
O Hifi Community é o novo point de audição em São Paulo. Inaugurado em março, na Vila Leopoldina, o espaço reúne listening bar, restaurante e pista de dança, de olho em uma tendência recente. “Há cerca de quatro anos, começamos a perceber o movimento dos listening bars como uma transformação real na forma de consumir música”, explica Igor Lucarini.
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A empreitada foi idealizada por Igor, ao lado do irmão Raoni Lucarini, do ator Gabriel Rocha e pela dupla Caio Alciati e João Gertel, do restaurante mexicano LosDos. Igor e Raoni são figurinhas carimbadas da noite paulistana, também à frente dos bares Meow, Borda, Coffeeshop, Por Amor e Galpão Quina, e da sede do Coffeeshop em Florianópolis.
Desde o início, no entanto, a ambição exigia mais do que uma boa ideia. “Sabíamos que o projeto exigia uma locação fora do padrão”, conta Igor. A busca por um lugar que comportasse tanto grandes eventos quanto experiências intimistas foi longa, até que o encontro com o imóvel certo, na Vila Leopoldina, deu vida ao projeto. “A região trouxe exatamente o contexto que faltava: espaço, liberdade criativa e a possibilidade de construir algo do zero.”
Ambiente para audição e troca
Com os três ambientes interligados, o Hifi se organiza como uma experiência fluida. “Convivência social é o nosso pilar”, diz Igor. “Mas uma convivência mediada pela música com qualidade de escuta real.” Nesse sentido, não há dicotomia entre ouvir e interagir: “É sobre construir um ambiente onde a música guia o comportamento, sem limitar a interação.”
O som, aliás, é o verdadeiro eixo do projeto. Desenvolvido a partir de peças trazidas do Japão, incluindo sistemas vintage dos anos 1970, o Hifi divide sua identidade sonora em quatro ambientes. “O listening bar trabalha uma estética mais quente e analógica”, explica, enquanto a pista principal, a Hifi Room, foi desenhada sob medida em parceria com Renan Lopes, da AKASHA. “Pensamos desde a pressão sonora até a estética da pista.” A experiência se estende ao rooftop e até aos detalhes mais inesperados: “No banheiro, utilizamos caixas japonesas da Taguchi, que criam uma sensação quase tridimensional.”
A hierarquia sonora é clara: “Fidelidade em primeiro lugar. Depois, imersão. E por último, potência.” Para o grupo, a experiência musical começa na sensibilidade, não no volume. Essa lógica também orientou a arquitetura, assinada por Lays Sanches. “O espaço foi concebido de dentro pra fora, tendo o som como ponto central”, afirma. “Tudo foi pensado para servir à acústica, desde materiais de absorção até paredes fora de ângulo.”
Foco no lado B
Na curadoria musical, o vinil aparece como elemento simbólico, mas não limitador. “O vinil é uma paixão, tem textura, ritual e presença. Mas não é uma regra.” A proposta é mais ampla: “Mais importante do que o meio é a intenção.” Essa filosofia se reflete também na programação dos DJs. “Existe uma narrativa ao longo da noite, com começo, meio e pico”, explicam. “Mas dentro disso, damos liberdade total para os artistas. Buscamos o lado B, sets mais autorais, menos óbvios.”
A experiência do público acompanha essa lógica orgânica. “Existe uma jornada, mas ela é fluida”, diz. “Começa no balcão, passa pela gastronomia e evolui naturalmente para a pista.” Inserido em um movimento global, o Hifi dialoga diretamente com referências do Japão, da Coreia do Sul e da Europa, mas busca afirmar uma identidade própria. “Somos um projeto brasileiro”, ressalta. “A energia e a relação com o público são totalmente locais.” Para eles, o crescimento dos listening bars no país reflete uma mudança de comportamento: “Menos excesso, mais intenção. A era do algoritmo saturou. Agora, o valor está na experiência real.”





