Entrevista | De volta à Zâmbia, Sampa the Great reinventa sua música

03/08/2022

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Barun Chatterjee/Divulgação

03/08/2022

Quando Sampa Tembo nasceu, em 9 de agosto de 1993, seu país natal, a Zâmbia, vivia um conturbado contexto político e econômico. Ainda criança, ela deixou Ndola, a terceira maior cidade do país, para viver com sua família em Botsuana e lá, aos nove anos de idade, teve suas primeiras aulas de canto e começou a escrever seus primeiros poemas. Também foi lá, quando estava terminando o colégio, que ela conheceu o rap e o machismo na música, pois seus colegas de escola disseram a ela que uma menina não poderia ser rapper. 

Não demorou para ela mostrar como eles estavam errados. Após morar um período nos Estados Unidos durante sua adolescência, Sampa mudou-se para a Austrália, onde virou uma estrela. Mesmo enfrentando uma estrutura social racista e o sentimento de se sentir em êxodo, ela virou uma das maiores artistas do país. O nome que escolheu, Sampa The Great, poderia soar como uma promessa, mas o tempo revelou que ele não poderia ser mais apropriado. Desde seu primeiro lançamento, The Great Mixtape (2015), ficou evidente a grandiosidade de sua música, a força de suas letras e o impacto do seu flow. Nos anos seguintes, com a mixtape Birds and the BEE9 (2017) e o álbum The Return (2019), Sampa foi consagrada. Esses dois lançamentos fizeram dela a primeira artista a ganhar duas vezes o prestigiado Australian Music Prize. 

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Com a chegada da pandemia, Sampa deixou a Austrália e voltou para a Zâmbia, em um processo que mexeu profundamente com sua criação. “Parecia o momento de fechamento de um ciclo voltar para onde o meu sonho começou”, diz em entrevista à NOIZE. Em sua terra natal, ela concebeu seu novo álbum, As Above, So Below, um verdadeiro mergulho em diferentes expressões culturais do continente africano, do Zamrock dos anos 1970 à música contemporânea de Botsuana.

E há uma dimensão profunda de sentidos no novo trabalho da artista. O preceito hermético “O que está no alto é como o que está embaixo” (imortalizado na MPB por Jorge Ben Jor) e a oração do Pai Nosso (“Assim na Terra como no Céu”) lembram muito o título do novo disco [“Como acima, assim abaixo”], sugerindo uma busca de síntese estética, mas também emocional e espiritual. Na música “Final Form”, em 2019, Sampa já havia cantado: “Last name Tembo / First name Eve / Somebody ate the fruit / They told The Great to never eat” [Último nome Tembo / Primeiro nome Eva / Alguém comeu a fruta / Disseram para The Great nunca comer”]. Agora, em seu novo álbum, a figura de Eva retorna ganhando protagonismo, como uma versão da própria Sampa, conectada a uma matriz maternal ancestral, mas também apontando para o futuro. “Foi dela que vocês vieram”, diz a artista já nos primeiros segundos do vídeo de “Never Forget”.

Além dessa faixa, já saíram outros dois singles do novo álbum, “Bona” e “Lane”. Angélique Kidjo, W.I.T.C.H, Joey Bada$$, Kojey Radical e Denzel Curry estão presentes como convidados As Above, So Below, que será lançado no dia 9 de setembro.

Pouco antes disso, Sampa The Great se apresentará pela primeira vez no Brasil. No dia 17 de agosto, ela toca na Audio, em São Paulo, e dia 18, no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em duas apresentações promovidas pela plataforma Queremos (os ingressos estão à venda aqui e aqui). Conversamos por e-mail com a artista sobre sua vinda ao país e o disco novo que vem aí, confira abaixo.

Oi Sampa, obrigado por esta conversa. Primeiro, como você se sente vindo ao Brasil pela primeira vez? O que pode dizer sobre os shows que fará em São Paulo e no Rio?

Estou extremamente intrigada com a conexão espiritual do Brasil com a África. Conhecer suas fortes conexões com a cultura africana e a espiritualidade original me deixa animada para visitar e experimentar isso por mim mesma! Nosso show é focado em hip hop de alta energia e dança africana – mal posso esperar para apresentar ao público minha música.

O público brasileiro terá a chance de ver The Return (2019) ao vivo, certo? E você saiu da Austrália durante a pandemia, retornando a sua terra natal, a Zâmbia, como foi a sensação de realmente retornar para casa?

Parecia o momento de fechamento de um ciclo voltar para onde o meu sonho começou, fazendo essa jornada e a minha carreira valerem muito a pena. Eu me sinto mais em paz também.

Que impacto você sente que você e sua geração de artistas de hip-hop tiveram na cena musical australiana?

Abrimos a porta para artistas negros mais jovens na Austrália se expressarem mais livremente – é uma luta longa e difícil que continua.

Hoje, temos artistas africanos como Burna Boy, Wizkid e você, alcançando o mainstream, talvez em uma proporção como nunca antes houve. Como você vê esse processo? Que ganhos e que riscos estão em jogo para as culturas de países como a Zâmbia e a Nigéria, por exemplo?

É incrível para o mundo saber e ouvir o que sempre existiu aqui no continente. É importante que o mundo permita que os africanos contem a história da nossa música, e igualmente importante que eles saibam que a música africana não é um ou dois estilos e não pode ser agrupada em um gênero.

Como você acha que a arte e a música podem contribuir para tornar o mundo mais igualitário?

A música é uma linguagem que o mundo inteiro fala. Independente de onde viemos. Sua influência é aparente em tudo o que fazemos e em todos os lugares que vamos. A música está em tudo!

Seus últimos singles reverenciam diferentes expressões artísticas do continente. “Never Forget”, é uma homenagem ao Zamrock, que foi tão importante para a Zâmbia. Já “Bona” referencia a música de Botsuana, onde você cresceu. E você tem tocado com uma banda de apoio formada só por músicos zambianos, e seu próximo álbum também contará com Angelique Kidjo e W.I.T.C.H, além de Joey Bada$$, Kojey Radical e Denzel Curry. Você pode contar um pouco sobre As Above, So Below?

As Above, So Below é o meu álbum mais transparente até hoje, onde conectei todas as minhas influências em um só projeto e reinventei o que essa música é para mim. Eu chamo isso de música híbrida. São todas as minhas influências, de todas as esferas da vida, com todos os gêneros, se encontrando.

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Eu quero perguntar sobre Eve, essa figura que você trouxe já na letra de “Final Form” e que está ganhando protagonismo no seu novo álbum. Você disse no Instagram que “não era fácil ver as feridas da sua feminilidade”, mas esse processo era “um elemento de crescimento muito necessário”. O continente africano é como a mãe de toda a humanidade, de onde todos viemos, e aqui você está evocando essa figura mitológica da “primeira mulher”, mas olhando para o futuro ao mesmo tempo. Quem é a sua Eva e o que ela tem a dizer ao mundo?

Eve é o meu eu futuro, que eu imaginei, mas manifestado no agora. A mulher que eu sempre quis ser, mas alcançada no presente. Ela não é um alter ego ou persona, mas sim eu e a mulher que eu queria ser – confiante, mais corajosa, mais sexy, mais inteligente e aceitando a si mesma.

Quero perguntar sobre o lado visual do seu trabalho. Sua música é muito visual, vídeos como “Lane” ou o curta The Return exploram muito bem isso. Como você vê essa conexão entre o som e uma obra audiovisual?

Sou uma artista e contadora de histórias, sejam musicais ou visuais. Para mim, as histórias não terminam apenas com a música e sempre podem continuar no reino visual.

Você tem uma última mensagem para o Brasil?

Mal posso esperar para conhecer o Brasil e para o Brasil me conhecer! ❤️

Para ingressos e mais informações sobre os shows de Sampa the Great em São Paulo e no Rio, aqui e aqui.

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03/08/2022

Editor - Revista NOIZE // NOIZE Record Club // noize.com.br
Ariel Fagundes

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