Entrevista | O som é a verdade absoluta de Gary Bartz

30/10/2019

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Guilherme Espir

Por: Guilherme Espir

Fotos: Taba Benedicto

30/10/2019

É interessante como os grandes mestres da música adquirem um controle completamente único sob sua própria mensagem. Aquela áurea sábia de quem não só compreende tudo o que fez, mas também se realiza frente a sua própria arte e percebe como os rótulos não fazem nada além de limitar o alcance do som. 

Poucos músicos compreendem esse paradoxo. Quando o assunto é jazz, existe todo um academicismo atrelado ao gênero – que está longe das raízes negras e populares que foram a essência do movimento. Com o passar do tempo, muitos críticos tentaram posicionar o estilo como algo elitizado e que fizesse frente ao requinte que saía dos falantes, quando os próprios protagonistas rejeitavam até mesmo o termo jazz.

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Numa eterna rebelião desde o seu surgimento, o gênero é muito maior do que qualquer classificação ou rótulo momentâneo. Um gigante frente às limitações musicais de conservadores como Wynton Marsalis, o estilo vê no discurso preciso, experiente e cerebral de Gary Bartz um lugar comum para ecoar pelas principais salas de espetáculo do mundo, sem a preocupação, ou até mesmo a necessidade, de colocar a música numa caixinha.

Aos 79 anos de idade, Gary Bartz é uma lenda. Um exímio saxofonista, o instrumentista americano natural da cidade de Baltimore – assim como Frank Zappa -, tocou ao lado dos melhores. Freddie Hubbard, Lee Morgan, Miles Davis… A lista é quase infinita e vai do McCoy Tyner até o Max Roach sem fazer nenhum esforço. São mais de 60 anos dedicados ao estudo, à espiritualidade e ao exercício de enfrentar o maior teste de todos e ainda assim seguir sendo relevante após tanto tempo.

O tempo é o maior obstáculo, mas Bartz foi contemporâneo de diversos subgêneros – do jazz-Funk ao Fusion – e sua discografia funciona como um estudo de todos esses diferentes momentos históricos. Sua abordagem enriqueceu o estilo de tal maneira, dentro de uma carreira tão longeva, que é louvável ouvir do próprio maestro como ele não gosta do termo jazz…

Acima de tudo, ele faz música e isso é um posicionamento maravilhoso, apesar de bastante simples. Porém é algo que mostra a essência e o domínio que Bartz conquistou frente ao seu próprio ser criativo, junto de seu saxofone, fosse ele alto, barítono ou soprano.

Gary enfeitiça o público com o seu sax (Foto: Taba Benedicto)

Em entrevista que realizamos com ele antes de seu show em mais uma edição de SESC Jazz, o músico mostrou uma calma e uma tranquilidade que sempre foram algumas das características mais marcantes de seu som. Como um monge budista com muito tempo de meditação, Gary é categórico em tudo o que diz e demonstra um grande equilíbrio entre o ser humano e o músico, o ser criativo.

Ao vivo, ele e seu trio fizeram história no Teatro do SESC Pompéia. Num show de quase duas horas de música ininterrupta, o “Ju Ju Man” mostrou porque sempre esteve junto dos melhores músicos. Tocando com uma liberdade e uma exatidão inspiradora, o som de Bartz é um deleite e vê-lo com essa forma física – apesar da avançada idade – é uma honra. 

Brilhantemente acompanhado pelo pianista australiano Berney McCall, o cubano Francisco Mela (bateria) e o baixista norte-americano James King, seu saxofone promoveu uma verdadeira viagem pela história, desde os anos 70 até seu repertório atual. Além de tocar, o mestre ainda cantou clássicos como “Nommo – The Majick Song” e mostrou a força incontestável de seus mantras.

Em termos de interação com a plateia, Gary & banda quase não dirigiram à palavra para os perplexos corpos que os observavam. No começo do show, ele já disse como a dinâmica do show funcionaria, ressaltando que a banda não faria as tradicionais pausas entre uma faixa e outra. 

Conjunto em ação no palco do Sesc Pompéia (Foto: Taba Benedicto)

Em dado momento, ele disse: “Não consigo vê-los, mas posso sentir que vocês estão aqui”. Essa foi a senha para que durante, quase duas horas de espetáculo, as ondas sonoras tomassem conta do complexo do teatro com um show que foi 100% pensado e que, como o próprio músico disse na entrevista, “só vai para o lado da improvisação se eu errar”.

Da primeira à última nota, Bartz foi gigante, irretocável. Seu baterista foi de longe o destaque do show, numa dinâmica onde o baixo fez o arroz com feijão e o piano soube aparecer nos momentos certos. Com uma dinâmica maravilhosa, assistir ao mestre tocando foi como uma aula magna. Ver o controle e a exatidão com a qual ele se posiciona com a mesma rebeldia dos anos 70 foi um sopro de ar fresco.

Enquanto muito discutem se o Robert Glasper toca jazz ou não, Gary sai pela tangente e apenas faz música. Quem perde tempo classificando, no final das contas, não entendeu o que ele quer dizer até hoje, e seu show mostra isso com uma vitalidade que deveria inspirar os artistas a criar e não classificar. Abaixo, confira o papo que batemos com esse gênio:

Gary, em 1965 você gravou o Soul Finger com o Art Blakey & The Jazz Messengers. Esse disco é fantástico e conta com um dos maiores duos de trompete de todos os tempos: Freddie Hubbard e Lee Morgan. Como vocês reuniram essa dupla para essa sessão?
Na época, eu e Lee Morgan éramos membros da banda do Art Blakey. Nós estávamos numa turnê pela West Coast e, na época, era a minha primeira vez lá. Nós ficamos tocando por cerca de dois meses e quando voltamos, Lee Morgan sumiu. Nessa hora nós descobrimos que tínhamos uma sessão pra fazer, por isso que todo mundo da banda, até o Art Blakey, estava tentando fazer contato com o Lee. Sei que nós chegamos no estúdio e descobrimos que o Blakey ligou para o Freddie Hubbard e disse pra ele aparecer lá, porque a essa altura ele não acreditava que o Lee chegaria à tempo, mas ambos conseguiram chegar e foi assim que eles foram parar no disco.

Não dá pra ficar melhor né?
Não, definitivamente, os dois eram músicos maravilhosos e conseguir reunir ambos nessa gravação deu um tom único para esse trabalho.

Em 77 você lançou o Music Is My Sanctuary e além da abordagem com pinta de R&B/Funk, esse disco foi a primeira oportunidade que você teve para trabalhar com arranjos de corda. Como foi esse processo?
Sabe… eu não uso esse termos. Eu só estava tocando a música que estava ouvindo na minha cabeça e que na época era o que o que eu queria fazer. Trabalhar com arranjos de corda sempre foi um sonho, mas nunca consegui fazer nada com essa abordagem, até esse disco. 

E foi seu primeiro trabalho com cordas, né?
Sim, eu fiz outros depois, mas foi aí que tudo começou nesse aspecto. O disco foi um sucesso comercial e é por isso que muitas pessoas falam sobre ele até hoje, mas na época fazia sentido pra gente e nós gostamos muito do resultado, pois fizemos uma turnê grande para suportar o lançamento do disco. Mas não foi algo planejado, sabe? Eu gosto de fazer vários tipos de música.

Foi um movimento natural? 
Sim, eu gosto de fazer vários tipos de música. Nós fizemos as composições e os arranjos, mas foi uma consequência natural daquele momento. As pessoas me perguntam qual é a minha religião e eu digo que sou músico. Essa é a minha visão.

Muitos músicos brasileiros foram para os Estados Unidos na época do Fusion (começo dos anos 70) e você mesmo teve a oportunidade de tocar com alguns deles, como foi o caso do Airto Moreira na época que você tocou com a banda elétrica do Miles Davis. Quais características interessantes o músico brasileiro agregava ao som a ponto de fazer com o Nana Vasconcelos e tantos outros tocassem nesse meio?
Em todo lugar do mundo você vai encontrar grandes músicos. Eu nunca dei muita importância para o lugar de onde os músicos vieram, pois você se apresenta com a sua música e era isso com que nós nos preocupávamos na época. Eu não ligo de onde o Airto veio, tudo o que sei é que ele é um músico maravilhoso, sabe? Ele criava sons, o jeito que ele pensava e fazia música era muito interessante. Eu tive a chance de viajar com ele na estrada por causa das turnês e ele… O que ele fazia com a música, sabe?!

Ele extraia sons
Sim! Ele criava sons e tinha uma abordagem muito interessante. Isso era muito bom e é isso que significa ser um músico. Foi como eu disse, eu apenas acolho as pessoas e a linguagem da música está acima de tudo isso. 

Gary, você é contemporâneo de várias fases do jazz. Do Bop até o Fusion, como foi passar por esses diferentes momentos, fazendo música com diferentes abordagens e colaborando com tanta gente?
É difícil responder essa pergunta, sabe? Por que se você aborda a música da mesma forma que eu, como uma expressão artística, você consegue fazer qualquer coisa. É música, entende? Eu mesmo estou trabalhando em vários projetos e hoje existe uma nova tecnologia, ao mesmo tempo que ainda existe a antiga e eu fico indo e voltando, aprendendo coisas do passado, assim como eu aprendo bastante coisas no presente. 

Tocar com uma nova geração de músicos facilita esse processo né?
Sim, com certeza. Eu escuto música nova, mas além disso, eu escuto novos jeitos de tocar e de se pensar a música, além de novos instrumentos… O principal e isso é o que a música precisa, são pessoas que saibam ouvir e eu estou sempre ouvindo, o tempo todo. Às vezes eu toco, mas sempre estou ouvindo.

Você que acha que essa questão da capacidade de ouvir ainda é um problema?
Sim, a grande maioria dos músicos não escuta. Sabe quem sabia escutar? O Miles Davis. O Miles ouvia a música de dentro e não de fora. Quando você escuta o som de fora, você simplesmente está ouvindo igual todo mundo.

É como se fosse a plateia no show?
Exatamente e não pode ser assim. É importante ouvir de dentro.

Gary & banda (Foto: Taba Benedicto)

Pra fechar, Gary, gostaria de perguntar sobre esses debates que surgiram no jazz e que parecem não contribuir em nada para o estilo. Essa história do Wynton Marsalis e outros músicos ficarem classificando o jazz contemporâneo, dizendo que o Robert Glasper ou o Christian Scott não fazem Jazz. O que você acha disso?
Eu diria que você está certo. Acima de tudo, eles estão fazendo música, não estocando tocando jazz. Então, pensando dessa forma, quando alguém faz isso, ele coloca a música numa caixa, entende? Ele está chamando a música de jazz e o jazz é uma caixa. O Rock ‘N’ Roll é uma caixa, o Blues é outra… e a música é o universo.

É música além da caixa.
Exato, aliás, eu gostei disso que você disse. É música além da caixa, sempre. 

Eu entrevistei outros músicos no festival, principalmente o pessoal do chamado jazz moderno, como o Kamaal Williams, por exemplo, e ele é um bom exemplo desse atual momento, pois está fazendo algo novo, justamente por ignorar rótulos e tentar fundir linguagens diferentes.
Sim, mas isso acontece porque ele está ouvindo a música de dentro. Esse é o problema com essas palavras, esses rótulos. Quando eu vou dar aula aos meus alunos, a primeira pergunta que eu faço é: O que você quer realizar por meio da música? A grande maioria responde que quer ser um grande jazzista. Eu olho pra isso e falo: eu não sei o que é isso. Eu posso ensinar você a tocar o saxofone, posso ensinar a compor, a pensar nos temas e também nas variações, mas vai muito além disso. Tem gente que acha que o Kenny G é jazz, tem gente que não. Acontece a mesma coisa com negros e brancos e não significa nada, porque isso não é o mais importante, a minha música tem todas as cores.

Liberdade de pensamento, certo?
Exato, isso é o mais importante. Sempre

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30/10/2019

Entusiasta do groove, eis aqui um meliante que orbita do jazz ao hip-hop, desde que tenha groove. Sem ele, a vida seria um erro.
Guilherme Espir

Guilherme Espir