Rashid lança seu 1º disco e defende: “O rap não precisa ser cru sempre”

11/04/2016

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Divulgação

11/04/2016

Seja na cadência do samba, no caos calculado do jazz ou no flow do rap, cada elemento musical tem sua hora certa para entrar em cena. Rashid entendeu isso e não teve pressa para lançar o seu disco de estreia: A Coragem da Luz (2016).

O álbum saiu bem depois do EP Hora de Acordar (2010), o primeiro lançamento do rapper. De lá para cá, ele já soltou três mixtapes, disco ao vivo com Emicida e Projota e conquistou um público enorme, considerando o contexto do rap independente brasileiro.

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A Coragem da Luz chegou trazendo a poeira das ruas do interior de Minas Gerais, onde Rashid viveu dos 13 aos 17 anos. Chegou também recheado de melodias sofisticadas apoiam as rimas do rapper dando ao ouvinte um estranhamento delicioso semelhante ao que acontece quando se junta uma fatia de queijo minas com goiabada. Com humildade e paciência, Rashid lançou um disco doce e amargo, romântico e político, feito a muitas mãos – incluindo às do Mano Brown, Criolo, Alexandre Carlo, Xênia França e Max de Castro.

Daqui a pouco, o rapper lança seu disco em Porto Alegre (dia 28 de abril tem show no Opinião). Enquanto isso, Rashid conta o pensa sobre o rap nacional de hoje e como compôs esse disco inspirado no Clube da Esquina. Leia abaixo.

A espera pra lançar seu disco foi planejada ou você só seguiu o fluxo de como as coisas aconteceram?
Na verdade, foi um pouco de caso pensado, mas a gente deixou as coisas acontecerem. Conseguimos criar um público dessa forma, soltando músicas na internet, fazendo mixtapes, EPs, conseguimos criar uma agenda e rodar o Brasil fazendo shows desses projetos. Resolvemos usar isso como estudo, foi tipo a nossa faculdade. Usamos esses projetos “menores” pra estudar as possibilidades, conhecer mais gente, trazer mais coisas pra dentro do nosso som… A gente poderia ter começado com o disco, mas acho que foi saudável pra caramba ter feito dessa forma, ter esperado, trabalhado com paciência. Seis anos depois de ter lançado a primeira parada na rua, lançamos o disco e eu acho que, de certa forma, fica clara uma evolução. Ao menos musical.

Você juntou no mesmo disco caras como o Mano Brown, Criolo e o Alexandre, do Natiruts. Como foi trabalhar com eles?
Foram várias aulas. Cada um, com sua bagagem, trouxe muito pro disco. O Alexandre é lá de Brasília e tem outra mente, outra pegada, com essa coisa do reggae e toda uma bagagem. Pô, ele deu muitos conselhos pra nós, se dedicou muito pra fazer o som ficar suficientemente bom pra ele também. Fiquei muito feliz de ver isso da parte dele. Assim como da parte do Mano Brown e do Max de Castro. Essa música com eles nasceu com a gente trocando ideia, um processo criativo totalmente diferente do meu. Com o Criolo também, ele ouviu a parada e começou a improvisar em cima e, a partir disso, é que a música foi nascendo. O Criolo que deu o tema da música em que ele participa. O tema da música do Brown e do Max foi eu quem dei, mas o nome foram eles. É muito louco ver que os caras abraçaram o projeto!

Seu disco faz um resgate seu passado em Minas Gerais. Como essa ter morado lá te mudou como pessoa e por que você resolveu trazer isso pro disco?
Fui pra Minas numa época de formação de caráter e personalidade. Dos 13 aos 17, você é uma esponja de influências. Bem nesse tempo, acabei indo pra lá e foi bom pra caramba, na real. Porque fui parar na região bem interiorana, com rua de terra e tudo mais. E o pessoal de lá, sem palavras, é muito hospitaleiro. Tem uma certa pureza, rola uma relação mais crua entre as pessoas. Isso é bem louco, e é uma coisa que eu quero que meu som passe. Eu faço rap, uma música completamente urbana, mas quero que meu som passe essa pureza de sentimento. Acho que é isso que constrói a música das pessoas que eu tenho como ídolos. Essa aura que eu vejo no Bob Marley, que eu vejo no Djavan, eu também quero que as pessoas vejam no meu som! Por isso que eu resolvi trazer isso agora. Mas também pelo choque. Você fala de rap e as pessoas imaginam Nova Iorque, imaginam o Brooklin, imaginam grafites, imaginam carros… E eu quis trazer esse choque de realidade. Eu cresci no interior de Minas e tem gente lá que é muito mais rap do que as pessoas da cidade grande. O Brasil é isso aí, mano. O Brasil tem essa diversidade de universos. Além disso, teve uma forte influência do Clube da Esquina, do Milton Nascimento e do Lô Borges. O primeiro disco deles tem um som que eu considero muito característico dos caras, e eu queria que meu disco soasse assim e tivesse essa energia. A história do Milton tem uns pontos de encontro com a minha. Um cara que nasceu em outro lugar mas foi pra Minas, gosta de ser chamado de mineiro… Ele foi pra Três Pontas, que foi a cidade em que a minha vó cresceu. Esses pontos serviram de influência tanto pro projeto visual do disco quanto pra sonoridade também.

Realmente, dá pra ouvir essa procura no seu disco. E é muito interessante mexer nessas visões generalistas, tipo “Minas é terra de música regional”.
É, porque não é só isso, né? São Paulo virou a terra do sertanejo, né mano? Tô mostrando que Minas também tem rap pra caramba.

Seu disco traz todo um leque de referências, do samba ao jazz. Você vê nessa mistura toda um caminho pro rap nacional seguir pra que o gênero não fique limitado ao seu próprio universo?
Sim, com certeza. O Brasil é muito diverso, em tudo. Nos tons musicais, nos tons de pele, nos tons de inteligência e ignorância. O rap traz todo um compromisso com a realidade, então não dá pra eu ser um artista de rap brasileiro e fugir dessa verdade que é tão gritante. Se sair na rua agora, vou encontrar diversos universos, um cara ouvindo arrocha, outro ouvindo metal, outro ouvindo reggae… No meu disco, o rap manda. Isso é óbvio, o que eu sei fazer é rima, é uma bandeira que eu carrego, é uma parada que eu vou levar sempre, é o rap que mudou minha vida. Mas eu acho que o rap brasileiro não precisa ser cru sempre, reto pra caramba como algumas pessoas imaginam que ele é. Muito pelo contrário. A gente tem que sempre estar atento pra outras coisas. No nosso disco, a intenção é simplesmente não parecer forçado. Não quero que as pessoas digam: “ah, o Rashid misturou ISSO aqui, tentou misturar AQUILO ali”. Não, mano. É um disco de rap brasileiro e você vai sentir as influências do jazz e do samba, como você falou, mas você sabe que é um disco de rap. É isso que eu quero.

O rap nacional, cada vez mais, vem incorporando sonoridades da música popular brasileira e isso me parece uma evolução do gênero como um todo, já que ele vai ficando cada vez mais diverso. Mas isso acontece lado a lado com um outro processo, o de aceitação do rap como algo cada vez menos marginalizado, sendo visto como uma expressão musical legítima do Brasil que tem uma expressão mais underground e outra mais mainstream, sem que uma coisa negue a outra. Como você vê essas duas tendências?
Acho que é uma evolução mesmo. A questão é a seguinte: por muitos anos, o rap nacional se pautou pelo que o rap norte-americano fazia. Só que a gente começou a se ligar que, quem gosta de rap gringo vai escutar rap gringo! Tá ligado? Não importa quão parecido você seja, o cara vai preferir o rapper gringo. Assim como os caras de lá absorveram a essência da música deles pra dentro do rap, a gente tem que aprender a fazer isso com a nossa. A gente tem que deixar de se pautar só pelos gringos e começar a olhar pro nosso redor. Os movimentos, sabe? É Clube da Esquina, Tropicália, tanta coisa que rolou aqui, Jovem Guarda, bossa, partido alto, funk… Temos que ver as coisas que rolaram aqui e revolucionaram a música e trazer isso pro nosso som. Nem significa que você necessariamente vai colocar isso dentro da sua música, você pode simplesmente reconhecer que você faz parte desse universo. Não adianta querer brigar e falar que você não tem público se você não souber se comunicar com as pessoas. Acho que o rap vem passando por esse momento. Os grandes artistas brasileiros que apareceram nos últimos tempos com grandes discos de rap, que também foram grandes discos de música brasileira, tiveram essa percepção, essa sensibilidade de trazer outras coisas pra dentro da música. Deixar a parada crescer, o som florescer mesmo como tem que florescer. A gente tá no Brasil, cara. É o melhor lugar pra isso. A terra mais fértil pra música florescer rica é aqui onde a gente tá. Nós temos plantado essa semente há muitos anos. É hora de deixar a árvore crescer de verdade e dar os frutos dela. Desses frutos, saem os discos do Criolo, do Emicida, do Rael, o disco solo do Mano Brown também, que parece que vai ser recheado de soul e música negra. Assim como o disco do Rashid também. Acho que esse é o caminho mesmo. Esse é o legítimo rap brasileiro. Não tem muito segredo. É só abrir os olhos mesmo.

Você faz parte de uma geração que conquistou um certo sucesso sendo independente. Rolam muitas críticas por causa do sucesso?
Ah, claro. Já rolou uns bagulhos engraçados. Os caras falam que a gente é illuminati, né, porque não é possível conquistar essas coisas. Como se fosse tanta coisa assim… Tem gente aí que trabalha muito menos e chega em lugares que a gente tem muita dificuldade pra chegar. Mas tem um pessoal que não concorda, não gosta, e vem sempre com a questão do “vendido”, que é tipo uma lenda urbana que circula em volta dessas músicas que têm um ideal muito forte. Sempre tem a questão: “ah, o cara se vendeu!”. Mas na real, é natural… Sempre vai surgir. As pessoas às vezes estão distantes, não sabem o que a gente faz, como a gente trabalha, enfim. Não dá pra se estressar com isso, na real é até um bom sinal. Se tem gente que não gosta, tem muito mais gente que gosta. Geralmente a proporção é assim.

Até porque o público do rap é uma galera que cobra.
Sim. O público do rap é muito exigente mesmo. E, como todo ser humano, às vezes não tem a paciência de esperar pra ver o que o cara vai fazer antes de falar alguma coisa, tem gente que prefere já sair falando. Mas é só dar tempo ao tempo. O tempo diz que tipo de artista você vai se tornar, o público que vai permanecer com você e vai te seguir durante anos. Uma carreira é isso: tempo.

Você é um cara que faz tanto sons mais ligados a uma denúncia social quanto com uma pegada mais romântica, por exemplo. Existe uma certa rixa entre essas duas vertentes do rap?
Acho que isso é mais uma parada da cabeça do público mesmo. Embora já existissem raps falando de relacionamentos nas gerações anteriores, não era tão comum. Acho que hoje em dia é mais comum esse tipo de rap e acho que os fãs mais tradicionais não gostam muito desse tipo de som, sentem que o rap não foi feito pra isso. Mas a minha visão é de que o rap tem um compromisso com a verdade, mano. Se tem esse compromisso com a realidade, então vamos na realidade! A vida de todo mundo é formada por várias paradas: amor, ódio, tristeza, felicidade, política, não-política. A vida tem vários momentos, é bacana a gente poder ser livre pra trazer todos esses momentos pra música.

Ficar colocando limites na arte é complicado.
Complicado. Aí eu vou limitar minha pessoa. Porque minha arte me reflete, mano. Se eu limitar minha arte, estou me limitando.

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11/04/2016

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes