Em novo EP “Penumbra”, Marcelulose expressa o tempo em que vivemos

25/08/2021

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Gabriel Bernardo

Por: Gabriel Bernardo

Fotos: Divulgação

25/08/2021

Não é novidade que a música tem a capacidade de traduzir sentimentos e ser via de expressão de afetações coletivas, para além do corpo do próprio artista. Muitos movimentos políticos reverberam trilhas sonoras específicas que lhes servem, ao mesmo tempo, como inspiração e forma de manifestação. Mais do que é dito nas letras, a música compõe um mosaico estético, uma estilística que se apresenta nos modos que ela será tocada, vestida, comentada e, sobretudo, dançada. É esse aspecto que eu gostaria de destacar da relação da música com a política, a partir de uma perspectiva micropolítica, da política no nível dos afetos. 

Quando os rolês de rua, festas organizadas no espaço público por coletivos autônomos, começaram a se espalhar pelo Brasil no início dos anos 2010 – muitos deles inspirados pela Voodoohop, coletivo paulistano – havia uma estilística própria que se apropriava de elementos eletrônicos dispersos e misturava isso a referências orgânicas, seja MPB, música latina ou africana, numa direção próxima da recusa às tradições mais quadradas, um hedonismo também expresso em parte nas manifestações políticas de junho de 2013. Nos anos que seguiram, o rolê de rua cresceu, passou a ocupar grandes fábricas desativadas em várias cidades, e a música foi se tornando cada vez mais sintética, sem letra, tendo o techno como linguagem predominante por alguns anos. Um som industrial, repetitivo, com ausência da palavra, talvez e, provavelmente, reflexo da ressaca pós-Jornadas de Junho: perseguição de grupos políticos autônomos, crescimento do conservadorismo, golpe parlamentar, e por aí vai. Sem muito o que falar, dançávamos furiosos; o corpo protestava.

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Marcelulose fez nome nas festas de rua da região metropolitana de Porto Alegre (Foto: Divulgação)

Entrei nesse devaneio a partir do convite da dsrptv rec para escrever sobre o recém lançado EP do instigante produtor gaúcho Marcelo Silva, o Marcelulose. A DSRPTV (pronuncia-se Disruptive) é uma jovem label de música eletrônica brasileira que tem lançado trabalhos de artistas nacionais e internacionais, como os brasileiros L_cio e Atzok, ou o japonês Oowets, e que caracteriza-se por uma sonoridade granular e texturizada, sem prender-se necessariamente ao gênero musical. Em um trampo muito sólido, já publicou 6 EPs desde março, lançando de faixas mais ambient até faixas mais 4/4. O sexto lançamento da DSRPTV, assinado por Marcelulose, mergulha fundo em um oceano denso, permeado pelo dub techno, o que me fez refletir sobre a capacidade da música em dar voz, ou melhor, corpo, a sentimentos e afetos coletivos que são próprios de cada tempo. Se a hegemonia do techno vinha diminuindo nos últimos anos, antes da pandemia, no rolê eletrônico alternativo, como será que vamos dançar as pistas pós-pandêmicas? A interrogação permanece, mas, tratando-se do momento atual, com o isolamento e a banalização da morte ainda engasgados, a música de Marcelulose explícita a luta para romper a letargia.

O EP Penumbra (ouça abaixo) é encharcado de referências de noise, drone music e industrial, refletindo o momento tenso compartilhado por todos nós, sem abrir mão do balanço das baterias quebradas do electro ou broken beat, marca urbana das produções de Marcelo. O prodígio produtor gaúcho, morador da região metropolitana de Porto Alegre, condensa no trabalho sua experiência técnica como masterizador profissional – função que desempenha na Goma Rec., importante label brasileira do cenário alternativo –, apresentando um conjunto de sonoridades extremamente cristalinas, mesmo sem serem necessariamente polidas. Outra marca de Marcelo, que aparece em Penumbra, é a emulação de instrumentos virtuais através de sequenciadores, uma afirmação do seu espírito hacker como produtor.

O universo de referências de Marcelulose é eclético, talvez até um pouco caótico, mas extremamente rico e instigante. Tendo passado por bandas de rock e projetos de música experimental – inclusive com influências orientais –, o menino de São Leopoldo, RS, atualmente morador de Canoas, também no estado, menciona de Pink Floyd a Jean Michel Jarre como artistas que fazem sua cabeça durante as viagens entre as estações do Trensurb. A circulação entre as cidades da região metropolitana e a presença frequente nos fronts das festas de rua desaguam em uma pegada extremamente urbana na sua música, que não esconde nem a alegria nem a sujeira das cidades brasileiras.

A primeira faixa do EP, que dá nome ao disco, é carregada de ambiências que remetem a drone music, o que auxilia na criação da atmosfera tensa que percorre todo o trabalho. Inclusive, “tensidade” foi a expressão que o próprio Marcelo usou para descrever o EP, juntando – em um ato falho – as palavras denso e tenso, um neologismo que é reflexo dos tempos em que vivemos. O groove produzido pelo kick lembra uma marcha silenciosa e introspectiva, com espaço apenas para o movimento de pés e a marcação do tambor. Um shaker reforça o clima marcial, marcando o compasso da caminhada. A sensação de introspecção aumenta quando os elementos agudos secam, ficando o ouvinte mergulhado em seus próprios pensamentos. O clap é utilizado de maneira inteligente, remetendo à malandragem do território urbano de Marcelo.

De Pink Floyd a Jarre tocando nos fones de ouvido, Marcelulose passeia por e absorve os ritmos dos trilhos de trem (Foto: Py Salles/Divulgação)

A segunda faixa, “Pois Zé”, segue o clima soturno inaugurado em “Penumbra”, mas parece colocar a marcha – que até então mantinha certa apatia – em posição de ofensiva. O movimento é produzido através da combinação de kick + caixa, que atravessa o corpo inteiro, criando sensação de liberdade. Discretamente, uma entrevista de Carlos Marighella para a rádio Havana, de Cuba, é apresentada ao fundo de forma quase descaracterizada, confirmando um sentimento de anonimato que é buscado por quem procura manter-se na penumbra. A fala mobiliza a importância da aliança entre os lutadores do campo e da cidade, algo que não poderia ser mais atual.

A terceira faixa – e última original –, “Intuição”, é o momento de mergulho mais intenso na introspecção, algo que já é de praxe na gravadora. O uso do instrumento de cordas turco Saz, popular nos países da região onde antes ficava a Pérsia, nos transporta para territórios mais distantes, através de um sotaque melódico. A emulação virtual do instrumento MIDI foi realizada de improviso, utilizando referências orientais em termos de escala, técnicas de bend e microtonalismo. É curioso como os efeitos sonoros usados lembram os sinais de alerta comuns no interior dos trens metropolitanos.

O produtor gaúcho comandando o set em evento antes da pandemia (Foto: Divulgação)

O remix da faixa “Penumbra”, executado por Nogayra – outre menine prodígie da região metropolitana de Porto Alegre, da cidade de Guaíba, incorpora o clima soturno, mas adiciona um groove tribal que produz hipnose automática, expressa na parte inferior do corpo. O bassline extremamente poderoso torna a faixa perfeita para a pista. Já o remix de “Intuição” pelo crew da gravadora, ao contrário do que costumam fazer, surpreende ao assumir completamente a faceta dub/ambient do EP. A faixa se torna totalmente lisérgica, com os instrumentos molhados em reverbs, ecos e delays. O derretimento é pintado de tons otimistas através dos pads, fugindo um pouco da paleta do restante do trabalho, limitada em tons de cinza.

O trabalho musical, como um todo, traduz a seriedade do momento vivido, e é complementado pela arte cirúrgica de Rollinos. A imagem em P&B apresenta uma massa de anônimos, retirada de um frame do filme ABC (1990), de Leon Hirszman, que retrata as greves do final dos anos 1970 e, através das texturas, passa a sensação de uma certa desorientação, mas que busca superar a letargia. Através de referências novas e atuais, a arte nos ajuda a construir nossos próprios caminhos para enfrentar os desafios do nosso tempo.

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25/08/2021

Gabriel Bernardo

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