que abusaria responder (risos), mas realmente não rolou. Todavia minha formação enquanto leitor é fragmentada demais. Na época do meu emprego anterior tudo que eu fazia era ler quando chegava em casa, fritava de madrugada tendo de acordar cedo. Como xs autores que me interessavam, maioria eram de fora e deles há pouca tradução ou edições em português, eu lia tudo que encontrava no Google de um determinado autor e para mim aquilo era como se eu tivesse lido um livro dele. Assim foi com Cheryl Clarke, Maya Angelou, Gregory Corso, Elise Cowen, César Vallejo, Mário de Sá-Carneiro, no Brasil Adalgisa Nery, Régis Bonvicino, Fontes Ibiapina, Agostinho Rodrigues Torres, Orides Fontela e por aí segue.

Na construção das letras do Foda! em conjunção com a música, eu sinto uma tensão extrema em muitos momentos – as narrativas e os enredos me afetam profundamente, e acho que a melhor canção para exemplificar seria “Sobre Meninas e Porcos”. O que você acha que provoca isso? A sinceridade do trabalho? O fato das letras representarem uma realidade muito próxima?
O que provoca isso é que o mundo não faz o menor sentido como está e todos nós estamos presos a vários sistemas tais como familiar, empregatício, religioso, político e em todos eles existem absurdos que interferem diretamente na personalidade de cada um de nós desde o nosso nascimento, por isso que há na sociedade homem-bomba, psicopata, estuprador, corno, matador de aluguel, reptiliano, rockfeller, belzebu e o caralho a quatro, então vivo o tempo todo incomodado demais, sentindo demais essa porra toda, querendo explodir deus e o mundo com as mãos – como não posso eu tento explodir o ouvido de quem para pra ouvir minhas músicas, que é para que todos que estejam na sua zona de conforto apontando o que é arte e o que não é, o que é belo e o que não é, o que é certo e o que não é, o que é moral e o que não é, tomem um murro na cara, sangrem, quebrem o nariz uma vez na vida, para que essa galera da internet pare de ficar o dia todo compartilhando meme, debochando e ironizando as próprias condições de riqueza e privilégio para se sentir menos culpado com a desgraça do mundo perpetuada há milianos por seus pais, avós, bisavós etc.

Aliás, o que você acha do “posicionamento político” da música independente brasileira atual? Eu tenho a impressão de que tudo está muito “sutil” e pouco efetivo, de que há um tipo de inércia provocada por n razões (partidarismo excessivo, alinhamento com organizações) – talvez até um excesso de confiança no próprio sistema como provedor de soluções.
Simples e tristemente não existe. Eu poderia até ser leviano e dizer que esse posicionamento morreu definitivamente quando o Yuka foi ~~convidado~~ a deixar o O Rappa, se quisesse contextualizar a parada. Depois deles nessa fase Yuka, quem mais lançou uma música igual Tribunal de Rua ou Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro? Ninguém! Talvez só a Lupe de Lupe com a canção “Homem”, numa perspectiva bem mais atualizada de discussão que vemos hoje pelo país.

E como você acha que o Foda! se encaixa no universo da música independente brasileira? Um ponto fora da curva, seja nas visões comercial, política e artística?
Essa pergunta é boa demais, mas é o seguinte, a única banda que eu conheço que experimenta mesclar o axé com outros ritmos é o ÀTTOOXXÁ e nisso tem semelhança com algumas das faixas do FODA!, inclusive, eu gostaria muito de produzir algo junto com eles um dia. Já se levarmos em consideração as letras tem o próprio Jair Naves, a Jujs, a Nanda Loureiro, Fábio de Carvalho com uma pegada similar à que eu tenho. Não sei se responde sua pergunta, mas meu disco fica nesse entremeio aí e que dialoga facilmente também com Metá Metá, Aláfia, Baiana System e Eletrique Zamba.

Estando inserido profundamente no mundo da música independente brasileira, me surpreendi com o quão facilmente seu som no geral e o Foda! chegaram a mim e chamaram minha atenção, enquanto me sinto obrigado a “garimpar” outros lançamentos da “cena” com produção muito mais custosa e com grandes estruturas por trás. Me parece que você se esforça em fazer um trabalho simples que outros, com muito mais condições, têm “preguiça” de fazer. Por que você diria que isso acontece? Certas partes da cena ainda subestimariam a importância de veículos independentes?
Preguiça é eufemismo, falando
pela galera do Piauí, não tem nenhuma outra banda aqui do estado que tenha lançado disco para ter visibilidade além dos portais de notícias da capital, só as da Geração TrisTherezina mesmo. Por aqui a galera ainda acredita que o Miranda, que o Hermano Vianna vão sair de suas casas, pegar as bandas daqui e levar pra Globo ou pro SBT. Aqui tem banda que ainda hoje não upou seus discos lançados na década passada pro Spotify ou Youtube. Daí cê tem uma ideia de como esse povo merece o anonimato eterno. Não dá pra ter compaixão de quem não corre atrás.

Quando mando sua música para amigos, conhecidos que sei que podem gostar do som ou até mesmo jornalistas, rola uma reação meio padrão: estranhamento com sua voz, sua afinação, com os timbres dos instrumentos, com as composições, com a mixagem… galera se esforça pra achar ruim sem nem chegar nos 5 minutos de disco. E como essa mesma galera é bem “letrada” em hardcore, alt rock e experimental no geral, eu sempre argumento que “pô, mas tu pega Lupe de Lupe, Slint, essas parada, e a ideia musical por trás é beeem parecida – e você ama isso.” Porém, é praticamente impossível quebrar esse preconceito e as conversas caem para o lado do que é a música, o que é belo ou não, o que é agradável ou não, o que algo precisa ter para ser legitimado como arte – e eu acho que sua música mexe com esses extremos. Você concorda? O que pensa sobre isso tudo?
Qual outra palavra pode ser antônimo de Catarse senão o Estranhamento? E por quê? Porque todas duas tem origem no mesmo princípio, no mesmo processo que é a Música, o Cinema, o Teatro, o Balé, as Artes. O Teatro foi criado pra ~~zuar~~ com a cara e os costumes da classe aristocrática. Se você não faz música para atingir, para atravessar as pessoas com dor ou com amor, você simplesmente não faz música, você faz entretenimento, propaganda, qualquer coisa menos Arte. Então é como o Theuzitz costuma me falar lá de Jandira em São Paulo: “quando você causa isso, esse estranhamento, essa reação, você tá fazendo arte, tirar as pessoas da velocidade cotidiana pra se incomodar e sentir de verdade é a potência da arte”. Se você pegar só as letras do FODA! é uma arte, se pegar só o instrumental tem outra arte, se pegar a capa isoladamente tem ainda outra arte, ou seja, esse disco é Arte elevada ao cubo.

E o que você pensa sobre o estudo de literatura e música no ensino básico brasileiro? (lhe pergunto isso muito por causa da letra de “Núcleos de um Romance Engavetado”)
O erro começa com o recorte de autores a serem estudados e em como esse recorte é feito, na quantidade rasa de escritoras, de autores negros, de enredos com personagens marginalizados. Após isso observamos também que todo ano, as escolas indicam três ou quatro obras para serem trabalhadas durante o período letivo. Não há nenhum incentivo ao entendimento e leitura dessas obras, apenas da produção a partir delas. Essa produção é simplesmente responder com exatidão às perguntas objetivas aplicadas pela escola e no final do ano pelo Enem ou Vestibular. Então eu te pergunto, como é possível enquadrar a literatura, tão repleta de símbolos e possibilidades de interpretação, à perguntas objetivas onde você simplesmente marca letra a, b ou c? De duas, uma, ou você emburra a Literatura ou emburra o aluno.

Você não fez muitos shows ao redor do Foda!, certo? Como vem sendo essa parte do booking? Vi, por exemplo, que vai rolar show no Grito Rock Therezina.
Teresina não possui um ciclo forte de shows rentáveis para o autoral, o que é uma pena. Eu não sei dizer exatamente o que se passa nem posso culpar também ninguém por isso, nem público, casas de show, editais, empresas, etc. O que eu sei é que os grupos têm sobrevivido muitas vezes chamando bandas cover para dividir o palco e tentar atrair mais público e o que percebo é que nem isso tem dado tanto retorno. Então por aqui eu tento fazer poucos shows até mesmo para não saturar a galera com apresentações minhas. Porém mesmo com essa dificuldade atual, consegui levar o repertório do FODA! para três cidades diferentes aqui no estado: Barras, Piripiri e Demerval Lobão, além da capital, o que também é muito difícil para qualquer banda ou artista daqui e não só na área da música. E sim, vai rolar show no Grito Rock Therezina, estou aguardando também ainda resposta de outros eventos como o do Dia da Música.

Nas apresentações que estão rolando, como vem sendo a recepção do público às músicas?
Rola uma energia muito boa, aberta e com ar de novidade. A galera chega depois dos shows comentando com a gente que antes de subirmos ao palco esperava uma coisa, quando assistiram o show foi outra e é ali no palco que eu percebo que o público consegue entender de fato o que é o meu trabalho. Então rola muita conversa de organizarmos intercâmbio entre as bandas dessas cidades, convites e novos seguidores.

Como está andando a Geração TrisTherezina como um todo? Vi que esse ano já rolaram dois lançamentos de destaque, o “Vol. 1”, do Eletrique Zamba, e o “Estilhaços”, do Cianeto HC”. Como vocês chegaram a esses projetos – ou mesmo esses projetos chegaram a vocês? Vem mais coisa por aí esse ano?
Meu sonho era que todas as bandas do coletivo pudessem lançar algum material esse ano. Mas das cinco acho que apenas quatro vão conseguir. Quando o coletivo começou eram só minha antiga banda, a Cianeto, Cidade Estéril e Old School Kids, esse ano convidamos a Eletrique Zamba que lançou o disco em fevereiro, depois Cianeto em março e a Cidade Estéril vai lançar um ep agora em abril (chamado “Cegos Pugilistas” e já lançado). Já são três lançamentos só em 2017. É pouquíssimo, mas para a realidade do nosso estado, da capital, é muita coisa, ainda mais porque fazemos sem apoio ou patrocínio de ninguém além de nós mesmos ajudando um ao outro. Fora isso, esse ano conseguimos lançar clipes, que era algo que a gente sentia falta ainda nas nossas produções, até mesmo para ajudar a divulgar melhor nossos discos, então já rolou clipe da Eletrique, Cidade Estéril e um meu.

Nesse momento a Cidade Estéril venceu um concurso e está gravando já o segundo clipe, deve estar lançado quando essa entrevista for publicada, eu imagino (na verdade, ainda não foi lançado). Tem ainda a Old School Kids, única banda da TrisTherezina que canta em inglês e que ainda não lançou nada. Todos os lançamentos podem ser baixados gratuitamente ou com qualquer valor de colaboração no endereço: www.geracaotristherezina.bandcamp.com.

O Agostinho, que é um dos escritores que cola com a gente, talvez monte um projeto experimental comigo, mas não sei se rola esse ano, pois ele disse que vai fazer umas pesquisas antes de começar a escrever as letras. Se rolar, eu vou ficar mais na parte de produção e composição musical mesmo. Em breve o Joniel, que além de cantar e tocar na Old School Kids é ilustrador, vai participar da CCXP Tour, evento com quadrinistas de todo o país. Eu acho que é a segunda participação dele no evento e o bom é que ele pode trocar conhecimento com a galera nacional, material, conseguir freelas, sei lá. Acho que por enquanto é isso. O Breno Andrade continua fazendo fotos lindonas e divulgando no instagram: @brenoandrade_fotografia ou @brenoandrade_pix, sigam lá que o menino é bom. Ele faz umas fotos com celular que meldels, coisa de outro mundo.

Em 2015, lancei o livro “Reminiscências do caseiro Genival”, só com poemas, e o Joniel lançou uma HQ, a “Beeline”. Em 2016, o Agostinho lançou o primeiro livro de contos dele chamado O Que Acontece Quando Não Estamos Olhando. Já temos um bom material, se considerarmos o pouco tempo de atuação e nossas condições de produção, onde tudo é feito na raça. Eu penso que esse é nosso maior mérito e legado.

Por fim, quais as perspectivas para a carreira solo? Um sucessor do Foda! já está a caminho?
Penso de muito em breve tentar shows por SP, RJ e MG, talvez até o ano que vem, não sei, mas interajo bem com a turma desses três estados, principalmente. Talvez antes eu passe por alguns estados do Nordeste, isso é ainda muito incerto, mas vontade não nos falta. E quanto ao meu segundo disco, já está sendo maturado sim, pretendo lançar até agosto, resta aguardar para saber se a profecia vai se cumprir, talvez role umas participações, quem sabe. Fui convidado para uma coletânea nacional, um tributo a uma banda brazuca dos anos 90, mas não posso falar muito agora sobre isso. Daí que não sei como encerrar essa pergunta, ou melhor, essa resposta, vou divagar até onde der hahahaha. É isso. Até o próximo disco!

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18/04/2017

Redator de social media, jornalista, músico, emo, jogador de bocha, astrólogo e benzedeiro nas horas vagas. Um colono que se encontrou na cidade grande e agora pensa que sabe escrever sobre qualquer coisa.
Leonardo Baldessarelli

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