Entrevista | Projota leva o rap de mensagem ao mainstream

11/08/2016

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

11/08/2016

Quando tinha 20 anos, Projota começou a participar das Rinhas dos MCs, tradicional evento do rap paulistano. Dez anos depois, aquele garoto franzino se transformou em um dos maiores nomes do rap nacional, provavelmente o maior se considerarmos apenas o cenário do mainstream.

Há pouco, ele lançou o segundo DVD da sua carreira, o 3Fs Ao Vivo, intitulado em referência ao seu disco de estreia Foco, Força e Fé (2014). Marcelo D2, Rashid, Kamau e Anitta estão entre os convidados do DVD e nós conversamos com Projota sobre como ele se sente hoje, no meio de tudo isso. O rapper se diz indignado com a escassez de mulheres na indústria da música e afirma que seu objetivo é trazer o rap de mensagem para dentro desse mainstream que raramente preocupa-se com as mensagens dos seus hits.

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Dá uma sacada no papo dele abaixo.

Como você está se sentindo com o lançamento do DVD 3Fs Ao Vivo?
Cara, tô feliz pra caramba porque ficou como eu queria. O principal sempre tem que ser isso né? Fazer a arte e se satisfazer com a arte que você fez antes de tudo. Porque, se não, o sucesso não vem.

E como é a sensação estar ali em cima do palco vendo tanta gente cantando junto suas rimas?
Isso é muito louco. Esse é o meu segundo DVD, eu fiz o Realizando Sonhos (2011) de forma independente e tinha até mais gente do que nesse. Mas esse era um conceito diferente de show, e é muito louco. O cantar, isso é um negócio sem explicação. É difícil, acho que todo artista tem isso, se fica um dia sem cantar, sem subir no palco, já começa a dar uma coceira, tá ligado? É muito louco! Esse show foi animal, foi um show diferente, com banda, era muito grandioso, muita luz, um cenário muito louco. A gente ensaiou durante muito tempo pra fazer esse show, então foi um dia de extravasar, botar pra fora todo aquele sentimento.

Sobre isso de tocar com uma banda, antes de ser rapper, você era bem ligado em bandas de rock, né?
Cara, até hoje eu ouço muito rock. Antes de eu começar a ouvir rap, eu só ouvia rock. Eu queria ter banda de rock, toco violão desde os 11 anos, e eu compunha rock desde os 11 anos! Comecei a compor rap com uns 16. Então, eu já tinha esse lance, cresci com meus primos mais velhos sendo todos roqueiros. Tem esse lance de rock na minha veia, a presença de palco tem muito a ver com isso também. Eu trago muita influência do rock pro meu rap, tá ligado?

E quando o rap tomou conta da sua vida?
Então, eu tinha uns 15 anos quando o Racionais lançou o Nada Como Um Dia Após o Outro Dia e, naquela época, virou maior febra o rap. Tipo, em São Paulo era muito louco, todo carro na quebrada passava tocando o CD do Racionais. Eu comecei a ouvir rap ali com meus amigos, todo mundo começou a ouvir rap. Só que me impactou muito, de uma forma muito maior do que os outros amigos, entendeu? Eu sentia muito mais. Tanto que, na primeira semana em que eu comecei a ouvir, eu já queria escrever. Foi imediato, eu comecei a ouvir e comecei a compor. Fui melhorando, os anos foram passando e eu melhorei cada vez mais. Assim que foi. Muita gente saiu, parou de ouvir, e eu fiquei. São 15 anos já.

Tem a história de que sua mãe tinha uma veia artística forte, mas nunca conseguiu dar muita vazão pra isso, né? Como a imagem dela lhe inspirou enquanto artista?
Minha mãe foi cantora, compositora, escrevia peças de teatro, escreveu até fotonovela. E muito nova. Acredito que esse tipo de coisa passa, né? É hereditário, esse dom acho que veio dela. E eu perdi ela muito cedo, então não teve como ela acompanhar nada disso né? Mas acredito que as coisas acontecem como tem que ser. Hoje, eu represento ela também porque o dom era dela, ela que me passou, então canto por ela também. Nessa época, anos 70, era barra pesada. E hoje, a gente tá vivendo um lance tão pesado de um machismo nervoso, é tanta coisa acontecendo com relação a isso, imagina naquela época, uma mulher que queria ser artista era muito mal vista, muito julgada. Ela acabou largando por conta disso. A famíla expressamente proibiu e aí ela foi ter sua família, ter filho… Ela teve que abandonar isso pra eu existir e hoje eu tô aqui fazendo por ela. Acho que por isso também que eu toco tanta música assim, “Ela Só Quer Paz” é uma música que apoia o feminismo. Sou assim mesmo, acho que as minas têm que fazer o que elas querem, ser quem elas quiserem, encher o saco mesmo.

Pois é, o rap já foi muito criticado por ser um universo machista. Será que estamos entrando em novo momento onde as mulheres terão cada vez mais voz?
Eu acho que sim, meninas super talentosas têm conseguido seu espaço. No caso do rap mesmo, tem Flora Matos, Karol Conka, Tássia Reis… As minas têm aberto muitas portas. A Karol tá voando hoje, eu fico muito feliz de ver. Mas eu acho que tem que aparecer mais, eu quero ver mais minas cantando, mais representantes femininas no hip hop. E não só no hip hop, mas em todos os meios de arte e de trabalho. Mulher tem que ganhar a mesma coisa que um homem, tem que ter as mesmas oportunidades e não deve ser segregada pelo sexo.

O público rap é um público exigente e bastante crítico. Como você lida com as críticas?
Eu lido com a maior naturalidade. Acho que, pessoalmente, nessa fase da internet é natural que seja assim, não é só no rap. E vamos nessa, foi seguindo meus instintos que eu cheguei onde cheguei e cada passo que eu vou dando é seguindo meu instinto. E é isso que é importante mesmo. É óbvio que eu ouço meus fãs, eu ouço sim o que eles têm a dizer, o que eles pensam, mas ainda assim a última palavra é minha, tá ligado? Eu faço a música, eles só ouviram o meu som porque eu fiz assim, porque eu tomei minhas atitudes e cada passo que eu escolhi. Acredito que as coisas vão ser como tiverem que ser. Eu só faço música, é menos pensado e mais feito. Pensar menos e agir mais. Sentir, viver e fazer música. Aí depois o que vai vir de consequência só Deus sabe. Não existe uma fórmula certa pro sucesso, talvez o Projota dure mais seis meses, ou mais seis anos, ou mais sessenta anos. Não sei. Só vou fazer música e seja o que Deus quiser.

Você é um cara que traz uma bagagem do mundo do rap mais underground que chegou em um lugar de destaque do mainstream. Seu novo DVD tem participação da Anitta, e muita gente critica isso, né? Muita gente tem preconceito com cantoras desse mundo pop. Isso é difícil pra ti?
Não, até porque tem diminuído muito. É incrível, quanto mais o meu trabalho cresce, mais gente conhece ele e, ao invés de aumentar o número de pessoas criticando, tem diminuído. Porque as pessoas começam a entender o projeto. Começam a sacar. Aí eu faço uma música tipo “Portão Do Céu” ou “Moleque de Vila”, que são músicas de mensagem, e em uma semana depois de eu ter lançado já elas tinham mais de um milhão de views. As pessoas começam a entender o projeto e começam a sacar exatamente qual que é o objetivo, onde a gente quer chegar. No fim das contas, também fica quem quer, entende? Eu sou super tranquilo com isso. Sou um cara que ouve de tudo e faço música influenciado por tudo que eu ouço, em tudo que eu vivo, e dentro do rap eu sou um cara que ouve tudo. Ouço de Racionais a Filipe Ret, a Oriente e acho tudo maneiro. Em tudo que você ouvir vai encontrar defeitos e qualidades. No final das contas, é só você ouvir as músicas que te fizerem se sentir bem. Seja feliz, tá ligado? Eu sou assim.

Sim, você equilibra sons mais românticos, como “Ela Só Quer Paz”, com músicas mais pesadas como “Portão do Céu” e “Moleque de Vila”. Mas você tem mais facilidade pra fazer um tipo ou outro de som? Ou tanto faz?
É momento, tá ligado? Tem momento que você tá mais pra um lado, tem hora que tá mais pro outro. E aí o disco reflete mais um ou outro sentimento. Ao longo das minhas mixtapes é nítido isso, teve horas em que tive que falar muito sobre superação porque era exatamente o momento em que eu comecei a viver de música e tava pensando muito nisso. Foi uma mixtape mais pesadona, tava muito revoltado na quebrada. A outra tem um lado um pouco mais leve porque eu tava apaixonado… Então isso é um lance que tem que ser avaliado pela carreira como um todo, acredito eu.

Ouça abaixo as mixtapes Projeção (2010), Não Há Lugar Melhor no Mundo que o Nosso Lugar (2011) e Muita Luz (2013):


Nesse sentido, chama atenção aquela faixa “O Homem Que Não Tinha Nada”, que traz uma sonoridade bem pop, digamos assim, mas com uma crítica social fortíssima.
A ideia era essa! Quando eu compus, quis produzir a música dando pra ela a oportunidade de tocar no rádio. De fato isso aconteceu. Porque, no fim das contas, não é só tocar no rádio, tem que tocar e agradar. As pessoas têm que ouvir do outro lado e se sentir bem porque, se não, sua música dura duas semanas na rádio e sai fora. Então, essa música foi feita na medida certa. Apesar de ela ter essa sonoridade mais pop, como você disse, ela ainda é muito rica. Apesar de radiofônica, ainda é muito rica, muito bem arranjada. Depois, entra a letra que é pra dar um tapa na orelha de cada um que ouve. Acredito que conseguimos o que eu sonhei pra ela, não é à toa que é o sucesso que é. É uma das mais cantadas em todos shows.

Às vezes é difícil de encontrar um conteúdo tão sério dentro dos grandes sucessos do rádio.
É exatamente isso que reflete o que eu estava dizendo pra você. Conforme o tempo passa, as pessoas que criticam começam a entender o projeto. Porque aí você tá lá e solta uma música dessas e põe no rádio pra tocar, e aqui no Brasil, que é tão difícil de tocar uma música desse teor no rádio, por que eu faria isso? Entende? Se eu quisesse eu faria só música romântica e pronto. Tá ligado? Mas não é o meu objetivo, não é com isso que eu sonho. Um grande sonho realizado foi quando eu toquei uma música de mensagem no rádio, tá ligado?

Então teu objetivo é trazer as músicas de mensagem pro mainstream?
É exatamente isso. E espero que eu consiga compor outras dessa forma também.

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11/08/2016

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Ariel Fagundes

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