“Stay heavy”: uma entrevista com Takeshi, do Boris

08/10/2020

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Nilo Vieira

Por: Nilo Vieira

Fotos: Divulgação

08/10/2020

Com uma carreira de quase trinta anos, a música do Boris permanece em constante mutação. NO, seu vigésimo-sexto álbum de estúdio, foi lançado em julho e mostra que nem mesmo o coronavírus consegue romper o ethos insaciável do trio Wata (guitarra, vocais), Takeshi (baixo, guitarra, vocais) e Atsuo (bateria, vocais).

Conversamos com Takeshi que, de fala espirituosa, explicou as motivações da banda, o valor da música em formato físico, raízes, inspirações cinematográficas e muito mais. 

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Em primeiro lugar, como estão por aí?
Estamos bem, assim como nossas famílias e amigos, obrigado!

NO está disponível oficialmente apenas no Bandcamp por enquanto, uma plataforma elogiada por artistas durante a pandemia. Por quê?Antes do coronavírus, não focávamos em distribuição digital e sim em lançamentos físicos, vinil e CDs. Nós acreditamos que a música inclui a parte onde a entregamos mão a mão e a história que emerge dali, e estamos percebendo essa importância novamente. No entanto, a pandemia interrompeu o fluxo entre pessoas e a distribuição parou. 

Quando pensamos o que poderíamos fazer como músicos nessa situação, percebemos que era entregar obras aos ouvintes, de imediato. O disco foi completamente autoproduzido, trabalhamos em todas as atividades envolvidas com base no nosso julgamento e velocidade, mas com o processo de distribuição parado não poderíamos esperar até os discos serem prensados.

Então escolhemos o Bandcamp, que mostrou atitude solidária aos artistas e bandas. Podíamos sentir seu forte espírito querendo ajudar e proteger a cultura da música. Foi o primeiro lançamento estritamente digital do Boris, mas quando saiu, recebemos várias reações positivas – e diretamente dos ouvintes. Uma experiência importante, e afirmamos que o Bandcamp e seus usuários hoje são a atualização do “apoie o underground”. É uma ótima plataforma.

Os outros serviços de streaming parecem mais como sistemas eficientes que entregam “produtos” para as massas. Mas o que fazemos não é um “produto” mas um “trabalho (de arte)”, então talvez não se encaixe. Se conseguirmos entregar o trabalho para as pessoas que amam música, essas irão nos ajudar a divulgá-la.

Muitos disseram que NO é o Boris no seu auge punk, inclusive.
Atsuo e eu fomos influenciados por punk e hardcore quando jovens, é um elemento importante na pessoa que sou. Também temos a mentalidade de gerir a banda com essa atitude. Então essas nossas raízes transparecem no álbum como uma das expressões musicais do Boris, creio que seja por aí.

Muito do “marketing” para o disco novo foi baseado nas palavras de bandas amigas, como o Colin do Amenra e o Uniform, ao invés de resenhas formais. Por quê?
Conhecemos muitas bandas e pessoas maravilhosas que viraram bons amigos. Nós pensamos que seria ótimo se esse povo próximo a nós ouvisse este álbum e falasse sobre, com suas próprias palavras. E suas mensagens foram lindas, palavras repletas de entusiasmo – e os ouvintes também podem sentir essa energia. Em meio a crises, cada artista se questiona fortemente sobre si mesmo e o significado de sua existência. Senti que compartilhar o sentido do álbum através das palavras destes outros artistas transmitiu melhor isso. Somos muito gratos a todos.

Você comparou o processo criativo do Boris a sonorizar filmes imaginários e pintar com som. “Zerkalo” e “Loveless”, músicas do novo trabalho, são também nomes de filmes cultuados – o primeiro inclusive ganhou um vídeo com cenários à la Tarkovsky. Foram referências de fato? Quais são os diretores favoritos da banda?
Sempre fazemos música pensando na perspectiva visual. O Atsuo, especialmente, foi muito influenciado pelo Andrei Tarkovsky e seu jeito de criar um estado de filme como um espelho que reflete seus espectadores, onde a experiência e imersão do público completam o trabalho. Além dele, conversamos muito sobre Béla Tarr, Jim Jarmusch, Theo Angelopoulos, Aleksei German, Michael Haneke…

Isso sempre está na raíz da metodologia do Boris, e este álbum tem essa forte nuance de “refletor do mundo”. Tristeza, raiva, ódio, fraqueza, compreensão… espelhar as emoções negativas das pessoas ao redor do mundo e guiá-las em outra direção, sublimá-las como energia positiva. Várias expressões extremas do álbum vão retratar emoções que ainda não foram traduzidas em palavras por muita gente. E vocês poderão encontrar a si mesmos e entender melhor objetivamente. Esse é o poder da “música extrema”.

Ainda nesse tema, o Ingmar Bergman uma vez sugeriu que “não existe um filme típico do (Akira) Kurosawa”. Isso pode se aplicar ao Boris também, pois como você mesmo já disse, a banda “passeia pela diversidade do (som) pesado”. A esta altura, ainda sente que existem novos territórios a explorar?
Enquanto estivermos na ativa, a busca por nova música não cessará, e o “peso” continuará sua inovação. Essa coisa chamada música que flui pelo planeta atualmente é apenas uma porção de um fenômeno extremamente trivial do caos do mundo. 99.9999% do dito fenômeno é cheio de coisas que não são ouvidas como música.

Foto: Reprodução

A banda segue muito produtiva e isso já dura quase três décadas. Como vocês mantêm as inspirações renovadas?
Às vezes inspiração é algo que percebo quando conheço pessoas, outras vezes algo que pego de livros, filmes, trabalhos de arte e expressões. Atualizo constantemente meus próprios valores e estéticas. Até agora, sair em turnê nos deu a oportunidade de ver e experienciar novos mundos e adicionalmente recebemos força de muitos públicos, que seria a inspiração para nosso próximo álbum. Ficou mais difícil com o coronavírus, mas vimos como uma oportunidade positiva de criar outros meios de expressão e métodos. Sinto fortemente que durante a produção do NO isso se tornou uma terapia, que estabiliza nossas almas.

E essa produtividade segue numa era onde música gravada não é suficiente para a maioria dos artistas terem uma situação financeira estável…
Por sorte, temos uma longa carreira com apoiadores ao redor do mundo. Precisamos valorizar essas relações com pessoas e pensar em jeitos para comunicar que difiram de performances ao vivo e turnês. Similar a quando o Renascimento emergiu após as pragas da Idade Média, novas culturas se desenvolvem na adversidade. Como não podemos fazer shows, nós pudemos focar em gravar – há aspectos positivos como este.

Também impressiona que a banda possui a mesma formação desde o álbum de estreia. Qual o segredo dessa longevidade?
Nós três íamos para a mesma escola de arte e cada um estava numa banda diferente. Não lembro como começou, mas foi lá que formamos o que se tornaria o Boris. Quando fazemos música, raramente usamos as chamadas linguagens ou teorias: ao invés disso, nos comunicamos através de abordagens cinematográficas e pictóricas. Creio que isso vem da nossa formação naquela escola. 

Não fazemos música só por fazer, nós a criamos como um trabalho visual, um filme ou pintura. Pois há sons que apenas nós três conseguimos criar e respeitamos os métodos do outro, sempre sai algo novo. E também testamos novos equipamentos no estúdio, onde ocorrem acidentes acústicos e coisas que não ouvimos antes – esse tipo de fenômeno é divertido e nós mantém continuando.

Vocês postaram um vídeo de uma sessão de gravação recentemente. Podemos esperar outro disco do Boris no ano da pandemia?
Claro! Estamos imersos em sessões e gravações, questionando o significado de existir enquanto produzimos, é a única coisa que podemos fazer agora. As ideais ainda são infinitas.

Praticamente o catálogo inteiro do Boris possui ao menos uma edição física, e não são muitas pessoas que pagam por eles hoje, apesar das vendas de vinil e cd terem crescido recentemente. Qual a importância do formato físico para a banda?
Não senti o declínio nos formatos físicos. Claro, a escala dos mercados digitais cresce ano a ano, mas o vinil ainda é visto como um meio importante de apreciar e interagir com música e possui um mercado sólido. Para a geração mais nova, a música digital é mais fácil de acessar e escolher canções que gostem. Mas, independente disso, fãs que respeitam música como cultura preferem ouvir canções em formatos como vinil ou cassete, preferem ouvir as músicas na ordem e narrativa.

É o mesmo para nós como criadores. A sequência, duração das faixas, como dividir o lado A do lado B são coisas muito significativas. Ouvir acompanhando as letras no encarte, olhando a capa, a arte e a música se relacionam em uma história complicada. Curtir o peso do vinil, o cheiro do papel e tinta, usar todos os sentidos, ter uma relação com a música… é uma experiência rica. Música não é sobre só escutar sons, mas sobre a experiência de prestar atenção e mergulhar. Cada ouvinte tem sua própria história. 

O Flood completa vinte anos em 2020 e segue um favorito dos fãs. Mas nunca foi relançado, e mesmo a versão ao vivo é rara. Algum plano quanto a isso?
Já ouvimos isso de muita gente, mas há vários componentes que precisam ser acertados contratualmente, então é difícil fazer como queremos. Está saindo devagar mas estamos trabalhando nisso, pedimos que esperem…

Você afirmou que barulho (música noise) pode ser o “blues japonês”. Há um contraste peculiar nisso, um conflito entre tradição e ruptura (ou extremo), talvez um dentro do outro – uma percepção até estereotipada de povos ocidentais sobre o Japão. O que diz sobre?Proteger tradição é também proteger culturas. É importante para nós carregarmos isso para o futuro. Ao mesmo tempo, é uma missão para criadores como nós produzir novas interpretações, contextos e estéticas que vão contra essas tradições.

A diligência e honestidade da etnia japonesa pode levá-la ao extremo oposto, e tal dinâmica também pode ser definida como característica de nossa cultura. O barulho também simboliza destruição. Tradição e destruição refletem um ao outro, e esse barulho inerente no processo… isso é o “blues japonês”.

(Foto: Reprodução)

Nesse caso, você diria que a música do Boris é moldada pela tecnologia?
Algumas habilidades técnicas são necessárias para se expressar. Mas nossa música não é algo onde colocamos notas numa grade, não fazemos composições em nossas mesas. É importante que existam sons que não possam ser escritos como nota. Quando duas guitarras produzem microfonia e sustain, isso cria ondas, sons e lacunas, onde o tempo não pode ser contado na métrica rítmica. Nesse sentido, o acúmulo de tecnologia específica ao Boris é enorme… é tecnologia dentro de nossos corpos e que não pode ser colocada em palavras.

A banda conquistou fãs no mundo todo mesmo sem falar outra língua. Como descreveria essa jornada?
Acho que como não temos letras em inglês, pôde ser aceito puramente como “música”. E não achamos que isso seja inconveniente. Enquanto tocamos em outros países, já vimos o público cantar junto na grade várias vezes, o que nos fortalece demais. Fomos além da linguagem, e conseguimos dialogar com nossos ouvintes usando partes intuitivas do som. 

Mas vocês nunca vieram ao Brasil…
Já recebemos várias ofertas, mas a agenda não funcionou. Quando acabar a pandemia, adoraríamos ir. Já ouvimos de bandas amigas que o Brasil é empolgante. Gosto de bossa nova e ouço com frequência música extrema brasileira como o Sepultura, Ratos de Porão, Cólera e Discarga. Também adoro a palavra saudade, representa uma emoção que não pode ser explicada facilmente, acho que é similar a várias expressões complicadas em japonês. 

Algo mais que você gostaria de adicionar?
Stay safe, stay heavy.

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08/10/2020

Jornalista, quando não está pregando sobre Billie Ellish, edita o blog Bass Doom.
Nilo Vieira

Nilo Vieira