Entrevista | A busca pela teorização da festa de Leo Felipe

23/10/2019

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Douglas Hanauer

23/10/2019

Baseado em São Paulo há um ano e meio, o escritor, curador e crítico cultural Leo Felipe acaba de lançar sua quarta obra literária. O livro A História Universal do After é fruto da observação e vivência do autor junto ao circuito underground de festas de música eletrônica, mais especificamente, das festas de ocupação do espaço público, sobretudo o coletivo Arruaça de Porto Alegre.

Piadas internas, intimidades do autor junto aos agentes dos núcleos, reflexões e tentativas de teorização crítica da festa, dão o tom característico etnobiográfico de sua escrita. O livro foi publicado pela Nunc Livros, e está disponível para venda no site da editora

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Diferente de seu livro anterior, A Fantástica Fábrica – em que apresentou passagens da história do mítico bar e reduto do underground da Porto Alegre dos anos 90, Garagem Hermética – escrito anos depois dos acontecimentos, em A História Universal do After o escritor registra como em um diário, histórias recém passadas. Concebido e produzido em Porto Alegre, o livro ganha passagens em São Paulo e Belo Horizonte, como a incorporação de uma característica vital dos núcleos brasileiros de circulação e trocas entre si. 

Da paixão surgida do encontro entre Leo e o coletivo Arruaça, o núcleo ganhou apontamentos do crítico que permitiram a manutenção do fazer do grupo. Passados alguns anos, sabemos, que tal aproximação refletiu na formação de novos artistas e articuladores da cidade. Leo não apenas teceu crítica sobre o fazer dos mais jovens, como prestou suporte de ação. Comissionou uma edição da Arruaça como parte do programa de uma exposição exibida na Galeria Ecarta – onde ocupou cargo de diretor artístico por oito anos. Pouco tempo depois, o curador atuou junto aos núcleos Base e Goma rec., originados a partir do coletivo, além de compor a produção de algumas edições do próprio Arruaça.

Lançado em São Paulo no último mês, A História Universal do After tem função de lançamento em Porto Alegre no próximo sábado na Ksa. Uma conversa entre o escritor, o editor do livro Caco Mota e representantes de coletivos como Arruaça, Bronx e Plano será realizada. A roda de assunto será seguida de festa, embalada pelos djs da Goma e pelo convidado Dj Lucio Kahara (mais informações aqui). 

O escritor abriu as portas de sua casa, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, para a Noize. Registrada em maio deste ano, nesta conversa Leo fala de seus estados de mudança. Depois de 30 anos dedicados às artes, comunicação, cultura e entretenimento em Porto Alegre, o curador busca novos ares para circulação de suas produções artísticas e literárias. Entre o tempo para essa veiculação, ele passou atuar como assistente de curadoria do Pivô.

Em A Fantástica Fábrica, seu terceiro livro, você traz histórias do Garagem Hermética, bar e reduto do underground de Porto Alegre nos anos 90. De lá pra cá muita coisa mudou. A relação de gênero musical, que nos anos 90 acaba por evidenciar a cena rock e nesses anos 2010 a música eletrônica das festas que reivindicam status de consciência e político, acabam por tomar o protagonismo da vanguarda. Qual relação da ideia de underground é possível traçar entre os movimentos? O que você destacaria como positivo ou negativo em um ou outro?

Essa discussão sobre o underground é uma coisa que acompanha as cenas desde muito tempo. Na época que a contracultura chegou no Brasil, tinha todo um debate sobre como chamar aquilo, se de contracultura, de underground, de marginal… O [Hélio] Oiticica defendia que devia ser chamado de subterrânea, por exemplo. Eu acho inclusive que, hoje, com as redes sociais, fica cada vez mais difícil pensar nesse lugar de underground, fica tudo mais embaralhado. Mas talvez o que haja em comum é essa força, digamos, micropolítica, esse espaço que de algum modo acaba sendo um laboratório de ideias e criações que parecem ser alternativas a determinados produtos culturais mais voltados ao consumo massivo, com valores, digamos, menos consensuais dentro de um quadro maior. Nos anos 1990 se dizia alternativo, mas essa expressão parece ter caído em desuso. Hoje tem uma dimensão muito mais política dentro do rolê. Finalmente chegou uma geração muito mais consciente da estrutura da nossa sociedade – racista, classista, machista. Isso é muito positivo. E, aliás, eu acho que isso tem super a ver com a política de cotas, por exemplo, que a partir da inserção de determinados agentes transformou completamente as bases da discussão. Antes era tudo pior, as drogas inclusive.

O que representou a você o encontro com o grupo do coletivo Arruaça?

Foi muito importante, tipo nascer de novo.

Quando definiu que seria possível exercitar a crítica e teorização a partir desse núcleo?

Essa ideia da teoria da festa surgiu como uma piada, como assunto polêmico que a gente posta no dia depois da festa, uma provocação mesmo. As pessoas no geral odeiam os críticos e os teóricos. Mas, por outro lado, é perfeitamente plausível que a festa possa ser um objeto de investigação científica. A cena de festa de ocupação era nova pra mim, que venho do clube. Eu estava na cena há uma cacetada de tempo, mantendo uma festa no Ocidente há 13 anos, depois [de ter sido um dos donos] do Garagem. Morrendo de tédio, achando tudo muito cafona, aquele clube da saudade. Então conheci essa gente que fazia festa na rua, sem ganhar nada, entendendo essa ação como uma proposta política. Achei lindo. Eu colei imediatamente no que seria o grupo Goma e depois aos poucos fui conhecendo os outros integrantes do coletivo Arruaça, estabelecendo uma relação. Fiz uma matéria pro Jornal Extra Classe, a exposição [The Dance Party] na Ecarta. E sempre indo nas festas, na Base também. Aí, depois das festas, a gente ia pro meu apartamento e ficava em discussões intermináveis sobre o estado da festa, sobre as contradições de entender a festa como ato político, mas também sempre com muito comentário malicioso, muito xoxo, recapitulando os melhores e piores momentos do rolê. Arruaça parecia um grupo de pessoas que estava disposta a entrar nas minhas piras. 

Porque decidiu sair de Porto Alegre?

Bom, eu saí de Porto Alegre, porque acho que já deu um teto. Depois de trinta anos lá, eu passei por muita coisa. Jornalismo, rádio, tv, festa, bar, literatura, cinema, artes visuais. Só que chegou uma hora que parece que não tinha mais espaço. E brigado com todo mundo, né? Assim, brigar no bom sentido. Brigar pelas coisas que eu acredito. Aí vim pra cá, pra tentar trabalhar. Pra abrir caminhos e fazer com que a minha produção dialogue daqui pro mundo. Porque acho isso também de São Paulo. É uma cidade do mundo. 

Chegando em São Paulo como está sua atuação? 

Outro dia uma pessoa falou uma coisa que é verdade. No fim, como eu fiquei 30 anos lá trabalhando em Porto Alegre, cheguei aqui e é como se eu não tivesse feito nada. Importa só o que eu faço aqui, a partir de agora.

Agora, aqui, a minha grande questão é: eu tô vivendo e aprendendo uma coisa que é como envelhecer na pista. Como envelhecer no rolê. Porque o rolê é alguma coisa temporária na vida da maioria das pessoas, que é quase esse ensaio pra vida adulta, dos 16 aos 24 anos. E depois sei lá, você estabelece família e, de vez em quando, vai em uma Balonê [festa já tradicional de Porto Alegre]. Aquele clima de nostalgia, e pensa como era bom. E é isso. Quando você fica velho, acontece isso. Eu sei porque eu já fui jovem. Na época lá do Garagem, com dezenove anos, eu achava uma pessoa de vinte poucos anos já passada. Aí cê pensa isso. Uma pessoa de quarenta e poucos, quase cinquenta anos no rolê. “O que será que esse cara tem pra me dizer? Ah, é um veterano, não entende mais”. Então acho que tem um pouco esse olhar. Eu lembro de uma época o [DJ do coletivo Arruaça] GB dizer, ele tinha uma expressão: “DJ antigo”. “Ah, isso é técnica de DJ antigo”. Essa ideia de DJ antigo. Então, eu abandonei essa carreira de DJ, pra não ter que passar por essa de DJ antigo. [Fui] escrever, ir pra esse lugar que é na pista mesmo. O meu lugar na festa tá na pista. Não tá mais na produção. Não tá como DJ. Está neste lugar onde eu estou agora. Eu já passei em vários lugares dentro desse sistema. E agora eu me encontro na pista. Eu sou apenas um frequentador do rolê. Em Porto Alegre, ainda fazia algumas festas, a cenografia da Base. E, aqui, é bom de fazer esse papel que eu gosto. De dançar, investigar e de ficar tentando entender. Sendo um pouco estraga-prazeres também.

Muito por essa relação estabelecida com esse cenário contemporâneo de Porto Alegre, deve ter auxiliado sua chegada, conhecimento e inserção no cenário daqui, certo?

Eu tô há pouco mais de um ano, mas antes de me mudar, nos últimos dois anos, eu estava vindo com muita frequência a trabalho, cursos, alguma coisa de arte, bienal. E eu acabei fazendo muitos amigos que foram importantes pra me reinserir. Porque eu saia sozinho. Estava sempre ali pela República, na volta do Copan onde eu ficava. 

Tenho muitos amigos de Porto Alegre que saíram de lá há 20 anos, só que essas pessoas não estão no rolê. Elas estão em outros lugares. Então, os meus amigos do rolê são amigos de vinte e poucos anos, que nem são os meus amigos de Porto Alegre. Essas pessoas foram muito importantes pelas conexões que elas me trouxeram aqui pra São Paulo. E à exceção da [modelo, performer, DJ] Valentina [Luz], que é uma das grandes estrelas do rolê, uma das grandes figuras da noite paulistana, meus amigos são menos os DJs que as pessoas que tão mais na pista, os peões da Tecnocracia, os clubbers.

Talvez sejam pessoas que acabam se identificando e criando laços a partir de um estilo de vida, né?

Meus amigos são todos assim, alguns da minha geração já morreram né? – O Flávio (Júpiter Maçã), Cláudia Barbisan e outros vivos, tudo passando trabalho, em função do lifestyle. E finalmente outros que estão no rehab. Eu tenho muitos amigos que estão nessa. De parar a droga. De tentar formas de parar. Alguns indo pro ayahuasca. Pra esse tipo de coisa. Pro misticismo. Mas assim, eu tô tentando segurar minha onda. Pra me manter aqui na pista. Mas ao mesmo tempo eu me pergunto: “Até quando?”. Até quando eu posso ficar usando droga regularmente, entendeu?

Pensando um pouco sobre a motivação de A História Universal do After, acredito que esteja também dentro da lógica de aprender a lidar com o envelhecimento citada por você, numa forma de produção que muito se assemelha a do Fantástica Fábrica, certo? 

Então eu me dei conta que é sobre envelhecer. A proximidade da morte. A morte do meu pai há dois anos atrás. A História Universal do After lá pelas tantas tem um formato muito parecido com A Fantástica Fábrica, só que mais complexo. Diferente daquele livro que eu escrevi aquelas memórias em 2004, sendo que o bar existiu de 1992 a 2000. Então comecei a escrever em 2004, terminei em 2008 e ele só foi publicado em 2014. Então percebo que aquele livro é de memórias de coisas que aconteceram há muito tempo. E esse eu tava escrevendo sobre coisas que tinham acontecido ontem. E lá pelas tantas eu entendi que não era mais sobre a memória, aquilo era um roteiro. Porque se eu escrevesse ali ia acontecer. Que eu tava então roteirizando a minha saída de Porto Alegre. A História Universal do After foi isso. Eu escrevi o livro pra conseguir sair de Porto Alegre.

Certo. Então, aqui, como está estabelecida sua rotina? Percebe-se de fato inserido?

Eu escrevo todos os dias, requer muita disciplina. Aqui, no início com essa coisa de estar sem trabalho, sem uma relação afetiva mais estável, eu comecei a me sentir meio náufrago. Meio à deriva, digamos. E aí a coisa que ajudou a segurar a onda foi a literatura. Então, eu tô escrevendo o segundo livro desde que eu me mudei pra São Paulo esse ano. O primeiro eu escrevi em duas semanas num processo muito intenso, chama A Sex Shop of Drug and Food, um livro de cut-ups, só com apropriação de outros textos que foram escritos em inglês.  Vai sair por uma editora nova, a Quadrado Círculo. Uma narrativa doida. São três personagens principais. A Rama, uma DJ, líder de uma gangue de garotas delinquentes juvenis, hipsters políticas revolucionárias. Tem o Mi que é o autor, um escritor, que é um pouco meu alter ego e tem o Tea, que é o traficante. Então, tem esses três personagens e a polícia. A polícia em todo o lugar e a festa acontecendo o tempo todo. A revolução é a festa nas ruas e a prisão é a festa também. A prisão chama The White House. Aí você vai pra White House e é obrigado a ficar lá dançando dançando, dançando sem parar.

Acompanhei seu novo experimento literário “Ambos os hemisférios da Terra se encontram igualmente iluminados pelo Sol”. Acredito que era um belo exercício contra a solidão, sem deixar nenhum pouco sua característica de observação e escrita autobiográfica. Destaco o conto “Gosto do Afronte”, do episódio em que você se desentende com um mecenas da arte contemporânea local. Gostaria que comentasse um pouco essa passagem aqui. 

Eu estava desde o fim do ano passado em tratativas com um colecionador. Um colecionador de esquerda. Um milionário petista.  Ele tem uma coleção super legal de publicações, de discos de vinil, pôsters, bem a minha área. Então, a ideia era que eu fizesse uma curadoria, a partir dessa coleção dele. Só que, toda vez que eu falava de dinheiro, esse cara achava que isso era uma troca de favores. Que eu estava fazendo um favor e ele me fazendo um favor. E eu insistindo que não, que era um trabalho, que eu precisava ser remunerado. Então, toda vez que eu falava de dinheiro, o cara, que é um tipo de rico excêntrico, tinha um chilique. Até que, um dia, fui até a casa dele, sua mansão nos Jardins, às dez da manhã. Mas, como toda vez que eu falava de dinheiro ele tinha um ataque, dessa vez ele me expulsou da casa dele. Falei: “Eu não acredito que isso tá acontecendo. Eu tô aqui na sua casa, falando de trabalho e você tá me expulsando porque eu tô falando em remuneração?”. Então, assim, pra carreira profissional, foi um desastre, mas pra minha biografia talvez seja uma coisa interessante. O projeto chamava Gosto do Afronte. Foi tão afrontoso que nem aconteceu. Mas foi melhor assim. Eu já estava querendo um monte de artista doido, nesse ambiente dos Jardins, que é super higienizado, careta, coxinha. Óbvio que não ia dar certo. Esse cara fica compartilhando meme da esquerda e explorando trabalhadores simultaneamente. Depois, resolvi escrever sobre o episódio pra esse projeto de textos diários que terminou em setembro. Foi um tipo de vingança.

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23/10/2019

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural. Colabora pontualmente com a NOIZE (s.brunobarros@gmail.com)
Bruno Barros

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