
Amabbi apresenta Crisálida (2026), álbum em que expande seu universo musical e confirma seu nome entre as novas vozes do rap e R&B nacionais. O disco tem produção de GvsnoBeat, DMAX, Modestto e do coletivo Los Brasileros.
O título remete ao estágio intermediário da metamorfose das borboletas — quando a lagarta entra no casulo antes da transformação final. Para Amabbi, essa metáfora reflete um momento pessoal e artístico. “Eu não sei o que vou ser em 2027, mas o álbum marca uma transformação grande para mim.
"Quero cada vez mais escrever sobre assuntos que rodeiam a feminilidade, coisas com as quais toda mulher pode se identificar”, diz. Aos 20 anos, Amabbi — nome artístico de Beatriz Carvalho — usa o conceito do disco para explicar o encontro entre os dois gêneros que atravessam sua sonoridade.
“O rap cria o casco. O rap é o casco. É a forma mais bruta, crua de se falar. O R&B fica dentro da crisálida, que é o sentimental, o emocional. O rap são as rachaduras”.
No álbum, a força feminina aparece como eixo central, atravessando temas como ambição, ancestralidade, traição, ghosting, luto e desilusões amorosas. Para ela, o disco também é um espaço de conexão com outras mulheres, de Nana Caymmi — com sample de “Medo de Amar (Vire Essa Folha do Livro”) em “Prólogo" — aos feats com outras mulheres do rap nacional.
“Quero dedicar esse álbum especificamente para todas as mulheres do Brasil. Acredito que a gente vai conseguir se conectar muito em algumas situações”, afirma.
Crisálida ainda conta com participações de Clara Lima (“Prólogo”), YOÙN (“Do que é feito o amor?”), Freeda (“Ficção”), Cynthia Luz (“Romance de Fevereiro”), DAY LIMNS (“Primeira Classe”), Elana Dara (“Alô? É Você”) e Clau (“Epílogo”).
A trajetória da artista começou cedo. Amabbi cantava em corais da igreja quando criança e ganhou visibilidade aos 14 anos, após um vídeo seu cantando viralizar nas redes sociais. A partir daí vieram os primeiros palcos, o flerte com o universo do samba e a aproximação com o hip hop. Em 2022, lançou o EP de estreia Amabbi, seguido pelo primeiro álbum cheio, Versos e Voos (2024).
Confira Crisálida faixa a faixa:
“Prólogo”: a descoberta de Nana Caymmi veio quando vi o filme do Tim Maia. Naquela cena do bar, ele pede uma coxinha, e ao fundo, Naná canta “Medo de Amar”. Aquela voz, aquela pérola, virou o começo de tudo. Eu queria, com o álbum, virar essa página, e a primeira faixa é o prólogo dessa jornada. A voz da Naná, no início, é como um livro se abrindo, falando: “vira essa folha do livro e esqueça de mim”. E foi nesse momento que entendi que o ciúme é um mal, e que, ao esquecer, há uma chance de renascer. A entrada da Clara Lima foi uma escolha essencial. Clara, que cresceu na Zona Norte de BH, foi a primeira finalista do Duelo de MCs Nacional, e trouxe, com sua voz e rap melódico, essa mistura potente de R&B e rap não tinha como apostar essa com Gvs.
“Do Que É Feito Amor”: quis olhar para uma das duplas mais fortes do R&B brasileiro e perguntar o que sustenta o amor quando ele é vivido de verdade. A resposta não veio em discurso, veio em convivência. No amor que mora na casa, na vida compartilhada, na mulher que espera um filho, na música como trabalho e como afeto. O amor como construção diária, como presença, como escolha.
“Mili Mili”: vem de miliano, miliduca, milicota — jeito de dizer tempo na quebrada. Muito tempo. Tempo de vida, de luta, de resistência. Essa faixa fala das mulheres que existem há muito tempo sustentando tudo, mesmo quando ninguém olha, sobre a força das mulheres da quebrada, costura referências de mulheres que abriram caminho antes de nós, do samba, o rap, o funk, o R&B, a MPB, e a própria história do Brasil.
“Old School”: um grito de perseverança. Quando comecei a gravar, sabia que não era só sobre mim, mas sobre todas as meninas que sonham ser rappers, que ouvem que não são boas o bastante, que precisam estudar mais. No estúdio, eu vi que o que me sustenta é o presente, é a vivência. Não sou só uma menina com vontade, eu estou vivendo. Comecei desde cedo, com 11 anos, trabalhando, e sinto que meu rap é minha verdade. Eu e Gvs brincamos em Misturar o inglês com R&B, e foi muito foda essa experiência . Esse som tem uma participação especial do meu sobrinho Bernardo no final, cantando: “Eu sou do boi malhado mesmo, o resto vem de brinde.”. Não é só sobre chegar, é sobre ser, é sobre viver cada passo.

“Ficção”: é uma dessas baladas noturnas que nascem no acaso, quando os olhos se encontram e o tempo se dobra. Eu e a Freeda, duas contamos essa história de um novo flerte, junto com Gvs trouxemos a vibe de curtir uma noite de chuva junto com aquele par, um romance que surge na ficção, mas que prende a gente ali, naquela noite, no paraíso. É um passo, uma chance de tentar algo novo . E, no fundo, é sobre escolher. É sobre se surpreender quando alguém dizer “fica”, quando o mundo todo diz “vai”. E no fim tudo isso se conecta ao profundo pra crisálida onde , Mili Mili e Old School era o casco , Ficção trás um sentimento novo.
“Romance de Fevereiro”: quem nunca levou um ghosting? É assim que a gente começa, imersa nessa onda que veio da ficção e do flerte, mas que, no domingo de carnaval, se desfaz. A Cynthia Luz, nascida no interior de São Paulo, sempre misturou R&B e MPB na sua carreira, e é uma honra ter ela comigo, contando essa história, junto nessa parceria temos Ribb e Gvs contado os desamores de fevereiro, porque, entre confetes e clarins, a gente vive o carnaval como um desfile de ilusões. A pessoa some, me dá um ghosting, e volta só na quarta-feira de cinzas. Mas a minha quarta tem mais cor.
“Primeira Classe”: com a Day Limns, a gente embarca numa viagem onde cada momento é leve, cada beijo me leva mais alto. É como se a gente estivesse planejando uma viagem, sem malas, só com o desejo de chegar. A Day Limns, de São Paulo, traz essa vibe poderosa, e é uma honra tê-la aqui. A produção é dos Los Brasileiros, e cada verso é essa busca urbana, é o sonho de voar mais alto. É o dia a dia falando, com a potência de saber que a gente sempre pode tentar de novo, sempre subir, sempre voar, por isso que com ela eu fui pra outro plano.
“Deu Fuga”: é um mergulho na rotina de uma mulher que, por anos, aguardou o cara no ritual do chá das dez. Todo dia, ela preparava o chá, sentava sozinha e esperava, até que o tempo começou a esfriar. Ela notou nos olhares, nos gestos, que o amor se transformava em distância. “Acho que estou resolvendo um mistério”, ela canta, como se cada xícara virada fosse uma pista. E, no momento da verdade, ela explode: “Me devolva o tempo que você roubou”. Ele tenta ligar, mas foi ela quem desligou. E assim, essa libertação é o ponto de virada. A resposta que essa pessoa, do outro lado da linha, tanto busca, ela só vai encontrar na próxima faixa: “Alô? É Você?”.

“Alô? É Você”: tem amores que não acabam — eles ficam fora de área. Essa faixa com Elana Dara nasce exatamente desse lugar: da ligação que nunca completa, da chamada que insiste mesmo sabendo que talvez ninguém atenda. Já passou por isso? Não é só uma pergunta. É quase um pedido. É a tentativa de reconexão quando um dos lados ainda sente, ainda liga, ainda espera um retorno que talvez nunca venha.
“Atemporal”: traz um sample da música “Temporal” do Art Popular, de 1989, que meu pai cantava quando ia ao karaokê. É um cheiro no ouvido, um afeto no ar, um instante que ele transformava em poesia. E agora, depois de tanto tempo, você reencontra essa pessoa na rua, sem querer. Manochio, de São Paulo, 25 anos, com uma vibe R&B, trap, ele entra na faixa como aquele homem que reaparece. Ele me diz: “Qual a chance de eu te reencontrar? Qual a chance de um raio cair no mesmo lugar?” A voz dele se mistura ao passado, ao vício de olhar nos olhos, pele na pele. E, no fim, a pergunta que fica é: será que, ao me reencontrar, ele vai saber me amar de novo? Até parece que o amor não deu, mas o céu, talvez, ainda vá desabar.
“Epílogo”: é um salto no tempo, um pulso no risco. Eu tô na estação da Luz, voltando do trabalho, e a Clau me liga, firme: “Garota, consegui a boa, vamos fazer um assalto, já tá tudo armado.” No vagão apertado, cercada pela correria, meu coração acelera. A Clau me chama, a gente muda o rumo, troca o papo pra ser mais direta e fazer um assalto . É um R&B que rima, que pulsa, que me leva pra cima, junto com ela, no Cadillac, madrinha do meu jogo. E quando o assalto dá bom, a gente conta bem, Lili cantou também. Ninguém toca no meu ouro, até 20100, as mina que tá bem, ninguém toca no meu ouro. É uma honra ter a Clau de Brasília, nessa parceria, junto com a Five e os Los Brasileiros. É um chá de equilíbrio, entre o sim e o não, mas pra mim, é o ouro, o meu poder, o meu modo.
“Borboletinha”: o interlúdio do álbum. Uma pausa estratégica, mas que carrega muito significado. “Borboletinha” nasceu quando eu tinha 16 anos, produzida pelo Modestto. Eu lembro de virar pra ele e falar: “Mano, eu quero ser gangsta.” Era a época em que o drill estava explodindo, e a gente entrou em vários laboratórios, testando beat, testando flow, experimentando sonoridades. No meio dessas tentativas, essa faixa foi a que mais se destacou. Ela tem essa energia crua, jovem, ousada. É uma daquelas músicas que não perde a validade — ela não envelhece, ela fica ali, pronta.
“Goodbye”: fecha o ciclo, mas não é um fim, porque o processo é contínuo. Ele dura enquanto a gente estiver viva. Não falo só de mim, falo pra todas as mulheres que estão conquistando seu espaço. Para aquelas que não aceitam menos, que não se curvam a trabalhos subvalorizados. É um brado para todas que se impõem na selva de pedra. Quem sobra, vira prefeito, e se a gente não se coloca na mesa, logo vira prato. Essa faixa, produzida pelo GVS, é pra todas as mulheres que acreditam na esperança, que estão se posicionando na sociedade machista. É pra cada mulher do rap que vem conquistando seu lugar, com voz, com força, com o ouro que só ela toca.



