Exclusivo| Conheça Marcelulose, produtor assina mix sob medida para Noize

11/09/2019

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Diogo Vaz

11/09/2019

Marcelulose é o projeto do produtor, dj e articulador sonoro e cultural Marcelo Silva. Inserido na nova cena de produtores de música eletrônica, Marcelo é fechamento no circuito undergorund de Porto Alegre. No meio eletrônico, o produtor surgiu como uma parte do duo Banku, que criou com a ex-namorada Luísa Muccilo, em 2016. Seu primeiro single como marcelulose saiu pela Zona e seu primeiro EP foi lançado pela Gomarec. Figura frequente no front das festas deste circuito, alcançou um ápice recentemente ao ouvir uma de suas músicas no potente sistema de som da histórica e maior edição da Base Poa até aqui. 

Para a 4ª mix da série LabXP mix’s, o produtor entrega um recorte atual de sua pesquisa, com destaque para contemporâneos e companheiros de dia a dia. Ele mixa músicas suas, como marcelulose e como Em Sônia, com nomes como RHR, Pianki, Vírgula, Fritzzo, DJ Mtn9090 e Marcus Felix. Uma hora de break electro cremoso. Ouça abaixo e leia a conversa com o artista:

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Natural de São Leopoldo e morador de Canoas, na grande Porto Alegre, Marcelo se mantém em movimento a partir do raio dos trilhos do trem. Autoditada e aficcionado por música, compõe sobre os ruídos na circulação pelas cidades da região metropolitana. No próximo sábado, o produtor se apresenta na Goma #8 , festa que celebra os lançamentos do primeiro semestre do selo de Porto Alegre. Compõe o line up ao lado de marcelulose, Tha_guts e Technovinho, além das residentes da Goma, Nalu e Deborah Blank. Mais informações goma-te aqui

Dedicado às técnicas de mixagem e masterização, Marcelo participa na articulação do Raio X. O projeto reúne produtorxs que disponibilizam músicas autorais em boa qualidade para download gratuito. Formado por nomes ativos no cenário, que assinam com um álias, distanciando o hype em torno do ser artista para a biblioteca. A ação rende. Enquanto muitxs aguarda-va-m o álbum de estréia da cantora e produtora Saskia, ela liberou em março pela biblioteca três produções suas sob o álias Vírgula. E é como Vírgula que a produtora apresenta um remix no EP de estréia de marcelulose, além de assinar uma composição em parceria com Marcelo. 

Leia abaixo nosso papo com ele:

Tem alguma música/artista que você pensou em colocar de qualquer jeito na mix que nos apresenta? Por ser essencial por estar na tua pesquisa atual ou por relação pessoal mesmo?

O Pianki. Qualquer mix que eu fizer, se for um ensaio, por exemplo, eu procuro botar uma track dele. Então eu vou variando. A referência que eu tenho com o som dele e com o momento também. Desde as últimas experiências que tive em festas, com a Turmalina, que foram muito marcantes e representam muito o momento atual pra mim e da minha relação/expectativa com festas e coletivos. Em compartilhar um espaço em que eu me sinta à vontade e sinta um ambiente de comunidade. Ele é uma das pessoas indispensáveis pra pensar uma mix. A Sal também, tanto como Vírgula quanto como Saskia. O Martinelli também, que eu tenho mantido nos planos dos últimos meses e está bem presente nas mixes.  Eu foquei mais em artistas nacionais e principalmente locais e de contextos independentes. Minha pesquisa é muito focada em bibliotecas e selos que liberam o free download. Então tá um pouco no meio. Tanto as tracks do Léo eu peguei em free download, como as da Vírgula. Tá na rede pra quem quiser baixar. E isso seria uma vantagem até, tanto como uma inspiração daí no âmbito de produção.  

Sobre o Raio X, noto a organização, sem ter uma referência da criação do projeto. Queria que falasse um pouco sobre este trabalho. 

Eu acho que o Raio X é mais uma biblioteca do que um selo. Se presta a disponibilizar materiais em free download, tem um ponto muito interessante que a persona do artista não aposta. Tu baixa o som mas não é impressionado por um perfil artístico ou pessoa física conhecida. O que eu acho bem interessante para um ambiente independente, numa visão de não ver o resultado como um trabalho e sim como uma manifestação artística. O lance é mais não expor quem faz e sim o que está acontecendo. Eu uso a biblioteca e “secretamente” ajudo na organização, curadoria e masterização das músicas dos artistas que estão envolvidos; pois tem a ver com a minha pesquisa, na limitação de ter que baixar as músicas de graça e priorizar aquelas com qualidade boa. E são geralmente por meios assim que eu consigo baixar em qualidade boa, em mp3 de 320kbs ou em wav. Então o Raio X se enquadra muito nisso para mim. 

Quando começou a produzir?

Como pessoa em meados de 2013, 2014. Só que eu não produzia direto música eletrônica. Já tinha um sintetizador e tocava teclado mas ia para um lado de rock experimental psicodélico. Já tinha algumas piras eletrônicas, mas também não usava o Ableton. Usava um software de captação. Com o tempo eu fui afundando na música eletrônica e eu quis focar mesmo. Em 2016 eu comecei um curso de dj, e comecei a estudar de fato e foi então quando segui fazendo só música eletrônica. Antes era mais como um hobbie. Então fui me aprimorando e vi que estava progredindo nisso, comecei a sentir que estava produzindo de fato. Eu estava amando. Eu era um amador. Eu amo o que eu faço. Então dá pra botar 2014. Como Marcelulose foi em 2017. Antes disso teve os trabalhos com a Banku.

Fale um pouco sobre esse período?


Foi um projeto que me amadureceu muito. No sentido de conseguir fazer músicas em que eu conseguia extrair um sentimento. E isso foi muito importante porque a produção era muito sampleada. Desde som de orquestra ou de baixar o som de um instrumento aleatório no Youtube, sem se importar com a qualidade e sim no sentimento que a gente queria passar. Foi muito importante também porque foi quando eu comecei a participar de eventos, principalmente pra pegar experiência de tocar em lugares. Eu tinha experiência de tocar no palco com banda de rock, mas é diferente de uma pista. É outra relação. É bem mais ligado a performance pra pista. A comunicação de tocar pra uma pista é bem mais intensa. Eu sinto que tu se comunica mais forte, o artista ou performer. Em uma apresentação banda eu não recebo muito, eu só jogo. Também, por tu estar se comunicando com a pista, mas ninguém está usando palavras. A música que está fazendo essa ponte, essa expressão. Algo que acabo vendo quando estou produzindo ou tocando, onde eu me expresso por movimentos e sentimentos sem usar nenhuma palavra. 

Fazíamos apenas live act. E isso foi um processo muito forte. A última apresentação foi ano passado, na Solaris (projeto da Cerne). Em seguida a Luísa foi se apertando com o TCC e focando mais na faculdade e na carreira de escritora. Ficou em aberto, pra quando tiver a possibilidade a gente fazer um som.

Sobre o TUE, pela Goma, como foi o convite e o processo de criação?

Ah, o EP da Goma foi muito doido fazer. Até porque antes da Goma me contatar eu já tinha como referência de estética sonora do selo e até fazia sons usando tracks que haviam sido lançadas pela Goma como referência. Tipo, de botar no software e desmembrar ela. Eu já fazia isso. Daí rolou o contato de fazer o EP e eu pensei ‘que doido isso’. Só que essas tracks que eu tinha referenciado não foram as que saíram. Porque de última hora mudei tudo. O EP da Goma surgiu em mais ou menos uma semana e meia. Foi bem hard. Até o último dia a Saskia estava lá em casa e a gente tava finalizando o remix dela. Ela só terminou, eu exportei as tracks e mandei. Foi um processo bem louco de que eu mudei as ferramentas que costumava produzir, os plugins e em pouco tempo tive que aprender os novos. Foi um momento de transformação no meu som. Eu senti que tinha que fazer algo mais cru, que me tivesse mais ali, mais cruamente. 

O que tem cru do Marcelo ali?

Tem toda a absorvição da zona metropolitana. Morei em muitas cidades: Canoas diversas vezes, São Leopoldo diversas vezes, fui indo e vindo. Morei em Novo Hamburgo também. E nesse processo todo eu peguei muito trem em boa parte da minha vida. E gostava muito de fazer longas viagens pra ouvir música. Uma época, pegava o trem em São Leo que, era a última estação ainda, até a Estação Mercado(em Porto Alegre), um rolezão. Eu podia curtir boa parte do show do Hendrix no Woodstock. E eu me emocionei muitas vezes no trem ouvindo. Então me colocar mais cruamente é sobre o reflexo de eu gostar muito de absorver os ruídos urbanos. Apesar de que eles são um tormento para as nossas vidas e podem causar muito estresse, eu uso isso como força e transmuto. Porque o meu processo de produção também se baseia muito no erro. Eu gosto de imaginar erros na minha cabeça. Desde erro glitch, eletrônico ou algum ressentimento. Eu gosto de botar uma carga pesada, porque isso eu jogo pra fora e tiro aquilo do estômago. Então os ruídos da cidade são algo muito presentes em mim e sentia que o que eu tava produzindo até então, não estava fiel a isso. Então eu senti a necessidade, de ultima hora, de mudar. Então fiz tudo do zero. Outras músicas, tudo novo, mexendo em novas ferramentas. 

Também, o EP foi quando eu me aproximei mais da Sal e a gente começou a produzir coisas sem intenção nenhuma. Não existia uma proposta/intenção pra ela de fazer algum remix, aconteceu. Eu me sento muito influenciado pela forma que ela produz, tão cruamente também. Me identifico na expressão que ela também gosta de improvisar muito. Ela é muito jamzera e eu vi que podia fazer algo assim também. Sem tentar enquadrar o meu som em alguns padrões de técnica, sabe? O improviso tem muito isso. O erro as vezes fica legal, tu vai contornando.

Como estão os trabalhos agora?

Nas últimas semanas eu tenho focado mais em praticar. Também tô focando muito em estudar masterização. E me ocupa muito os freelas que eu faço de masterização, que tenho feito pra Goma e para produtores iniciantes de Canoas.

E sempre intercalando. Principalmente pra master, que precisa de um volume mais alto. Então a partir do início da noite eu foco em pesquisar. E depois de tudo isso tem o treino de dj que eu gosto de praticar bastante. Principalmente no lance de abrir a minha biblioteca de música e ir. Antes eu seguia muito coisas tonais, mixando som, seguir uma métrica de bpm, não ousar. E agora tenho quebrado um pouco isso, o que me estimula a tocar. As vezes a música pode não ser tão tonalmente “mixável”, só que elas tão se combinando.  

Quando chegou no rolê de música eletrônica?

Tinha uma banda de rock com alguns amigos e um deles fez um curso de produção eletrônica, e me ensinou. Como eu tocava sintetizador foi uma passagem natural. Pra mim foi o alcance de liberdade máxima que eu consegui chegar dentro da música. Rompi todas as barreiras. Com a música eletrônica eu posso ir de um samba pra uma pira noise. Com o que o meu amigo me ensinou do ableton em seguida eu fiz um curso de dj e comecei a idealizar uma apresentação em formato dj set. 

Teve um fato muito engraçado, que eu vendi uma guitarra pra ir em uma rave. E eu nem escutava tanto música eletrônica. Ouvia algumas bandas de música eletrônica e gostava muito de Kraftwerk. Meu irmão ia nessas festas. E eu tinha muita referência nele. Ele ouvia de tudo desde um Pink Floyd comigo e quando vê a gente ouvia um rap. E um dia ele chegou com uns psytrance. Naquela época, com quatorze anos, ouvi psytrance e gostei e fiquei com a referência. Então anos depois, já com 18, eu pilhei ir na rave porque iria tocar Sesto Sento. E fui na festa. Só que eu fiquei muito abalado e foi uma experiência meio traumática. Nem o Sesto Sento eu consegui apreciar tanto. 

Nossa, que ruim. 

Mas eu gostei de dançar. Que na época eu não tinha muito o costume, era tímido. E lá eu tive uma experiência massa de dança, de ficar muito tempo dançando, isso foi legal. Mas eu me traumatizei com a experiência, o público, a comunidade e a exposição comercial. Parecia muito um ambiente chique onde o capitalismo chegou ao máximo e se apoderou totalmente. Até na arte. Senti uma energia pesada. Depois disso, já quando eu comecei o curso de dj, as festas que eu tocava basicamente eram festas de amigos. 

Então eu fui em uma Cerne lá no Aeromóvel [no centro de Porto Alegre]. E isso foi uma das melhores experiências que eu tive com festas. Principalmente por ser na rua. Sempre dei muito rolê na rua. Morando em São Leopoldo eu ia pra canoas dar rolê em praça, saca? Então na Cerne foi muito isso. Já consegui sentir a ligação de ocupar o espaço público que ao mesmo tempo que entretém pode ser um ato político. Ver a Kika tocar foi incrível, foi a minha primeira dj. Ali eu tive certeza, ‘quero ser dj’. Também foi a primeira vez que eu vi a Saskia. E eu comecei a ficar chocado com músicas quebradas, dando ênfase no ritmo. Esse rolê já foi bom pra conhecer algumas pessoas. Primeira vez que falei com a Kika. Conheci o Iago, o Ernesto. A partir da Cerne comecei a focar e ir em festas de rua, que é onde eu sinto uma experiência mais verdadeira, onde me toca mesmo. 

Já conhecia a Arruaça, pois havia tocado com a Paquetá, uma banda com alguns amigos de Canoas. Mas a Arruaça ainda não era eletrônica. E logo que teve essa Cerne, começaram a ter as Arruaça eletrônicas. E passei a frequentar bastante. Lembro que depois de ver a Kika na Cerne, fiquei encucado com o som dela, e vi que ela ia tocar em uma Goma. Foi a edição que teve a Érica, que ao conhecer passei a me interessar por live. Da Arruaça veio o link pra Base.

O surgimento da Plano me marcou muito também, porque começou a abrir mais a estética sonora, que era algo que eu sentia necessidade. Então são esses rolês que foram me moldando, entendimento de pista, de sentir o ambiente, principalmente os ambientes com senso de comunidade. 

Pegando nos rolês essa influência não só para compor, mas para ser/estar, foi intensa a experiência de ouvir o som na Base, certo?

Eu fiquei em choque mesmo. Poxa, e foi a primeira vez que eu ouvi a minha música num PA tão bom e eram vários PAs. Principalmente sendo a Déborah e a Kika tocando, então a minha cabeça deu um nó, foi muito especial. Pra guardar na memória pra sempre. Isso motiva muito. Pra continuar e produzir mais. Me inspirou bastante, esse link de pessoas que eu tinha como referência e apreciava muito o trabalho e de repente algo que eu fiz está ali no meio. Um ponto bem crucial, uma relação que eu ainda não tinha tido com a música. Com meu próprio manifesto artístico. 

Foi muito massa também em uma Greta em que a Fritzzo tocou uma música minha. Foi a primeira vez que alguém tocou uma música minha. Um lance muito louco, tu estar em uma festa e ouvir a tua música. Cheguei a duvidar. Faziam poucos dias que tinha jogado no Bandcamp e nem divulguei muito.

As festas me inspiram muito. Acontece de eu chegar em casa e abrir o ableton. Tanto da energia da festa, quanto o que eu ouvi. Sinto muito potencial nos djs que eu ouço aqui. E sei que é algo muito bom. Não preciso nem me concentrar e aquilo me influencia, me toca.

Tracklist LabXP mix’ #04, por Marcelulose:

Delta Funktionen – Hex [CE026]
Em Sônia – Obsoleto [RAIX002]
Junq – From Below [CE002]
Years of Denial – Love Comes And Goes [PBD18]
rHr – Quebrada 
marcelulose – Carcerage  (Vírgula Remix) [Goma.Rec]
M-Twelve – Time (Transparent Sound Remix) [Electrix011]
Em Sônia – Algo Ritmo [RAIX002]
DJ Mtn9090  – █  
Fritzzo – Greta 
marcelulose – Último Vagão [Goma.Rec]
Pianki – Breks EP005 [ZONAᴇxᴘ]
marcelulose – Desembarque [Goma.Rec]
Marcus Felix – NYSCREAM [Unreleased]
DJ Swagger – Atter Action (DJ Gunfumble Fuckup) [E-BEAMZ014]
Vírgula – Chocolate Alaranjado [Unreleased]

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11/09/2019

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural. Colabora pontualmente com a NOIZE (s.brunobarros@gmail.com)
Bruno Barros

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