Entrevista | Ian Ramil explode: “Música não é terapia, música é arte!”

21/10/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Ariel Fagundes

21/10/2015

Alguns discos soam macios como algodão doce, outros transcendem como ayahuasca, já o novo álbum do Ian Ramil é um míssil carregado de sangue, fuligem e nitroglicerina.

Gravado em Pelotas, onde o músico passou sua infância, Derivacivilização saiu na semana passada trazendo convidados como Filipe Catto, Alexandre Kumpinski (do Apanhador Só) e Gutcha Ramil (faça download gratuito). O show de lançamento do álbum será no dia 25 de outubro, no Parque da Redenção, às 17h, em Porto Alegre.

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Não perca nosso faixa a faixa de Derivacivilização

Ian recebeu a NOIZE em sua casa, pouco antes da audição oficial de lançamento do álbum. Na entrevista que você lê abaixo, o músico reflete sobre o papel do artista, seu desejo de chacoalhar os ouvintes e critica sem dó a apatia dos músicos que temem desconfortar o público.

Respire fundo e role a página sem medo. Vale a pena.

Fazer o segundo disco foi mais difícil?
Não, foi mais natural porque eu compus todas essas músicas antes do primeiro sair. Gravamos o IAN em 2012 e, em 2014, ele saiu. Nesse período, compus o que tá no Derivacivilização. Eu já vinha tocando muito com a banda, foi o grupo que viajou comigo pra fazer os shows de lançamento do IAN, e a vontade de gravar com eles já existia desde antes do primeiro sair. Na verdade, quando o IAN saiu, eu queria estar lançando esse disco.

O IAN lhe rendeu o Prêmio de Revelação do Ano em Música Popular na premiação anual da Associação Paulista de Críticos de Arte. Essa repercussão toda lhe afetou pra fazer o segundo?
Não, foi tranquilo. Quando ganhei o prêmio, já tava com o disco estruturado. E a ideia de gravar na casa onde eu cresci, em Pelotas, era uma coisa que eu já vinha amadurecendo há um tempo. Nesse segundo disco, tenho muito mais consciência do que eu faço, é um disco muito mais maduro e consciente do que o outro. A pressão era porque eu queria gravar logo! Eu pensava: “Esse disco é muito melhor que o primeiro! Se as pessoas estão gostando daquele, vão gostar muito mais desse!”. Ou não… Porque é um disco mais difícil, mais agressivo, e hoje em dia as pessoas gostam mais de ursinhos, cachorrinhos… Ninguém gosta muito do que se propõe a uma reflexão mais profunda ou que tenha uma ironia ou uma acidez. A gente vive uma época de marasmo intelectual generalizado, me parece.

O disco tem uma raiva que transparece mesmo.
Tem mais uma fúria. Temos que ter cuidado pra não cair nessa raiva infundada e dispersa que tá rolando no país. Que é gritar sem antes ter parado pra pensar no que tá falando, sem se informar, sem tentar entender a situação. Gritar por gritar. Gritar pra se posicionar. Eu me posiciono bastante no disco, mas eu não tô me posicionando por me posicionar. Tô me posicionando em função do que venho refletindo há bastante tempo. Procurando não ser vazio nunca, e nem leviano, porque são questões delicadas. E hoje em dia todo mundo grita o tempo inteiro e 95% não sabe o que tá gritando.

As composições foram fruto dessa fúria?
Algumas sim, “Coquetel Molotov”, que abre o disco, é uma canção de fúria. A letra foi escrita num jorro, fiquei um tempão só com a música e a melodia. Eu já tinha o nome dela lá em 2012, antes do carnaval freak dos protestos. Já tava com isso na cabeça por um posicionamento mais inconsciente até, mais explosivo – perdão pelo trocadilho com o nome da música. Era mais um esporro, um soco na parede, uma raiva de como as coisas acontecem e como a gente se coloca nas situações. Já “A Voz da Indústria” tem um foco muito maior na clareza do que quer ser dito ali, se propondo a pensar como o eu-lírico da indústria. “Quiprocó” também, é uma música palatável, com uma melodia bonita, mas a letra dela é um talho. É uma letra pesada, ácida, dentro dessa forma bonitinha. Mas depois de ter feito “Coquetel” é que eu fui entender o que eu tinha dito ali, até hoje eu fico entendendo coisas que não tinha entendido sobre ela.

Mas seus sentimentos são sua matéria-prima?
Todo sentimento é matéria-prima de qualquer criação. Situações, sentimentos, reflexões. Isso que faz o que tu cria ser teu. Se não, tu vira só um fazedor de música. Eu não quero ser um fazedor de música, eu quero me expressar! Quero estar no que eu tô dizendo. Acho que é assim que o artista pode contribuir para o lugar onde tá inserido, para o planeta.

Você se considera um cara raivoso?
Muitas vezes sim. Tenho que controlar a raiva muitas vezes.

Compor lhe ajuda a lidar com isso?
Sim, muitas vezes é um escape. Mas também, muitas vezes, é reflexo. Aí não necessariamente me ajuda, mas me reflete. Minha composição mais me reflete do que me ajuda, eu acho.

Ian e sua mesa de trabalho

O Derivacivilização me soa como um despertador que quer acordar o ouvinte e mostrar como as coisas estão uma merda. Foi o objetivo fazer um disco pra sacudir o ouvinte?
É, faz tempo já que eu tô com isso, sabe? Uma ânsia de me colocar enquanto artista. De não fazer discos alheios, como a maioria das pessoas faz, um disco falando de coisas aleatórias. Ah, é a mesma coisa de sempre, é sempre o mesmo assunto em todos os discos, sabe? É tudo confortável, confortante… A música não é terapia, a música é arte! A música tem que mexer também. Lógico que uso a música como um conforto, mas também tem que ir além disso. Parece que a gente vive uma cena viciada em fazer coisas confortáveis. Eu tô de saco cheio disso! De saco cheio dos artistas, músicos, compositores, da maioria dessas pessoas estarem criando uma ilusão em cima de uma realidade toda distorcida que a gente tá vivendo. É como se na Ditadura os caras não fizessem uma música metendo o pau na Ditadura. Claro, na época tinha um rival muito claro, um antagonista muito fácil de apontar o dedo e xingar. Agora, sempre vão ter antogonistas, sempre vão ter rivais. E o artista é que tem que funcionar como esse despertador pra todo mundo. Por que a gente tá falando o que a gente tá falando? Pra quê eu tô fazendo música? Pra ganhar like? Ganhar fã, ganhar uns pilas e fazer um show? Não! Aí eu vou fazer outra coisa. Entendo que existam os entretenedores e acho que, sim, eles são fundamentais, eu muita vezes aproveito o serviço deles. Mas o artista não pode querer agradar todo mundo o tempo inteiro. Tem que ter artistas que estão ali pra botar o dedo na ferida e estimular que as pessoas saiam do conforto delas e repensem as próprias vidas, a maneira como enxergam as outras pessoas, a organização da sociedade, da humanidade no planeta. A situação é doentia! A gente tá numa situação limite. O que é a nossa espécie? O que a gente tá fazendo com o planeta? Onde vamos chegar com isso? A gente tá dentro de um sistema totalmente deteriorado, que é prejudicial pra nós e pro habitat. A gente tá cagando na própria sala, vai ficar fedendo a casa inteira! A gente tá cagando no planeta e fazendo que não é com a gente. Geralmente os artistas da periferia são muito mais críticos do que os artistas de classe média, nos quais eu me insiro. Por quê? Porque eles têm um rival claro, uma elite opressora. Agora, nós, enquanto elite, temos que ver que estamos fazendo merda pra caralho! Digo “elite” enquanto parte favorecida da sociedade, nós que temos condições desde que nascemos, com tudo na mão, leite com pêra. A gente não pode se conformar! Deu de achar que tá tudo certo e fazer musiquinha de amor e botar a cabeça no travesseiro e dormir. Não! Não dá mais. Mas é louco porque, quando entra nessa coisa de protesto, também fica vazio, fica uma histeria de uma classe média que parece que acordou sem nunca ter visto nada em volta, sem nunca ter pensado sobre o contexto no qual tá inserida. Por que as coisas tão do jeito que tão? Aí rola um acotovelamento geral, sou “acordado” no meio de um monte de gente, num planeta super populoso, com grandes centros ultra apertados, com muita gente, cada um se defendendo do outro. Como é que a gente arruma esse caos junto pra tornar a coisa agradável pra todo mundo? Enfim, pensando nessas coisas todas, enquanto artista de classe média, meu dever é me posicionar. Acho que falta isso nessa classe média confortável. Tá na hora de se desconfortar. Com fundamento, não porque agora é modinha, mas pensar no que a gente tá inserido. O que é que causa isso tudo? Aprofundar a reflexão, sabe? As pessoas parecem que têm preguiça de refletir hoje em dia, que ninguém quer fazer nada com mais de duas linhas. Tem que pensar, cara! Tem que se envolver!

“Artigo 5º”, que musicaliza um trecho da Constituição, tem muito ver com isso, né? De onde surgiu a ideia de musicalizar esse artigo?
Foi uma ideia do Leo Aprato, meu parceiro de composição da música. Ele me mostrou a ideia e eu adorei. Aí entrei junto, fiz um verso pro refrão, ele fez outro. Na verdade, a letra é toda do Ulysses Guimarães e dos brothers dele lá de 1988. Acho uma grande sacada ter musicado isso. Porque é por aí, se diz, mas não se faz. Não se respeita nada. Há uma falta de senso coletivo, de entender o coletivo como parte da gente. Ver como, direta ou indiretamente, as coisas nos afetam na nossa cidade, no planeta. No momento em que tem um monte de gente de miserável sofrendo, no limite, tu, enquanto classe média, fecha o olho e só quer se proteger e levantar grade por tudo. Como é que se chega em uma sociedade mais justa com um pensamento mais coletivo?

Você é um artista engajado?
Com minha arte, eu me engajo através da minha arte. Tento contribuir pro todo através da minha música, nesse sentido, acho que sim. Todo artista tem que ser engajado, se não tu não é artista. O engajamento não necessariamente tem que ser político, mas tem que ter um engajamento que seja estético. O artista tem que buscar o rompimento, buscar o que não foi achado ainda.

Uma preocupação política poderia comprometer a arte por limitá-la?
Acho que não, depende da maneira como tu leva. Depende, pode até ser. Mas eu não acho que esse seja um disco sobre política. A única música que tem mais objetivamente o tema “política” é “Artigo 5º”, mas ainda assim é uma música existencial, que fala de individualismo, do abuso de poder, não necessariamente do organismo político propriamente dito.

Sobre seu passado de ator, isso está presente na sua música?
Sim, tudo que a gente faz na vida tá presente no que realizamos. O teatro certamente me influenciou, eu li muita coisa, vi muitas peças. Não sei te apontar exatamente aonde, mas sem a menor dúvida, minha vida no teatro, e nas artes em geral, é uma grande influência pra minha música.

Mas de que forma sua performance musical se relaciona com a atuação?
Tem a coisa da exposição, né? De fazer um show, estar exposto ao público… Mas são coisas bem diferentes. Basicamente, eu queria dizer as coisas que eu escrevi. No teatro, muitas vezes o ator tem que ter uma disposição pra dizer coisas que outros escreveram e tu te apropria. Que é um trabalho fantástico, mas percebi lá pelas tantas que eu não tinha vocação pra isso. Eu não tava a fim de dizer textos que, pra mim, não faziam o menor sentido. Aí fui ser compositor. Quer dizer, “fui ser” não, só canalizei toda minha energia pra isso. Porque eu já vinha compondo muito antes de fazer teatro. A música é muito anterior na minha vida do que o teatro. Mas sobre a performance no palco, provavelmente tem influência, mas eu não sei te dizer. Não penso muito sobre isso, não gosto de armar performance, não gosto de criar um personagem pra cantar. Gosto de ser eu. Sentindo o que estiver sentindo naquele momento, sabe? Me predispondo a fazer um bom show, mas sem um personagem.

O Ian que canta não é um personagem?
Ah, isso é muito relativo! O que é ser um personagem? O Ian que tá aqui sentado conversando contigo não é um personagem? Tu é um personagem? “Personagem”, no sentido técnico de algo conscientemente construído pra exercer um tipo de comunicação, acho que não. Sou tão personagem no palco como eu sou agora, e como tu é agora aqui comigo. Nós vamos transformando esses personagens, falando com tua vó provavelmente tu não fala como tu fala comigo, né? A gente vai se transformando, são variações da nossa persona, mas não dá pra dizer que chega a ser um personagem.

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21/10/2015

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes