Entrevista | Em novo disco, Di Melo é atemporal

27/05/2019

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Douglas Hanauer

27/05/2019

Aberto para audição no site da rádio francesa FIP desde a última sexta feira, Atemporal ganha seu lançamento mundial nesta segunda-feira, 27, via Favorite Recordings. Colaboração do músico e compositor pernambucano com a banda francesa Cotonete, o disco está disponível aqui nas versões digital, CD e em vinil duplo. Ouça abaixo:

Em circulação no Brasil em 2017, a banda francesa veio com a ideia de realizar uma colaboração com um artista brasileiro. Com alguns dias de folga em São Paulo,  por intermédio da engenheira de som Rafaela Prestes, eles receberam o contato de Jô Abade, esposa e responsável pela carreira do músico.

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“Eles ligaram e aí eu entendia muito pouco em francês, mas enfim foi. Marcamos de nos encontrar na Vila Madalena e Di Melo já chegou do jeito de sempre, com a viola tocando e Gabi [Di Abade, filha de Jô com o músico] cantando. Foi muito lindo o encontro. Eles eram oito homens, tudo chorando. Foi incrível.”, lembra Jô. Juntos há 19 anos, ela e Di Melo mantém a sintonia e cumplicidade que sustenta o trabalho do artista. Enquanto ele toca e compõe, é ela quem resolve tudo.

A banda explicou ao casal que teriam alguns dias livres e os convidaram para fazer um disco. A ideia era alugar um estúdio, trabalhar dia e noite nas composições e gravar. Di Melo aceitou. De volta à França, a banda trabalhou na produção do material captado no Brasil. Para lançar o primeiro single do trabalho, foi realizada uma circulação do artista na Europa. “Nós fomos em junho passado para lançar A.E.I.O.U. (2018). Viajamos pela França, fomos pra Nice, Toulouse, Lyon, Marseille. Foram mais três shows em Paris e um em Londres. Ficamos um mês,  Di Melo, Gabi e eu em Paris, em frente a Torre Eiffel ”, lembra Jô.

Atemporal reúne sete músicas que ainda não estavam registradas oficialmente e que Di Melo mantinha em seu grande acervo de canções: “São em torno de 400 composições, algumas em parceria”, explica o cantor. Além do clássico “Kilariô”, que ganhou nova versão, e da estreia de Gabi Di Abade nos vocais de “Canto da Yara”, o disco traz a faixa “Linhas de Alinhar”, parceria de Di Melo com Geraldo Vandré.

Assista ao clipe de “Papos Desconexos Part. 1”:

Di Melo apresenta o repertório de Atemporal na cia de sua banda brasileira, no próximo dia 14 na sexta edição do Baile do Di Melo, no Mundo Pensante, em SP. A Noize conversou com o músico e sua companheira sobre o lançamento mais recente. Abaixo você confere parte dessa conversa cruzada.

Como foi o convite para registrar o disco?

Di Melo – Eu fui chegando e fui tocando pra eles, houve aquela comoção. Foi foda. A partir daquele momento em que eu fui lá com o violão, timbrei e meti bronca, eles passaram a numerar o disco. Já foram anotando tudo, gravando tudo. A partir dali, a gente já foi pro estúdio, em um processo de uma semana.

E sobre o fluxo de trabalho para registrar tudo em tempo?

Di Melo – Paramos tudo e ficamos em estúdio por uma semana. Sem compromissos, sem aula para Gabi.

Jô Abade – Ainda fizeram um pocket show no estúdio durante os ensaios e gravaram. Eles pagaram o estúdio, levaram as bases/masters e o disco está aqui, pronto.

Sobre a participação de Gabi, o que o senhor enxerga pela frente?

Di Melo – Gabi vem nos acompanhando há pelo menos quatro anos, participando aqui e ali, então vi nesse trabalho a oportunidade de fazer sua estreia oficial. Tá lindo pra caramba. No disco, ela canta sozinha a música “Canto da Yara” além de participar do coro em “Mulher Instrumento part 1 e 2”  e “A.E.I.O.U.”. Na turnê, ela cantou mais. Ela tá danada demais. Cheia de aplicação, de armação, tem doze anos, e parece querer viver vida de dezoito, vinte.

Então dando sequência ao trabalho, eles levaram vocês até a França para o lançamento do single?

Jô Abade – Sim, viajamos pela França, fomos pra Nice, Toulouse, Lyon, Marseille. Num total de sete shows e uma participação, três foram em Paris e um em Londres. Ficamos um mês, Di Melo, Gabi e eu em Paris, hospedados de frente à Torre Eiffel.

Di Melo – No início ficamos dez dias em Gambetta lá onde tem o cemitério dos mais famosos. Eu não quis ficar por lá, então fomos pra 500mts da Torre Eiffel, bixo, é luxo só. Olha, é uma poderosidade. Não existe nada melhor do que a experiência de viajar, conhecer, se conectar. Eu tô nessa base. Eu gosto disso. Eu me afeiçoo muito a isso. Aliás, eu me entrego numa bandeja de prata com cobertura de marshmallow para tal, esse é o senhor Di Melo.

Como foi a recepção do seu trabalho por lá?

Di Melo – Diria que temos que começar a pensabilizar uma sequência de shows naquela terra. É um povo muito bonito, ultrapassando a barreira da beleza, em todos os aspectos, em todos os estritos sensos da palavra. Eu adoro. Eu ficaria por lá de boa, tranquilo, calmamente. Então quer dizer, curtimos, comemos bem, tiramos onda, viajamos pra caramba e ainda voltamos com 3.000 euros.

Nós fizemos um show em um vilarejo próximo a Toulouse, lindo. Era muita chuva. Tem gente do mundo todo ali. Tem uma ONG, que eles fazem coisa pras pessoas do mundo, porque todo mundo quer ir pra lá. Na época do festival, nossa, só vai medalhão, e eu no meio. Eu gostando de tudo, querendo mais. Ganhei um berloque, um colar em prata batida. Um trabalho maravilhoso de uma alemã. Eu dormi na casa dela. Quando eu digo eu, digo nós. Aí o que acontece. Ela [Jô] deu um colar dela pra mulher e eu tinha gostado daquele. Aí nós estávamos saindo ela me chamou e me deu o colar. Foi só emoção. Do início ao fim. Se você não é bom do coração, você empacota. Foi muita coisa legal. Sabe quando tudo conjumina?  Quando tudo conspira a favor. Pô, foi foda, muito legal.

Falando sobre uma questão pontual desse tempo. Cada vez mais as pessoas observam e denunciam quanto aos comportamentos machistas e até aos vícios de linguagem que podem gerar uma opressão de gênero. Como vocês lidam com isso sendo o Di Melo expansivo e aberto a trocas?

Jô Abade – É realmente preocupante porque o Di Melo, você já conhece a peça, ele vai soltando tudo. Então eu tenho muito cuidado com isso, sobretudo nas redes. Eu criei um jeito de levar o som do Di Melo pra quem quer ouvir. Eu corto coisas que eu acho que não deve. A assessoria sou eu mesma que faço.

Di Melo – Tem isso, não. Eu tenho o time. Dali eu não passo – dali eu não passo. Mas você sabe de uma coisa? A mulherada já acostumou comigo.

Jô Abade – E tem muitas que conhecem e querem polemizar. O Di Melo já fez show que deu polêmica, e ele sabe disso. Falaram que ele é machista.

Di Melo – Eu falei que eu não sou machista. Eu sou mulherista.

Jô Abade – Foi dessa vez que eu reorganizei. A lei agora é essa: se você vai dar selinho nas meninas, vai ter que dar nos meninos também.

Di Melo – Tem muita conversa de gente mal amada.

Jô Abade – Meu filho o mundo tá cheio, mas você tem que andar na linha.

Di Melo – Rola muita inveja. Incomoda qualquer pessoa que, de alguma maneira, consegue se destacar e não tá dentro dos parâmetros, ou codigo de beleza. E eu sou uma figura totalmente estrito senso diferente. O som, o show, tudo é diferente. A voz, a semântica, o palavreado, a criação de palavras,  é tudo uma história única. E incomoda. Como é que um disco fica parado quarenta anos e vem a tona com tudo, aclamado pelos djs, em tudo quanto é pista. Entendeu? Os caras ficam invocados.

Ao mesmo tempo, notei um atmosfera linda e intensa no seu último show no Mundo Pensante, semana passada. Com muitos fãs apaixonados.

Di Melo – É um privilégio muito grande. Eu tenho um público belíssimo. São jovens de todas as idades. Inteiramente focados em tudo. Cada show é uma descoberta, uma liberdade. Uma coisa que emociona e contagia. Tem momentos que eu choro, abro o berreiro e não guento. Porque eu sou muito emotivo. Eu sou puro e inteiro emoção e coração. Eu não consigo ser de outra forma. Tudo que mexe com sensibilidade me contagia. Pessoas sensíveis sempre emocionam e fascinam. Gostar não se explica, simplesmente se aplica.

Jô Abade – Eu sou muito grata. Sou fã dos fãs do Di Melo. Pense num povo de nível, que pega junto. Recentemente conhecemos o André Augusto, um menino de treze anos, fã de Di Melo desde os oito anos de idade. Ele que atualiza o wikipedia. Fez um vídeo de homenagem a Di Melo, nos emocionamos muito.

Como é pra você, confiar a construção de um trabalho e passado um tempo, enfim, tê-lo em mãos, pronto?

Di Melo – Esse disco com a Cotonete, dentre todas as coisas possíveis, impossíveis, que possa haver acontecido em termos da vida, tá imorrerável. Tá foda. Um som da porra. Todas as forças, todas a luzes, todos os poderes sintetizados. Todos os deuses, por unanimidade, elegeram esse trabalho. Foi pra mim uma coisa única. Porque é um trabalho que difere de tudo. Se você pegar no mundo inteiro é algo que não existe sonoridade igual. Pode ser que se copie adiante, pra trás não.  É um puta disco, que eu continuo assinando embaixo. Parece que as músicas foram feitas exatamente pra cumprir e compor esse trabalho. Eu tô em estado de graça no melhor momento cantando, tocando, dançando. É coisa de deus, do divino, do majestoso.

Sobre seus próximos trabalhos?

Di Melo – Bem, eu sigo aqui com minha banda, capitaneada pelo Pedro Diniz, baixista e meu produtor. Nós temos um projeto aprovado, em edital da Secretaria de Cultura de SP, pra fazer um disco. Que nós paramos por conta desse projeto junto a Cotonete e estamos dando prosseguimento, em meio a captação de recursos, mas o disco já está pronto em seu projeto, e se tudo certo, será lançado em 2020.

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27/05/2019

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural. Colabora pontualmente com a NOIZE (s.brunobarros@gmail.com)
Bruno Barros

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