Fotógrafa da melhor fase d’Os Mutantes fala sobre livro da banda

13/01/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Leila Lisboa Sznelwar

13/01/2015

Fotos: Leila Lisboa Sznelwar

Mergulhados em uma densa nuvem de fumaça lisérgica, entre 1969 e 1973, Os Mutantes criaram algumas das obras mais relevantes da música brasileira até hoje. Foi durante esse período marcado pelo violência da Ditadura Militar que a banda lançou os antológicos álbuns Mutantes (1969), A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970), Jardim Elétrico (1971) e Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972). Como se não fosse suficiente, o grupo gravou também o disco Tecnicolor em 1970 (lançado só em 2000), O A e o Z em 1973 (lançado em 1992) e Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida (1972), o primeiro disco solo de Rita Lee, que na verdade foi todo composto, gravado e produzido junto com Os Mutantes.

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Livro A Hora e A Vez - Os Mutantes

A fotógrafa Leila Lisboa Sznelwar foi namorada do renomado músico e produtor Liminha, que foi baixista d’Os Mutantes de 1969 a 1973, e teve a oportunidade de ser testemunha ocular dessa que foi a fase mais importante da banda. Durante esses anos em que conviveu com a banda, Leila fotografou shows, ensaios e momentos íntimos do grupo. A maior parte desse material histórico segue inédito e, para disponibiliza-lo ao mundo, Leila Sznelwar está lançando uma campanha de crowdfunding. O objetivo é editar um livro chamado A Hora e A Vez, que conterá 130 fotografias inéditas da banda. Para participar desse projeto tão importante para a documentação da história da música do Brasil, basta vir neste link.

Conversamos por email com a fotógrafa sobre a vivência que ela teve ao lado d’Os Mutantes. Em linhas breves, Leila teve o cuidado de não entrar em detalhes sobre o divórcio de Arnaldo Baptista e Rita Lee e negou algumas das lendas que existem sobre o período em que a banda morou em um sítio na Serra da Cantereira, em São Paulo. Veja abaixo:

Os Mutantes no show de lançamento do LP "Mutantes e seus Cometas no País do Baurets", em 1972

Os Mutantes no show de lançamento do LP “Mutantes e seus Cometas no País do Baurets”, em 1972 (Foto: Leila Lisboa Sznelwar)

Em que ocasião você conheceu o Liminha? Ele já havia entrado para Os Mutantes quando vocês começaram a namorar?

Entre 1969 e 1970 eu conheci o Liminha em um show dos Mutantes, eu tinha um Ford 51 e ele um Buggy. Para os shows, a gente carregava o Fordão, para o resto a gente ia com o Buggy. Foi muito legal.

Como você avalia a interação que existia entre os membros da banda?

Era tudo muito engraçado… Esse era o principal fator. A gente só ria de chorar o tempo todo. Eu sempre me dei bem com todos eles e o clima da minha época foi muito alto astral. Muita energia de criação, uma ligação mágica musical.

Rita Lee, em 1972

Rita Lee, em 1972 (Foto: Leila Lisboa Sznelwar)

O Sérgio e o Arnaldo são irmãos, a Rita e o Arnaldo eram um casal… Como essas relações apareciam na convivência entre a banda?

As relações não musicais de todos os casais eram ótimas, não só do Arnaldo e Rita. Serginho e Sabine, Dinho e Lilian, Liminha e eu… Tudo dentro da “normalidade” e, repetindo, super divertido. Essa é a minha visão, são as minhas memórias.

Você acompanhou o fim do relacionamento entre o Arnaldo e a Rita. Como esse processo interferiu na banda?

Esse é um assunto tão polêmico que eu já não sei o que realmente aconteceu… Cada um, por incrível que pareça, tem uma versão particular e cada um a tem como verdade. Só me lembro da tristeza de todos.

Rita Lee ao lado do baterista d'Os Mutantes, Dinho Leme, no início dos anos 1970

Rita Lee ao lado do baterista d’Os Mutantes, Dinho Leme, no início dos anos 1970 (Foto: Leila Lisboa Sznelwar)

Quanto tempo e quando vocês moraram na Serra da Cantareira? A banda ficava isolada ou havia um fluxo de pessoas por lá? É verdade a lenda de que o local era uma comunidade hippie “onde drogas e trocas de parceiros sexuais eram frequentes”, como está dito na Wikipédia?

Não posso te dizer exatamente o ano, ou quantos anos… Foi o bastante!!! Era uma casa com vida, sempre tinha muita gente indo e vindo, sim. É uma lenda da Wikipédia esse negócio de troca de casais, o povo fala demais. Pelo menos conosco nunca aconteceu, isso eu posso garantir e me lembro muito bem, nem era uma “comunidade”, por assim dizer. As pessoas iam mais visitar. Morar mesmo, foi muito pouca gente. E mesmo assim cada um tinha a casa dos pais. Aliás, quem morava junto desde o começo, antes de qualquer um, éramos o Liminha e eu. A gente ia para a Cantareira e passava dias por lá, quando os ensaios eram lá, ficávamos direto. Aliás, ainda moro na Serra da Cantareira.

Na época em que você tirou as fotos que estarão no livro, você tinha consciência do registro histórico que estava fazendo? Eles gostavam de serem fotografados?

Eu trabalhava como assistente de fotógrafa desde os 15 anos e tinha um bom equipamento. Normalmente eu era a única tirando fotos nos shows, é por isso que elas são tão importantes e únicas… Agora, me diga como é possível estar drogada e tirar fotos incríveis, muitas com nitidez impecável, sem flash, com luz de show?? Não é. A diversão ficava pra outra hora. Nunca imaginei que estava montando um acervo tão importante, tinha prazer no que fazia.

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Como e quando acabou sua relação com Liminha?

Foi muito light nosso fim, por assim dizer. Inclusive ainda éramos bem apaixonados, se bem me lembro, mas a visão do que vinha pela frente, por sermos tão jovens e inexperientes, nos fez querer conservar uma magia que até hoje me faz acreditar no amor. Sempre que fico infeliz em algum relacionamento me lembro do nosso e penso: “Que bobagem! Já passei por uma coisa melhor”… E parto para outro. Como diz uma amiga da minha filha, sou uma apaixonada pelo amor e dou créditos a esse relacionamento.

Você fez também as fotos do 1º disco solo do Arnaldo, Lóki? (1974)… Depois que o Arnaldo e o Liminha saíram do grupo, em 1973, você seguiu mantendo contato com eles, com o Sérgio, com a Rita e com o Dinho?

Eu fiz sim as fotos do Lóki?, passamos um dia todo rindo e tirando fotos as quais a gravadora, além de não pagar, me fez o favor de nunca me devolver os negativos… Que eram vários rolos de filme. Dó. Eu sigo mantendo contato com todos, uns mais e outros menos. Inclusive com o Liminha, nós continuamos amigos durantes todos esses anos. Às vezes, o tempo passa e fico longe de um ou de outro. O Dinho é com quem eu tenho a maior convivência, ininterrupta, fui até madrinha de casamento dele!! Uma pessoa do bem maior. Para finalizar, eu acredito que cada um de nós, com novas famílias, filhos, netos (oh céus!) ainda seguimos a aspirar pela paz e amor para cada um e para o mundo.

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13/01/2015

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes