
Lançado em 1983, Metalmadeira, de Marco Bosco, é um clássico da nossa música eletrônica, precursor ao misturar os beats com a percussão brasileira. O disco se tornou uma raridade entre os colecionadores de vinil.
Foi a partir daí que o coletivo Alter Disco decidiu revisitar o trabalho, lançando a própria releitura das faixas em LP, que saiu nesta sexta (28/11), e nas plataformas digitais. Entre as versões, está também o feat com Belchior em “Mata”.
Formado por Bárbara Boeing, Phil Mill e De Sena, o coletivo curitibano tem carreira consolidada na cena eletrônica internacional. Eles são conhecidos por suas festas itinerantes e por uma série de mixes, somando quase 200 gravações. À Noize, Bárbara adianta detalhes do projeto [leia a entrevista abaixo].
Em Metalmadeira II (2025), o grupo quer preservar a memória de um clássico, reconhecendo sua importância como um dos pioneiros na música eletrônica nacional, além de apresentá-lo em uma roupagem atual.
“Cada um escolheu as faixas que gostaria de trabalhar, e o Bosco deu total liberdade”, explica Bárbara. No repertório de Metalmadeira II entraram: “Ferro”, “Mata” — faixa-destaque, com participação de Belchior — “Pau”, “Camila”, “Pedra” e “Vento”.
Em entrevista à Noize, Bárbara abre os bastidores da produção, desafios técnicos enfrentados pelo grupo e o que faz uma música ser atemporal.
Como nasceu a ideia de revisitar Metalmadeira?
Há cinco anos atrás, escutei “African Satellite”, do Marco Bosco, e fiquei levemente obcecada por essa música [risos]. Adicionei o Marco no Facebook só porque amava o trabalho dele. Logo que adicionei, ficamos conversando e ele falou: “Se você quiser fazer algo com as minhas músicas, estão a disposição”.
Escutando Metalmadeira, percebi as nuances de música eletrônica e, quando vi a data em 1983, me toquei que era um dos primeiros a usar bateria eletrônica e vocoder aqui. Para nós, foi muito interessante ter acesso a esse material e poder transformar, de verdade, em música eletrônica e levar para a pista algo que veio do início dos inícios.
O que mais te chamou atenção quando você ouviu o álbum original de 1983 pela primeira vez?
Inicialmente, a percussão. O Marco Bosco é um percussionista que traz a bateria como algo central, é o que faz as pessoas dançarem ou não, é um elemento primordial na música eletrônica. O vocoder e a bateria me chamaram atenção, demonstrou que a estética dele estava mudando, tudo estava mudando, era ele experimentando, em algo que, no futuro, se moldaria como música eletrônica.
Metalmadeira é um disco considerado à frente do seu tempo. Na sua visão, tanto como público quanto especialista, o que o torna atemporal?
Com certeza, o álbum está muito à frente do seu tempo. O que Marco Bosco fez, em 1983, era música boa. Música boa, de verdade, é sempre atemporal. Marco conseguiu visualizar a frente, usar outros instrumentos e mostrar que ele estava ali sempre tentando inovar e trazer coisas novas. Dentro da inovação, ainda conseguir entregar algo muito bonito é algo para poucos.
Quero falar um pouco dos desafios técnicos. Vocês trabalharam a partir das gravações finais, já que as fitas estavam danificadas. Como foi lidar com essas limitações técnicas?
Foram alguns desafios técnicos [risos]. Não tínhamos os canais abertos, apenas a gravação final, em estéreo, em que todos os canais estão juntos. No início do projeto, fomos atrás das fitas, com canais separados, mas teve uma enchente no lugar em que elas estavam armazenadas, infelizmente.
Trabalhar com a gravação finalizada não nos deixa tão livres para criar, mas a música dele não tinha tantos elementos ao mesmo tempo então, de uma certa forma, a gente conseguiu usar tudo aquilo, mas ainda criar por cima. No fim, soou muito bem, se transformou em uma coisa só, mas sim, não foi fácil [risos].

O álbum original tem um ritmo super vivo e orgânico, a parte técnica não era tão avançada na época, ainda não existia metrônomo, por exemplo. Como vocês equilibraram o material antigo com as batidas eletrônicas e a precisão da produção atual? Como foi encontrar o ponto de equilíbrio entre o experimental do Bosco e o dançante de hoje?
Exato, não existia metrônomo na época. Quando conversei com o Marco Bosco, ele disse que o metrônomo era no pulso [risos], e, com certeza, dá um ritmo mais vivo, porém o tempo não fica perfeito. A gente está acostumado a tocar música eletrônica mais simples e, quando pega um material antigo, deixa tudo mais difícil. Algumas a gente precisou colocar no grid, mas não deu certo com todas, era algo muito mais manual, difícil transformar uma música sem grid para completamente ao grid. Tem a parte boa e ruim.
A ruim é que fica mais difícil de mixar, mas a parte boa é a liberdade da música. O Marco Bosco tem o tempo da música na mão e não na máquina, mas foi um processo muito interessante. A criatividade do Metalmadeira vem da parte experimental, em alguns momentos, o Marco Bosco usa até assobios de passarinhos, é algo super conceitual.
Vem do lado dele gostar de estudar, escutar outros instrumentos e criar os seus próprios. Do mesmo jeito que ele faz tudo isso, o disco dele fica mais subjetivo, vai para o lado da imaginação. Nosso trabalho é pegar todas essas referências e transformar na parte dançante, levar para as pistas de dança e fazer as pessoas dançarem hoje em dia, em um formato mais atual, que as pessoas estão mais acostumadas hoje em dia.
Como foi trabalhar diretamente com Marco Bosco?
Fui a interface entre o Bosco e a gravadora, e entre o Bosco e a Alter Disco. O Bosco é uma pessoa magnífica, para ele tá tudo bem, ele está sempre feliz [risos]. Tivemos boas notícias da parte dele, foram muitos bons momentos. São quatro anos mexendo no projeto, agora que ele está tomando sua proporção, então nos conhecemos bastante neste período.
Foi muito interessante não só musicalmente, mas o Bosco também é uma ótima pessoa, esse tipo de relação é sempre importante na nossa vida, conhecer pessoas legais, que gostam das mesmas coisas que a gente e estão ao nosso redor para criar coisas juntos. Foi uma dinâmica extremamente benéfica para todos os lados.
Como foi integrar a voz de Belchior em “Mata”? Foi um desafio trazer uma figura tão icônica para dentro dessa releitura?
Foi muito interessante para nós! A voz dele já fazia parte da faixa original, a gente apenas usou ela de uma forma repetitiva, e na minha opinião, muito linda. Vou te dizer que não foi um desafio, mas uma honra! [risos] O Marco Bosco trabalhou com os maiores nomes da música brasileira e internacional, até com a Nina Simone ele já tocou.
Ter a voz do Belchior dentro da nossa música é, com certeza, uma grande honra. O Bosco me contou que eles falavam de fazer uma música juntos, ele passou 15 minutos no estúdio e fez essa cantoria que parece quase um mantra, é lindo de escutar. Me sinto honrada de poder participar de tudo isso.
Vocês veem esse projeto como uma ponte entre o passado e o futuro da música eletrônica brasileira? Qual a importância de apresentar o Metalmadeira para as novas gerações?
Quando as pessoas escutam música eletrônica poucos se perguntam de onde isso veio. A música eletrônica chegou depois no Brasil muito por causa da falta de acesso aos instrumentos. O Bosco morou 10 anos no Japão e trouxe esses instrumentos de lá, exatamente por isso ele foi uma das primeiras pessoas a terem acesso.
É necessário que as novas gerações saibam onde tudo começou. É importante entender quem são as pessoas responsáveis por isso, não só o Bosco, mas outros ao seu redor que trouxeram essa nova estética para a música e que iniciaram algo que, hoje em dia, domina completamente o mundo. As novas gerações não se perguntam: “De onde veio isso?”.
Mas é importante conseguir mostrar um pouco para eles da história. E, principalmente, o Bosco está aqui com a gente, ele vai fazer novas turnês em breve, essa nova geração ainda pode ver ele tocar, entender a história e se aprofundar no assunto.
A origem
O instrumentista Marco Bosco iniciou a carreira nos anos 70. Solo, tem nove álbuns na discografia, mas, no currículo, soma colaborações com gigantes da música nacional Rita Lee, Caetano Veloso, Raul Seixas, Toquinho e Elza Soares, e até internacionais, como Nina Simone — o músico a acompanhou em sua turnê no Brasil, nos anos 2000.
Criatividade e experimentalismo são a marca registrada de Bosco. Diversas vezes, ele se apresentou com instrumentos de percussão únicos e feitos à mão por ele próprio em metal e madeira. Em Metalmadeira — como o próprio nome do álbum entrega —, essa faceta é apresentada com maestria, além de sons da natureza, como assobios de passarinhos.
Durante uma temporada no Japão — país que ele morou mais de dez anos —, Bosco teve o primeiro contato com baterias eletrônicas, pontapé que levaria a criação de Metalmadeira.







