Exclusivo | Helio Flanders entrevista Vitrola Sintética (e vice-versa)

27/05/2016

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Felipe Ludovice

27/05/2016

Nem sempre é fácil prever o quanto os encontros da vida são capazes de interferir no nosso futuro. Através do Tatá Aeroplano, Felipe Antunes, vocalista do Vitrola Sintética, conheceu Helio Flanders vendo jogos de futebol na TV.

Naquele momento improvável, eles não poderiam imaginar que estariam dividindo o palco do Unibes Cultural no show que acontece hoje, às 20h, em São Paulo. Ao lado do vocalista do Vanguart, o Vitrola Sintética apresentará as músicas do seu álbum Sintético (2015), que foi indicado ao Grammy Latino nas categorias de Melhor Artista Revelação e Melhor Engenharia de Gravação (mais informações sobre o show aqui).

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O que você encontra abaixo supostamente é uma entrevista do Helio Flanders com o Felipe Antunes. Porém, as fronteiras hierárquicas entre entrevistador e entrevistado se diluem completamente em uma conversa cujo fio condutor é amizade musical dos dois. Desça a página para mergulhar em um recorte íntimo da relação entre os músicos.

HF: Fe, eu vou tentar lembrar aqui a primeira vez que eu te vi tocando, quando eu conheci seu trabalho.
FA: Ah, boa.

HF: A primeira vez que eu ouvi falar de você, você era “o cara que estava morando com o Tatá Aeroplano, um cara de Bragança Paulista que era foda e tinha uma banda foda”. Eu já tinha ouvido falar do Vitrola Sintética, mas eu nunca tinha escutado. Aí a gente foi se encontrando por aí… A gente até beijou na boca naquela noite, lembra?
FA: Abafa, abafa! (risos)

HF: Abafa nada! Viva a liberdade sexual! (eufórico, histérico). Falando sério, eu lembro que quando ouvi as primeiras gravações do seu álbum solo [“Lâmina”, estreia solo de Felipe Antunes, sai em julho] foi quando pensei: caramba, esse cara é diferente. E… isso que eu vou falar não é nenhum demérito ao Vanguart ou ao Vitrola, mas nós, que somos compositores, que compomos canções em casa e levamos para o ensaio da banda, às vezes a gente – corretamente – se coloca atrás da composição, pra que a canção seja abraçada pelo coletivo, o que é, aliás, uma das coisas legais de se ter uma banda. Por isso, quando eu te vi tocando solo, foi muito interessante ver que tinha outro cara ali. Não é que no Vitrola não há, mas foi a primeira vez que eu fiquei embasbacado com a tua forma de cantar, com o seu tom de voz grave belíssimo. “Esse Moço” [canção inédita que está no disco] me chamou muito a atenção.
FA: Mas isso foi no estúdio ou quando eu te mostrei a canção pela primeira vez?

HF: Foi uma gravação demo. Foi: that’s really good!
FA: Eu já conhecia algumas coisas do Vanguart, claro, mas fui te conhecer pessoalmente por causa do Tatá. É a mesma história, mas pra mim você era o cara que ia lá em casa assistir aos jogos do Corinthians (risos). E eu pensava: Corinthians é o caralho! (risos).

HF: Eu era o inimigo, né? (risos)
FA: Nessa época, a gente tinha televisão em casa, hoje já não tem mais.

HF: Eu já não tinha, por isso ia na casa de vocês! (risos)
FA: Exatamente. Bom, eu acho que quando eu trouxe o piano pra casa, criou-se um ponto em comum entre nós.

HF: Nós dois estávamos descobrindo o instrumento, né?
FA: Sim. Você começou a me mostrar umas músicas suas que depois seriam gravadas no Uma Temporada Fora de Mim (2015). Inclusive, o Chicão [o músico paulista Rafael Montorfano] foi nosso professor.

HF: Eu fiz duas aulas!
FA: Eu também! O Chicão é tão bom professor que duas aulas são suficientes (risos). Mas eu lembro que fiquei bem impressionado com as canções do solo e as histórias por trás das músicas. Me identifiquei direto. E uma coisa que me influencia muito é a sua maneira de cantar. Embora seja diferente da minha, é muito forte, tem uma impostação muito forte, e que às vezes me interessa também fazer… E eu percebo a sua influência. Aliás, tem uma coisa de processo de composição, de busca artística, que eu sempre quis te perguntar. Você tem um interesse muito grande por poesia, pela obra de poetas. Eu também tenho, mas acabei caminhando mais pra prosa. Eu acho muito interessante o polimento que você tem nas frases que cria. A música que a gente vai cantar junto no show, “Nessa Cidade”, tem uma ligação com Jorge Luis Borges….

HF: É louco você falar isso: polimento. Porque eu não vejo esse polimento, eu acho o jeito que eu escrevo até bem rústico, rápido e sem cuidado… É muito um grito primal, mesmo. Mas eu acho que a pesquisa de poesia que eu faço é maior até que a de música. De todas as artes, é a que mais eu consumo e a que mais me dá propósito pra fazer música. Pra mim, uma bela harmonia e melodia é algo que, sem uma palavra, não faz tanto sentido pra mim. Já a palavra sozinha, se ela for realmente forte, a melodia e harmonia ficam meio irrelevantes, só pra acompanhá-la. Eu acho que uma grande música só o é se tem uma grande letra. E importa muito não só o que você diz, mas como você diz. Eu sempre te encho o saco dizendo que eu prefiro ser ruim, mas próprio. Prefiro ser menos bom mas muito autoral… e isso tem muito a ver com a palavra. Até porque, tem tanta coisa boa que foi feita antes, que não faz sentido fazer algo que não seja com propriedade. O que não é autoral não me interessa muito.
FA: Essa coisa de rústico que você falou… você acha que mudou muito sua maneira de compor com o passar do tempo?

HF: Eu acho que quando você adquire um “senso de autoralidade”, um senso de propriedade com a sua música, com a sua onda – não só com a melodia, a harmonia e a poesia em si – mas com a tua música, você começa a pular etapas de compreensão do que ela é. Até porque você já sabe. Então você descarta automaticamente o que não é bom, você não precisa guardar aquilo e depois voltar pra saber se é bom… É rústico nesse sentido, sabe? Quando eu leio os seus textos, por exemplo – e, momento spoiler, no seu disco solo tem isso -, eu percebi que você escrevia num fluxo de quem já sabia o que estava escrevendo. Não era alguém que escrevia um monte pra cortar depois.
FA: Isso tem a ver muito com tempo de estrada, né? De exercitar a criação…

HF: E pra você? O texto vem antes da canção, ou não tem essa separação?
FA: Eu sempre compus muito no impulso e sem muita pesquisa relacionada. E a relação com o teatro me fez compor por demanda. Eu sempre achei que compor por demanda seria complicado, mas eu gostei, muito por causa da pesquisa que ela pede. Eu achei interessante essa nova maneira de compor. Me abriu um portal. Foi você, inclusive, que me apresentou a galera do teatro. Como é pra você esse lance de compor por demanda?

HF: Eu vou responder quase perguntando pra você. Me parece que, como a gente cresceu no rock’n roll, que tem uma maneira rudimentar de escrever – a gente nunca foi estudar esquemas de harmonias, a gente só sabia que o Dó com o Sol combinavam – nós aprendemos a compor da maneira mais pura e quase infantil. Faz parte do processo de amadurecimento perceber que nem sempre você precisa de um impulso criativo pra trabalhar. Que ele pode até acontecer, mas aliado a outras ferramentas. Da mesma maneira que é libertador pra aquele sujeito que estudou a vida inteira saber que é só ele fechar o olho e ser arrebatado pelo sentimento e compor uma música, é também libertador perceber que se a gente pensar tecnicamente também podemos compor uma música sem precisar de uma intervenção divina para isso. As duas coisas são igualmente maravilhosas.
FA: Esse portal que me abriu foi bem isso, da possibilidade de fazer algo mais pensado e raciocinado…

HF: Exatamente. Agora, vou ser polêmico: antes dos seus 15 anos de idade, quais foram os artistas que te influenciaram a ser rebelde, ser roqueiro e ser autoral?
FA: Cara, eu não posso negar que – eu já te falei isso – eu aprendi a tocar violão por causa do Guns n’ Roses. Depois eu fui me interessar por MPB, mas a primeira influência foi o Guns. E o Nirvana também, tempos depois. Um era muito imagem, e o outro era muito visceral, né?

HF: O Nirvana tá pro Guns como a esquerda tá pra direita, né? (risos)
FA: Acho que sim (risos). Teve Roberto Carlos e Tim Maia, que meus pais gostavam muito, tinham uns discos em casa e eles sempre me chamaram a atenção. Acho que são os meus. E você?

HF: Esse corre por fora, não vai entrar na minha lista: lembro quando saiu aquela coleção da revista Caras, “Joias da Música”, e eu pirei no Beethoven. Ele é bem rock’n roll, né? Mas eu me lembro que Beatles foi a primeira coisa me emocionou, a primeira coisa que eu parei o que tava fazendo pra ouvir. E de escutar em looping o disco Imagine, do John Lennon, que meu pai tinha o vinil. Depois eu fui perceber que as músicas dos Beatles que eu mais gostava eram sempre do John, que carregavam mais vida que a perfeição do Paul, que é igualmente maravilhoso…
FA: Aliás, é um exemplo do que a gente tava falando, né? Compor de forma impulsiva, o John, e de forma pensada, o Paul.

HF: Exatamente. E depois veio o Nirvana. Na época, meus amigos ouviam Alice in Chains, Guns… e eu falava: “Gente, isso aí é muita firula, muito teatro… Se isso é rock, eu não gosto de rock! Pra mim, rock é John Lennon cantando “Revolution” ou “Don’t Let Me Down”. Mas quando eu ouvi Nirvana, eu senti algo diferente. E ouvi por muito tempo, até descobrir o The Doors. Lembro de com 13 anos comprar uma revista em Cuiabá e ler que os escritores favoritos do Jim Morrison eram Kafka, Rimbaud e Baudeleire. Aí enchi o saco da minha mãe pra ela me comprar livros desses caras… O Jim Morrison teve um grande papel na minha onda com a poesia, com a letra, com a literatura… Esses são os meus 3 fundamentais para depois eu descobrir a música brasileira e, especialmente, o Tom Jobim.
FA: Você falou dos Beatles e me veio na memória que a primeira lembrança que eu tenho dos Beatles foi de ver o Ferris Bueller dançando “Twist and Shout” no filme “Curtindo a Vida Adoidado”! Eu morava em Belo Horizonte. Minha mãe diz que eu tinha uma fita cassete e que eu sempre colocava nessa parte dele cantando Beatles. Teve uma vez que eu tava sozinho em casa e coloquei pra tocar no maior volume, e meus pais não conseguiam entrar em casa porque eu não ouvia a campainha, de tão alto que tava (risos).

HF: Que demais. Eu também me lembro de ficar cantando “Twist and Shout” em casa! Agora, uma pergunta difícil: qual a música que você mais se orgulha de ter feito? Pode ser solo, no Vitrola, com outro parceiro…
FA: Difícil essa, hein? Deixa eu pensar…

HF: A minha resposta eu também não sei (risos).
FA: Vou falar uma do Vitrola e uma do solo. Tem uma que se chama “Beijo de Rimbaud”, que eu fiz em parceria com o Ota [Otavio Carvalho, baixista do Vitrola], que foi inspirada num poema de Rimbaud, “Sonho para o inverno”. Uma vez, eu estava numa roda de amigos e uma pessoa comentou sobre como Rimbaud descrevia nesse poema um beijo como uma coisa maravilhosa. Eu lembro que cheguei em casa quase de manhã, eu peguei a harmonia e a melodia que tinha feito com o Ota e escrevi a letra na hora. E a outra é “Esse Moço”, que está no meu disco solo, porque me fez escrever no feminino – algo que eu fiz no primeiro disco do Vitrola e que acho interessante. Mas, dessa vez, eu consegui escrever uma música em que eu saio de cena e dou o lugar para duas cantoras. Tem muito a ver com tudo que a gente vem discutindo sobre ceder o lugar para a mulher, atuando de fato no empoderamento feminino. E tem muito a ver com uma coisa pessoal, de me rever – uma das coisas mais difíceis é a gente se rever o tempo inteiro, né? -, rever minhas posturas que podem ser machistas, que podem não ser machistas mas que não faz nada para melhorar um cenário machista que nos domina desde sempre… Essa música teve uma importância não só como canção, mas como crescimento pessoal mesmo.

HF: Bom, eu vou falar duas canções muito distintas. Uma delas é “Semáforo”, uma canção ultra pueril, juvenil, que eu fiz com 20 anos de idade, em Cuiabá, em 2004. Eu fiz num momento tenebroso em que vários amigos estavam viciados em drogas, alguns morrendo, meu melhor amigo já tinha ido duas vezes em uma clínica… E eu não estava acreditando em nada, sabe? Eu fiz essa música no “take” 1 e depois fiquei abismado. Era aquilo mesmo, sabe? Eu não tinha perspectiva alguma a não ser se divertir de alguma maneira. E isso incluía auto-destruição, obviamente. Era muito louco pensar como todos os meus amigos queriam morrer. Era algo muito forte acontecendo numa cidade pequena no interior do Brasil, e todo mundo precisando de arte, precisando de drogas, precisando compor… e era muito difícil. O disco Muito Mais Que o Amor, último do Vanguart, e que eu considero o melhor da banda, foi um disco em que o Reginaldo [Lincoln, baixista] estava muito presente, muito bem e centrado, e eu não estava. E eu só conseguia compor com ele. Era um cara que me inspirava, eu encontrava com ele e saía escrevendo, compondo. A gente criou coisas das quais eu me orgulho muito, como “Demorou pra Ser” ou “Eu Sei Onde Você Está”. Ele foi muito importante pra esse disco existir. E eu lembro que na reta final, quando o álbum já estava sendo gravado, eu estava em casa desolado, me sentindo abandonado por tudo e por todos, e peguei o bandolim. E entendi a força da canção. “Eu não posso cair sendo que eu tenho isso [a música] na mão”. E aí eu escrevi a última canção do disco, chamada “Olha Pra Mim”, que fala “olha pra mim /não foi à toa que eu cheguei a ti / se a essas ruas sobrevivi / se nessas praias não me afoguei / foi só porque tinha algo a dizer pra você”. Eu vi que eu estava precisando de uma palavra… e ela tava dentro de mim. Por mais clichê que possa parecer, não é algo fácil quando você não tá bem. Foi uma das poucas vezes que compus sozinho, e foi muito importante para eu voltar a acreditar na força da música e na minha própria força. E é uma das músicas que eu mais recebo feedback das pessoas, dizendo que essa música foi importante num momento difícil. É impressionante quando a gente escreve pensando na gente e isso…
FA: Se comunicar tão bem com as pessoas.

HF: Exatamente. Acho que quando você escreve pensando nas pessoas, você não consegue fazer tão bem como quando você escreve pensando em se ajudar. Volta naquele velho clichê de que estar bem consigo mesmo é estar bem para o outro.

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27/05/2016

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes