Exclusivo | O ritmo e a poesia de Nenhuma Unidade Máxima Absoluta

02/05/2019

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Divulgação

02/05/2019

Ainda que seja idealizado pelo músico Ettore Sanfelice, o Nenhuma Unidade Máxima Absoluta (NUMA) é um projeto feito de tramas de afeto entre vários artistas em torno de temas instrumentais e de canção. Inicialmente pensado como algo solo, ao ver mãos, mentes e vozes trabalhando a partir de uma proposição sua, o músico acabou se identificando mais com a direção de um trabalho coletivo.

No total, 15 pessoas participam do registro, fora o idealizador. Gravado no estúdio Casona, em Porto Alegre, o disco de estreia, NUMA, conta com produção musical de Ettore e Bernard Simon Barbosa, responsável também pela captação, mixagem e masterização do trabalho. Ouça abaixo o lançamento do selo Tronco com exclusividade na NOIZE.

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Em NUMA as composições de Ettore são atravessadas pela voz, o discurso e a fé das mulheres negras. As pessoas envolvidas são muitas coisas, mas nesse caso podemos identificá-las como atrizes e performers da área artística e da vida real que são. Do Grupo Pretagô de teatro vieram Camila Falcão, Silvana Rodrigues, Manuela Miranda, além da dona de tudo Kyky Rodrigues. Esposa e companheira de Ettore, Kyky trouxe para o projeto sua irmã, a atriz Kaya Rodrigues, e Camila Camargo com quem o casal compartilhou moradia e vivências.

Essas vozes dão um sentido novo ao trabalho àqueles que acompanhavam o músico em sua carreira até então. O artista hoje está baseado na Austrália e as músicas do NUMA foram gravadas aos 45’ antes de sua partida para cidade de Melbourne. Mas, antes da mudança, Ettore participava de vários projetos instrumentais como a Trabalhos Espaciais Manuais, o Òséètúrá Africa’njazz e o OMSA, o que naturalmente lhe garantiu alguma audiência nos meios jazzísticos.

Bastidores da gravação do álbum


Ao lançar seus temas como base às vozes dessas mulheres, o artista desloca o olhar do seu público primeiro ao mesmo tempo em que encontra novos, ao amplificar questionamentos a cerca de discursos urgentes, como abordado dentro do jogo poético de Silvana Rodrigues na visceral “Elo de Ferro”. E, de certo modo, também ao ‘simples’ fato de ser/estar na presença de Camila Falcão no tema de amor fuckin’soul rasgante “Ânima”. Artista ativa, além do Grupo Pretagô Camila atua em frentes como Bloco da Laje e bloco Turucutá, em Porto Alegre. Se considerada sua potência, me parece que ela poderia circular ainda mais e o trabalho no NUMA, que traz sua primeira gravação, aponta para isso.

De um poema de amor escrito por Kyky, surgiu a música “Oxumaré”, que encerra o disco em um solo de ilu e agê pelo ogã Dih Neques. Em canto, estão presentes as vozes da própria Kyky e de Kaya, Manuela e Camila Camargo. Foi com Kyky que Ettore dividiu parte da produção deste projeto, na organização dos tempos e demandas das participantes. Ela é também responsável por parte da consciência de ser, de estar, de fala e de escuta do músico.

Contracapa de NUMA

Abaixo, cinco perguntas para Ettore Sanfelice para você entrar no projeto:

Qual motivação para criação deste trabalho?
Inicialmente NUMA era um projeto de banda, onde o objetivo seria ter um repertório formado por canções (de diferentes gêneros) e músicas instrumentais. Uma parte da idéia de Nenhuma Unidade Máxima Absoluta seria a de não ser um projeto de jazz ou música instrumental ou de canções autorais, mas tudo isso ao mesmo tempo. Apesar de ir compondo um material com essa idéia em mente eu acabei nunca tendo o tempo de encontrar e unir as pessoas para concretizá-lo. No final de 2017, conheci o Bernard [Simon Barbosa] quando gravamos o segundo CD do OMSA (ainda inédito). Antes de deixar o país em abril de 2018 ,ao juntar forças e idéias com Bernard e toda a equipe do Casona, que viria a se tornar o selo Tronco, acabei resolvendo gravar o disco NUMA, que acabou juntando uma equipe muito talentosa que potencializou e até mudou o rumo de muitas das minhas composições.

As músicas são todas composições tuas? Quando foram compostas?
São todas composições minhas, alguns materiais de 2016 e outros que finalizei mais próximo à gravação. A track “Oxumarê” é a mais difícil de dizer que é uma composição minha, pois a poesia é da Kyky Rodrigues e o arranjo da percussão é do Diih Neques. Apenas a melodia da voz é minha, inicialmente a idéia era a música ser uma mistura de samba-groove com uma segunda parte com uma pegada mais afrobeat. Bernard deu a sugestão de fazermos apenas vozes e percussão e eu acabei gostando da idéia. Chamamos a Kaya, Manu, Camila e Kyky para cantarem e o Ivez Mizoguchi fez um aquecimento vocal com elas antes da gravação, não fiz nenhum arranjo de vozes para elas, apenas cantamos a melodia principal várias vezes e na hora da gravação a idéia foi elas cantarem totalmente livres. Pessoalmente, adorei o resultado. Fico muito feliz em ouvir uma música soando de uma maneira em que eu sozinho jamais chegaria a um resultado semelhante.

Como foi abrir o processo de composição para outras parceiras e parceiros que participam deste trabalho?
Maravilhoso! Não só pelo resultado final, mas o processo compositivo em parceria fluiu muito bem. A primeira pessoa que sentou pra trabalhar comigo foi a Camila Falcão, lembro de sentarmos na frente do piano por volta das 19hs. A Camila leu alguns escritos dela pra mim e eu li alguns meus pra ela. Eu tinha um tema de sax escrito para um groove de piano com uma intro cheia de acordes. A Camila meio que imediatamente surfou nos acordes com a letra dela, depois na parte final ela recortou alguns versos de uma poesia minha e fez um fechamento sensacional. Olhamos no relógio e era perto da meia noite. Eu sou um baixista, o principal conceito do meu instrumento, na minha opinião, é fazer parcerias com os demais instrumentos e fazê-los soar bem soando bem junto deles, então acho que meu trabalho como compositor acaba sendo parecido com meu papel como instrumentista.

O que determinou as parcerias estabelecidas para o disco?
Música é expressão, eu entendo música como uma linguagem, uma das melhores que existe para se expressar sentimentos e sensações. Obviamente minhas parcerias se pautaram em primeiro lugar pela minha admiração e relação com as pessoas que colaborei. Em segundo lugar, amparado pelo conceito de pluralidade que a sigla NUMA evoca, procurei estabelecer parcerias com artistas diferentes de mim na busca de ter a oportunidade de criar com pessoas com vivências e histórias totalmente diferentes das minhas assim como gerar a oportunidade de trazer para dentro do estúdio artistas de altíssimo nível que ainda não tinham tido a oportunidade de gravar profissionalmente.

O que mais você destaca sobre o processo de produção do disco?
Eu tenho muito carinho pelo processo, pois ele foi gerado por puro afeto. Não sei se consegui, mas minha maior preocupação sempre foi com que toda a equipe se sentisse o mais confortável possível dentro do estúdio. Foi uma jornada longa e tortuosa pois atuei como compositor, instrumentista, organizei a agenda de gravação de cada músico e cozinhei os rangos dentro do estúdio. O estúdio Casona é um lugar muito especial e particular para se gravar. Para não me alongar muito nessa resposta eu diria que a polpa suculenta e saborosa desse processo foi a relação entre as pessoas. Gravei com pessoas com quem toco junto há mais de 10 anos, mas também com quem eu nunca tinha tocado antes. O time desse disco é absolutamente fantástico e, quando eu escuto as músicas e lembro das gravações, sinto que descobri meu maior talento, unir pessoas talentosas! Eu gostaria de destacar muitas coisas aqui, mas acabaria sendo excessivamente prolixo e emocional, mas seria impossível não mencionar o Bernard Simon Barbosa, uma pessoa que eu mal conhecia antes desse processo iniciar e que agora considero um irmão de vida e não só espero, como tenho certeza de que vou trabalhar junto novamente. Toda a captação e engenharia de som é dele, bem como algumas guitarras, toda a mixagem e também várias idéias de arranjo. Sinceramente, não considero esse um álbum solo, por isso assino ele como NUMA, Nenhuma Unidade Máxima Absoluta.

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02/05/2019

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural. Colabora pontualmente com a NOIZE (s.brunobarros@gmail.com)
Bruno Barros

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